A língua tártara da Crimeia ou tártaro da Crimeia (em crimeu: Qırımtatar tili ou Qırımtatarca) também conhecida como crimeu (Qırım tili, Qırımca) ou turco crimeu (Qırım Türkçesi) é uma língua túrquica da família quipechaca e do sub-ramo Quipechaque-cumano, sendo tradicionalmente falada pelos tártaros da Crimeia, residentes da península da Crimeia e de países da diáspora do povo na Ásia Central e Leste Europeu, como o Uzbequistão, Turquia, Romênia, entre outros.
A língua é falada por cerca de 567.000 pessoas, mas se encontra em risco severo de extinção, segundo o Atlas Mundial de Línguas da UNESCO. Devido às perseguições sofridas pelos tártaros da Crimeia ao longo da história e à falta de escolas que ensinem a língua tártara da Crimeia, o número de falantes do idioma na península da Crimeia caiu entre os anos de 2001 e 2021.
A escrita do crimeu já foi feita através de três diferentes alfabetos: entre o século XII e o ano de 1928 utilizou-se a escrita árabe, e atualmente ocorre tanto por meio do alfabeto cirílico, quanto pelo alfabeto latino. A língua é um dos idiomas oficiais da República Autônoma da Crimeia (parte da Ucrânia) e também da República da Crimeia (parte da Rússia).
No passado, era distinguível a clara existência de três dialetos da língua tártara da Crimeia, que eram caracterizados pela subetnia que os falava e pelo local da península em que eram utilizados (norte, centro e sul). Entretanto, com os constantes deslocamentos e diásporas dos tártaros da Crimeia ao longo da história (anexação à Rússia no Século XVIII, Grande Expurgo Soviético, etc.), os falantes que retornaram à península por vezes não voltaram a ocupar as mesmas regiões do passado, conglomerando falantes dos três dialetos, que cada vez mais se assemelham quanto as suas características.
Etimologia O nome "Crimeia" deriva da palavra turca "Qirim", oriunda do nome da cidade "Staryi Krym" (nomeada pelos próprios tártaros da Crimeia), que desempenhou função de capital durante o Canato da Horda Dourada, o mais duradouro dos que sucederam o Império Mongol. O significado original de "Krym" faz referência a "monte" ou "montanhas". A palavra Crimeia origina, assim, o exônimo "crimeu" (derivação sufixal), e parte dos nomes "tártaro crimeano" e "turco crimeu".
Já o termo "tártaro" tem origem na língua persa, com a palavra "tātār", que significa "mensageiro montado". Apesar de não se conhecer a origem do termo, o seu primeiro registro é do século XIII, quando foi utilizado em referência às hordas comandadas por Gengis Khan. Acredita-se que a palavra recebeu um "r" adicional em idiomas ocidentais devido a uma associação incorreta com a palavra grega tartaron (em latim medieval tartarum), que significa "sedimento".
Inicialmente, o termo "tártaro" possivelmente se referia à Confederação tártara, que eventualmente foi incorporada ao Império Mongol com a unificação de diversas tribos das estepes, mas, historicamente, também foi utilizado para designar as pessoas nascidas na Ásia Central ou do Norte, regiões conhecidas como "Tartária".
Assim, o povo tártaro da Crimeia passou a ser designado como "tártaro" devido à localização em que viviam, e também pela forte influência mongol na região, causada pelas invasões no início do século XIII e pela criação do Canato da Crimeia, chefiado por um descendente de Genghis Khan (Hacı I Giray). Com isso, derivam-se os nomes de língua tártara da Crimeia, e tártaro crimeano. Já o termo "turco" que compõe o exônimo "turco crimeano" designa habitantes da Turquia, fazendo menção à família linguística do Crimeu (línguas turcomanas).
Quanto aos endônimos, nota-se uma formação semelhante. "Qırım" do turco origina "Qırımtatar tili" "Qırımtatarca", "Qırım tili", "Qırımca" e "Qırım Türkçesi" e faz referência aos montes/montanhas, enquanto "tātār" formou "Qırımtatar tili" "Qırımtatarca", se relacionando com a posição geográfica ocupada pelos tártaros da Crimeia e pelo passado ligado ao Império Mongol, sem haver nos endônimos a adição do "r" adicional, ligado à ocidentalização do nome. "Türkçesi" de "Qırım Türkçesi" faz menção à relação com as línguas túrquicas, assim como no exônimo "turco crimeu".
