José dos Santos (Riachuelo, — Aracaju, ), mais conhecido como Santo Souza — e, até 1964, grafado Santos Souza —, foi um poeta, cronista, jornalista e funcionário público brasileiro. É considerado um dos principais poetas de Sergipe e uma das vozes mais originais da poesia brasileira do século XX, com obra marcada pelo simbolismo, pelo orfismo e por diálogos com a tradição clássica.MILLIET, Sergio. "Santo Souza no Diário Crítico". O Estado de S. Paulo, 20 dez. 1955.LEMOS, Wagner. "Santo Souza: um argonauta do nosso tempo". Revista do IHGSE, 14 fev. 2019.
Biografia Origens e formação José dos Santos nasceu em Riachuelo, no interior de Sergipe, em 27 de janeiro de 1919. De família humilde, filho de mãe solteira e descendente de escravizados, foi criado pela mãe, D. Hermínia, que deu à luz o poeta na casa dos patrõesPRADO, Mendonça. Requerimento de voto de pesar pelo falecimento de José Santo Souza. Câmara dos Deputados, 17 maio 2014.. Estudou apenas até o terceiro ano primário, tendo como professora Maria Isabel Marafuz, a “Marocas”, mas tornou-se autodidata e aprendeu, entre outras línguas, grego, francês, hebraico, espanhol e italiano, para ler autores clássicos no original."Santo Souza e sua Poesia: A poesia da amargura e da esperança". A Cruzada (SE), 24 dez. 1953.SUSANNA, Kátia. "Santo Souza enfrenta a falta de reconhecimento em Sergipe". Infonet (SE), 30 mar. 2011. Residiu em Riachuelo até os 17 anos, onde desde os 6 anos de idade laborou em farmácia, aprendendo a manipular medicamentos.
Ainda criança, escreveu versos que impressionaram o poeta José Sampaio, que passou a incentivá-lo."Entrevista de Santo Souza - Provocações". YouTube. Estudou música e compôs valsas na juventude, aprendendo a tocar clarineta e a compor em apenas cinco meses. Em 1937, mudou-se para Aracaju, onde trabalhou em farmácia, casou-se com Mariana e teve oito filhos. Mais tarde, trabalhou no Banco do Comércio e ingressou no serviço público, na Previdência Social.GUIMARÃES, Estácio Bahia. "Necrológio de Santo Souza". Revista da Academia Sergipana de Letras/IHGSE, 12 maio 2014.
Carreira literária Santo Souza iniciou sua trajetória literária de forma mais sistemática na década de 1950, escrevendo crônicas para rádios de Aracaju, como a Rádio Liberdade, Difusora e Jornal de Sergipe, entre 1953 e 1966. Seu primeiro livro, Cidade Subterrânea, foi publicado em 1953 pelo Movimento Cultural de Sergipe, dirigido por José Augusto Garcez, com prefácio de Luís da Câmara Cascudo e capa de Álvaro Santos. A obra revelou um poeta de formação simbolista e parnasiana, com forte carga social e humana, sendo saudada pela crítica como um marco nas letras sergipanas. Lincoln de Souza, em A Noite (RJ), escreveu que, se ainda vigorasse a escola simbolista, Santo Souza seria "como Cruz e Souza, um dos seus mais expressivos líderes".SOUZA, Lincoln de. "Cidade Subterrânea". A Noite (RJ), 16 nov. 1953.CAVALCANTI, Povina. "Cidade Subterrânea". Revista Fon-Fon, 20 mar. 1954. Povina Cavalcanti, na Revista Fon-Fon, destacou a originalidade do poeta, afirmando que sua principal característica era "a distância que o separa dos modelos em voga".
Seguiram-se Caderno de Elegias (1954) e Relíquias (1955). Em 1956, publicou Ode Órfica, obra que marcou o auge inicial de sua poética e recebeu elogios de críticos como Sérgio Milliet, que escreveu: “Anotem os críticos o nome desse poeta de Sergipe. Terão de falar dele um dia”.RIBEIRO, João Freire. "Ode Órfica". A Cruzada (SE), 18 fev. 1957. O livro aprofunda a ligação do poeta com o mito de Orfeu, o simbolismo e a tradição clássica, sendo considerado pelo poeta João Freire Ribeiro um "reencontro do poeta com as origens luminosas do seu espírito".MONTEIRO, Ângelo. "A Nave Órfica de Santo Souza". Diário de Pernambuco, 23 set. 1988.
Em 1964, publicou Pássaro de Pedra e Sono, livro de poesia social e participante, com poemas como “Decreto-Lei nº 13”, “Macumba” e “Canção para os Famintos”. A obra foi censurada pela ditadura militar e retirada de livrarias, sendo considerada subversiva.SANTOS, Gilfrancisco. "Santo Souza: Pássaro de Pedra e Sono, na transversal do tempo". Blog, 29 out. 2012.CARVALHO, Alberto. "Pássaro de Pedra e Sono". Sergipe-Jornal, 11 out. 1964. O livro, no entanto, repercutiu nacionalmente, com críticas elogiosas de Walmir Ayala e José Condé.AYALA, Walmir. "Pássaro de Pedra e Sono". Jornal do Commercio, 14 abr. 1964. O poema "Decreto-Lei nº 13", desse livro, é apontado como uma possível influência para os "Estatutos do Homem" de Thiago de Mello, tendo sido escrito e publicado antes.SANTOS, Gilfrancisco. "Santo Souza: Pássaro de Pedra e Sono, na transversal do tempo". Blog, 29 out. 2012. No mesmo ano, participou de Oito Poemas Densos, em colaboração com Hunald Alencar, Renato Nunes e Alberto Carvalho.
