A Pontifícia Academia das Ciências (Pontificia Academia Scientiarum) é uma academia pontifícia fundada em Roma, em 1603, com o nome de Academia dos Linces por Frederico Cesi e foi a primeira academia científica do mundo. Galileu Galilei foi um de seus membros. Juntamente com a Accademia Nazionale dei Lincei, é herdeira da original Academia dos Linces; a atual instituição foi refundada em 1847 e assumiu este nome no ano 1936, durante o pontificado do papa Pio XI.
Hoje, conta com cerca de 80 "acadêmicos pontifícios", nomeados pelo papa, sob indicação do corpo acadêmico, sem nenhum tipo de discriminação. Muitos dos cientistas-membros, provenientes de todo o mundo, não são católicos. Promover o progresso da matemática, da física e das ciências naturais, o estudo dos problemas epistemológicos relacionados, a pesquisa e examinar questões científicas de interesse da Igreja são objetivos da Academia.
Desde 1936 a Academia tem adquirido cada vez mais caráter internacional. Sempre mantendo seu interesse pelos diferentes ramos da ciência, ela sublinha a importância da cooperação interdisciplinar. No mundo é a única academia de ciências a ter uma única categoria e um caráter supranacional. Atualmente a Academia, além de se interessar pela pesquisa científica, preocupa-se com os problemas notadamente ligados à ética da responsabilidade ambiental da comunidade científica.
A Academia concede a cada dois anos a Medalha Pio XI a um jovem cientista de reputação internacional. Possui ainda a reputação de ser a assembleia que conta com o maior número de membros laureados com prêmio Nobel, sendo que foram majoritariamente escolhidos como membros da Academia bem antes de serem premiados.
Tem sede na "Casina Pio IV", um tesouro da arquitetura do século XVI, construído em 1561 para servir de residência de verão do Papa Pio IV, nos Jardins Vaticanos.
Quadro histórico Nas intenções originais do fundador Frederico Cesi, os membros da Academia dos Linces deviam praticar um método de pesquisa baseado na observação, na experimentação e no procedimento indutivo. Por isso foi denominada Academia "dos Linces": para indicar que os seus membros teriam olhos aguçados como os da lince, com o fim de penetrar os segredos da natureza, observando-a tanto a nível microscópico como macroscópico.
Figura proeminente da primeira academia foi Galileu Galilei. Pouco após a morte do seu fundador, porém, dissolveu-se.
Em 1847 foi reconstituída pelo papa Pio IX com o nome Academia Pontifícia dos Novos Linces e foi refundada em 1936 pelo papa Pio XI que lhe deu o nome atual, enquanto o Estado italiano constituía a Academia da Itália, que em 1939 englobava a Academia dos Linces. Subsequentemente, os seus estatutos foram atualizados pelo papa Paulo VI em 1976 e pelo papa João Paulo II em 1986.
A partir de 1936 a Pontifícia Academia das Ciências abrangeu tanto as pesquisas sobre temas científicos específicos pertencentes a disciplinas definidas, como a promoção de cooperações interdisciplinares. O número dos acadêmicos e o caráter internacional da sua composição foram crescendo. A academia é um corpo independente no âmbito da Santa Sé e goza da liberdade de pesquisa. Nos estatutos de 1976 afirma-se que "tem como finalidade a promoção do progresso das ciências matemáticas, físicas e naturais e o estudo das questões e dos temas epistemológicos relacionados."
Atividades da academia A academia e a pertença a ela não são influenciadas por fatores de caráter nacional, político ou religioso; ela representa uma válida fonte de informação científica objetiva disponibilizada à Santa Sé e à comunidade científica internacional. Atualmente a atividade da academia abrange seis áreas principais: ciência fundamental, a ciência e a tecnologia requeridas por questões e temas globais, ciência útil para os problemas do Terceiro Mundo, ética e política da ciência, bioética, epistemologia.
As disciplinas envolvidas são repartidas em nove campos: disciplinas da física e disciplinas conexas; astronomia; química; ciências da terra e do ambiente; ciências da vida (botânica, agronomia, zoologia, genética, biologia molecular, bioquímica, neurociências, cirurgia); matemática; ciências aplicadas; filosofia e história das ciências.