Distribuição O crimeu é uma língua cuja distribuição geográfica é limitada, sendo um idioma falado majoritariamente pelos tártaros da Crimeia. Por isso, o seu alcance se restringe aos locais ocupados pelo povo, como a Crimeia, e os países das diásporas tártaras da Crimeia, como o Uzbequistão e Turquia. Atualmente, são aproximadamente 567,8 mil falantes da língua distribuídos pela Ásia Central e no Leste Europeu.
Em 2021, o censo populacional russo«Таблица 6. Население по родному языку (Tabela 6. População por língua nativa) | Всероссийская перепись населения 2021 года (Censo Populacional Russo de 2021)». Consultado em 16 de fevereiro de 2025 determinou que haviam 207.771 falantes da língua tártara da Crimeia no país, localizados principalmente na República da Crimeia. Além destes, existem outros 360 mil falantes distribuídos pelo Uzbequistão, Turquia, Quirguistão, Romênia, Moldávia, Turquemenistão, Cazaquistão e Bulgária«Crimean Tatar in Bulgaria | Unesco». https://ar.wal.unesco.org/countries/bulgaria/languages/crimean-tatar. Consultado em 16 de fevereiro de 2025 thumb|Distribuição geográfica dos falantes de crimeu na península da Crimeia e na Ásia Central|331x331px +Distribuição dos falantes de crimeu País Número de Falantes 207.771 184.000 110.000 38.000 22.000 1.860 1.600 1.372 1.200 Apesar de ser reconhecida como uma das línguas oficiais da República Autônoma da Crimeia (na Ucrânia) e da República da Crimeia (na Rússia), o crimeu ainda enfrenta problemas quanto à sua disseminação, sendo considerada uma língua ameaçada de extinção, principalmente por ser falada majoritariamente por populações mais velhas na Crimeia e por ser ensinada em poucas escolas.
Dialetos Os tártaros da Crimeia podem ser divididos em grupos sub-étnicos, conforme a sua separação geográfica na península da Crimeia. Consequentemente, estabelecem-se três dialetos caracterizados pela separação geográfica (e étnica) de seus falantes, que podiam ser melhor distinguidos no período anterior à deportação dos tártaros da Crimeia em 1944, uma vez que a população que retornou à Crimeia após a deportação não se reestabeleceram nos locais originais da península, cujas barreiras geográficas distinguiam os dialetos.
O dialeto do sul (ou costeiro) era falado majoritariamente na costa sul e nas montanhas costeiras da península, pelo grupo sub-étnico dos yalıboylus, aproximadamente entre as cidades de Foros e Teodósia. Pesquisadores como Radlov (1896), Samoilovich (1916), Sevortian (1966) e Memetov (1993) defendem que este dialeto não pertence ao sub-ramo das línguas quipechacas, mas ao subgrupo das línguas oguzes.
O dialeto do norte (ou das estepes crimeanas), falado originalmente pelos noğays, tinha sua fronteira geográfica estabelecida ao norte das cidades de Teodósia, Eupatória e Querche.
O dialeto central, tido como base para a escrita do crimeu, era originalmente falado pelos tats, nas montanhas crimeanas.
Línguas relacionadas A língua tártara da Crimeia é uma língua túrquica, sendo parte do ramo das línguas quipchacas-cumanas. Assim, o crimeu possui parentesco próximo com as línguas cumique, caraima, krimchaque e urum (ainda faladas nos dias atuais), e com outras línguas mortas, como a língua cumana. Como parte do ramo quipechaque, o crimeu também se relaciona com as línguas quipechacas-bolgáricas, quipechacas–nogais e quirguiz-quipechacas.
