thumb|350px|"Decrescimento", diz inscrição sobre a Coluna de Julho, na Praça da Bastilha, em Paris, durante a greve geral de 28 de março de 2006.O Decrescimento (do francês: décroissance) é tanto um movimento político, econômico e social quanto um conjunto de teorias que criticam o paradigma do crescimento econômico, e é baseado em diversas linhas de pensamento, como a ecologia política, economia ecológica, ecologia política feminista e justiça ambiental. O movimento enfatiza a necessidade de reduzir o consumo e a produção global (o metabolismo social) e defender uma sociedade socialmente justa e ecologicamente sustentável, com o bem-estar social e ambiental substituindo o produto interno bruto (PIB) como indicador de prosperidade.
O decrescimento destaca importância da autonomia, trabalho de cuidado, auto-organização, bens comuns, comunidade, localismo aberto, partilha de trabalho, felicidade e convivialidade.. A visão não é apoiada por evidências quantitativas substanciais, mas o principal argumento dos defensores do decrescimento é que uma expansão infinita da economia é fundamentalmente contraditória às fronteiras planetárias finitas.
O movimento aponta as contradições e os danos socioambientais causados pelo imperativo do crescimento infinito e de uma concepção de "desenvolvimento" ocidental, e sugere a necessidade de reduzir a produção e o consumo global, diminuir as desigualdades socioeconômicas e promover uma economia mais local e baseada na autossuficiência. O decrescimento enfatiza que o crescimento econômico não pode continuar a ser o único indicador de progresso humano e que as pessoas precisam ter mais tempo livre para se envolver em atividades mais significativas.
Embora o PIB possa encolher numa "sociedade de decrescimento", ou seja, uma sociedade na qual os objetivos do movimento de decrescimento são alcançados, esse não é o objetivo principal do decrescimento. O objetivo principal é uma sociedade socialmente justa e ecologicamente sustentável que prioriza o bem-estar das pessoas e do planeta em vez do crescimento econômico.
Contexto O movimento "decrescimento" surgiu de preocupações sobre as consequências percebidas do produtivismo e do consumismo associado às sociedades industriais (sejam capitalistas ou socialistas), incluindo:
A disponibilidade reduzida de fontes de energia (ver pico do petróleo) O declínio da qualidade do meio ambiente (ver aquecimento global, poluição, ameaças à biodiversidade ) O declínio na saúde da flora e da fauna da qual os humanos dependem (ver extinção do Holoceno) O aumento dos efeitos colaterais negativos da sociedade (ver desenvolvimento não sustentável, saúde mais precária, pobreza) O uso cada vez maior de recursos pelos países do Primeiro Mundo para satisfazer estilos de vida que consomem mais alimentos e energia e produzem mais resíduos, às custas do Terceiro Mundo (ver neocolonialismo)
Na academia, um estudo reuniu propostas de decrescimento e definiu o movimento com três objetivos principais: (1) Reduzir o impacto ambiental da atividade humana; (2) Redistribuir rendimento e riqueza dentro e entre países; (3) Promover a transição de uma sociedade materialista para uma sociedade convivial e participativa.
Desacoplamento O conceito de desacoplamento denota que é possível dissociar o crescimento económico, geralmente medido em crescimento do PIB, do uso de recursos naturais e das emissões de gases de efeito estufa (GEE). O desacoplamento absoluto refere-se ao crescimento do PIB coincidindo com uma redução no uso de recursos naturais e emissões de GEE, enquanto que o desacoplamento relativo descreve um aumento no uso de recursos e emissão de GEE que é inferior ao aumento do crescimento do PIB. O movimento do decrescimento critica fortemente essa ideia e argumenta que o desacoplamento absoluto só é possível por curtos períodos, locais específicos ou com pequenas taxas de mitigação. Além disso, não há evidências empíricas de que o desacoplamento aconteça com rapidez suficiente e na escala global. Uma recente revisão da literatura chamada “desacoplamento desmascarado: evidências e argumentos contra o crescimento verde como única estratégia para a sustentabilidade” analisou uma grande quantidade de trabalhos empíricos e teóricos sobre o tema e conclui que:
“não apenas não há evidências empíricas que sustentem a existência de um desacoplamento do crescimento económico das pressões ambientais em qualquer lugar próximo à escala necessária para lidar com o colapso ambiental, mas também, e talvez mais importante, esse desacoplamento parece improvável de acontecer no futuro.” (Pág. 3).
Além disso, o artigo afirma que os casos relatados de desacoplamento “bem-sucedido” retratam desacoplamento relativo e/ou são observados apenas temporariamente e/ou apenas à escala local. Isso é apoiado por vários outros estudos que afirmam que é altamente improvável que o desacoplamento absoluto seja alcançada com rapidez suficiente para evitar o aquecimento global acima de 1,5 °C ou 2 °C, mesmo sob condições políticas otimistas. Além disso, contar com o desacoplamento como a principal ou a única estratégia para aliar o crescimento económico e a redução das pressões ambientais equivale a assumir um grande risco para o nosso bem-estar futuro. Consequentemente, os defensores do decrescimento argumentam que precisamos de buscar alternativas.
