O Missal Romano () é o livro litúrgico que contém os textos e rubricas para a celebração da missa no Rito Romano da Igreja Católica.
História
Antes do Concílio de Trento (1570) Antes da alta Idade Média diversos livros eram utilizados na missa: um Sacramentário com as orações católicas, um ou mais livros para a liturgia da palavra, e um ou mais livros para as antífonas e demais cantos. Gradualmente, foram surgindo manuscritos que incorporavam partes de mais de um destes livros, levando, finalmente, às versões completas. O resultado disto acabou por chamar-se Missale Plenum ().
Em 1223, São Francisco de Assis instruiu os seus frades a adotar a forma que estava em uso na corte papal. Eles adaptaram o missal para as necessidades do seu apostolado itinerante. O papa Gregório IX ponderou, mas não pôs em prática, a ideia de estender este missal, conforme a revisão franciscana, para toda a Igreja Ocidental; em 1227 o papa Nicolau III ordenou que este fosse aceito em todas as igrejas da cidade de Roma. O seu uso espalhou-se pela Europa, principalmente após a invenção da prensa móvel; porém os editores introduziam variações oriundas de suas próprias preferências, algumas delas consideráveis. A imprensa também favoreceu a propagação de outros textos litúrgicos de ortodoxia suspeita. O Concílio de Trento determinou que um fim deveria ser posto à estas disparidades.
O primeiro Missale Romanum (Missal Romano), contendo a Ordo Missalis secundum consuetudinem Curiae Romanae (Ordem do Missal segundo o costume da Cúria Romana), foi produzido em Milão em 1474. Quase um século passou-se antes de uma edição oficialmente publicada pela Santa Sé. Durante este intervalo, a edição milanesa de 1474 foi sucedida por pelo menos quatorze edições: dez impressas em Veneza, três em Paris e uma em Lyon.Manlio Sodi and Achille Maria Triacca, Missale Romanum: Editio Princeps (1570) (Vatican City: Libreria Editrice Vaticana, 1998), p. XV Por falta de uma autoridade controladora, estas edições diferem, por vezes consideravelmente.
Anotações à mão efetuadas pelo cardeal Guglielmo Sirleto numa cópia da edição veneziana de 1494Missale secundum morem Sanctae Romanae Ecclesiae (Missal in line with the use of the Holy Roman Church) mostram que ela foi utilizada para a confecção da edição oficial de 1570 do papa Pio V. Em essência, o texto de 1494 é idêntico à versão milanesa de 1474.
De 1570 a 1960 thumb|250px|"Missale Romanum": Versão impressa em 1911 da edição típica de 1884 Implementando a decisão do Concílio de Trento, o papa Pio V promulgou, na Constituição Apostólica Quo Primum Tempore de 14 de julho de 1570, uma edição do Missal Romano de uso obrigatório na Igreja Latina, exceto onde houvesse outros ritos litúrgicos que pudessem ser comprovados em uso há pelo menos dois séculos.
Algumas correções ao texto de Pio V provaram-se necessárias, e o papa Clemente VIII substituiu-o com uma nova edição típica do Missal Romano em 7 de julho de 1604. (Neste contexto, a palavra "típica" indica o texto que deve ser seguido pelas demais impressões.) Outra revisão da edição típica foi promulgada pelo papa Urbano VIII em 2 de setembro de 1634.
Começando no final do século XVI, a França e os países vizinhos sofreram com uma enxurrada de missais independentes publicados por bispos influenciados pelo Galicanismo e pelo Jansenismo. Isto findou-se quando o bispo Pierre Louis Parisis de Langres e o abade Prosper Guéranger iniciaram, no século XIX, um movimento de retorno ao Missal Romano. O papa Leão XIII então, tomou a oportunidade de emitir, em 1884, uma nova edição típica, que considerava todas as mudanças introduzidas desde o pontificado de Urbano VIII. O papa São Pio X também empreendeu uma revisão do Missal Romano, publicado e declarado típico por seu sucessor, Bento XV, em 25 de julho de 1920.
thumb|310px|Um livro de orações francês de 1905 contendo extratos do Missal Romano e do Breviário Romano da época Ainda que a revisão do papa São Pio X efetuou poucas correções, omissões ou adições ao texto das orações do Missal Romano, houve grandes mudanças nas rubricas. Mudanças estas que não foram incorporadas na secção intitulada "Rubricae Generalis", mas foram, em vez disso, publicadas sob o título "Additiones et variationes in rubricis Missalis".
