Colonel Sun é um romance de espionagem escrito pelo autor britânico Kingsley Amis sob o pseudônimo "Robert Markham". É o décimo quinto livro da série James Bond e o primeiro romance de continuação publicado depois da morte de Ian Fleming, o criador da série. A história acompanha o agente secreto britânico James Bond enquanto procura os sequestradores de M, seu superior no Serviço Secreto de Inteligência, e lida com um plano chinês de causar um grande incidente internacional e culpar o Reino Unido.
A Glidrose Productions, detentora dos direitos literários de Bond, decidiu publicar um novo romance do personagem com o objetivo de impedir que qualquer pessoa publicasse obras estreladas por Bond. Amis era um fã dos livros de Fleming e foi escolhido para o trabalho, inspirando-se em férias que passou nas Ilhas Egeias para criar uma ambientação e personagens realistas. Ele enfatizou intrigas políticas mais do os romances originais, porém manteve um formato e estrutura semelhantes aos de Fleming.
Colonel Sun foi publicado pela primeira vez no Reino Unido em março de 1968. Teve um bom desempenho comercial, porém a recepção da crítica foi mista, com muitos comentando que Amis não tinha o mesmo estilo de escrita de Fleming. A história foi serializada no jornal Daily Express no mesmo mês de lançamento e adaptada como uma tira em quadrinhos na mesma publicação em 1969. Alguns elementos do romance já foram adaptados em diferentes filmes da série cinematográfica de James Bond.
Enredo M, o chefe do Serviço Secreto de Inteligência britânico, é violentamente sequestrado de sua casa durante uma ação em que o agente James Bond também é quase capturado. Este parte em busca de resgatá-lo, seguindo pistas que o levam até às Ilhas Egeias e um homem chamado Vrakonisi. No processo ele também descobre os complexos planos políticos e militares do coronel chinês Sun do Exército de Libertação Popular. Sun foi enviado para sabotar uma conferência de distensão sobre o Oriente Médio que a União Soviética está sediando. Sua intenção é atacar o local da conferência e usar os corpos de M e Bond para culpar o Reino Unido, levando a uma guerra mundial. Bond se encontra com agentes soviéticos em Atenas liderados pelo major Piotr Gordienko, com eles descobrindo que há um terceiro país envolvido por trás do sequestro e que também há um traidor na organização de Gordienko. Um ataque no quartel-general soviético mata todos os agentes exceto Ariadne Alexandrou, uma comunista grega. Gordienko, pouco antes de morrer, encoraja Bond e Ariadne a trabalharem juntos para impedirem Sun.
Ariadne consegue persuadir Niko Litsas, um ex-guerrilheiro da resistência grega durante a Segunda Guerra Mundial e amigo de seu falecido pai, a lhes contar sobre o envolvimento de Von Richter, um criminoso de guerra nazista. Bond encontra o quartel-general de Sun, porém é capturado e brutalmente torturado por Sun. Ele descobre que Von Richter usará um morteiro para destruir a conferência. Sun ordenada que uma das mulheres na casa cuide de Bond, mas ela liberta uma de suas mãos e dá para ele uma faca. Bond esfaqueia Sun e então liberta os outros prisioneiros, com estes o ajudando a impedir Von Richter. Entretanto, Sun sobrevive e mata vários dos prisioneiros, mas acaba sendo morto por Bond. Os soviéticos agradecem Bond por salvar a conferência e se oferecem para condecorá-lo com a Ordem do Estandarte Vermelho, mas ele educamente recusa.
Antecedentes e escrita thumb|esquerda|250px|Amis se inspirou em umas férias que passou nas Ilhas Egeias para criar uma ambientação grega realista Ian Fleming, o criador de James Bond, morreu em 12 de agosto de 1964, oito meses antes da publicação de seu último romance, The Man with the Golden Gun. A Glidrose Productions (atual Ian Fleming Publications), uma propriedade da família Fleming, ficou como executora literária de suas obras e publicou a coleção de contos Octopussy and The Living Daylights em junho de 1966.
