A rã-sino-verde-e-dourada (Litoria aurea) é uma rela terrestre endémica do este da Austrália. Pode chegar aos 11 centímetros de comprimento, o que a torna numa das maiores espécies de rã da Austrália.
Muitas populações, particularmente na região de Sydney, habitam áreas frequentemente perturbadas, tais como campos de golfe, zonas industriais abandonadas e aterros. Apesar de já ter sido a rã mais comum do sudeste australiano, a rã-sino-verde-e-dourada tem vindo a sofrer declínio populacional, levando a que o seu actual estado de conservação seja classificado como vulnerável. O número de indivíduos tem continuado a decrescer e as principais ameaças são a perda de habitat, poluição, espécies exóticas, parasitas e patogénicos, incluindo um fungo da divisão Chytridiomycota, Batrachochytrium dendrobatidis.
Taxonomia O nome comum, rã-sino-verde-e-dourada, foi primeiro adoptado por Harold Cogger no seu livro Reptiles & Amphibians of Australia publicado em 1975. Antes disso, os seus nomes comuns eram "rã-dourada" e "rela-dourada". Esta espécie tem muitas características físicas e comportamentais características dos ranídeos; daí a sua classificação original como parte do género Rana. Estas características são: focinho comprido, pernas compridas, membranas entre os dedos quase completas; o tímpano é grande e distinto; e a forma geral do corpo é bastante parecido com muitas das espécies de Rana. Tal como muitas espécies de Rana, a rã-sino-verde-e-dourada é maioritariamente aquática, e só se desloca em terra durante períodos de grandes chuvas. Foi removida do género Rana por diferenças anatómicas com a família Ranidae. Formações estruturais dos ossos e cartilagens desta espécie são mais próximas das presentes em espécies da família Hylidae, e por isso foi reclassificada.
A rã-sino-verde-e-dourada foi descrita pela primeira vez em 1827 como Rana aurea por Lesson. Desde então, a sua classificação mudou 20 vezes, sendo chamada Litoria aurea pela primeira vez em 1844 por Günther, e mudando de nome mais nove vezes antes de voltar a chamar-se Litoria aurea.
O epíteto específico aurea vem do Latim aureus que significa 'dourado'. Hoje em dia, a espécie está classificada dentro do complexo de espécies Litoria aurea, que é um grupo de espécies relacionadas dentro do género Litoria.Mahony, p. 82. Este complexo encontra-se espalhado pela Austrália: três espécies no sudeste, uma no norte e duas no sudoeste. O complexo, para além da rã-sino-verde-e-dourada (Litoria aurea), é composto pelas espécies Litoria raniformis, Litoria castanea, Litoria dahlii, Litoria cyclorhynchus e Litoria moorei. A distribuição de L. raniformis e L. castanea está sobreposto com o da rã-sino-verde-e-dourada; isto, juntamente com semelhanças físicas, fazem com que seja difícil distinguir estas espécies umas das outras. Litoria castanea já não é avistada desde 1980 e pode estar extinta, apesar de ter umas pintas amarelas grandes nas suas coxas que ajudam a distinguir da rã-sino-verde-e-dourada. A L. raniformis, apesar de ser bastante semelhante à rã-sino-verde-e-dourada, pode ser facilmente identificada por ter pequenos 'tubérculos' nas suas costas.
Distribuição thumb|left|220px|A distribuição histórica (cinzento) e actual (preto) da rã-sino-verde-e-dourada thumb|right|140px|A distribuição de L. aurea na Nova Zelândia. A rã-sino-verde-e-dourada é endémica do sudeste da Austrália. Antes do declínio das suas populações, a sua área de distribuição ia desde Brunswick Heads, no norte da Nova Gales do Sul, até East Gippsland, em Victoria,Gillespie G.R. 1996. "Distribution, habitat and conservation status of the Green and Golden Bell Frog Litoria aurea (Lesson, 1829) (Anura: Hylidae) in Victoria." Australian Zoologist 30: 199–207. e até Bathurst, Tumut a Oeste.Osborne W.S., Littlejohn M.J. and Thomson S.A. 1996. "Former distribution and apparent disappearance of the Litoria aurea complex from the Southern Tablelands of New South Wales and the Australian Capital Territory." Australian Zoologist 30: 190–198.
