Wadico Waldir Bucchi (São Paulo, ) é um administrador de empresas e professor universitário brasileiro. Formado em ciências contábeis e administração de empresas pela Universidade Mackenzie, com mestrado (MBA) pela Universidade da Califórnia em Riverside e doutorado em finanças pela Universidade de São Paulo (USP), é professor concursado da FEA-USP desde 1987.

Foi diretor da Área Bancária do Banco Central do Brasil (1987–1990) e presidente da instituição entre junho de 1989 e março de 1990, durante o governo Sarney, sendo o primeiro presidente do Banco Central a ser sabatinado e aprovado pelo Senado Federal conforme a Constituição brasileira de 1988.

Formação Nascido em São Paulo no bairro de Santana, Bucchi era filho de Romolo Bucchi, filho de italianos que chegou a São Paulo aos dez dias de vida trazido pelos avós desde Matão, e de Ada Bucchi, neta de portugueses que se mudou de Lins para a capital. Fez seus estudos primários na instituição conhecida como Barão Homem de Melo, posteriormente transferindo-se para o Colégio Estadual Augusto Meireles Reis Filho, ambas em São Paulo. Durante o ensino primário, foi premiado entre os dois melhores alunos da turma, alternando esse destaque com o colega José Narciso Strabon. Na sequência, cursou o científico com especialidade em ciências físicas e biológicas, concluindo essa formação em 1970, quando ficou entre os dez primeiros da classe. Sua formação secundária foi marcada pela cobrança rigorosa do pai, profissional bem-sucedido que orienta seus filhos — Bucchi e sua irmã Waldineia Bucchi Galvão — para dedicação aos estudos e expectativa de acesso ao ensino superior.

Iniciou sua trajetória profissional aos quinze anos numa lapidadora de cristais, a Cristaleria Palety Ltda., e posteriormente trabalhou na construtora Pavimentadora Termil Ltda. — mais tarde Tarumã Engenharia S/A, ambas controladas por Henrique Borenstein. Com dezesseis anos, permaneceu nessa construtora durante três anos, período em que adquiriu experiência inicial em ambiente corporativo.

Em novembro de 1970, iniciou formalmente sua carreira profissional como auxiliar na Divisão de Estudos Econômicos do Banco de Crédito Nacional. Durante quase três anos nessa instituição, trabalhou estruturando tabelas financeiras para financiamentos a pessoas físicas e jurídicas, além de auxiliar estudos para lançamento de ações e títulos no mercado. Nesse período, conviveu com profissionais experientes — entre eles João Muccillo Neto, Roberto de Genaro, Waldemar Pantaleone e Dauto José Azarite — cuja influência o orientou para a área de finanças e administração.

Em 1975, cursou programa de especialização em administração de recursos financeiros na PUC-SP. Matriculou-se na Universidade Mackenzie, conquistando o diploma de bacharel em ciências contábeis em 1978 e em administração em 1981. Em 1972, ingressou no Investbanco Banco de Investimentos, onde reforceu seu interesse por economia e finanças sob influência de Roberto Campos, então presidente da instituição, que instigava jovens colaboradores a buscarem maior conhecimento das questões econômicas e financeiras.

Bucchi permaneceu no Investbanco até 1974, trabalhando ao lado de profissionais que conquistariam posteriormente posições relevantes em setores público e privado, a exemplo de Luiz Carlos Mendonça de Barros, Sergio Silva de Freitas, João Batista de Athayde e Miguel Ethel Sobrinho. Recebeu reconhecimento pessoal de Roberto Campos por sua contribuição num estudo voltado à criação de estrutura de liquidez para enfrentar situações de crise.

Em 1982, deslocou-se para a Califórnia, nos Estados Unidos, onde seguiu disciplinas de aspectos culturais norte-americanos e comunicação inglesa na California State University. A decisão de estudar no exterior foi influenciada por Fernando Milliet e Roberto Campos, bem como por Hélio Ribeiro Duarte, ex-diretor do Unibanco. Em junho de 1984, conquistou a qualificação de Master of Business Administration (MBA) na Universidade da Califórnia em Riverside, com monografia intitulada Economies of scale in financial institutions: a study on the Brazilian insurance industry, pesquisa reconhecida em 1985 pela FEA-USP como compatível com o grau de mestre daquela faculdade. Durante o mestrado, foi influenciado por professores como Robert Auerbach, especialista em economia monetária pelo Federal Reserve; Catherine H. Lovell, especialista em governança e relações empresa-governo; e Sergei Dobrovolsky, especialista em análise das contas públicas e equilíbrio fiscal. Suas escolhas acadêmicas combinaram finanças corporativas como major e política monetária como minor, e ele circulou por campi de Riverside, Irvine e Los Angeles da University of California. Durante seus estudos nos Estados Unidos, também optou por morar no campus e conviveu com colegas internacionais de países como Itália, México, Argentina, Israel, Síria, Canadá, Japão, Coreia do Sul e China.

Quando retornou ao Brasil em 1984, candidatou-se e foi aprovado em primeiro lugar ao doutorado em finanças na FEA-USP. Paralelamente ao doutorado, trabalhou como consultor da presidência do Banespa quando Fernando Milliet o presidia, dedicando-se à recém-criada assessoria de planejamento da instituição. Em 1991, Bucchi apresentou sua tese de doutorado na FEA-USP, abordando sistemas de proteção de depósitos em entidades financeiras, trabalho intitulado Contribuição ao desenvolvimento de mecanismos de garantia de depósitos em instituições financeiras.

