thumb|300px||Reconstrução moderna do Palácio Heian Daigokuden em Heian Jingū, Quioto O é o palácio imperial original de Heian-kyō (hoje em dia, Quioto), a capital do Japão de 794 a 1868. O palácio, que serviu como residência imperial e centro administrativo do Japão durante e após o Período Heian (de 794 a 1185), localizou-se no centro-norte da cidade, de acordo com os modelos chineses usados no projecto de capitais.
O palácio era rodeado por uma grande muralha de forma rectangular que continha muitos dos edifícios cerimoniais e administrativos incluindo os ministérios governamentais. Dentro dos seus muros encontrava-se outro complexo residencial (o "Palácio Interno"), onde residia o imperador. Além da morada do Imperador, o palácio interno continha as residências das consortes, e estruturas cerimoniais e oficiais mais próximas da figura do imperador.
O intuito original do palácio era o de manifestar a centralização do modelo governamental adoptado pelo Japão a partir da China no século VII e providenciar um lugar apropriado para a residência do Imperador e para que pudesse ocupar-se de vários problemas de estado e cerimónias. Embora a função residencial do palácio tenha continuado até ao século XII, as instalações para cerimónias religiosas foram caindo em desuso no século IX devido ao abandono das práticas de cerimónias regulamentares e à mudança de muitas destas para lugares de menor escala no Palácio Interno.
O Palácio foi completamente destruído pelo fogo e outros factores, e sobre a superfície onde existia construiu-se outro novo. Do antigo, quase não resta nada, pelo que a arquitectura da reconstrução do mesmo se baseou em fontes literárias, diagramas e pinturas da época, e em escavações realizadas desde finais da década de 1970.
Localização thumb|300px|Mapa esquemático de Heian-kyō onde se mostra a localização do palácio e também a do palácio temporal Tsuchimikado que se converteu no actual Palácio Imperial de Quioto
O palácio encontra-se situado no centro norte de Heian-kyō, seguindo o modelo chinês adoptado pelas duas anteriores capitais Heijō-kyō (hoje Nara) e Nagaoka-kyō. O extremo sudeste do Grande Palácio encontrava-se no que hoje é o centro do Castelo Nijō. A entrada principal era a porta Suzakumon (), a qual formava o final da grande Avenida Suzaku que corria através do centro da cidade, com o seu início na porta Rashōmon. O palácio era virado exactamente a sul, presidindo o plano simétrico de Heian-kyō. Além da porta Suzakumon, tinha mais 13 entradas localizadas simetricamente nos muros circundantes. Uma comunicava com cada uma das portas, excepto com as três que se encontravam na zona norte do palácio, as quais coincidiam com a fronteira norte da própria cidade.
Grande Palácio (Daidairi) O Grande Palácio está rodeado por uma área rectangular amurada que se estende de norte a sul por cerca de 1,4 km.Maps of the city and Daidairi, McCullough & McCullough (1980) pp. 834–835; dim. McCullough (1999) p. 103 As três principais estruturas dentro do Grande Palácio são o Recinto oficial (Chōdō-in), a Sala de recepções (Buraku-in), e o Palácio interior.
Chōdō-in era uma sala rectangular fechada, situada directamente para norte da porta de Suzakumon no centro da ala sul da muralha do Grande Palácio. Foi desenhada com base nos modelos chineses e segundo vários estilos arquitectónicos chineses. Testemunhos arqueológicos das primeiras capitais mostram como este complexo de edifícios é um dos primeiros em todo o Japão e um notável exemplar do design arquitectónico do século VII.Hall (1974), pp. 11–12.
