William Lane Craig (Peoria, 23 de Agosto de 1949) é um filósofo, teólogo e apologista cristão estadunidense.
Como filósofo, Craig se especializou em filosofia da religião, metafísica, e filosofia do tempo. Como teólogo, suas especialidades são estudos sobre o Jesus histórico e teologia filosófica. Craig fez contribuições importantes para discussões sobre o argumento cosmológico em favor da existência de Deus, a onisciência divina, teorias do tempo e eternidade e para a historicidade da ressurreição de Jesus. Por muitos anos, sua pesquisa concentrou-se na doutrina da autoexistência de Deus (asseidade divina), especialmente diante dos desafios apresentados por concepções platônicas de objetos abstratos. Mais recentemente, Craig passou a se dedicar ao desenvolvimento de uma teologia filosófica sistemática, cujo objetivo é articular de forma integrada os dados da revelação cristã com o aparato conceitual da filosofia analítica contemporânea. Craig é autor de diversos livros, o mais conhecido deles sendo Reasonable Faith. Ele disse que Alvin Plantinga é o seu filosófo de maior inspiração.
Biografia
thumb|right|Craig no Ensino Médio thumb|right|Clube de Matemática da East Peoria Community High School. Craig é o último da fila da esquerda.
Craig nasceu em Peoria, Illinois e é o segundo de três filhos de Mallory e Doris Craig. O trabalho do pai de Craig na T. P. & W linhas de trem levou a família a Keokuk, Iowa até que ele foi transferido para o escritório em East Peoria em 1960. Quando estudava na East Peoria Community High School (1963-1967) Craig se tornou um debatedor e orador público de sucesso, sendo nomeado para o time do estado em seu último ano e vencendo o campeonato estadual de oratória. Igualmente significativa foi sua experiência dramática de conversão ao cristianismo que aconteceu quando ele estava iniciando seu primeiro ano do ensino médio e que redirecionou todo o curso de sua vida.
Depois de se formar no ensino médio, Craig frequentou o Wheaton College, uma faculdade evangélica a oeste de Chicago. Em Wheaton ele continuou suas atividades forenses e de debate, especializando-se em comunicações. Em 2014 ele recebeu o prêmio alumnus do ano. Em Wheaton, Craig estudou sob a orientação de Stuart Hackett, cujo livro Ressurrection of Theism (1957) exerceria uma importante influência filosófica sobre o pensamento de Craig. Foi seu estudo do livro Introduction to Christian apologetics (1948), enquanto ainda estava em Wheaton, que despertou o interesse de Craig em apologética Cristã. Craig se formou em 1971 e, no ano seguinte, se casou com sua esposa Jan, que ele conheceu quando trabalhavam no Cruzada Estudantil E Profissional Para Cristo.
Em 1973 Craig entrou para o programa de Filosofia da religião na Trinity Evangelical Divinity School, ao norte de Chicago, onde ele estudou sob a orientação de Norman Geisler. Simultaneamente, Craig realizou estudos teológicos sob a orientação de David Wells, Clark Pinnock, Murray Harris e Jhon Warwick Montgomery, graduando-se com um mestrado em filosofia da religião e História da Igreja e do pensamento cristão.
Em 1975 Craig embarcou em estudos de doutorado em filosofia na Universidade de Birmingham, na Inglaterra, escrevendo sobre o argumento cosmológico sob a direção de Jhon Hick. Como resultado desse estudo, Craig publicou seu primeiro livro The Kalam Cosmological Argument (1979), uma defesa vigorosa do argumento que ele descobriu ao ler o trabalho de Hackett’s. Em 1978 Craig recebeu uma bolsa de estudo de pós-doutorado da fundação Alexander von Humboldt para realizar pesquisas sobre a historicidade da ressurreição de Jesus sob a direção de Wolfhart Pannenberg na universidade Ludwig-Maximillians-Universität München, na Alemanha. Seus estudos em Munique resultaram em um segundo doutorado, dessa vez em teologia, premiado em 1984 com a publicação de sua tese de doutorado The Historical Argument for the Resurrection of Jesus during the Deist Controversy (1985).
Carreira Craig se juntou ao grupo da Trinity Evangelical Divinity School em 1980, onde ele ensinou filosofia da religião pelos próximos sete anos. Durante esses anos ele embarcou em um programa de pesquisa de longo prazo sobre uma análise filosófica dos principais atributos divinos, começando pela onisciência divina. O fruto inicial deste estudo foi seu livro Divine Foreknowledge and Human Freedom (1990). Em 1982 Craig recebeu um convite para debater com Kai Nielsen na universidade de Calgary, Canada, sobre a existência de Deus. E assim começou uma série de debates sobre questões filosóficas e teológicas que colocou Craig contra filósofos, cientistas e acadêmicos bíblicos incluindo Antony Flew, E. M. Curley, Richard Taylor,Quentin Smith, Michael Tooley, Paul Draper, Shelly Kagan, Peter Millican, Paul Kurtz, Peter Atkins, Lawrence Krauss, Richard Dawkins, Francisco Ayala, John Dominic Crossan, Marcus Borg, Ray Hoover, Bart Ehrman e Gerd Lüdemann.
Depois de uma temporada de um ano em Westmont College nos arredores de Santa Barbara, Craig se mudou de volta para a Europa com sua esposa e duas crianças pequenas para realizar pesquisas, permanecendo lá pelos próximos sete anos como pesquisador visitante na Universidade Católica de Louvain (Katholiecke Universiteit Leuven), na Bélgica. Sete livros foram produzidos durante este período de pesquisa, dentre eles God, Time, and Eternity (2001). Em 1994 Craig aceitou o convite de J. P. Moreland e R. Douglas Geivett para se juntar ao departamento de filosofia e ética na Escola de Teologia Talbot (Talbot School of Theology), nos subúrbios de Los Angeles, como professor pesquisador de filosofia. Esta é a posição na qual ele permanece atualmente.
