Héctor Pedro Scarone (Montevidéu, 26 de novembro de 1898 - Montevidéu, 4 de abril de 1967) conhecido como "o Gardel (o rei) do futebol" e tricampeão mundial nas edições do Torneio Olímpico de Futebol de 1924 em Paris e 1928 em Amsterdã junto com a primeira Copa do Mundo em 1930 confirmado pelo site oficial da FIFA, foi um futebolista uruguaio que jogava como meio-campista e atacante e considerado como um dos melhores atacantes do início da profissionalização do futebol.

Foi eleito pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol, em rankings alusivos ao século XX, como o 21º maior jogador sul-americano e o 40º maior jogador do mundo. Também durante o século XX ele foi o maior artilheiro da Seleção Uruguaia de Futebol, sendo superado apenas em 2011, primeiramente por Diego Forlán.BASSORELLI, Gerardo (2012). El mejor jugador del mundo. Héroes de Nacional. Montevidéu: Editorial Fin de Siglo, pp. 91-99 Ícone do auge da Celeste Olímpica, conquistou, entre outros títulos, o bicampeonato olímpico em 1924 e 1928 (onde fez o gol do título) e a Copa do Mundo FIFA em 1930. Por conta disso, ele é um dos poucos futebolistas na história a serem Campeões Olímpicos e também da Copa do Mundo.olympstats.com/ Olympic Footballers – Gold Medalists and World Cup Championstheguardian.com/ Has any player ever won the Euro, World Cup and Olympics treble?

Ao lado de Domingo Tejera, colega do mundial de 1930, ele é um dos dois únicos campeões de Copa nascidos ainda na década de 1890.GEHRINGER, Max (set. 2005). Os campeões. Placar Especial "A Saga da Jules Rimet fascículo 1 - 1930 Uruguai". São Paulo: Editora Abril, p. 43 Também brilhou na Copa América, torneio do qual é o terceiro maior artilheiro, com treze gols; recordista de gols em uma só partida, com cinco, marca a qual foi o primeiro a alcançar; e quatro conquistas, conseguindo, no ano de sua estreia pela seleção, ser eleito o melhor jogador do torneio e fazer o gol do título.

Seu irmão mais velho Carlos Scarone também foi um futebolista consagrado, mas com o tempo foi ofuscado pela figura de Héctor: ágil, veloz, ambidestro, driblador, potente e capaz de "parar no ar" para cabecear tal como Pelé e Sándor Kocsis, o Scarone mais novo também é o segundo maior artilheiro do Nacional, clube no qual é recordista de quantidade de anos como jogador, e segundo maior artilheiro da equipe no clássico com o Peñarol, superado em ambos os feitos somente por Atilio García.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1928 - Amsterdam tuya Héctor!!!. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 60-61 Foi também o primeiro jogador importado pelo Barcelona a partir de um clube sul-americano. José Pedro Cea, com quem conviveu no Nacional e nos três títulos "mundiais" daquele ciclo da Celeste Olímpica (1924, 1928 e 1930, quando fez gol na final) assim respondeu a uma indagação de um jornalista argentino se Pelé era o maior jogador de todos os tempos:

Carreira em clubes Inícios precoces

Seu pai era um italiano chamado Giuseppe Scarone, proveniente de Savona para trabalhar, segundo algumas versões, na ferrovia que deu origem ao Peñarol, clube ao qual Giuseppe se afeiçoou.BASSORELLI, Gerardo (2012). Carlos Rasqueta Scarone. Héroes de Nacional. Montevidéu: Editorial Fin de Siglo, pp. 89-91 Em outras, Giuseppe trabalharia no mercado de carne de Montevidéu, ausentando-se na maior parte do dia. Héctor, na prática, acabou criado por uma irmã mais velha, pois perdera ainda bastante novo a mãe. Carlos Scarone, irmão dez anos mais velho, foi a primeira referência no futebol, onde jogava como centroavante. Carlos começou a jogar no River Plate uruguaio em 1908, passando em 1909 ao Peñarol. Teve destaque; neste mesmo ano, Carlos estreou pela seleção uruguaia, participando até da estreia da camisa celeste nela, em 1910.