Em contraste, a revisão do papa Pio XII, ainda que limitada a somente cinco dias do ano litúrgico, foi mais corajosa, exigindo mudanças até mesmo no Código de Direito Canónico, que até então prescrevia que, com exceção da Missa do Galo à meia-noite, a missa não deveria começar mais do que uma hora antes do alvorecer ou mais tarde que uma hora após o meio-dia. Portanto, na parte do Missal meticulosamente modificada, ele antecipou algumas das mudanças que afetariam todos os dias do ano após o Concílio Vaticano II. Dentre estas novidades incluíam a primeira introdução oficial das línguas vernáculas na liturgia para a renovação das promessas do batismo durante a celebração da Vigília Pascal.
O papa Pio XII não publicou uma nova edição do Missal Romano, mas autorizou os tipógrafos a substituir os textos anteriores do Domingo de Ramos, Quinta-feira Santa, Sexta-feira da Paixão e da Vigília Pascal com aqueles que ele começou a introduzir em 1951 e que se tornaram universalmente obrigatórios em 1955.Decree Maxima redemptionis nostrae mysteria (Acta Apostolicae Sedis 47 (1955) 838-847 O papa também removeu da Vigília de Pentecostes a série de seis leituras do Antigo Testamento, com seus respectivos folhetos e coletas de acompanhamento, mas estes continuaram a ser impressos até 1962.
Cedendo aos desejos de muitos dos bispos, o papa Pio XII julgou ser conveniente reduzir as rubricas do Missal, uma simplificação foi promulgada por decreto pela Sagrada Congregação dos Ritos em 23 de março de 1955.
No ano seguinte, em 1956, enquanto estudos preparatórios estavam a ser conduzidos para uma reforma litúrgica geral, o papa Pio XII consultou a opinião dos bispos sobre um aperfeiçoamento litúrgico do Breviário Romano. Após a devida ponderação das respostas dos bispos, ele julgou ser hora de abordar a necessidade de uma geral e sistemática revisão das rubricas do Breviário e do Missal. Esta questão foi referida ao comité especial de especialistas apontados para estudar a reforma litúrgica geral.
O seu sucessor, o papa São João XXIII, emitiu uma nova edição típica do Missal Romano em 1962. Esta incorporou o Código de Rubricas que a comissão do papa Pio XII havia preparado, e que o papa São João XXIII tornou obrigatório a partir do dia 1 de janeiro de 1961. No Missal, este Código de Rubricas substituiu dois dos documentos da edição de 1920; e o motu proprio do papa Rubricarum Instructum tomou o lugar da suplantada constituição apostólica Divino Afflatu do papa São Pio X.
Outras notáveis revisões foram a omissão do adjetivo "Perfidis" na oração pela conversão dos judeus na Sexta-feira da Paixão e a inserção do nome de São José no cânon da missa.
Revisão em decorrência do Concílio Vaticano II Entre 1965 e 1967 algumas mudanças foram oficialmente introduzidas à Missa do Rito Romano em decorrência do documento Sacrosanctum Concilium, mas nenhuma nova edição do Missal Romano havia sido produzida de modo a incorporar tais mudanças. Estas alterações foram refletidas nas provisórias traduções em vernáculo confeccionadas em vários países quando as línguas locais começaram a ser utilizadas em conjunto com o Latim. Alguns países de mesma língua por vezes acabaram por usar distintas traduções que variavam até mesmo na quantidade de vernáculo admitido.
Uma nova edição do Missal Romano foi promulgada pelo papa São Paulo VI com a constituição apostólica Missale Romanum de 3 de abril de 1969. O texto inteiro do Missal revisado só foi publicado no ano seguinte, e versões completamente em vernáculo só surgiriam anos mais tarde, mas partes do Missal em Latim já estavam disponíveis desde 1964 em formato não-definitivo, e traduções provisórias surgiram sem demora.