O edifício principal dentro do Chōdō-in é o Daigokuden ou Grande Auditório, caracterizado pelas suas paredes brancas e pilares escarlate e telhados verdes. É uma sala de medidas avultadas que compreende uma área desde a ala sul à ala norte do complexo e era utilizada para as mais ilustres e importantes funções ou cerimónias de estado japonesas. A parte sul do Chōdō-in divide-se em doze salas, onde era tratada toda a burocracia que conduzia a essas cerimónias. O Heian Jingū, um santuário em Quioto, inclui uma reconstrução aparentemente fiel do Daigokuden, numa escala um tanto mais pequena que a original. thumb|300px|left|Planta esquemática do Grande Palácio. Era no Chōdō-in que se realizavam as Audiências de Auditoria, onde, supostamente, o Imperador do Japão presidia a várias reuniões matinais com os seus subordinados para deliberar sobre determinados assuntos maiores do estado e tratar da burocracia. Mensalmente ali recebia vários oficiais do exército que lhe levavam os relatórios das forças de guerra do país, e, anualmente, ali recebia também as felicitações do Ano Novo dos embaixadores estrangeiros.McCullough & McCullough (1980) p. 836–837 Não obstante, a prática das deliberações matinais cessou seguidamente a 810,McCullough (1999) p. 40 substituídas por encontros mensais. As felicitações do Ano Novo passaram a ser recebidas noutro local. No século X as Audiências de Auditoria deixaram de realizar-se e o certame cerimonial budista foi o único que resistiu ao avanço dos tempos, permanecendo no Chōdō-in.
O Buraku-in é outro compartimento rectangular em estilo chinês, situado para oeste do Chōdō-in. Foi construído a pensar nas grandes celebrações e banquetes e usado também para outros tipos de entretenimento.McCullough p. 111 O Burakuden era um compartimento usado pelo imperador e pelos cortesãos que presidiriam às actividades do Buraku-in. Este também sentiu o contínuo e gradual desuso por parte da corte.
Depois do Palácio interior, a restante área do Grande Palácio foi ocupada por ministérios, escritórios menores, ateliers e armazéns e o grande espaço aberto do En no Matsubara, a este de Dairi. Os edifícios do Daijōkan situavam-se imediatamente a este do Chōdō-in, derrubando a típica simetria dos edifícios abertos para um pátio. O palácio albergou ainda o Shingon-in, além dos Tō-ji e Sai-ji, os únicos estabelecimentos budistas permitidos na capital.Hall (1974) p. 13
Palácio interno (Dairi) thumb|300px|right|Planta do Palácio Interno O Palácio Interno ou Dairi localizava-se a nordeste do Chōdō-in. Abrigava o Salão do Trono, os alojamentos do imperador e os pavilhões das consortes e princesas imperiais. O Dairi era protegido por várias muralhas. Adicionalmente, as muralhas exteriores do Dairi abrigavam os escritórios, os armazéns e o Chūwain, associado às funções religiosas do imperador, situado a oeste do Dairi, no centro geográfico do Grande Palácio. A principal porta do grande complexo era a Porta Kenreimon, localizada na muralha sul.
O recinto residencial do imperador, no Dairi, era encerrado dentro de outro conjunto de muralhas a este do Chūwain. Mediam aproximadamente 215 m de norte a sul e 170 m de este a oeste.McCullough (1999) pp. 115–116 A porta principal era a Shōmeimon no centro da muralha sul do Dairi, imediatamente a norte da porta Kenreimon. Em contraste com o solene estilo arquitectónico chinês do Chōdō-in e do Buraku-in, o Dairi foi construído num estilo mais intimista e acolhedor, típico da arquitectura japonesa. O Palácio Interno representou uma variante do estilo shinden em arquitectura, usado nas villas aristocráticas e casas ricas desse período. Os edifícios, com superfícies por pintar e placas de madeira de cipreste talhada no telhado, construídos e elevados sobre grandes plataformas de madeira, conectavam-se uns com os outros através de passagens elevadas. Entre os edifícios e as passagens existiam relvados e pequenos jardins.