Esgotamento de recursos À medida que as economias crescem, a necessidade de recursos cresce de acordo (a menos que haja mudanças na eficiência ou na procura por produtos diferentes devido a mudanças de preços). Existe uma oferta fixa de recursos não renováveis, como o petróleo, e esses recursos serão inevitavelmente esgotados. Os recursos renováveis também podem ser esgotados se extraídos a taxas insustentáveis por longos períodos. Por exemplo, isso ocorreu com a produção de caviar no Mar Cáspio.Bardi, U. (2008) 'Peak Caviar'. The Oil Drum: Europe. http://europe.theoildrum.com/node/4367 Existe muita preocupação sobre como a crescente procura por esses recursos será atendida à medida que a oferta diminuir. Muitas organizações e governos buscam tecnologias de energia, como biocombustíveis, painéis fotovoltaicos e turbinas eólicas, para atender à lacuna de procura após o pico do petróleo. Outros argumentaram que nenhuma das alternativas poderia substituir efetivamente a versatilidade e a portabilidade do petróleo. Os autores do livro Techno-Fix criticam os otimistas tecnológicos por ignorarem as limitações da tecnologia na solução dos desafios agrícolas e sociais decorrentes do crescimento.Huesemann, Michael H., and Joyce A. Huesemann (2011). Technofix: Why Technology Won't Save Us or the Environment, New Society Publishers, Gabriola Island, British Columbia, Canada, , 464 pp.
Os defensores do decrescimento argumentam que a diminuição da procura é a única forma de fechar permanentemente a lacuna de procura. Para recursos renováveis, a procura e, portanto, a produção, também devem ser reduzidas a níveis que evitem o esgotamento e sejam ambientalmente saudáveis. Mudar para uma sociedade que não dependa do petróleo é visto como essencial para evitar o colapso social quando os recursos não renováveis se esgotam.
Pegada ecológica A pegada ecológica é uma medida da procura humana nos ecossistemas da Terra. Ela compara a procura humana com a capacidade ecológica do planeta Terra de se regenerar. Representa a quantidade de área terrestre e marítima biologicamente produtiva necessária para regenerar os recursos que uma população humana consome e para absorver e tornar inofensivos os resíduos correspondentes. De acordo com um relatório da Global Footprint Network de 2005, os habitantes de países de elevado rendimento vivem de 6,4 hectares globais (gHa), enquanto que os de países de baixo rendimento vivem de um único gHa. Por exemplo, enquanto cada habitante do Bangladesh vive do que produz de 0,56 gHa, um norte-americano precisa de 12,5 gHa. Cada habitante da América do Norte usa 22,3 vezes mais terra do que um bengali. De acordo com o mesmo relatório, o número médio de hectares globais por pessoa foi de 2,1, enquanto que os níveis de consumo atuais atingiram 2,7 ha/pessoa. Para que a população mundial alcançasse os padrões de vida típicos dos países europeus, seriam necessários os recursos de três a oito planetas Terra com os atuais níveis de eficiência e meios de produção. Para que a igualdade económica mundial seja alcançada com os atuais recursos disponíveis, os proponentes dizem que os países ricos teriam que reduzir o seu padrão de vida por meio do decrescimento. As restrições de recursos acabariam por levar a uma redução forçada do consumo. A redução controlada do consumo reduziria o trauma dessa mudança, assumindo que nenhuma mudança tecnológica aumentasse a capacidade de carga do planeta.
Decrescimento e desenvolvimento sustentável, pp. 9-13 O pensamento do decrescimento está em oposição a todas as formas de produtivismo (a crença de que a produtividade económica e o crescimento são o propósito da organização humana). É, portanto, contrário à forma atual de desenvolvimento sustentável. Embora a preocupação com a sustentabilidade não contrarie o decrescimento, o desenvolvimento sustentável está enraizado nas ideias dominantes de desenvolvimento que visam aumentar o crescimento e o consumo capitalistas. O decrescimento, portanto, vê o desenvolvimento sustentável como um oxímoro,Latouche, S. (2004). Degrowth Economics: Why less should be so much more. Le Monde Diplomatique. pois qualquer desenvolvimento baseado no crescimento num mundo finito e ambientalmente stressado é visto como inerentemente insustentável. Os críticos do decrescimento argumentam que uma desaceleração do crescimento económico resultaria em aumento do desemprego, aumento da pobreza e diminuição do rendimento per capita. Muitos que entendem as devastadoras consequências ambientais do crescimento ainda defendem o crescimento económico no Sul, mesmo que não no Norte. Mas, uma desaceleração do crescimento económico não produziria os benefícios do decrescimento – autossuficiência, responsabilidade material – e, de fato, levaria à diminuição do emprego. Em vez disso, os defensores do decrescimento defendem o completo abandono do atual modelo económico (de crescimento), sugerindo que relocalizar e abandonar a economia global no Sul Global permitiria que as pessoas do Sul se tornassem mais autossuficientes e acabaria com o consumo excessivo e a exploração do Sul pelo Norte. Os defensores do decrescimento veem-no como um caminho possível para preservar os ecossistemas das pressões humanas. Nessa ideia, o meio ambiente é cuidado comunitariamente, integrando humanos e natureza; o decrescimento implica a perceção dos ecossistemas como inerentemente valiosos, não apenas como uma fonte de recursos. Na Segunda Conferência Internacional sobre o decrescimento, foram discutidas ideias como salário máximo e fronteiras abertas. Há também um reconhecimento com o decrescimento de que o crescimento populacional não é a questão central para a necessidade de crescimento industrial, porque populações maiores no Sul global podem usar muito menos recursos do que um punhado de indivíduos no Norte global. O decrescimento sugere uma mudança deontológica para que os estilos de vida que envolvem um alto nível de consumo de recursos deixem de ser vistos como atraentes. Outras visões de decrescimento incluem o Norte global a reparar injustiças passadas de séculos de colonização e exploração e redistribuindo a riqueza, e um conceito de escala de ação apropriada é um grande tópico de debate dentro dos movimentos de decrescimento.
Alguns investigadores acreditam que o mundo terá que passar pela Grande Transformação, "por design ou por desastre", portanto a economia ecológica tem que incorporar as teorias do pós-desenvolvimento, buen vivir e decrescimento se quiserem realmente mudar alguma coisa.