Criocirurgia é uma técnica terapêutica que utiliza temperaturas muito baixas para produzir destruição controlada de tecidos. Diferentes agentes refrigerantes podem ser empregados, sendo o nitrogênio líquido o mais utilizado na prática dermatológica.
Os termos "criocirurgia" e "crioterapia" são frequentemente utilizados como sinônimos na literatura médica. Alguns autores, entretanto, reservam o termo "criocirurgia" para procedimentos nos quais o congelamento é empregado com o objetivo de produzir destruição tecidual, utilizando "crioterapia" para outras aplicações terapêuticas do frio.
A técnica possui aplicações em diferentes áreas da medicina e, na dermatologia, é empregada no tratamento de diversas lesões benignas, pré-malignas e malignas selecionadas'
História da criocirurgia O uso terapêutico de baixas temperaturas é descrito desde a Antiguidade. Há registros de sua utilização no Egito antigo, e Hipócrates recomendava a aplicação de frio para controlar hemorragias e reduzir edemas.
Em meados do século XIX, o médico britânico James Arnott empregou misturas refrigerantes de gelo e sal, capazes de atingir temperaturas máximas de - 20º C, no tratamento de tumores. Arnott observou redução da dor e, em alguns casos, diminuição das lesões, sendo considerado um dos precursores da criocirurgia moderna.
O desenvolvimento da liquefação dos gases no final do século XIX permitiu alcançar temperaturas muito inferiores às obtidas com gelo e sal. Em 1899, Campbell White, em Nova Iorque, relatou o uso de ar liquefeito no tratamento de diferentes doenças de pele, incluindo verrugas, nevos e lesões malignas.
Nas primeiras décadas do século XX também foram empregados outros agentes criogênicos, incluindo o dióxido de carbono sólido. Após a Segunda Guerra Mundial, a maior disponibilidade comercial de nitrogênio líquido favoreceu sua utilização médica.
Em 1950, Herman V. Allington publicou sua experiência com nitrogênio líquido aplicado por meio de hastes de algodão no tratamento de verrugas, queratoses, hemangiomas superficiais, leucoplasias, quelóides e outras lesões dermatológicas.
A criocirurgia moderna desenvolveu-se principalmente a partir da década de 1960. Em 1961, o neurocirurgião Irving Cooper e o engenheiro Arnold Lee desenvolveram uma sonda capaz de produzir uma região limitada e controlada de congelamento em tecidos biológicos. O sistema foi inicialmente empregado em neurocirurgia e tornou-se um dos marcos tecnológicos da criocirurgia moderna.
Na dermatologia, equipamentos adequados ao uso ambulatorial ampliaram a utilização do nitrogênio líquido. Em 1965 Douglas Torre desenvolveu um sistema de aplicação de nitrogênio líquido por pulverização e em 1967, Setrag Zacarian apresentou um aparelho portátil com controle por gatilho e ponteiras intercambiáveis. Zacarian também desenvolveu sondas metálicas que permitiam maior controle da profundidade de congelamento.
Esses avanços contribuíram com a expansão da criocirurgia na dermatologia e posteriormente em diferentes áreas da medicina, com equipamentos, agentes criogênicos e técnicas adaptadas às características de cada órgão e especialidade.
Mecanismo de ação
O dano tecidual produzido pela criocirurgia resulta de combinação de lesão celular direta e alterações vasculares. Durante o congelamento rápido, a formação de cristais de gelo intra e extracelulares provoca alterações osmóticas, desidratação celular e danos às membranas e organelas.
Durante o descongelamento ocorrem novas alterações adicionais nas células e na microcirculação. A lesão do endotélio, a estase sanguínea e a formação de microtrombos podem levar à isquemia secundária do tecido tratado.
A extensão da destruição tecidual depende de diversos fatores, entre eles a temperatura mínima atingida, a velocidade de congelamento, a duração do congelamento, o tempo de descongelamento, o número de ciclos de congelamento-descongelamento, a localização e as características biológicas do tecido.