A distribuição actual vai agora desde Byron Bay, na Nova Gales do Sul, até East Gippsland, em Victória; estando as populações limitadas a zonas ao longo da costa. Na Nova Gales do Sul, tem sofrido um declino acentuado quer em território quer em abundância desde a década de 60, apesar de não ter sido assinalado declínio semelhante em Victória. Na Nova Gales do Sul, desapareceu das zonas acima dos 250 metros de altitude, exceptuando uma população em Captains Flat. Um estudo das populações costeiras da Nova Gales do Sul indicou que muitas populações são muito pequenas, normalmente com menos que 20 adultos. Mas há seis populações conhecidas com mais de 300 rãs.White A.W. and Pyke G.H. 1996. "Distribution and conservation status of the Green and Golden Bell Frog Litoria aurea in New South Wales." Australian Zoologist 30 (2): 177–189. Estima-se que a rã-sino-verde-e-dourada desapareceu de cerca de 90% da sua área de distribuição original.
A rã-sino-verde-e-dourada ainda permanece em algumas áreas de Sydney, tais como no Parque Olímpico de Sydney (onde pretendiam construir os campos de ténis para os Jogos Olímpicos de Sydney). Quando a rã-sino-verde-e-dourada foi encontrada nesse local, os campos de ténis foram construídos noutro lugar, e a população tem sido monitorizada desde então. A rã-sino-verde-e-dourada tornou-se a mascote não-oficial da área de Homebush Bay.
A rã-sino-verde-e-dourada também existe em duas ilhas ao largo da costa leste da Austrália: Ilha Broughton ao largo de Port Stephens e na Ilha Bowen em Jervis Bay. Foi introduzida na Nova Zelândia, onde é comum, e nas Ilhas do Pacífico da Nova Caledónia e nas Novas Hébridas (Vanuatu).Pyke and White, p. 567.
Descrição thumb|right|230px|Uma rã-sino-verde-e-dourada com coloração escura. A rã-sino-verde-e-dourada é uma rã grande e robusta; os adultos medem de 4,5 até 11 centímetros de comprimento; indivíduos típicos medem de 6 a 8 centímetros. A rã-sino-verde-e-dourada é por isso uma das maiores rãs australianas. Machos adultos são geralmente menores que as fêmeas, e a cor do dorso é muito diferente das fêmeas. Pode ser completamente verde; pode ter manchas que vão desde o verde-escuro até esmeralda brilhante; verde com marcas metálicas, bronzeada, ou dourada; ou completamente bronzeadas. Durante os meses mais frios (Maio-Agosto), quando as rãs-de-sino-verde-e-dourado estão inactivas, a coloração pode escurecer até quase chegar a preto.
Estes animais possuem uma risca creme-clara ou amarelo-pálido, com margem dourada em cima e preta em baixo, que se estende desde a parte de trás do olho, através do tímpano e até à cinta. Uma outra risca da mesma cor parte debaixo do olho até ao ombro. A barriga é bege ou branca, e tem uma textura granulada. As pernas são verdes, bronze ou uma combinação das duas, e a parte interna das coxas são verde-azulado. Machos adultos desenvolvem uma coloração amarelada no saco vocal na garganta. A pupila está restringida a uma fenda horizontal e a íris é castanho-dourada com uma risca preta que vai desde o canto da pupila até aos limites horizontais do olho. O tímpano é bem diferenciado e de forma ovular. Esta espécie possui discos nos dedos dos pés que ajudam a escalar. Os dedos das mãos não possuem membranas interdigitais, ao contrário dos dedos dos pés que tem membranas completas. Quando em condições de acasalar, os machos desenvolvem 'tubérculos' nupciais nos polegares, que usam para agarrar as fêmeas durante o acasalamento.