Em 1911, Carlos foi jogar na Argentina pelo Racing, que participaria pela primeira vez na primeira divisão. O uruguaio inclusive converteu o primeiro gol deste clube na elite argentina, em chute potente e baixo contra o Club Atlético de San Isidro, mas terminou jogando pouquíssimo no país vizinho.PERUGINO, Elías (mar. 2013). 110 histórias mínimas. El Gráfico Especial "Racing Histórico". Buenos Aires: Revistas Deportivas, pp. 82-91 Argumentaria que não ficou por doença e por não ter sido cuidado devidamente pelo Peñarol. O rival Nacional aproveitou-se e o buscou. A insatisfação de Carlos com o Peñarol, indiretamente, originou um dos apelidos deste clube, o de manya, uma deformação à língua espanhola de um diálogo na língua italiana com o pai Giuseppe, sugerindo-lhe que se ficasse no Peñarol iria "comer (mangiare) merda". O insulto fez-se conhecido e bastante usado por Carlos nos clássicos, e com o tempo foi adotado pela própria torcida aurinegra. Carlos, o Scarone "antipático", não tardou em brilhar como tricolor. Héctor, o Scarone "simpático", seguiu-o e, após uma recusa inicial aos quinze anos de idade devido ao seu físico, estreou no time adulto do Nacional quando ainda tinha 17 anos.

Tal como Carlos, Héctor logo mostrou protagonismo, marcando dois gols em vitória por 3-1 em clássico pela segunda rodada de um campeonato uruguaio ganho com sete pontos de diferença para o rival, um recorde para a época, e de modo invicto. O Nacional também ganhou do Rosario Central, por 6-1, a Taça Ricardo Aldao, doada ao vencedor em tira-teima entre o campeão uruguaio e o vencedor entre o campeão argentino e o do campeonato rosarino. Héctor fez um dos gols e o irmão Carlos, três.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1916. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 25-27

thumb|right|350px|O Nacional antes de derrotar por 3-0 o Genoa, na época o maior campeão italiano. Scarone é o segundo agachado e marcou duas vezes.

No ano de 1917, o Nacional foi novamente campeão uruguaio, com Héctor já se convertendo no artilheiro do elenco tricolor, com 13 gols, um deles na goleada de 4-0 sobre o arquirrival.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1917 - Primera Copa Uruguaya en Propiedad. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 28-31 Héctor Scarone também estreou pela seleção, convocado junto com o irmão à vitoriosa Copa América daquele ano. Novos títulos vieram em 1919, com a conquista do campeonato uruguaio garantida na última rodada; e também de nova Taça Ricardo Aldao, derrotando-se na decisão o Boca Juniors (já no ano seguinte) por 3-0 mesmo com os uruguaios jogando a partida inteira com um a menos em função de um acidente prévio de um dos titulares. Héctor fez o primeiro gol.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1919. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 36-37

O Nacional foi novamente campeão uruguaio em 1920, com Scarone sendo outra vez o artilheiro do elenco, com 19 gols, ao lado de Santos Urdinarán; e da Taça Ricardo Aldao, novamente em embate com o Boca Juniors (2-1). Scarone também foi protagonista de um clássico com o Peñarol pela Taça Fermín Ferreira, na qual o Nacional conseguiu uma reviravolta sem precedentes na rivalidade: perdia de 3-0 e empatou, quase virando o jogo com Scarone - a jogada que daria a vitória aos tricolores terminou em bola na trave.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1920. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 40-41

Em 1922, o futebol uruguaio iniciou um cisma a durar até 1925, com o Nacional permanecendo na liga reconhecida pela FIFA e o Peñarol, em outra, privando os jogadores aurinegros de integrarem a seleção uruguaia.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1921 - El Cisma. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 42-43 O Nacional, vencedor contínuo da sua liga (Scarone foi em 1923 novamente o artilheiro do plantel, com 20 gols MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1923. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 46-47), formou então a base da Celeste Olímpica.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1922 - Colombes. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 44-45