Áreas de utilização na medicina A criocirurgia e outras técnicas baseadas na destruição controlada de tecidos pelo frio são utilizadas em diferentes áreas da medicina. Dependendo da especialidade, do equipamento e do objetivo terapêutico, podem ser utilizados termos como criocirurgia, crioterapia, crioablação ou criopexia. Estas técnicas não são necessariamente equivalentes e podem empregar diferentes agentes criogênicos e métodos de aplicação.
Na dermatologia, a criocirurgia é empregada no tratamento de diferentes lesões benignas, pré-malignas e malignas, incluindo verrugas virais, condilomas anogenitais, queratoses seborreicas e actínicas, carcinomas basocelulares e carcinomas espinocelulares.
Na urologia, técnicas de crioablação são utilizadas ou estudadas no tratamento do câncer de próstata localizado e de determinadas massas renais.
Na ginecologia, a crioterapia é utilizada no tratamento de lesões intraepiteliais pré-cancerosas do colo uterino.
Na coloproctologia, a crioterapia é uma das modalidades descritas no tratamento de condilomas anogenitais associados ao papilomavírus humano (HPV), incluindo lesões dos genitais externos e da região perianal.
Na mastologia e radiologia intervencionista, a crioablação percutânea tem sido estudada como alternativa minimamente invasiva para pacientes com tumores mamários pequenos e de baixo risco.
Na estomatologia e na cirurgia oral e maxilofacial, a criocirurgia apresenta aplicações descritas no tratamento de diferentes lesões de mucosa oral e da região perioral.
Na oftalmologia, a criopexia pode ser empregada para produzir adesão coriorretiniana ao redor de roturas da retina, inclusive em procedimentos destinados ao tratamento de descolamento regmatogênico da retina.
Na otorrinolaringologia, técnicas de crioablação são utilizadas ou estudadas em diferentes situações, incluindo a crioablação do nervo nasal posterior no tratamento de determinados casos de rinite crônica.
Na cardiologia, a crioablação por balão se constitui em uma das técnicas utilizadas para o isolamento das veias pulmonares no tratamento da fibrilação atrial.
Na pneumologia intervencionista, a crioterapia endoscópica é empregada no manejo de determinadas lesões e tumores endobrônquicos
Eficácia no tratamento do câncer de pele Em 1983, Setrag Zacarian publicou uma série de 4228 carcinomas cutâneos em 3022 pacientes, tratados ao longo de 18 anos. O autor destacou a importância de seleção dos pacientes, do tipo histológico, da localização anatômica e da monitorização adequada do congelamento.
Em 1991, publicação anterior, Kuflik e Gage relataram 3.540 carcinomas basocelulares e espinocelulares primários tratados por criocirurgia, com taxa de controle de 98,4%. Entre esses casos, um grupo de 684 tumores foi avaliado após cinco anos de acompanhamento.
Um estudo prospectivo randomizado publicado em 1996 avaliou diferentes protocolos de congelamento-descongelamento no carcinoma basocelular. Em tumores faciais, dois ciclos produziram taxa de cura de 95,3%, enquanto um único ciclo apresentou taxa de 79,4%, o que demonstrou claramente os parâmetros de dois ciclos como os que devem ser utilizados. Em carcinomas basocelulares superficiais do tronco tratados com um ciclo, a taxa de cura foi de 95,5%. Os resultados demonstram a influência do protocolo correto de congelamento sobre a eficácia do tratamento.
Em uma série publicada em 1997, 61 carcinomas basocelulares primários nasais ou perinasais, com pelo menos 10 mm de diâmetro e de tipo não esclerodermiforme, foram tratados por curetagem seguida de criocirurgia com dois ciclos de congelamento-descongelamento. Entre os 50 pacientes acompanhados por pelo menos cinco anos, ocorreu uma recidiva.
Em outra série, publicada em 2002, 100 cânceres cutâneos não melanoma de orelha externa foram tratados por curetagem associada à criocirurgia com dois ciclos de congelamento-descongelamento. Entre os 81 tumores acompanhados por pelo menos cinco anos, ocorreu uma recidiva.
