O transtorno de personalidade esquizoide (TPE ou TPEZ) é um transtorno de personalidade caracterizado por falta de interesse em relações sociais, tendência a um estilo de vida solitário, frieza emocional e apatia. Indivíduos afetados podem ser incapazes de formar vínculos íntimos com outros e simultaneamente possuir uma rica e elaborada, mas exclusivamente interna, atividade imaginária ou demonstrarem uma criatividade significativa.

Embora os termos sejam parecidos, o TPE não é o mesmo que esquizofrenia, apesar de a prevalência do transtorno ser maior em famílias com casos de esquizofrenia, e de ambos terem características em comum, como distanciamento e embotamento afetivo. Alguns psicólogos argumentam que a definição de TPE é inválida devido à presença de um viés cultural.

Outras características comuns incluem discursos pedantes, uma falta de satisfação motriz na maioria das atividades, sentir-se mais como "observador" em vez de um participante na vida, inaptidão de tolerar expectativas emocionais dos outros, indiferença aparente quando elogiado ou criticado, um certo grau de assexualidade, e crenças políticas ou morais idiossincráticas.

Critérios de diagnóstico O diagnóstico é baseado nas experiências reportadas pelo paciente, como também marcadores do transtorno observados por um profissional da saúde mental.

Critérios do DSM-IV

A versão IV-TR do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV) — o guia americano amplamente usado por médicos à procura de um diagnóstico de doenças mentais — definia o TPE como "um padrão invasivo de distanciamento de relacionamentos sociais e uma faixa restrita de expressão emocional em contextos interpessoais, [que] começa no início da idade adulta e se apresenta em variados contextos".

Os critérios são (pelo menos quatro):

Não deseja e nem aprecia relações íntimas, incluindo ser parte de uma família. Quase sempre escolhe atividades solitárias. Tem pouca, se alguma, vontade de ter relações sexuais com outra pessoa. Tem prazer em poucas atividades, se alguma. Falta de amigos íntimos ou confidentes que não sejam parentes de primeiro grau. É indiferente às críticas ou elogios. Mostra frieza emocional, distância ou afetividade limitada.

Para o DSM-5, publicado em 2013, foi decidido que o critério de diagnóstico se mantenha idêntico.

Critérios da CID-10

A CID-10 da Organização Mundial de Saúde define o TPE de forma muito semelhante ao DSM-IV. Segundo a CID-10, são necessários pelo menos 4 destes sintomas:

Tem prazer em poucas atividades, se alguma. Mostra frieza emocional, distância ou afetividade limitada. Capacidade limitada para expressar tanto sentimentos de calor e ternura como de ira para com outras pessoas Aparente indiferença às críticas ou elogios. Pouca vontade de ter relações sexuais com outra pessoa (atendendo à idade) Quase sempre escolhe atividades solitárias. Preocupação excessiva com fantasia e introspecção. Falta de amigos íntimos ou confidentes (ou apenas um) e de desejo de os ter Marcada insensibilidade às normas e convenções sociais estabelecidas

Exclui: Síndrome de Asperger, transtorno delirante, transtorno esquizoide da infância, esquizofrenia e transtorno de personalidade esquizotípica

Critérios de diagnóstico dinâmico

Ralph Klein observou de maneira diversa as crenças comuns sobre esquizoides focadas principalmente no seu aparente desinteresse em relacionamentos. Esclarecendo as causas e condições por trás das características acima, Klein descreveu as cismas no tocante aos relacionamentos com os esquizoides. A separação envolve: (1) o relacionamento "escravo/mestre": caracterizado por exploração, apropriação, e desumanização; e (2) o "Eu em exílio:" o desagradável recuo do relacionamento explorador em que o Eu vai para o exílio. O Eu distante ou sem capacidade de resposta em exílio é o aspecto mais comum e reconhecido do esquizoide. Como Klein declara: "[o] aparente desapego dos sentimentos nunca deve ser aceito como o estado verdadeiro desses casos."

De particular importância é a correlação entre o transtorno narcisista e o esquizoide. Por exemplo, o "se achar com bastante direito" do narcisista em uma família pode resultar no inverso no irmão esquizoide. E também o repúdio do narcisista que é frequentemente absorvido pelo (ou projetado no) esquizoide; assim gerando um sentimento de invasão física, e o desenvolvimento de uma sensação de vulnerabilidade a ingerência. Paradoxalmente, um esquizoide pode ser atraído por relacionamentos exploradores em que anseiam experimentar algo significante, bem como reconhecimento por atender ao desejo de outro. Mas ao mesmo tempo esta pessoa pode estar bastante ciente de quaisquer métodos de corrupção ou exploração fora deste relacionamento. Nessa abordagem o diagnóstico é baseado na dinâmica dessa separação e suas consequências, ao contrário do diagnóstico baseado em uma lista de comportamentos exteriores.

Critérios de Guntrip

Ralph Klein, Diretor Clínico do Instituto Masterson, define as seguintes nove características da personalidade esquizoide como descritas por Harry Guntrip: introversão, reclusão, narcisismo, autossuficiência, uma sensação de superioridade, perda de afeto, isolamento, despersonalização e regressão psicológica.; todas as citações de Guntrip nesta seção são trechos de

Introversão Segundo Guntrip, "Na acepção do termo, o esquizoide é descrito como desligado da realidade do mundo exterior em um sentido emocional. Todos os seus impulsos instintivos e esforços são direcionados intimamente perante objetos internos e ele vive uma vida interior intensa que normalmente se revela de uma surpreendente abundância de fantasia e imaginação quando isso se torna acessível mediante observação. Embora a maior parte da sua vida fantasiosa e variada seja levada adiante secretamente, à distância." O indivíduo esquizoide está desligado da realidade exterior a tal nível que ele ou ela sente que a mesma é perigosa. É uma resposta humana natural fugir de fontes de perigo e se voltar àquelas mais seguras. O esquizoide, portanto, está preocupado primeiramente em evitar o perigo e em garantir segurança.

