Carolina Maria de Jesus (Sacramento, 14 de março de 1914 – São Paulo, 13 de fevereiro de 1977) foi uma escritora, cantora, compositora e poetisa brasileira. Uma das primeiras escritoras negras do Brasil, De Jesus é considerada uma das mais importantes escritoras do país, de tal modo que sua obra e vida permanecem objetos de diversos estudos, tanto no Brasil quanto no exterior.

De Jesus viveu boa parte de sua vida na favela do Canindé, atualmente um bairro da Zona Central de São Paulo, sustentando a si mesma e seus três filhos trabalhando como catadora de papéis.

Sua fama nasceu a partir da publicação do seu primeiro livro: Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada publicado em 1960, que se tornou um best-seller logo no seu lançamento, tendo vendido 10 mil exemplares em apenas uma semana. Foi traduzido para treze idiomas e distribuído por mais de quarenta países.

Biografia Primeiros anos e juventude De Jesus nasceu em 14 de março de 1914, na cidade de Sacramento, em Minas Gerais, numa comunidade rural. Oriunda de família muito humilde, que migrou para a cidade no início das atividades pecuárias na região. Aos sete anos, começou a frequentar o Colégio Allan Kardec, mas interrompeu os estudos no segundo ano, já tendo aprendido a ler e a escrever e desenvolvido o gosto pela leitura.

De Jesus morou em Sacramento até 1930, quando se mudou com a mãe para a cidade de Franca, cidade do estado de São Paulo localizada a 100 km de Sacramento. Ali trabalhou como empregada doméstica, permanecendo na cidade até 1937.

Mudança para a favela do Canindé Em 1937, sua mãe morreu e ela se viu impelida a migrar para a metrópole de São Paulo. Ao chegar à cidade, conseguiu emprego na casa do notório cardiologista Euryclides de Jesus Zerbini, precursor da cirurgia de coração no Brasil, o que permitia a De Jesus a ler os livros de sua biblioteca nos dias de folga.

Em 1947, deu à luz seu primeiro filho, João José de Jesus, o que fez que perdesse seu emprego, voltando a ser catadora de recicláveis. Em 1949, aos 33 anos, desempregada e novamente grávida, instalou-se na extinta favela do Canindé, na zona norte de São Paulo — num momento em que surgiam na cidade as primeiras favelas — cujo contingente de moradores estava em torno de cinquenta mil. De Jesus construiu sua própria casa, usando madeira, lata, papelão e qualquer material que pudesse encontrar. Saía todas as noites para coletar papel, a fim de conseguir dinheiro para sustentar a família. Teve mais dois filhos: José Carlos de Jesus, nascido em 1950, e Vera Eunice de Jesus, nascida em 1953.

Ao mesmo tempo em que trabalhava como catadora, registrava o cotidiano da comunidade onde morava nos cadernos que encontrava no material que recolhia, que somavam mais de vinte. Um desses cadernos, um diário que havia começado em 1955, deu origem a seu livro mais famoso, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960.

Já na década de 1950, o jornalista Audálio Dantas presenciou a cena em que De Jesus estava em uma praça vizinha à comunidade, quando percebeu que alguns adultos estavam destruindo os brinquedos ali instalados para as crianças. Sem pensar, ameaçou denunciar os infratores, fazendo deles personagens do seu livro de memórias. O jornalista iniciou um diálogo com a mulher que possuía inúmeros cadernos nos quais narrava o drama de sua indigência e o dia-a-dia na favela do Canindé. Dantas de imediato se interessou pelo "fenômeno" que tinha em mãos, e se comprometeu em reunir e divulgar o material.

Publicação de Quarto de Despejo e saída da favela thumb|right|De Jesus autografando o seu livro Quarto de Despejo em agosto de 1960 Depois da publicação de Quarto de Despejo, De Jesus mudou-se para Santana, bairro de classe média na zona norte de São Paulo, após lidar com a raiva e inveja de seus antigos vizinhos, que a acusaram de ter colocado suas vidas no livro sem autorização. A autora relatou que muitos dos moradores da favela chegaram a jogar, nela e em seus três filhos, os conteúdos de seus penicos. De Jesus definiu a favela como "tétrica", "recanto dos vencidos" e "depósito dos incultos que não sabem contar nem o dinheiro da esmola".

