Luta Marajoara ou Agarrada Marajoara é um tipo de combate corpo-a-corpo semelhante ao wrestling (Luta livre olímpica, Catch wrestling e Luta greco-romana) e considerado um estilo de wrestling tradicional., praticado no norte do Brasil, principalmente nas festividades dos povoados do arquipélago do Marajó, no estado do Pará, município de Cachoeira do Arari, onde o objetivo do combate é projetar o corpo do oponente de costas ao chão e dominá-lo.
Prática corporal tradicional originária da Ilha de Marajó, no estado do Pará, a Luta Marajoara é marcada, assim, por intensos combates corpo a corpo realizados em espaços como a areia, a lama e a grama. Estudos indicam que sua origem está associada ao cotidiano dos vaqueiros marajoaras, a rituais comunitários e às formas tradicionais de sociabilidade do caboclo da região, transmitidas de geração em geração. Essa dimensão ritualística convive atualmente com processos de transformação que a aproximam das modalidades esportivas modernas, gerando tensões entre preservação da tradição e adaptação às novas formas de prática institucionalizada.
O desenvolvimento recente de estudos acadêmicos têm ampliado o escopo de discussão sobre a Luta Marajoara, ressaltando sua relevância social e reconhecendo-a como uma prática historicamente constituída pelas populações do arquipélago, transmitida de geração em geração por meio de eventos e de iniciativas que buscaram difundi-la para além da região, alcançando projeção nacional. Embora ainda não existam evidências científicas que determinem com precisão sua origem, tais estudos apontam que a Luta Marajoara pode ter emergido da criação e recriação de elementos socioculturais resultantes do encontro entre negros africanos e povos indígenas, cujas experiências e saberes se entrelaçaram no território marajoara. Presente ao longo da história regional e constantemente transmitida, essa prática expressa até hoje sua força como tradição viva no Marajó.
Dário Pedrosa, profissional de Educação Física e árbitro de Luta Marajoara, define esta arte marcial como sendo a única modalidade de combate corporal legitimamente brasileira. Oriunda das práticas de lazer dos caboclos da região do Arari, na ilha do Marajó, esta arte reúne características próximas a outras artes marciais como a Grego Romana, por exemplo.
Disputada entre dois atletas, a luta não permite nenhum tipo de ato contundente com os membros (socos, chutes etc.), nem estrangulamentos, como chaves ou traços. Na sua essência, a Luta Marajoara é, das artes marciais, a menos violenta, motivo pelo qual reúne condições de interagir com todos as faixas etárias, pois é verdadeiramente uma luta suave, onde os oponentes buscam, tão somente, o desequilíbrio e a projeção um do outro.
O ex-campeão dos moscas do UFC Deiveson Figueiredo começou praticando Luta Marajoara desde criança.
Origem Há uma indefinição quanto a origem real desta arte marcial. Alguns escritores já citaram as práticas do povo indígena Aruás e a influência dos escravos africanos na sua criação. Outras teses, com maior poder de coerência e proximidade com o que é praticado nos combates atuais, indicam a influência das brigas entre búfalos observadas e reproduzidos por caboclos, a exemplo do que fizeram os orientais criando estilos de luta baseadas nos movimentos de ataques e defesas de animais (como a serpente, o leopardo etc.), ou amistosos confrontos feito por vaqueiros, em atividades de lazer para aquecimento do corpo ao final do dia. Considerando isso, ela passa a ser tradição na festividade do Glorioso São Sebastião, de Cachoeira do Arari.
As duas teses se fundem numa única dentro do contexto do lúdico, quando a prática ainda era chamada pelos nomes de: agarrada, cabeçada, lambuzada ou derrubada. Esses nomes são registrados ainda hoje nos municípios de Cachoeira do Arari e Santa Cruz do Arari, possíveis áreas onde a arte foi iniciada, sendo remanescente em Salvaterra, Chaves e principalmente Soure, que devido a grande incidência de propriedades pecuaristas, predominou a cultura da criação de búfalos, animal que pode ter influenciado na criação da luta.