Carreira no setor financeiro

Experiência privada inicial Em 1974, por intermédio do headhunter Luiz Alberto Panelli, foi selecionado para a Comind Companhia de Seguros (posteriormente conhecida como Induseg), onde trabalhou na área financeira sob a liderança de Fernando Milliet. Após alguns meses foi promovido a gerente do Departamento Financeiro.

Em 1978, integrou o corpo de gestores técnicos responsáveis pela Superintendência de Previdência Estadual Paulista, permanecendo nesta função até 1982.

Banespa Em dezembro de 1985, foi nomeado diretor-executivo do Banespa, função que exerceu até março de 1987. Seu ingresso no Banespa ocorreu como assessor de planejamento junto a Fernando Milliet, que posteriormente assumiu a presidência quando Bresser Pereira se desincumbiu do cargo de secretário-geral durante a gestão Montoro. No primeiro ano, coordenou a assessoria de planejamento; no seguinte, foi convidado por Tito Enrique da Silva Neto, então vice-presidente, a exercer o cargo de diretor-executivo. Por escolha de Fernando Milliet, presidiu a Banespa Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S/A, sucedendo Alkimar Ribeiro Moura, que posteriormente seria diretor da Dívida Pública do Banco Central.

Suas principais atribuições incluíram participação no Comitê Financeiro e coordenação das negociações com o Sindicato dos Bancários de São Paulo em momento em que os sindicatos possuíam grande força de atuação e capacidade de paralisação. Em 1985-1986, período considerado marcado por restrições de liquidez no setor bancário, Bucchi coordenou negociação diferenciada com o Sindicato dos Bancários. Embora o dissídio coletivo definisse reajuste de 12% ao funcionalismo bancário, a análise interna do Comitê Financeiro apontava impacto severo sobre o caixa. Conseguiu negociação em que não se aplicou a correção imediata, acordando-se possibilidade de nova negociação quando o Banespa tivesse condições financeiras.

Banco Central

Diretoria da Área Bancária Em maio de 1987, Bucchi ocupou posto de destaque na estrutura do Banco Central do Brasil: a Diretoria da Área Bancária. Lá, coordenou implementação de bancos múltiplos e pesquisas voltadas ao estabelecimento de um Fundo Garantidor de Créditos. Como diretor, tinha assento no Conselho Monetário Nacional (CMN), ainda que sem direito a voto, participando de todas as reuniões daquele órgão deliberativo máximo do Sistema Financeiro Nacional.

Durante esse período, Bucchi foi responsável pela articulação e negociação de reforma bancária com a Assembleia Constituinte. Era responsável por negociações com o Banco Mundial para implementação de programa de fortalecimento do sistema financeiro que incluía padronização de demonstrativos bancários com implantação do Plano Contábil das Instituições do Sistema Financeiro Nacional (Cosif), fixação de exigências de capital mínimo, consolidação dos bancos múltiplos, e primeiro desenho do seguro de garantia de depósitos — mecanismo necessário depois que a Constituição Federal de 1988 extinguiu as reservas monetárias utilizadas anteriormente para saneamento do sistema financeiro. Bucchi compareceu repetidamente à Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara para debater a reforma, onde enfrentou resistência de parlamentares favoráveis ao tabelamento dos juros em 12% ao ano. O deputado José Serra construiu solução obtendo maioria para remeter para as Disposições Transitórias da Constituição a regulamentação sobre tabelamento de juros, com parecer do jurista Saulo Ramos, consultor-geral da República do presidente Sarney, possibilitando ao Banco Central desempenhar seu papel.

Em colaboração com Alkimar Ribeiro de Moura, responsável pela Diretoria da Dívida Pública, desenvolveu-se pesquisa para criação de mecanismo de comitê dedicado à política monetária (Copom), com responsabilidade de estabelecer orientações monetárias e a taxa de referência para juros. As pesquisas iniciais ocorreram em 1987, porém a implementação efetiva do Copom sucedeu apenas em 1996, quando havia maior amadurecimento político e social.

Presidência Em , Bucchi recebeu nomeação presidencial para a chefia do Banco Central em lugar de Elmo de Araújo Camões. A indicação funcionou através de lista tríplice apresentada pelo ministro Maílson da Nóbrega ao presidente Sarney, que escolheu o nome de Bucchi, com apoio do deputado Ulysses Guimarães, uma das principais lideranças políticas do país na época. Outro nome da lista tríplice era Paulo Cesar Ximenes, então funcionário de carreira do Banco Central cedido ao Ministério da Fazenda, que se tornou amigo e apoiador de Bucchi e mais tarde assumiria a presidência da instituição.

Foi o primeiro presidente da instituição submetido à sabatina perante a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, conforme exigia a Carta de 1988. Bucchi assumiu a presidência como interino em junho de 1989 e permaneceu nessa condição por três meses, período em que realizou série de reuniões com chefes de departamento para abordar questões relevantes num momento delicado da vida nacional — transição política, mudanças constitucionais, candidaturas presidenciais em campanha, questões como tentativas de fixação de taxa de juros em 12%, intervenções em bancos estaduais, e níveis de reservas externas. No meio de 1989, uma série de corretoras e distribuidoras de valores mobiliários entrou em colapso em virtude de apostas opostas entre agentes do mercado; o Banco Central decretou intervenção em 22 dessas instituições.