História
Formação da língua A formação do crimeu remonta à formação do grupo étnico dos tártaros da Crimeia e da ocupação da Crimeia ao longo da história. As primeiras populações que se estabeleceram formalmente na península formaram colônias gregas na região costeira, por volta do século V a.C. Enquanto a região costeira se mantinha com certa estabilidade ao longo dos séculos, o interior da península sofria uma série de conquistas e invasões, como a invasão mongol à Europa. Assim, o norte e o centro da Crimeia foram dominados pela Horda Dourada mongol, possibilitando a formação do Canato da Crimeia na década de 1440 com o colapso da horda. Em pouco tempo de existência, o canato e as demais regiões da península se submeteram ao controle do Império Otomano, que garantiu certa estabilidade na região até a sua derrota em 1774 contra a Rússia de Catarina II. Desde então, o controle da Crimeia mudou diversas vezes e atualmente se encontra em disputa entre a Rússia e a Ucrânia.
A formação dos dialetos do tártaro da Crimeia começou com as primeiras invasões turcomanas na Crimeia e terminaram com durante o período do Canato da Crimeia. A etnia descende de uma variedade de povos turcos que se estabeleceram na Crimeia no século VIII e só foram reconhecidos como independentes com a derrota do Império Otomano em 1774.
Entretanto, as línguas oficiais escritas do Canado da Crimeia eram o chagatai e turco e só após a islamização os tártaros da Crimeia adotaram uma escrita baseada no alfabeto árabe-persa. Em 1876 os diferentes dialetos do turco da Crimeia foram convertidos em uma única língua escrita por İsmail Gaspıralı. Inicialmente a preferência foi dada aos dialetos oguz (do sul) e yalıboylus (do norte) para não quebrar a ligação entre os crimeus e os turcos do Império Otomano. Conforme se estabeleceram normas para a língua escrita do crimeu, adotou-se o dialeto central como base para a literatura na língua tártara da Crimeia, justamente por ser mais compreensível entre os tártaros da Crimeia em geral.
História da escrita O primeiro sistema de escrita do crimeu a se consolidar entre os tártaros da Crimeia foi a escrita árabe, que entrou em uso na península entre o fim do século XII e início do século XIII, com a disseminação da cultura árabe e islâmica. O sistema de escrita árabe foi hegemonicamente dominante na Crimeia até o ano de 1883, sendo utilizado tanto em manuscritos quanto em trabalhos impressos.
No ano de 1883, um grupo de intelectuais tártaros da Crimeia, organizados em torno da figura de Ismail Gasprinski, criador e editor do jornal ترجمان (Terciman), iniciaram um processo de reforma do sistema de escrita, buscando aproxima-lo dos sons do Crimeu. Entre os anos de 1884 e 1914, Gasprinski publicou diversos artigos advogando pela reforma, mas a escrita árabe manteve-se predominante até o ano de de 1920, quando outro grupo de intelectuais se interessaram por criar um novo alfabeto para o crimeu.
Em 1928 se deu a Primeira Conferência Científica da Língua Tártara da Crimeia, na cidade de Simferopol. No congresso, discutiu-se sobre a ortografia da língua e debateu-se sobre qual dos dialetos deveria se tornar base para a escrita literária do crimeu. No ano seguinte, em 1929, ocorreu a Segunda Conferência Científica da Língua Tártara da Crimeia, que também ocorreu na cidade de Simferopol. Foi nesse contexto que se tomou a decisão de transicionar a escrita da língua tártara da Crimeia para um novo alfabeto, baseado no alfabeto latino, mudança oficializada pelo governo da Crimeia no mesmo ano.
O novo alfabeto continha as seguintes 32 letras, sendo 24 delas consoantes e 8 vogais: A a B b C c Ç ç D d E e F f G g Ƣ ƣ H h J j İ i J j K k L l M m N n Ƞ ᶇ O o Ɵ ɵ P p Q q R r S s Ş ş T t V v X x U u Y y Z z Ƶ ƶ Ѣ ѣ
Em 1938, a Crimeia era uma república autônoma da República Socialista Federativa Soviética da Rússia, e, nesse contexto, foi introduzido na península o alfabeto cirílico para a escrita da língua tártara da Crimeia.
O novo alfabeto consistia de 37 letras, sendo 27 consoantes e 10 vogais:
А а Б б В в Г г Гъ гъ Д д Е е Ё ё З з Ж ж И и Й й К к Къ къ Л л М м Н н Нъ нъ О о П п Р р С с Т т У у Ф ф, Х х Ц ц Ч ч Дж дж, Ш ш Щ щ ъ Ы ы ь Э э Ю ю Я я