O sucesso da primeira publicação, no entanto, acabou por não se repetir nos títulos posteriores. Depois de Quarto de Despejo, a Editora Francisco Alves encomendou mais uma obra, a partir dos diários escritos por De Jesus quando já morava no bairro de Santana. Surgiu Casa de Alvenaria: Diário de uma Ex-Favelada (1962) que, segundo Audálio Dantas responsável pela edição do material publicado, vendeu apenas 10 mil exemplares. Em 1963, De Jesus publicou o romance Pedaços da Fome e o livro Provérbios posteriormente em 1969 que, de acordo com Dantas, foram títulos custeados pela própria autora e não tiveram vendas significativas.

Ida para o sítio em Parelheiros Sofrendo de dificuldades financeiras para manter o padrão de vida, De Jesus vendeu sua casa de Santana para comprar um pequeno sítio em Parelheiros, numa região remota da Zona Sul de São Paulo, no pé de uma colina. Próxima de casas ricas, local de algumas das habitações mais pobres do subúrbio da cidade, com impostos e preços menores, era lá que a autora esperava encontrar solitude.

Parelheiros se caracterizava por fortes contrastes entre ricos e pobres: grandes casarões ao lado de barracos, que, via de regra, surgiam em vales, onde o ar era poluído pelas indústrias da região do Grande ABC. Embora pobre, Parelheiros era o mais próximo que De Jesus poderia chegar do interior de sua infância sem deixar São Paulo e suas escolas públicas, para as quais seus filhos iam de ônibus. Os três moravam com ela: João José, com 21 anos, trabalhava numa fábrica de têxteis; José Carlos, com 19 anos, cursava o primeiro ano do Segundo grau e vendia objetos na rua; Vera, com 16 anos, também estava na escola.

A casa da escritora fora construída num terreno modesto, perto de uma estrada de terra, onde visitantes andavam em tábuas de madeira sobre a lama para chegar à casa cor de abóbora com janelas de caixilhos verdes. Agora passando boa parte de seu tempo sozinha, a autora lia o jornal e plantava milho e hortaliças, apesar de reclamar que seus esforços de jardinagem lhe rendessem tanto quanto lhe custassem.

Logo depois de se mudar para Parelheiros, De Jesus parou de receber os pagamentos de direitos autorais. Tinha tão pouco dinheiro que, assim fizera na favela do Canindé, ela e seus filhos passavam certos dias catando papéis e garrafas para vender: agora, contudo, usava o dinheiro de catadora para comprar refrigerantes e bilhetes de cinema. De tempos em tempos, entregava a uma vendedora local os abacates, bananas e mandiocas que produzia para serem vendidos num mercado local.

Morte De Jesus morreu aos 62 anos no seu sítio em Parelheiros, Zona Sul de São Paulo, no dia 13 de fevereiro de 1977, vítima de insuficiência respiratória devido a uma crise de asma. Contudo, a causa da morte é contestada por sua filha Vera Eunice: “Ela não tinha asma, tinha Doença de Chagas. (...) Ela fazia tratamento." O enterro da escritora foi realizado no Cemitério do Cipó, no município de Embu-Guaçu, a 40 km do centro de São Paulo.

Reconhecimento Nacional

Publicado em 1960, a tiragem inicial de Quarto de Despejo foi de dez mil exemplares e esgotou-se em uma semana. Desde sua publicação, a obra vendeu mais de um milhão de exemplares e foi traduzida para catorze línguas e distribuído em mais de quarenta países, tornando-se um dos livros brasileiros mais conhecidos no exterior.

De Jesus recebeu homenagens na Academia de Letras de São Paulo e na Faculdade de Direito de São Paulo, a escritora que, até então, nunca havia ganhado atenção, passou a realizar entrevistas em canais de televisão e rádio por todo o país.

O professor da Universidade de São Paulo (USP) Ricardo Alexino Ferreira caracterizou sua escrita como "direta, nua e crua, mas, ao mesmo tempo, suave".