Em sua constituição apostólica, o papa São Paulo VI fez menção particular das seguintes mudanças significativas que ele efetuou no Missal Romano: Além da única Oração Eucarística da edição anterior (que, com parvas mudanças, foi preservada como "Oração Eucarística I ou Cânon Romano") ele acrescentou outras três Orações Eucarísticas, aumentando também o número de prefácios. Os ritos do Ordinário da Missa (em Latim, Ordo Missae)—isto é, a majoritariamente imutável parte da liturgia—foram "simplificados, embora o devido cuidado foi tomado para preservar a sua substância." "Elementos que, com o passar do tempo, tornaram-se duplicados, ou foram adicionados desnecessariamente" foram eliminados, especialmente nos ritos para a preparação do pão e do vinho, o partir do pão e a Comunhão. "'Outros elementos que sofreram prejuízo por acidentes da História agora devem ser restaurados à norma original dos Santos Padres' (Sacrosanctum Concilium, art. 50), Por exemplo, a homilia (cf. Sacrosanctum Concilium, art. 52) E a 'Oração Comum' ou 'Oração dos Fiéis' (cf. Sacrosanctum Concilium, art. 53)."Missale Romanum. As referências internas ao Sacrosanctum Concilium são referentes à Constituição do Concílio Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia. São Paulo VI também adicionou a opção de "um rito penitencial ou ato de reconciliação com Deus e os irmãos, ao início da missa," ainda que isto não fizesse parte nem das versões antigas dos Ritos Iniciais, nem estivesse presente no Sacrosanctum Concilium. Ele ampliou grandemente a proporção da Bíblia lida na missa. Mesmo antes de Pio XII reduzir ainda mais a porcentagem, somente 1% do Antigo Testamento e 16.5% do Novo Testamento eram lidos na missa. Após a revisão do papa São Paulo VI, aproximadamente 13.5% do Antigo Testamento e 71.5% do Novo Testamento são lidos. Ele conseguiu realizar isto acrescentando leituras à missa e introduzindo um ciclo trienal de leituras aos domingos e um ciclo bienal nos dias de semana.
Além destas mudanças, o papa notou que sua revisão modificou consideravelmente outras secções do Missal, como o Próprio do Tempo, o Próprio dos Santos, o Comum dos Santos, as Missas Rituais e as Missas Votivas, dizendo: "Em todas estas alterações, tivemos cuidado em particular com as orações: não apenas seu número foi aumentado, para que os novos textos possam corresponder melhor às novas necessidades, mas também seu texto foi restaurado com base no testemunho das evidências mais antigas."
Revisões Posteriores ao Concílio Vaticano II Em 1970, a Primeira Edição Típica do Missal Romano (em Latim), contendo o título de Missale Romanum ex decreto Sacrosancti Oecomenici Concilii Vaticani II instauratum, foi publicada, após ter sido formalmente promulgada pelo papa São Paulo VI no ano anterior. Uma reimpressão, que corrigiu erros tipográficos, surgiu em 1971.
A Segunda Edição Típica, com pequenas mudanças, foi emitida em 1975, ainda sob o papa São Paulo VI.
Em 2000, o papa São João Paulo II aprovou a Terceira Edição Típica, publicada em 2002, em Latim. A Terceira Edição adicionou festas, especialmente de santos recém-canonizados, novos prefácios das Orações Eucarísticas, missas e orações adicionais para variadas necessidades e revisou e ampliou a Instrução Geral do Missal Romano.
Em 2008, sob o papa Bento XVI, uma reimpressão emendada da Terceira Edição em latim foi emitida, corrigindo falhas de impressão e outros erros (como a inserção, no início do Credo Apostólico, do vocábulo "unum", como no Credo Niceno). O apêndice adicionou celebrações, como a de São Pio de Pietrelcina, ao Calendário Romano Geral após a impressão original de 2002.
Três alterações exigiram a aprovação pessoal do papa Bento XVI: Uma mudança na ordem em que um bispo, celebrando missa fora de sua própria diocese, menciona o bispo local e a si próprio. Omissão do Missal Romano das Orações Eucarísticas especiais para missas com crianças (que não foram abolidas).