alt=Símbolo do infinito nas cores do arco-íris|miniaturadaimagem|O símbolo do infinito nas cores do arco-íris como ícone da neurodiversidade Neurodiversidade se refere às variações naturais no cérebro humano de cada indivíduo em relação à sociabilidade, aprendizagem, atenção, humor e outras funções cognitivas.
O termo foi criado em 1998 pela socióloga Judy Singer, que junto ao jornalista Harvey Blume foram responsáveis por popularizar o conceito. Isso contrapõe à visão predominante de que as coisas que atualmente são categorizadas principalmente como transtornos do neurodesenvolvimento são inerentemente patológicos, como no modelo médico da deficiência. Em vez disso, a neurodiversidade adota o modelo social da deficiência, no qual as barreiras sociais são o principal fator que restringem as pessoas com deficiência. Posteriormente surgiram termos relativos, como neurodivergente, e estudos sobre o assunto de diversidade mental começaram a ser mais debatidos, envolvendo os termos.
História do termo O termo neurodiversidade surgiu nas comunidades autistas. A palavra foi utilizado publicamente pela primeira vez num artigo de Harvey Blume na revista The Atlantic “The Atlantic”, em setembro de 1998. Em um artigo do New York Times de junho de 1997, usou o termo "pluralismo neurológico". Blume foi um dos primeiros defensores a prever o papel que a Internet teria na promoção dos movimentos da neurodiversidade. Uma das primeiras pessoas a utilizar o termo também foi Judy Singer, uma cientista social que se descreveu como inserida "provavelmente em algum lugar do espectro autista", e o usou em sua tese de sociologia publicada em 1999. Como resultado de seus interesses mútuos no autismo, Singer mantinha contato com Blume.
Alguns autoresFenton, Andrew, and Tim Krahn. "Autism, Neurodiversity and Equality Beyond the Normal" (PDF). Journal of Ethics in Mental Health 2.2 (2007): 1-6. 10 November 2009. também creditam o trabalho anterior de Jim Sinclair, ativista autista, como fator que ajudou o avanço do conceito de neurodiversidade. Sinclair, que não utilizou nenhuma linguagem falada até aos 12 anos de idade, foi o principal organizador da comunidade online internacional do autismo. O discurso de Sinclair de 1993, "Don't Mourn For Us", encorajou os pais de crianças autistas a aceitarem que seus filhos são autistas, em vez de lamentarem. Enfatizou o autismo como uma forma de ser: "Não é possível separar a pessoa do autismo."
Movimentos pelos direitos das pessoas com deficiência direita|miniaturadaimagem| Arte autista que representa a diversidade natural das mentes humanas O paradigma da neurodiversidade foi primeiramente adotado por indivíduos inseridos no espectro do autismo. Posteriormente, foi aplicado a outras variantes associadas ao neurodesenvolvimento, como o TDAH,Woodford, Gillian. 'We Don't Need to be Cured' Autistics Say . National Review of Medicine. Volume 3. No. 8. April 30, 2006. Retrieved February 23, 2008. distúrbios da fala, dislexia, dispraxia, discalculia, disnomia, deficiência intelectual e síndrome de Tourette, bem como esquizofreniaMorrice, Polly (January 29, 2006) "Otherwise Minded" The New York Times, review of A Mind Apart: Travels in a Neurodiverse World e algumas condições de saúde mental como bipolaridade, o transtorno esquizoafetivo, transtornos de personalidade, transtornos dissociativos e o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).
Conceito de transtorno e deficiência Discute-se quais neurodivergências devem ser consideradas variantes neutras (despatologizadas) e, portanto, não devem ser objeto de intervenções para sua eliminação. Nick Walker defende a preservação de neurodivergências como o autismo e argumenta que coisas como epilepsia ou lesões cerebrais traumáticas poderiam ser removidas da pessoa sem alterá-la fundamentalmente. Isso se deve ao fato de que estas últimas não estão intimamente ligadas à sua personalidade ou à sua percepção do mundo. Robert Chapman destaca que, por exemplo, transtornos de estresse pós-traumático ou anorexia devem continuar a ser considerados distúrbios, pois causam danos. Ari Ne'eman e Liz Pellicano sugerem não se concentrar em categorias diagnósticas, mas examinar cada característica individualmente para determinar se ela é inerentemente negativa ou se é apenas a sociedade que a torna um problema.