Internacional thumb|right|De Jesus antes de embarcar no avião da Air France para o Uruguai Com o lançamento do seu primeiro livro em 1960, De Jesus passou a ser reconhecida internacionalmente como "a negra da literatura brasileira". A presença da obra da escritora naquele período era almejada não só no Brasil, mas também no exterior. A autora viajou para o Uruguai, Chile e Argentina, recebendo, em Buenos Aires, a Orden Caballero del Tornillo.

Em 1962, Quarto de Despejo foi publicado nos Estados Unidos pela editora E. P. Dutton com o título de Child of the Dark. No ano seguinte, como parte da coleção Mentor, a tradução ganhou uma edição de bolso, publicada primeiro pela New American Library, depois pela Penguin USA.

Vida pessoal Em março de 1961, uma reportagem afirmou que a publicação de Quarto de Despejo havia rendido a De Jesus seis milhões de cruzeiros em direitos autorais, contudo a quantia exata variava, de acordo com a reportagem. É certo que a autora tinha direito a dez por cento do preço de venda das traduções, com trinta por cento de sua parte reservada a Audálio Dantas; ela recebia pequenos pagamentos em dólares das editoras estadunidenses, mas, por força do contrato original, não podia autorizar traduções de sua obra: este direito fora cedido à editora Paulo de Azevedo, uma filial da editora Francisco Alves.

Segundo o acadêmico Robert Levine, somente das vendas da edição americana, totalizaram mais de trezentas mil cópias nos EUA. De Jesus e sua família deveriam ter recebido, pelo contrato original, mais de cento e cinquenta mil dólares. Contudo, não foi encontrado indício algum de que ela tenha recebido sequer uma pequena parte disto. Para Levine, a família da escritora vivia bem melhor do que na favela, mas num nível muito abaixo do esperado para uma autora cujos livros ainda estavam vendendo bem em diversos países.

Segundo reportagens da época, os pagamentos de direitos autorais recebidos por De Jesus eram "pequenos, mas constantes", todavia, não eram suficientes para que conseguisse viver melhor e um pouco acima da linha da pobreza.

Prêmios e homenagens

Legado Mesmo diante das mazelas e discriminações que sofreu desde a infância, por ser negra e pobre, De Jesus revelou através de sua escrita, a importância do testemunho como meio de denúncia sócio-política numa cultura hegemônica que exclui aqueles que lhe são alteridade.

A literatura documentária e de contestação da escritora, tal como foi conhecida e nomeada pelo jornalismo da época é, na atualidade, a literatura das vozes periféricas que manifestam à partir dos anos 1970, novos testemunhos narrativos femininos.

Obras Lista de publicações:

Obra individual Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada. Audálio Dantas (Org.). Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1960. (Memórias);

Casa de Alvenaria: Diário de uma Ex-Favelada. São Paulo: Livraria Francisco Alves: Editora Paulo de Azevedo Ltda., 1962. (Memórias);

Pedaços da Fome. Eduardo de Oliveira (Prefácio). São Paulo: Áquila, 1963. (Romance);

Provérbios. São Paulo: [s. n.], 1963.

Publicações póstumas Diário de Bitita. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. (Memórias);

Meu Estranho Diário. José Carlos Sebe Bom Meihy e Robert Levine (Orgs.). São Paulo: Xamã, 1996. (Memórias);

Antologia Pessoal. José Carlos Sebe Bom Meihy (Org.). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996. (Poesia);

Onde Estaes Felicidade? Dinha e Raffaella Fernandez (Orgs.). São Paulo: Me Parió Revolução, 2014. (Conto, Memória e Estudos Críticos);

Meu Sonho é Escrever... Contos Inéditos e Outros Escritos. Rafaella Fernandez (Org.). São Paulo: Ciclo Contínuo, 2018;

Clíris: Poemas Recolhidos. Raffaella Fernandez e Ary Pimentel (Orgs.). Editora Periferias, 2019. (Poesia);

Casa de Alvenaria - Volume 1: Osasco. São Paulo: Companhia das Letras, 2021;

Casa de Alvenaria - Volume 2: Santana. São Paulo: Companhia das Letras, 2021;

O Escravo. São Paulo: Companhia das Letras, 2023. (Romance).

Outros "As Crianças da Favela". Revista do Magistério. São Paulo, n. 24: 8, p. 18-19, dez. 1960;