O mais extenso edifício do Dairi era a Sala do Trono ou Shishinden, um edifício reservado para funções oficiais. Era de planta rectangular, medindo aproximadamente 30 m de comprimento e 25 m de largura, e situava-se ao longo do eixo norte-sul do Dairi, virado para um pátio rectangular. Uma laranjeira e uma cerejeira foram colocadas simetricamente de cada lado das escadas do edifício. O pátio é flanqueado dos dois lados por pequenos muros que conectam com o Shishinden, criando a mesma configuração dos edifícios - influenciados pelos exemplos chineses - que fundaram o aristocrático estilo shinden, nas villas e casas abastadas daquele período.
thumb|300px|left|O Shishinden no actual Palácio Imperial de Quioto, construído de acordo com os modelos do período Heian.
O Shishinden foi usado para funções oficiais e cerimónias, para além do Daigakuden no complexo do Chōdō-in. Foi construído e usado como um edifício para as cerimónias mais formais, algo que nos relata o seu estilo mais formal, como negociações governamentais com a presença do imperador, assim utilizado até ao início do século IX. Conectado com o edifício situava-se a secretaria pessoal do imperador, Kurōdodokoro. Este escritório, que coordena os trabalhos dos órgãos governamentais, foi construído dentro do Kyōshōden, o átrio a sudoeste do Shishinden.McCullough & McCullough (1980) pp. 817–818
A norte do Shishinden situa-se o Jijūden, um átrio similar, um pouco mais pequeno que o anterior, onde se mantinham os alojamentos pessoais do imperador. Não obstante, no início do século IX, os imperadores optaram por residir noutro edifício, no Dairi. Um terceiro pequeno átrio, o Shōkyōden, ficava localizado seguindo os eixos principais do Dairi. Após a reconstrução do Dairi em 960, a residência regular dos imperadores transladou-se para o pequeno Seiryōden,McCullough (1999) pp. 174–175 um edifício situado imediatamente a noroeste do Shishinden. Gradualmente, o Seiryōden começou a ser usado cada vez mais, sofrendo várias intervenções e um grande investimento da parte do imperadores. A principal área do edifício era a Sala dos cortesãos, onde se reuniam as mais altas personalidades da corte japonesa.
A imperatriz, assim como as cortesãs do imperador, eram também abrigadas no Dairi, ocupando os edifícios na ala norte do complexo. O mais prestigiado edifício era ocupado pela imperatriz, desenhado sob originais linhas de estilo chinês.McCullough & McCullough (1980) pp. 845–847 As cortesãs não-oficiais ocupavam a parte norte do edifício, menos luxuosa e menos prestigiada.
Hoje em dia, o Palácio Imperial de Quioto, localizado no extremo-norte de Heian-kyō, é uma reprodução viva do período Heian, em particular o Shishinden e o Seiryōden.
História right|thumb|270px|Portão principal (Heian-jingu). O Palácio foi a primeira e mais importante construção a ser feita na nova capital de Heian-kyō, para onde a corte se mudou em 794 seguindo a imposição do Imperador Kanmu. O Palácio não estava ainda completamente pronto, pois o Daigokuden só se completaria no ano seguinte, e o órgão responsável pela respectiva construção só seria extinto em 805.Hall (1974), p. 7
Os complexos em estilo chinês magnificente de Chōdō-in e Buraku-in começaram a cair em desuso bastante cedo, quando comparados com o declínio dos processos administrativos e burocráticos ao estilo chinês (os ritsuryō), gradualmente abandonados ou reduzidos. O centro de gravidade do complexo do palácio foi movido para o Palácio Interior ou Dairi, e o Shishinden e mais tarde o Seiryōden tomaram o lugar do Daigokuden como os locais em que os assuntos governativos eram tratados.
Paralelamente à concentração de actividades no Dairi, o Grande Palácio começou a ser visto como inseguro, especialmente de noite. Uma razão para tal pode ser a superstição vigente na época: de facto, os edifícios inabitados eram evitados por receio de espíritos e fantasmas, e mesmo o grande Buraku-in era tido por assombrado. O nível de segurança mantido no palácio decresceu, e no início do século XI, apenas um portão do palácio, o Yōmeimon na muralha oriental, parece ter sido guardado. O roubo e mesmo o crime violento tornaram-se problemas no interior do palácio nessa época.McCullough & McCullough (1980) pp. 849–850