Pensamento
O Argumento Cosmológico Kalam
Craig é mais conhecido por ressuscitar uma versão do argumento cosmológico em defesa da existência de uma primeira causa que não tem, ela mesma, uma causa. Para reconhecer a contribuição do islamismo medieval para o desenvolvimento desta versão do argumento, Craig criou o nome “argumento cosmológico kalam” (kalam significando teologia islâmica medieval). O argumento ficou marcado desde então por esta denominação. A característica distintiva deste argumento é a sua premissa “O universo começou a existir”, na qual “o universo” designa toda a realidade espaço-temporal contígua. Craig defende essa premissa filosoficamente e cientificamente.
No livro The Kalam Cosmological Argument ele formula o argumento da seguinte forma: Tudo que começa a existir tem uma causa para sua existência. O universo começou a existir. Portanto, o universo tem uma causa para sua existência.Craig outlines this argument and seven others for the existence of God in Philosophy Now magazine, dezembro 2013
Filosoficamente, Craig restaura dois argumentos kalam tradicionais em defesa da finitude da série temporal de eventos passados: um argumento baseado na impossibilidade metafísica da existência daquilo que matemáticos modernos chamam de “infinito atual” e um argumento baseado na impossibilidade metafísica de formar um infinito atual usando um processo de adição sucessiva. thumb|left|Craig em 2015.
Após ressaltar a consistência lógica estrita da teoria dos conjuntos infinitos axiomatizada pós-cantoriana, Craig argumenta que a existência de um número de coisas infinito atualmente é, apesar dessa consistência, metafisicamente impossível em vista dos muitos absurdos que seriam possíveis caso um infinito atual realmente existisse. Um dos exemplos preferidos de Craig é o famoso Hotel de Hilbert, que pode ser ocupado totalmente e, ainda assim, por meio da mera transposição de lodgers, acomodar um número infinito de hóspedes adicionais. Craig vai além da ilustração da história original criada por David Hilbert e pergunta o que aconteceria se operações aritméticas inversas, como a subtração, fossem aplicadas ao hotel. Imaginando diferentes grupos de hóspedes fazendo checkout do hotel, Craig mostra que seria possível subtrair quantidades iguais de quantidades iguais e obter quantidades diferentes como resultado, o que é absurdo. Após salientar que convenções matemáticas estipuladas para garantir a consistência lógica da aritmética transfinita não tem força ontológica, Craig conclui que o finitismo é mais plausivelmente verdadeiro. Portanto, a série de eventos passados deve ser finita e o universo começou a existir.
Mesmo que um infinito atual fosse metafisicamente possível, a natureza temporal da série de eventos passados, que foi formada pela adição sucessiva de um evento após o outro, levanta problemas peculiares. Craig argumenta que da mesma forma que é impossível, a despeito dos proponentes das “super-tasks”, contar até o infinito, também é metafisicamente impossível contar regressivamente começando do infinito. Novamente, Craig ilustra os absurdos contra-intuitivos—como sua inversão da história de Bertrand Russell sobre Tristam Shandy, que escreve sua autobiografia de forma tão lenta que demora um ano para registrar os eventos de um único dia—que podem resultar da formação de um infinito atual por adições sucessivas. Se o universo for eterno, ele tem que ter existido exatamente por uma sequência temporal infinita deste tipo (obtida por adições sucessivas) para que chegássemos até o evento ou momento [presente]. Segue-se que a sequência temporal deve ser finita e, portanto, o universo começou a existir. O desenvolvimento deste argumento por Craig torna evidente o que é implícito em todo o argumento kalam: a pressuposição de uma teoria flexiva do tempo. Essa pressuposição se tornaria no futuro um dos principais temas de pesquisa para Craig.
Uma das contribuições de Craig para o argumento cosmológico kalam histórico é sua adição de evidências empíricas oriundas da astrofísica contemporânea para defender o começo do universo. Ele expõe duas linhas de evidências fornecidas pela cosmologia atual: a expansão do universo e as propriedades termodinâmicas do universo.
Com relação à expansão do universo, Craig explica como o modelo Big Bang de Friedman-Lemaitre baseado na aplicação cosmológica das equações de campo gravitacional de Albert Einstein em sua teoria geral da relatividade prediz uma singularidade cósmica que constitui um limite no passado para o espaço-tempo e, portanto, marca a origem absoluta do universo em um passado finito. De acordo com o modelo nada existia anteriormente à singularidade cosmológica inicial, no sentido de que é falso que qualquer coisa existiu anteriormente à singularidade; o espaço-tempo e todo seu conteúdo vieram a existência naquele ponto. Craig então examina a história de tentativas de escapar da predição de um início absoluto no modelo padrão e mostra como esses modelos alternativos se provaram insustentáveis (como o modelo do estado estacionário e os modelos de flutuações do vácuo) ou implicaram o início do universo que eles foram projetados para evitar (modelos oscilatórios, modelos inflacionários, modelos gravitacionais quânticos). Craig ressalta que o teorema de Borde-Guth-Vilenkin de 2003 requer que qualquer universo que está, na média, em estado de expansão cósmica não pode ser eterno no passado mas deve ter um ponto de limite no passado. Esse teorema, que é aplicável não apenas à modelos de multiversos inflacionários mas também à cosmologias de branas de maiores dimensões é especialmente poderoso porque ele é valido independentemente de qualquer descrição física do universo em suas fases iniciais anteriores ao tempo de Planck.