Os defensores da neurodiversidade denunciam a classificação do autismo, TDAH, dislexia e outras coisas como distúrbios do neurodesenvolvimento e, em vez disso, promovem sistemas de apoio focados na inclusão, comunicação, tecnologias assistivas, ocupacionais, treinamento e suporte para maior autonomia do indivíduo. A intenção é que os indivíduos recebam um apoio baseado em formas autênticas de diversidade humana, autoexpressão e personalidade, em vez de um tratamento que os faz adotar ideias normativas de normalidade ou a se conformar com um ideal clínico.
Nick Walker descreve a patologização das pessoas autistas como uma forma de opressão e compara-a com a patologização histórica da homossexualidade. Essa patologização foi impulsionada por valores extrascientíficos, a fim de legitimar a marginalização dos homossexuais, apresentando-a como algo natural e objetivo. Sue Fletcher-Watson e Francesca Happé consideram possível uma despatologização semelhante também no caso do autismo. No passado, a medicina também patologizou outros grupos marginalizados, como mulheres (histeria, órgão sexual supostamente defeituoso), canhotos, judeus e escravos (drapetomania: “desejo irracional de liberdade”). No século XVIII, médicos influentes levantaram a hipótese de que a cor da pele negra era resultado da doença infecciosa lepra.
De acordo com Robert Chapman, o estabelecimento de um novo conceito viável de transtornos mentais é fundamental para o sucesso do movimento da neurodiversidade. Além disso, Chapman enfatiza que o paradigma da neurodiversidade difere da antipsiquiatria ou da psiquiatria crítica. Estas afirmam que as coisas classificadas como transtornos mentais são desafios normais da vida que continuam a ter de ser superados, mas por meios não médicos. Chapman defende a neurodivergência como uma deficiência real, mas neutra e não patológica, e considera irrelevante o debate antipsiquiátrico sobre a validade científica do conceito de autismo, dado o valor político do conceito. Chapman também não considera útil limitar as críticas à classificação médica e contrapor às etiquetas psiquiátricas o argumento de uma medicalização excessiva. Chapman argumenta que os diagnósticos são o resultado da marginalização social e que sua abolição ou redução, sem alterar as normas problemáticas subjacentes, dificultaria o acesso ao apoio necessário.
Na opinião de Roy Richard Grinker, a necessidade de apoio não é negativa por si só; ele argumenta que conceitos como funcionamento normal ou independência são dependentes da cultura. Ele se refere a culturas nas quais não se questiona a capacidade futura da criança de levar uma vida independente ou de cuidar dela após a morte dos pais, pois a comunidade assume voluntariamente esse papel, sem que a autonomia individual seja vista como um objetivo indispensável.
Pontos fortes das pessoas neurodivergentes miniaturadaimagem|Um adesivo na vitrine anuncia a “hora silenciosa”. A redução dos estímulos sensoriais (por exemplo, música, luzes, bipes de caixa registradora) facilita que pessoas autistas e outras pessoas neurodivergentes façam compras sozinhas. Interesses intensos e focados podem proporcionar grande alegria ao autista e torná-lo um especialista na área em questão. Vários autores argumentam que traços autistas levaram a descobertas importantes na história da ciência. Características sensoriais (maior ou menor sensibilidade) são entendidas por defensores da abordagem da neurodiversidade como partes integrantes do eu, que não devem ser removidas, mas aceitas. Elas podem representar pontos fortes, como, por exemplo, uma percepção mais aguçada de detalhes e padrões, habilidades originais de resolução de problemas, criatividade na música ou na arte e a capacidade de reconhecer perigos mais rapidamente. Em ambientes neurotípicos não adaptados, podem ocorrer sobrecargas sensoriais angustiantes (meltdowns), razão pela qual o movimento da neurodiversidade exige a eliminação das barreiras sensoriais.