Se levarmos em consideração que a chegada dos búfalos no Brasil deu-se através da ilha do Marajó, na ultima década do século XVIII, numa ação do pecuarista Vicente Chermont de Miranda, então poderemos dizer que esta luta pode ter seu surgimento referendado também por este episódio, em datas próximas.
A referência histórica para o século XVIII é corroborada por estudos realizados sobre a Luta Marajoara, os quais, partindo da análise de Vicente Salles em sua obra O negro na formação da sociedade paraense: textos reunidos, de 2004 , destaca que entre os séculos XVIII e XIX no Pará, a visualização de sua prática por negros, vaqueiros e mulatos nos campos marajoaras coincidiu com os eventos do movimento da Cabanagem ocorridos no estado.
É em Cachoeira do Arari durante a procissão dos mastros pelas ruas da cidade, na Festividades do Glorioso São Sebastião, que os devotos banham-se e praticam a Luta Marajoara na lama das primeiras chuvas do ano, durante o inverno marajoara no mês de Janeiro. A festividade, que mescla elementos profanos e religiosos, realiza-se anualmente entre os dias 10 e 20 de janeiro, coincidindo com o início do período chuvoso. Nesse contexto, a intensidade das chuvas é interpretada como um presságio: um ano de fartura caso chova muito, ou de dificuldades quando escassa ou ausentes.
Com a chuva, forma-se grande quantidade de lama pelas ruas da cidade e é nesse contexto que a lambuzada se faz presente. Eles sujam-se, uns aos outros, na lama considerada abençoada. E quem não se lambuza não terá a proteção do santo chamado pelos devotos apenas como “Bastião”.
Somente na metade da década de 90 esta prática começou a receber uma nova denominação, agora sim, como Luta marajoara, devido a iniciativa de órgãos públicos que passaram a promover torneios com lutadores devidamente preparados e com premiação de destaque para aquele que seria considerado campeão. Sai, então aí, o elemento lúdico e entra a prática desportiva de rendimento, com a necessidade de regras mais especificas e rígidas que permitissem a ação de arbitragem para mediar os combates.
Em Salvaterra, Soure e Cachoeira do Arari, as Prefeituras Municipais buscaram incentivar esta prática com disputas motivadas por premiações. A imprensa passou, então, a demonstrar interesse no seu registro. Tanto que, na festa do aniversário de Salvaterra, pelos seus 36 anos, em 1998, ocorreu a primeira filmagem da luta por uma equipe de jornalismo televisiva. A TV Record de televisão, trazida ao município para registrar as atividades da festa, veiculou a matéria em rede nacional.
Depois, o Governo do Estado do Pará veio ao Marajó promover os Primeiros Jogos de Identidade Cultural, nas areias da Praia do Pesqueiro, em Soure. E a Luta Marajoara teve então oficializada esta denominação e definidas regras de disputas, em comum acordo com os lutadores e os preparadores físicos, além dos estudiosos no assunto que participaram do evento. Destaque para os pesquisadores e árbitros Leandro Gavinho, João de Deus e Dário Pedrosa.
Tipos Existem dois tipos de Luta Marajoara, a tradicional e a esportiva. A tradicional é praticada nas fazendas da região em solo com areia, argila ou grama (para evitar grandes lesões), e a esportiva nos eventos organizados pelo Governo Municipal e conta com apoio de organizações que regulamentam a prática, definem as regras e organizam campeonatos. Até o momento a Luta Marajoara não tem graduação e também não foi estilizada.
Regras O ambiente comum para que ocorram as disputas deve ter solo com areia, argila ou grama, pois a regra básica do combate é derrubar o oponente no chão e encostar suas costas o suficiente para que seja considerado dominado. O sinal foi escolhido pelos caboclos e mantido pelos desportistas. Para definir o combate, observa-se os detritos do solo, seja argila ou grama, nas costas do lutador.
