DMZ (conhecida no Brasil pelo seu título original na versão de 2007 e 2008, e por ZDM - Terra de Ninguém na versão publicada a partir de 2009) é uma série de revistas de histórias em quadrinhos pós-apocalíptica publicada pela DC Comics pelo seu selo editorial Vertigo, nos Estados Unidos entre novembro de 2005 e 2011. Escrita por Brian Wood e desenhada majoritariamente por Riccardo Burchielli, a revista contou com colaborações, na arte, do próprio Wood e de desenhistas como Kristian Donaldson e Ryan Kelly. Wood também foi responsável pela arte das capas das primeiras 34 edições, função que desde então passou a ser exercida pelo artista John Paul Leon. Seu título, a sigla para DeMilitarized Zone ("zona desmilitarizada" em inglês) refere-se à situação em que se encontra o cenário das história - a ilha de Manhattan, em Nova Iorque - após uma guerra civil eclodir nos Estados Unidos entre o governo do país e uma força secessionista conhecida como os "Estados Livres da América".IRVINE, pp.58
Concebida por Wood ainda em 2003, logo após o início da Guerra do Iraque, a série foi vista pela crítica, ao lado de Pride of Baghdad, como "a mais bem-sucedida história em quadrinhos a lidar com a Guerra no Iraque" e fez com que seu autor fosse indicado ao Eisner Award de 2008, na categoria "Melhor Escritor".
Em 2008, Wood chegou a declarar que "ficaria feliz em ver a série chegar a 60 edições" e, após escrever o roteiro da edição 35, afirmou ter planejado a série para durar cerca de 70 edições - o que realmente ocorrerá, com o encerramento da série anunciado para a 72ª edição.
Premissa
A série é situada num futuro próximo, onde os Estados Unidos da América se veem numa segunda guerra civil. Uma organização conhecida como os Estados Livres insurgiu e, uma vez que grande parte da força militar do país encontrava-se envolvida com conflitos em outros países, rapidamente se propagou. O movimento teve início em Montana, e propagou-se em direção ao leste, até chegar à Nova Iorque. Sem conseguir prosseguir, a ilha é declarada uma zona desmilitarizada e ambos os lados se retiram, uma vez que encontram-se num impasse - o exército americano não conseguia retomar a ilha e os Estados Livres não conseguiam expulsar os esforços do exército.
A ilha foi bastante esvaziada, tendo restado apenas poucos mais de habitantes - uma população composta basicamente de pessoas pobres que não foram evacuadas, snipers e militares perdidos. Wood chegou a descrever a Manhattan de DMZ como uma mistura de "partes iguais de Escape from New York, da Batalha de Faluja e de Nova Orleans devastada pelo Furacão Katrina".
É neste cenário que Matthew Roth, o protagonista, é enviado como estagiário junto de uma equipe de jornalistas para um noticiário. No entanto, quando desembarcam na ilha, são pegos numa batalha contra insurgentes. Tanto os membros da equipe quantos os militares que os estavam acompanhando são assassinados, com Matt se tornando o único jornalista no local. De porte de uma celular que lhe garante contato com a emissora, e surpreso com o fato do cotidiano da cidade ser bem diferente daquilo que o governo propagava, ele se torna o correspondente da mesma em Manhattan, dando informes sobre a verdadeira luta diária dos habitantes da ilha frente à caótica situação em que se encontram.
Quanto à situação no restante do país, Wood chegou a declarar que o objetivo da história contada em DMZ nunca foi relatar os conflitos passados ou como que a guerra civil havia chegado até aquele ponto, mas sim questionar como se lida com as consequências de um conflito que vem ocorrendo por anos e se encontra num impasse.
Os "estados livres" e a guerra contra o terror O grande mote da série é a segunda guerra civil americana. Tomando como base a "Guerra contra o Terror" defendida pelo Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, Wood imaginou um cenário no qual a política de "espalhar a liberdade" propagou-se mundo afora, com o exército se envolvendo numa série de conflitos. Tal envolvimento tomou tamanha proporção que, internamente, o país se enfraqueceu.