Nesse ínterim, Héctor se firmou como "o principal Scarone"; enquanto o irmão Carlos deixou em 1922 a seleção, Héctor foi um dos cinco jogadores tricolores que em 1924 ganharam as Olimpíadas e um dos oito na também vitoriosa Copa América daquele ano, conquistas que celebraram as bodas de prata da fundação do Nacional.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1924. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 48-49 Outrora apelidado de Rasquetita em referência ao apelido de Rasqueta do irmão Carlos, Héctor passou a ser apelidado de La Borelli, em referência à atriz Lyda Borelli, emblema do cinema mudo italiano, devido às reações imprevisíveis e caprichosas. Outra alcunha foi El Mago.

thumb|right|350px|Lance da partida de 1925 do Nacional em 2-2 contra o Barcelona em Les Corts. Os catalães abriram 2-0 e Scarone fez o gol que empatou, despertando o interesse para sua contratação pelo Barça no ano seguinte.

Não houve campeonato uruguaio em 1925, um ano ainda assim marcante ao Nacional. O clube fez uma excursão consagradora à Europa. No ano seguinte ao primeiro ouro olímpico do futebol uruguaio e sul-americano, a viagem confirmou o valor do futebol uruguaio. 700 mil pessoas viram a equipe ao longo de 38 partidas. Foram 130 gols marcados, somente 30 sofridos, com 26 vitórias e somente cinco derrotas. Scarone marcou 29 gols, convertendo-se na principal referência ofensiva após a séria lesão nos meniscos que o centroavante Pedro Petrone sofreu contra o Barcelona.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1925 - La Gira de las Giras. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 50-53 Nessa partida, o clube catalão abriu 2-0 e foi de Scarone o gol do empate em 2-2.

Dos outros gols que marcou, Scarone fez dois na vitória por 3-0 em Gênova sobre o Genoa, dono de dois títulos italianos nas três temporadas anteriores e maior campeão do calcio naquela época;BERTOZZI, Leonardo (jan. 2009). O berço do calcio. Trivela n. 35. São Paulo: Trivela Comunicações, pp. 52-55 dois em um 7-0 sobre a seleção neerlandesa em Roterdã; três em vitória por 5-1 sobre a seleção belga em Bruxelas; dois em vitória por 6-0 sobre a seleção francesa em Paris; dois em 5-2 sobre a seleção suíça na Basileia; um em vitória por 2-1 sobre a seleção catalã em Barcelona; e dois na vitória por 3-0 sobre o Deportivo La Coruña, na cidade do adversário.

O desempenho contra o Barcelona, por sua vez, preponderou para que os blaugranas o contratassem em 1926. Hugo Meisl, crítico de futebol e futuro técnico do Wunderteam austríaco, qualificou Scarone como "o melhor forward do mundo", sendo dele o gol uruguaio em uma das poucas derrotas, um 2-1 para o Rapid Viena.

Pioneiro no Barcelona

Scarone não foi o primeiro nativo da América do Sul no Barcelona, nem mesmo primeiro de seu país, pois o clube tem registros de uma partida amistosa disputada em 1903 por um uruguaio chamado Josep Mascaró. Scarone foi, porém, a primeira contratação que o time fez de um jogador que previamente atuava em um clube sul-americano. Foi vista já na época como a primeira grande transferência internacional do clube.

O uruguaio chegou já no ano de 1926 e estreou em amistoso contra o Osasuna ganho por 5-1. Não marcou gols, mas foi bastante elogiado, com a revista Fútbol Association relatando que "terminou nos dando um curso do que deve ser um meio-campista. Vimos um jogador completo, de excepcionais faculdades, de agudíssima percepção do jogo, magistral como complemento do ataque e efetivo na colocação defensiva. O clube campeão ganhou um grande elemento". Porém, como chegou após o período de inscrições nas competições oficiais, só poderia inicialmente jogar amistosos. Ao todo, entrou em campo só nove vezes. Em 21 de março é que foi liberado pela Real Federação Espanhola de Futebol para jogar oficialmente jogos competitivos, após entraves no envio de documentos requisitados perante a associação uruguaia. Recebeu então uma oferta de 50 mil pesetas para assinar contrato de cinco anos.