Uma revisão baseada em evidências publicada em 2003 identificou 13 estudos prospectivos não controlados e 4 ensaios randomizados sobre criocirurgia no carcinoma basocelular. Os autores consideraram haver dados suficientes para classificar a criocirurgia como opção terapêutica razoável, porém observaram que não existiam estudos de boa qualidade que permitissem estabelecer se seus resultados eram equivalentes aos obtidos por cirurgia de Mohs, excisão convencional ou da eletrodissecação e curetagem.
Em uma série publicada em 2004, Kuflik relatou a experiência de 30 anos com 4.406 carcinomas basocelulares e espinocelulares tratados por criocirurgia, com taxa global de cura de 98,6%.
Para o carcinoma espinocelular cutâneo, uma revisão sistemática e análise agrupada publicada no BMJ'' em 2013 encontrou taxa de recorrência agrupada de 0,8% (IC 95% 0,1–2,2%) após crioterapia. Os tumores tratados dessa forma eram predominantemente pequenos e de baixo risco, e os autores ressaltaram que os estudos eram observacionais, o que limita comparações diretas entre diferentes modalidades terapêuticas.
Uma série prospectiva publicada em 2014 relatou a experiência de 30 anos com 781 carcinomas basocelulares localizados nas pálpebras ou no canto medial, com limites clínicos bem definidos, tratados com criocirurgia utilizando nitrogênio líquido e dois ciclos de congelamento-descongelamento. Foram registradas três recidivas. O protocolo de acompanhamento variou ao longo do estudo, sendo mais curto durante a última década da série.
Em estudo publicado em 2015, foram avaliados 144 carcinomas basocelulares na região centrofacial tratados por criocirurgia ou curetagem associada à criocirurgia. Foram observadas sete recidivas, com taxa estimada de sobrevida livre de recorrência em cinco anos de 94%. Quando excluídos 13 tumores tratados com intenção paliativa apesar da presença de características consideradas contraindicações teóricas para criocirurgia, a taxa estimada de sobrevida livre de recorrência em cinco anos foi de 96,5%.
Uma revisão sistemática publicada em 2018 avaliou a crioterapia em comparação com outros tratamentos para carcinoma basocelular. Nos estudos incluídos, a eficácia da crioterapia isolada ou associada à curetagem foi comparável à cirurgia nos estudos que realizaram essa comparação, embora os autores tenham ressaltado o pequeno número de estudos disponíveis e a necessidade de dados comparativos mais robustos.
Uma revisão publicada em 2026 descreve a crioterapia cutânea, também denominada criocirurgia, como um procedimento dermatológico bem estabelecido e eficaz para diferentes condições de pele, incluindo lesões malignas selecionadas. Os autores destacam que diferentes métodos de aplicação permitem adaptar o tratamento às características da lesão e observem que, apesar da utilidade demonstrada, a técnica permanece sub-reconhecida e utilizada de forma inconsistente na prática dermatológica.
Referências
Bibliografia Kuflik EG. Cryosurgery update. J Am Acad Dermatol 1994; 31:925-44.
Lindemalm-Lundstam B, Dalenbäck J. Prospective follow-up after curettage-cryosurgery for scalp and face skin cancers. British Journal of Dermatology. 2009;161:568–576. PMID 19624544.
Holt PJ. Cryotherapy for skin cancer: results over a 5-year period using liquid nitrogen spray cryosurgery. British Journal of Dermatology. 1988;119:231–240. PMID 3166941.
Peikert JM. Prospective trial of curettage and cryosurgery in the management of non-facial, superficial, and minimally invasive basal and squamous cell carcinoma. International Journal of Dermatology. 2011;50:1135–1138. PMID 22126880.
Buckley D, Marczuk C, Kennedy T. Cryosurgery for basal cell carcinoma treated in primary care. Irish Journal of Medical Science. 2020;189:1183–1187. PMID 32112339.
Twardowski G. Procedimentos Estéticos Minimamente Invasivos – Parte IV: Procedimentos Cirúrgicos Minimamente Invasivos; Criocirurgia em lesões cutâneas. Capítulo 34. Rio de Janeiro: Di Livros; 2006. p.277-286.