Ecologia e comportamento thumb|240px|right|Uma rã-sino-verde-e-dourada camuflada em juncos. Sendo um membro da família das relas (pererecas), a rã-sino-verde-e-dourada passa muito tempo em pedras e juncos a apreciar o sol. Ao contrário da maioria das espécies de rã, está muitas vezes ativa durante o dia. Quando manuseada, esta espécie segrega um muco irritante e viscosoBarker, J.; Grigg, G.C.; Tyler, M.J. (1995) Surrey Beatty & Sons.. A Field Guide to Australian Frogs - The Litoria aurea complex, p.99. que consiste de 17 péptidos "aureíanos". Treze destes têm actividade anticancerígena e são antibióticos de largo espectro, o que é útil para combater microorganismos patogénicos.
A rã-sino-verde-e-dourada está normalmente associada a pântanos costeiros e florestas; mas algumas populações também já foram encontradas em zonas industriais abandonadas. Os requisitos necessários para o habitat desta espécie têm sido difíceis de determinar, porque têm sido encontrados numa gama variada de pontos de água exceptuando riachos com correntes fortes. O habitat típico consiste em charcos temporários de água doce, de água parada, baixa profundidade, sem sombra e sem poluição; também tende a evitar água com peixes predadores, quer sejam endémicos ou introduzidos. Esta rã prefere pontos de água com vegetação emergente tais como juncos, para se apoiarem. O habitat de Inverno consiste em refúgios disponíveis à volta do local de reprodução. Habitats herbáceos estão usualmente próximos, providenciando zonas de alimentação terrestre apropriados.
A reprodução da rã-sino-verde-e-dourada depende da salinidade e temperatura da água. A salinidade afecta o desenvolvimento e a metamorfose dos girinos, e a reprodução geralmente só ocorre em charcos a 20 °C ou superior. Os girinos da rã-sino-verde-e-dourada podem tolerar níveis de salinidade de 0,6% sem efeitos aparentes, enquanto que salinidade de 0,8% ou mais diminui a taxa de crescimento e aumenta a mortalidade. Por outro lado, níveis de salinidade de 0,1 a 0,2 % podem ser bons para a rã-sino-verde-e-dourada porque mata agentes patogénicos como fungos.
Os adultos são vorazes e têm uma dieta variada, incluindo insectos e outras rãs, incluindo rãs da mesma espécie. Os girinos alimentam-se de detritos, algas e bactérias. Os seus predadores naturais incluem aves e cobras, e podem ser comidos por tartarugas, enguias e outros peixes, e uma variedade de predadores invertebrados.
Reprodução A rã-sino-verde-e-dourada reproduz-se nos meses mais quentes desde outubro até março. Durante este período, os machos chamam as fêmeas enquanto flutuam na água. Em média 5000 ovos são depositados na vegetação aquática, numa massa gelatinosa. O tamanho máximo de uma destas massas alguma vez observado é de 11.682 ovos.van de Mortel, T.F. and Goldingay, R. 1996. "Population assessment of the endangered Green and Golden Bell Frog Litoria aurea at Port Kembla, New South Wales." Australian Zoologist. 30(4):398–404. Inicialmente, a massas flutuam, mas afundam-se passadas no máximo 12 horas depois de serem depositadas, ou quando a água é perturbada. Dois a três dias depois, os girinos nascem e irão sofrer metamorfose passados 2 a 11 meses, dependendo da temperatura da água e da disponibilidade de comida.Daly, G. 1995. "Observations on the Green and Golden Bell-Frog Litoria aurea (Anura: Hylidae)." Herpetofauna. 25(1):2–9. A reprodução ocorre em significativamente mais locais onde não se encontram peixes predadores, e em massas de água temporárias ao invés de permanentes. No entanto, em Victória, foram registadas populações que se reproduzem indiferentemente em charcos permanentes tal como em temporários.
Os girinos são grandes, chegando aos 8 centímetros de comprimento, mas o tamanho varia bastante; girinos mais pequenos são mais comuns. O corpo é normalmente tão largo como alto. A pele é amarela translúcida com zonas mais escuras no abdómen. Logo antes da formação dos membros, o girino desenvolve a coloração típica dos adultos. Juvenis em metamorfose são semelhantes aos adultos e medem cerca de 2,6 centímetros de comprimento.
Estado de conservação