A preferência pela previsibilidade e a necessidade de que haja poucas mudanças (características comumente vistas de forma negativa no modelo médico) podem levar à confiabilidade, sinceridade, um forte senso de justiça e uma menor tendência ao tédio em tarefas repetitivas. Movimentos repetitivos (“stimming”), como balançar-se ou bater as mãos, têm um propósito, por exemplo, regular as experiências sensoriais, controlar o medo ou criar uma sensação interna de segurança. Em vez de suprimi-los devido às normas sociais, as pessoas autistas exigem sua aceitação, desde que não causem danos.
O TDAH pode trazer consigo a capacidade de hiperfoco, ou seja, de concentração muito intensa em um assunto, por vezes durante várias horas. Os disléxicos frequentemente apresentam pontos fortes no raciocínio espacial.
Muitos especialistas em economia argumentam que a diversidade cognitiva melhora o desempenho da equipe, trazendo diferentes perspectivas e promovendo a inovação e a resolução de problemas por meio do pensamento não convencional. Algumas pessoas autistas também têm habilidades de savant e talentos especiais, como uma memória excepcional. Certas empresas se especializaram na colocação de pessoas neurodivergentes, concentrando-se nos pontos fortes de muitos autistas, como a atenção aos detalhes e a franqueza.
Um estudo de 2009 separou 27 alunos (entre os quais autistas ou pessoas com dislexia, dyspraxia, TDAH e que haviam sofrido acidente vascular cerebral) em duas categorias de visão própria: "1) uma visão da diferença — onde a neurodiversidade foi vista como uma abordagem que incorpora um conjunto de pontos fortes e fracos em pessoas neurodivergentes; 2) ou uma visão médica/deficitária, na qual a neurodivergência era vista como uma condição médica desvantajosa." Eles descobriram que, embora todos os alunos relatassem ter sido vítimas de exclusão social, abuso e bullying, aqueles que se viam sob a perspectiva da neurodiversidade (41% da amostra do estudo) "indicaram maior autoestima acadêmica e confiança em suas habilidades, e muitos (73%) expressaram ambições de carreira consideráveis com objetivos positivos e bem definidos." Vários desses alunos relataram ter obtido essa visão de si mesmos por meio do contato com defensores da neurodiversidade, principalmente em grupos de apoio online.
Vários autores criticam o uso superficial do conceito de neurodiversidade (“Neurodiversity lite”). Isso se refere à adoção da linguagem do movimento da neurodiversidade ou à representação reforçada de pessoas neurodivergentes, sem eliminar barreiras sistêmicas ou preconceitos profundamente enraizados, em parte também para melhorar a imagem da instituição. Muitas vezes, isso resulta em uma concentração nos pontos fortes de algumas pessoas neurodivergentes, especialmente na área tecnológica, e apresenta a neurodiversidade como uma forma moderna de diversidade. Embora isso possa promover uma certa aceitação e facilitar o emprego de algumas pessoas, exclui aqueles que não se encaixam nesse perfil e separa o conceito de neurodiversidade de suas raízes no movimento das pessoas com deficiência. De acordo com Shaw et al. e Fletcher-Watson, o paradigma da neurodiversidade não se trata simplesmente de destacar os pontos fortes das pessoas autistas (ou descrever o autismo como um “superpoder”), o que gerou críticas de que o conceito de neurodiversidade torna a deficiência invisível ou a nega. Segundo eles, trata-se, ao contrário, de reconhecer que fatores sociais prejudicam as pessoas autistas e que os pontos fortes e fracos dependem do contexto.
Implementação
Termos