Reclusão Segundo Guntrip, a reclusão significa desapego do mundo exterior, o outro lado da introversão. Embora existam vários esquizoides que demonstram óbvia reclusão (uma timidez óbvia e evidente, relutância, ou evitação do mundo externo e relações interpessoais), isto define apenas uma pequena parcela de tais indivíduos. Várias pessoas fundamentalmente esquizoides se apresentam com um estilo de personalidade engajada, interativa.

Tal pessoa pode parecer disponível, interessada, engajada, e envolvida em interações com outros; porém, na verdade, ele ou ela está emocionalmente recluso e confinado em um lugar seguro em um mundo interno. Embora a reclusão ou desapego do mundo exterior seja um traço característico da patologia esquizoide, é às vezes explícita ou encoberta. Quando é explícita se encaixa na descrição habitual da personalidade esquizoide. E também frequentemente, é um estado interno oculto e velado do paciente.

Em suma, (1) o que é capturado pelo olhar objetivo pode não ser o que esteja presente no mundo subjetivo e interno do paciente; (2) não se deve confundir introversão por indiferença; e (3) não se deve identificar erroneamente o paciente esquizoide por não se conseguir visualizar a floresta de reclusão do mesmo através das árvores da interação defensiva, compensatória e engajada com a realidade externa.

Narcisismo Guntrip: "Narcisismo é um traço característico que se origina da vida interior predominante dos esquizoides. Seus objetos queridos estão todos no seu íntimo e além disso ele se identifica enormemente com eles de modo a seus apegos instintivos pareçam estar contidos em si mesmo. A pergunta, no entanto, é se a vida interior intensa do esquizoide se deve a um desejo por uma ardente incorporação de objetos externos ou devido à reclusão do mundo exterior para um interno que se imagina ser mais seguro." A necessidade por apego como uma motivação principal é tão forte na pessoa esquizoide como em qualquer outro ser humano. Porém, devido aos objetos queridos do esquizoide serem internos, ele ou ela encontra segurança sem se conectar ou apegar aos objetos no mundo real.

Auto-suficiência Guntrip escreve que "Essa autossuficiência narcisista e introvertida, que se mantém sem relacionamentos externos verdadeiros enquanto todas as relações emocionais são realizadas num mundo interno, é uma cautela contra a ansiedade se manifestando na lida com pessoas de fato." Quanto mais os esquizoides podem confiar em si mesmos, menos eles precisam confiar nos outros ou se expor aos perigos potenciais e ansiedades associadas com essa confiança ou, ainda pior, dependência. A grande maioria dos indivíduos esquizoides demonstram uma enorme capacidade de autossuficiência, pela habilidade de funcionar sozinhos, independentes e autônomos, em gerenciar seus mundos.

Sensação de superioridade Guntrip especifica que "uma sensação de superioridade acompanha naturalmente a autossuficiência. A pessoa não precisa das outras, elas podem ser dispensadas… e isso normalmente acompanha o sentimento de ser diferente das demais." O sentimento de superioridade do esquizoide não tem nada a ver com a arrogância própria do transtorno narcisista. Não encontra terreno no esquizoide através da necessidade de desvalorizar ou aniquilar outros que são tidos como ofensivos, críticos, insultuosos, ou humilhantes. Este tipo de superioridade foi descrita por um jovem esquizoide: "Se eu sou superior aos outros, se estou acima deles, não preciso deles. Quando eu digo que estou acima dos outros, não significa que eu me ache melhor que eles, e sim que estou distante dos mesmos, a uma distância segura." É um sentimento de estar horizontalmente (ao invés de verticalmente) distante.

Perda da afetividade De acordo com Guntrip, "A perda da afetividade em situações externas é uma parte inevitável de todo o retrato." Devido ao tremendo investimento feito em si da necessidade de estar autocontido, autossuficiente e independente — há uma inevitável interferência no desejo e habilidade de sentir a experiência do próximo, de ser empático e sensível. Normalmente estas coisas parecem secundárias, um luxo que precisa aguardar até que seja assegurada a posição defensiva e segura do indivíduo. A experiência subjetiva é aquela da perda da afetividade.

Para alguns pacientes, a perda de afeto está presente em tal nível que a insensitividade se manifesta ao extremo como cinismo, insensibilidade, ou até mesmo crueldade. O paciente parece não ter ciência de como seus comentários ou atos afetam e machucam outras pessoas. Mais frequentemente, a perda de afeto é manifestada no íntimo do paciente como genuína confusão, uma sensação de que algo está faltando na sua vida emocional.

Isolamento Segundo Guntrip, "O isolamento é um resultado inevitável da introversão esquizoide e da abolição de relacionamentos interpessoais. Se revela em um intenso desejo de amizade e amor que repetidamente se rompeu. A solidão no meio da multidão é a experiência do esquizoide desligado de uma harmonia emocional." Essa é uma experiência central do esquizoide que é normalmente despercebida pelo observador. Ao contrário da caricatura familiar do esquizoide como frio e insensível, a vasta maioria deles que se tornam pacientes expressam em algum momento no tratamento o desejo de amizade e amor. Este não é o paciente esquizoide descrito nos DSMs. Tal desejo, porém, pode não se revelar exceto na vida fantasiosa do esquizoide, na qual o terapeuta pode não ter acesso concedido por um longo período no tratamento. Se tal desejo é imediatamente presente, no entanto, é mais provável que seja o transtorno de personalidade esquiva.