Os membros da academia são eleitos pelo corpo dos acadêmicos entre homens e mulheres de qualquer etnia e religião, com base no valor científico das suas atividades e do seu perfil moral (art. 5 do estatuto). Eles são depois nomeados oficialmente pelo pontífice. A academia é governada por um presidente, nomeado entre os seus membros pelo papa, coadjuvado por um conselho científico e por um chanceler. Inicialmente era formada por 80 acadêmicos, 70 dos quais nomeados vitaliciamente; em 1986 João Paulo II aumentou para 80 o número dos membros vitalícios e estabeleceu que ao seu lado se tenha um número limitado de acadêmicos honorários escolhidos por serem personalidades altamente qualificadas, e outros com a qualificação de acadêmicos por motivo das posições que ocupam, incluindo: o chanceler da academia, o diretor do Observatório do Vaticano, o prefeito da Biblioteca Apostólica Vaticana e o prefeito do Arquivo Apostólico Vaticano.
Em 26 de outubro de 1996, por ocasião do papa João Paulo II do enunciado sobre a evolução à Pontifícia Academia das Ciências, 26 dos 80 membros da mesma eram vencedores do prêmio Nobel.
Em 1972, pela primeira vez, foi nomeado um presidente leigo, Carlos Chagas Filho.
Os atos eram coletados nos Acta Pontificiae Academiae Scientiarum.
Fins e auspícios da academia thumb|A Aula Magna Os objetivos e as expectativas da academia foram expressos pelo papa Pio XI no motu proprio que emitiu para a sua refundação em 1936: "Entre as muitas consolações com as quais a benignidade divina acompanhou o curso do Nosso Pontificado, Nos apraz enumerar também esta: ou seja, que pudemos constatar como não poucos, entre aqueles que investigam experimentalmente os segredos da natureza, mudaram tão profundamente a sua posição mental no que concerne à religião, a ponto de resultarem completamente renovados. A ciência, quando é verdadeiro conhecimento do real, nunca contrasta com as verdades da fé cristã; ao contrário, antes, - como não poderá deixar de confirmar quem tenha consultado os anais das ciências - os Romanos Pontífices, juntamente com toda a Igreja, sempre favoreceram a pesquisa dos cientistas também nas matérias experimentais, de modo que estas disciplinas consolidaram o caminho para defender o tesouro da verdade celeste, em favor da própria Igreja.... Da Nossa parte há também a motivada esperança de que os Acadêmicos Pontifícios, também graças a este Nosso e seu Instituto de pesquisa, prossigam cada vez mais amplamente no incremento do avanço das ciências; e nada mais pedimos senão que com este excelso propósito e com a excelência do empenho resplandeça a dedicação daqueles que servem a verdade, que a eles mesmos pedimos." (Pio XI)
Quarenta anos depois, em 10 de novembro de 1979, o papa João Paulo II enfatizou mais uma vez o papel e os escopos da academia, por ocasião do centenário do nascimento de Albert Einstein: "...A existência desta Pontifícia Academia das Ciências, da qual na sua mais antiga ascendência foi sócio Galileu e da qual hoje fazem parte eminentes cientistas, sem qualquer forma de discriminação étnica ou religiosa, é um sinal visível, elevado entre os povos, da harmonia profunda que pode existir entre as verdades da ciência e as verdades da fé.... a Igreja de Roma juntamente com todas as Igrejas espalhadas pelo mundo, atribui grande importância à função da Pontifícia Academia das Ciências. O título de Pontifícia atribuído à Academia significa, como sabeis, o interesse e o empenho da Igreja, em formas diferentes do antigo mecenato, mas não menos profundas e eficazes.... Como poderia a Igreja desinteressar-se da mais nobre das ocupações estritamente humanas: a pesquisa da verdade?" "....Tanto os cientistas crentes como os não crentes estão envolvidos em decifrar o palimpsesto da natureza que foi construído de modo tão complexo, onde as pegadas dos diversos estágios da longa evolução do mundo foram cobertas ou misturadas entre si. O crente tem a vantagem de saber que este puzzle tem uma solução, que em última análise está em jogo fundamentalmente a obra de uma entidade inteligente, e que os problemas interpostos pela natureza foram colocados para serem resolvidos e que a sua dificuldade é sem dúvida proporcional às capacidades humanas presentes e futuras. Isto, talvez, não lhe dará novos recursos para as pesquisas em curso, mas contribuirá para mantê-lo otimista, condição necessária para manter a longo prazo o esforço da pesquisa." (João Paulo II)
Membros da Academia A Academia conta com 80 membros, homens e mulheres, de diferentes países e religiões, que prestam uma contribuição marcante nos seus domínios de atividade científica. São nomeados pelo Papa após terem sido eleitos pelos outros acadêmicos.