Em 4 de julho de 1970, tomou posse na cadeira nº 3 da Academia Sergipana de Letras, sucedendo Cleômenes Campos de Oliveira, sendo recebido pelo acadêmico José da Silva Ribeiro Filho. Publicou ainda Concerto e Arquitetura (1974), Pentáculo do Medo (1980), A Ode e o Medo (1988), Obra Escolhida (1989), Âncoras de Argo (1994) e A Construção do Espanto (1998).PAIVA, José Rodrigues. "A Ode e o Medo". Diário de Pernambuco, 6 jan. 1989. A crítica nacional continuou a aclamá-lo. Joel Silveira, no Jornal do Commercio, considerou-o "um dos maiores do Brasil" e revelou que Carlos Drummond de Andrade endossou seu entusiasmo pela poesia de Santo Souza.SILVEIRA, Joel. "A Ode e o Medo". Jornal do Commercio, 24 out. 1988. Paulo Bonfim afirmou que A Ode e o Medo era “uma transfusão espiritual na anemia de beleza destes dias”. O crítico Fausto Cunha, em 1988, afirmou que "Santo Souza é um nome nacional, e não apenas sergipano. [...] sua A Ode e o Medo é um poema espantoso, que deveria convulsionar a nossa crítica literária".LEMOS, Wagner. "Santo Souza: um argonauta do nosso tempo". Revista do IHGSE, 14 fev. 2019.
Na década de 2000, mesmo octogenário, manteve intensa produção: Rosa de Fogo e Lágrima (2004), Réquiem para Orféu (2005), Ésquilo na Tormenta (2006), Deus Ensanguentado (2008) e Crepúsculo de Esplendores (2010).BARRETO, Luiz Antonio. "Deus ensangüentado – o novo livro de Santo Souza". Infonet (SE), 8 ago. 2008. Em 2010, aos 91 anos, após 46 anos sem um lançamento público, fez uma concorrida noite de autógrafos para o lançamento de Crepúsculo de Esplendores e Deus Ensanguentado, este último com versão em espanhol.SOUZA, Ilmara. "Santo Souza faz lançamento do seu novo livro com concorrida noite de autógrafos". Infonet (SE), 05 jun. 2010.
Sua obra é marcada por um tom profético e apocalíptico, com um eu-lírico que dialoga com deuses e heróis da mitologia para tratar de temas universais como o medo, a angústia, a morte e a esperança.GUIMARÃES, Estácio Bahia. "Necrológio de Santo Souza". Revista da Academia Sergipana de Letras/IHGSE, 12 maio 2014. O próprio poeta, em entrevista, afirmou: "Criei com Orfeu a pátria da alvorada, na esperança de erguer templos e altares entre esmeraldas, cômoros e deltas águas limpas de lágrimas e susto."
Morte Santo Souza morreu em Aracaju, em 18 de abril de 2014, aos 95 anos, enquanto dormia, vítima de câncer de pulmão. Deixou oito filhos, 27 netos e 18 bisnetos.http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/04/1445877-jose-santo-souza-1919-2014---poeta-espiritualista-e-universal.shtml Estava previsto para 24 de abril daquele ano o lançamento de Pontes para os Trágicos, obra que reuniria Ésquilo na Tormenta, Deus Ensanguentado e Crepúsculo de Esplendores. O poeta parou de escrever após a morte de sua esposa, Mariana, sua musa inspiradora, com quem foi casado por aproximadamente 70 anos.
Obra Cidade Subterrânea (1953) Caderno de Elegias (1954) Relíquias (1955) Ode Órfica (1956) Pássaro de Pedra e Sono (1964) Oito Poemas Densos (1964) — em colaboração com Hunald Alencar, Renato Nunes e Alberto Carvalho, e xilogravuras de Juarez Paraíso, Leonardo Alencar e Emanoel Araújo. Concerto e Arquitetura (1974) Pentáculo do Medo (1980) A Ode e o Medo (1988) Obra Escolhida (1989) Âncoras de Argo (1994) A Construção do Espanto (1998) Rosa de Fogo e Lágrima (2004) Réquiem para Orféu (2005) Ésquilo na Tormenta (2006) Deus Ensanguentado (2008) Crepúsculo de Esplendores (2010) Pontes para os Trágicos (2014, lançamento póstumo)
Prêmios e reconhecimento Prêmio José Sampaio, pelo livro Edifício da Solidão (1966) Prêmio Pedro de Calasans, por Opus para muitas Vozes (1973) Grande Prêmio da Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), pelo conjunto da obra (1995) Membro efetivo da Academia Sergipana de Letras, da Associação Sergipana de Imprensa e do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe Membro correspondente da Academia Paulista de Letras Membro titular do Conselho Estadual de Cultura de Sergipe.
Bibliografia sobre o autor LIMA, Jackson da Silva. O Poeta Santo Souza. Aracaju: Fundação Augusto Franco, 1989. MORAIS, Gizelda. Esboço para uma análise do significado da obra poética de Santo Souza. Aracaju, 1996. LEITES, Marlene Hernandez. In: DUARTE, Eduardo de Assis (org.). Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Vol. I. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
Ligações externas Memória da Cultura de Sergipe
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