Ignorando os apelos de seus próprios habitantes, o governo insistiu numa mesma política externa por anos. Wood propõe que, por um período de "15, 20 anos" novos fronts foram abertos, instaurou-se um alistamente obrigatório, impostos foram aumentados, e serviços básicos começaram a ser prestados de forma precária por falta de investimentos. Com nenhum fim se aproximando, as pessoas começariam a reagir. Os "Estados Livres" foram bem-sucedidos em forçar o exército norte-americano do meio do país aos cantos dos Estados Unidos, mas detiveram-se em Nova Jérsei, às margens do Rio Hudson, com o exército norte-americano reunindo-se na área correspondente aos bairros de Queens e Brooklyn.
Cenários
O conflito alterou grande parte da ilha da Manhattan, e, no decorrer da série são mostradas as consequências do conflito frente locais notórios da cidade.
miniatura|O Edifício Flatiron é exibido na série como um local guardado por atiradores de ambos os lados do conflito, para garantir que o mesmo, considerado um marco arquitetônico da cidade, mantenha-se ileso.WOOD, Brian. BURCHIELLI, Riccardo. DMZ #5. DC Comics.
Central Park Com a maioria de suas árvores cortadas para servirem de lenha, o parque se encontra praticamente deflorestado. Um grupo conhecido como The Ghosts é responsável por patrulhar a área. Supostamente uma unidade de soldados pertencentes a uma das forças especiais que atuaram na guerra civil, seus membros teriam desertado. O grupo passou a morar dentro do zoológico do parque, patrulhando a área constantemente e tentando proteger os animais e o pouco que sobrou.WOOD, Brian. BURCHIELLI, Riccardo. DMZ #4. DC Comics.
Chinatown O asioamericanos foram largamente ignorados durante a evacuação da ilha, fazendo com que Chinatown permanecesse, ainda que à portas fechadas, um bairro largamente ocupado.WOOD, Brian. BURCHIELLI, Riccardo. DMZ #12. DC Comics.
"Ground Zero" Na décima-segunda edição, Matty diz que o "Ground Zero" - termo usado pelos novaiorquinos para se referir ao espaço de 65 000 m² deixado pela destruição do World Trade Center - é um dos "lugares mais surreais da cidade". O próprio Brian Wood o descreveu como "um lugar em que ninguém adentra, como um local sagrado". Totalmente murada, a área é controlada pelo exército dos Estados Unidos.
Meat-Packing District Esse setor da cidade é controlado pelo "Protetorado Coletivo dos Artistas Independentes" e é a partir dele que Matty começa a realizar suas reportagens, na segunda edição.WOOD, Brian. BURCHIELLI, Riccardo. DMZ #2. DC Comics.
Stuyvesant Town Um bairro fechado e relativamente seguro, "Stuy Town", como é conhecida, é considerada uma das melhores áreas da cidade para se viver, sendo dotada inclusive de um fornecimento regular de energia elétrica, ainda que por apenas uma hora a cada dia Matty consegue um apartamento no bairro, graças a um dos "Fantasmas" do Central Park.
Personagens
Matthew Roth: Um ingênuo fotojornalista que conseguiu um estágio junto à equipe de Viktor Ferguson, um ganhador do Prêmio Pulitzer que está prestes a embarcar numa viagem à Manhattan. Lá, a equipe é atacada e somente Matt sobrevive. Ele acaba se tornando o único jornalista presente na ilha. Zee Hernandez: Estudante de Medicina que ficou em Manhattan após a grande evacuaçãoWOOD, Brian. DONALDSON, Kristian. DMZ #11. DC Comics. e que, inicialmente, não confia em Matt, mas acaba se afeiçoando a ele. Wilson, uma figura notória no bairro de Chinatown, Wilson é um homem misterioso, com ligações em todas as partes do bairro, indicando ser um dos "chefões" da cidade.IRVINE, pp. 59-60 Soames, líder dos Ghosts, o grupo militar que guarda o Central Park. Kelly Connoly, uma correspondente da Independent World News, a emissora rival da Liberty News. Kelly e Matt se envolvem romanticamente durante os eventos de Body of a Journalist. Parco Delgado é um afroamericano que ascende à posição de prefeito durante a realização de eleições, no arco Blood in the Game, publicado em 2008. Sua aclamação popular e a sensação de esperança inicialmente instalada após sua eleições fizeram com que fosse comparado com Barack Obama, que no mesmo ano foi eleito Presidente dos Estados Unidos. Entretanto, histórias posteriores retratariam Delgado como um dos antagonistas da história.