Zeresenay Alemseged (Paleoantropologia, Evolução Humana, 2021) Werner Arber (Microbiologia, Evolução Biológica, 1981) Frances Arnold (Engenharia Química, Bioengenharia, Bioquímica, Química, 2019) Vanderlei Salvador Bagnato (Física e Engenharia de Ciência dos Materiais, 2012) Antonio M. Battro (Estudo Neuro-desenvolvimental da Cognição, 2002) David Baulcombe (Genética, Botânica, Virologia, 2020) Robert Eric Betzig (Química, 2016) Helen M. Blau (Biologia de Células-Tronco e Medicina Regenerativa, 2017) Thierry Boon-Falleur (Biologia, 2002) Joachim von Braun (Alimentos, Nutrição e Pesquisa Agrícola, Desenvolvimento e Pobreza, 2012) Luis Caffarelli (Matemática, 1994) Emmanuelle Charpentier (Microbiologia, 2021) Chien-Jen Chen (Epidemiologia, Saúde Pública e Genética Humana, 2021) Steven Chu (Física, 2018) Aaron Ciechanover (Bioquímica, 2007) Claude Cohen-Tannoudji (Física Atômica e Molecular, 1999) Francis Collins (Genética, 2009) Suzanne Cory (Biologia Molecular, 2004) Edward M. De Robertis (Biologia, 2009) Stanislas Dehaene (Psicologia Cognitiva Experimental, 2008)
Membros honorários Jean-Michel Maldamé, O.P. (1997-)
Membros perdurante munere Chanceler da Academia: Peter Turkson (2022-) Diretor do Observatório do Vaticano: Guy Joseph Consolmagno, SJ (2015-) Prefeito da Biblioteca Apostólica Vaticana: Cesare Pasini (2007-) Prefeito dos Arquivo Apostólico Vaticano: Sergio Pagano, B. (1997-)
Membros prêmio Nobel Por muitas décadas de atividade a Academia tem tido vencedores do Prêmio Nobel entre os seus membros, vários deles foram indicados membros acadêmicos antes de receberem este prêmio de prestígio internacional. Dentre estes se incluem:
Christian B. Anfinsen (Química, 1972) Edward Victor Appleton (Física, 1947) Werner Arber (Fisiologia ou Medicina, 1978) Frances Hamilton Arnold (Química, 2018) David Baltimore (Fisiologia ou Medicina, 1975) Gary Stanley Becker (Economia, 1992) Paul Berg (Química, 1980) Sune K. Bergström (Fisiologia ou Medicina, 1982) Robert Eric Betzig (Química, 2014) Günter Blobel (Fisiologia ou Medicina, 1999) Aage Bohr (Física, 1975) Niels Bohr (Física, 1922) Alexis Carrel (Fisiologia ou Medicina, 1912) James Chadwick (Física, 1935) Emmanuelle Charpentier (Química, 2020) Steven Chu (Física, 1997) Aaron Ciechanover (Química, 2004) Claude Cohen-Tannoudji (Física, 1997)
Outros eminentes acadêmicos incluem o Padre Agostino Gemelli (1878-1959), fundador da Universidade Católica do Sagrado Coração e presidente da Academia depois da sua re-fundação até 1959, e Mons. Georges Lemaître (1894-1966), um dos pais da cosmologia contemporânea que exerceu o cargo de presidente de 1960 a 1966 e o brasileiro neurocientista Carlos Chagas Filho.
Cronologia Presidentes Agostino Gemelli, O.F.M. (1936 – 15 de julho de 1959 falecido) Georges Lemaître (19 de março de 1960 – 20 de junho de 1966 falecido) Daniel O'Connell, S.J. (15 de janeiro de 1968 – 15 de janeiro de 1972)