Alguns torneios convencionam regras para as disputas o que acaba por permitir práticas com normativas diferenciadas de um município ou evento para outro. Porém, o mais comum é:
1. Mínimo duas categorias de lutadores com base no peso, até 80 kg e superior a 80 kg; além dos gêneros, onde o lutador tem oponente do mesmo sexo; e o respeito a faixa etária, discriminando o Amador (até 35 anos) e o Master (acima de 35 anos);
2. O “pé casado” deverá ser a posição inicial de luta e servirá também para reinicio de combate em caso de intervenção da arbitragem;
3. Um circulo com raio de pelo menos dois metros deve ser desenhado no chão para servir de área de combate, não podendo os lutadores saírem desta área.
4. Proibido o uso de óleos ou qualquer tipo de adereço sólido no corpo, muito menos unhas destacadas.
5. Proibido o uso de atos contundentes com qualquer parte dos membros: socos, chutes e tapas. E estrangulamentos, como chaves de braços ou pernas.
6. A luta deverá desenvolver predominantemente em pé, buscando sempre a projeção através de agarradas, empurradas e puxadas, desequilibrando o adversário rumo ao solo. Nos casos em que ocorrerem a derrubada sem que a costa seja posta em contato suficiente com o solo para a finalização do combate, deverá o árbitro permitir a luta de chão somente o tempo suficiente para que o esforço na finalização seja concluído. A falta de progresso na disputa pela finalização dará ao árbitro a condição de intervenção, solicitando os dois lutadores para que voltem a posição de “pé casado” em pé, reiniciando a disputa.
7. A equipe de arbitragem deverá ser composta por até três técnicos conhecedores das regras. Sendo dois árbitros auxiliares que permanecem do lado de fora do circulo observando toda a movimentação, para indicar ações irregulares ou auxiliar na decisão final, caso a luta não seja finalizada no tempo comum. O arbitro principal é o responsável pela integridade física e moral dos atletas e pela aplicação correta das regras, permanecendo para isso dentro do circulo de combate. Cabe somente a ele a responsabilidade de iniciar, interromper ou encerrar o combate.
8. A luta ocorrerá em round único, com tempo de até cinco minutos. Caso a luta não seja definida neste tempo (empate), os árbitros votam para desempatar; podendo ser dada uma prorrogação de até três minutos.
Em síntese, o desenvolvimento da Luta Marajoara se baseia em princípios que condicionam a prática de todas as lutas, de um modo geral.
a) Contato proposital – na Luta Marajoara, o enfrentamento ocorre por meio da agarrada, forma de aproximação que estabelece o início da disputa corpo a corpo.
b) Fusão entre ataque e defesa – o ataque se caracteriza pela ação de desequilibrar o adversário e projetá-lo de costas ao chão, enquanto a defesa corresponde às estratégias de impedir ou neutralizar a agarrada do oponente.
c) Imprevisibilidade – refere-se à possibilidade constante de movimentos inesperados do adversário, expressa, na Luta Marajoara, pela ação repentina da agarrada desferida pelo oponente.
d) Oponente/alvo – designa a condição concreta do adversário na luta, cuja meta é ser dominado e derrubado de costas, muitas vezes com o corpo em contato direto com o solo de areia ou lama.
e) Regras – definidas pela obrigatoriedade de projetar o oponente de costas ao chão, partindo da posição inicial conhecida como pé casado, rito que marca tanto o início quanto os reinícios do combate.
Golpes
Movimentos de Ataque Cabeçada: similar ao Double Leg, o lutador agarra as pernas do adversário e empurra o abdômen, projetando-o no chão.
Calçada: É similar a uma rasteira feita na perna da frente do adversário.
Movimentos de Defesa Espalhada: Estica-se as pernas a fim de pesar o peito sobre o adversário, sendo similar ao Spraw do Wrestling.
Golpes Proibidos