Histórias publicadas 72 edições foram publicadas entre 2005 e 2011, e todas já foram reunidas em volumes encadernados, seguindo a ordem de publicação de cada arco de história. Até a edição 22, a história era focada majoritariamente no protagonista Matthew Roth, retratando o primeiro ano dele como fotojornalista na cidade, assim como certos aspectos da zona desmilitarizada, através de quatro arcos e quatro histórias contidas.
O primeiro arco, On the Ground, trata da chega de Matthew à ilha e como ele conhece Zee Hernandes e passa de um garoto apático frente aos chocantes acontecimentos ao seu redor a um fotojornalista engajado em transmitir ao mundo a vida das pessoas vivendo em Manhattan. Em seguida, foram publicadas duas histórias contidas, Ghosts, que lida com o encontro de Matt com uma suposta "lenda urbana" da cidade: um grupo de ex-militares dedicados à proteger o Central Park; e Crosstown, que mostra Matt tendo sua jaqueta e sua credenciais de imprensa sendo roubadas. Em desespero, ele sai numa perseguição através de Manhattan e, ao mesmo tempo em que são mostrados mais detalhes da cidade, aborda-se o poder simbólico que Matt, como representante da imprensa, possui.
Body of a Journalist, um arco em cinco partes publicado entre os números 6 e 10, trata da descoberta da existência de outro sobrevivente da equipe jornalística atacado durante a chegada de Matt à Manhattan. Tal revelação desencadeia uma série de eventos que incluem uma nova tentativa de tomar Manhattan por parte dos exércitos norte-americanos e Matt se desvinculando do contrato que tinha com a Liberty News, emissora que o havia enviado originalmente à ilha. Durante este arco, Matt reencontra seu pai e se envolve romanticamente com uma outra jornalista, Kelly. A edição seguinte a este arco apresenta pela primeira um artista convidado: Kristian Donaldson, que já havia trabalhado anteriormente com Brian Wood em Supermarket. A trama, intitulada Zee, NYC, é focada na história de Zee Hernandez, desde antes de Manhattan ter se tornado uma zona desmilitarizada. New York Times, publicada na 12ª edição, difere do restante da série por apresentar-se de forma semelhante a uma revista, com artigos sobre a DMZ e seus habitantes, incluindo dicas de livros e entrevistas. A edição foi totalmente escrita e desenhada por Brian Wood e estava prevista para ser a primeira de uma série de histórias anuais que viriam a ser publicadas, mas o volume de trabalho decorrente de escrever as séries pelas quais Wood era responsável fez com que esta se tornasse a única de seu gênero.
Public Works e Friendly Fire foram publicados nas edições seguintes. Enquanto Public Works lidou com a presença da Trustwell, uma empresa dedicada à reconstrução de porções da cidade, refletindo as controvérsias envolvendo a empresa real Halliburton na reconstrução do Iraque, Friendly Fire, especificamente, detalhou forneceu maiores detalhes acerca de eventos ocorridos antes do início da história, como a tragédia do Dia 204, em que 198 civis foram assassinados durante uma fracassada incursão do exército americano na cidade, no 204º dia do conflito.
Da edição 23 à 28, entretanto, Wood escreveu apenas histórias contidas, intituladas The Hidden War, cada uma das histórias é centrada num diferente personagem e foram em sua maioria desenhadas por Riccardo Burchielli:
23: Decade Later: Grafiteiro que planeja usar sua arte de guerrilha para realizar um "grande plano": uma performance comparável às realizadas pelos grafiteiros da cidade na década de 1970.