Glidrose descobriu que Bond não poderia ser protegido por direitos autorais. Desta forma, para evitar que outras pessoas publicassem livros de Bond, ela decidiu encomendar um novo romance para manter seus direitos. A empresa inicialmente entrou em contato com o autor James Leasor para que ele escrevesse um romance de continuação, mas Leasor recusou. Em seguida então contrataram o autor Kingsley Amis. Ann Fleming, a viúva de Fleming, não endossou nenhum outro trabalho de Bond, algo que ela enxergava como lucro sobre o trabalho de seu marido. O jornal The Sunday Times chegou a pedir que ela escrevesse uma resenha do romance, mas sua crítica foi tão ácida que nunca foi publicada e talvez até fosse difamatória. Ann também não gostava de Amis e disse:
Amis era conhecido pela Glidrose como um aficionado pelas obras de Fleming. A Jonathan Cape, a editora de Fleming, ficou tão preocupada em 1964 com o manuscrito de The Man with the Golden Gun que pediu que Amis o lesse e desse suas opiniões sobre se era viável para publicação. Ele foi pago 35 libras e quinze xelins, porém suas sugestões para alterações não foram usadas. A Jonathan Cape tomou essa atitude por achar que o romance não estava nos padrões de qualidade normais de Fleming. Amis escreveu em 1965 o James Bond Dossier, uma análise crítica dos livros de Bond publicado sob seu próprio nome, e também The Book of Bond, um manual irônico para agentes em potencial publicado sob o pseudônimo Bill Tanner. A autora Sally Beauman comentou que era "incomum, para não dizer inédito, para um autor estabelecido assumir o manto" do modo como Amis fez com Bond, porém ela também achou que "Bond [é] uma propriedade muito grande, e muito rentável, para ser colocada nas mãos de um desconhecido".
O autor considerou vários lugares para a ambientação, mas foi persuadido pela Grécia depois de ter sido convidado por amigos que costumavam passar férias lá. Ele explicou:
Amis escreveu ao seu amigo Philip Larkin em maio de 1967 e mencionou que tinha finalizado o romance. A Glidrose decidiu publicar o livro sob o pseudônimo de Robert Markham. O escritor Peter Fleming, irmão de Fleming, tinha sugerido George Glidrose, mas isto foi rejeitado. Na época achava-se que o nome Markham poderia ser usado para todos os futuros romances de Bond, independentemente do autor, mas Colonel Sun foi o único publicado com esse pseudônimo.
O romance se passa aproximadamente um ano após os eventos de The Man with the Golden Gun. Fleming deu poucas informações sobre datas em suas obras, mas dois escritores identificaram linhas do tempo diferentes: John Griswold e Henry Chancellor, ambos os quais escreveram livros analisando as obras. Chancellor colocou os eventos de The Man with the Golden Gun em 1963, já Griswold foi mais preciso considerou que a história se passa entre novembro de 1963 e o final de fevereiro de 1964.
Desenvolvimento Inspirações Amis e sua esposa Jane passaram setembro de 1965 de férias na ilha grega de Spetses, com ele usando essa experiência para criar o pano de fundo de Colonel Sun. O autor seguiu uma tradição de Fleming de usar o nome de pessoas que conhecia ou de ter visto nas suas pesquisas para o livro, assim inspirou-se nos nomes daqueles que conheceu na Grécia. O nome do barco de Bond, The Altair, era o nome do barco que Amis e sua esposa usaram; "Legakis" e "Papadogonas", os colegas ficcionais de Ariadne, eram amigos que ajudaram Amis na Grécia, enquanto o médico que trata Bond no segundo capítulo foi nomeado em homenagem ao médico pessoal de Amis e Jane.
Personagens Raymond Benson, que escreveu romances de Bond entre 1997 e 2002, considerou que a versão de Amis do personagem era próxima daquela de Fleming e uma continuação natural do Bond desenvolvido nos últimos três romances de Fleming. Os eventos destes livros cobram um preço emocional em Bond: ele perde sua esposa em On Her Majesty's Secret Service, perde sua memória no Japão em You Only Live Twice e passa por uma lavagem cerebral, depois desprogramação e por fim quase morre por uma bala envenenada em The Man with the Golden Gun. Benson também enxergou um lado sem senso de humor na versão de Amis, algo que Fleming usou em seus primeiros romances.
O vilão principal é o coronel Sun Liang-tan, membro do Comitê de Atividades Especiais do Exército de Libertação Popular, bem como um sadista e torturador. Benson o chamou de uma "inclusão muito digna à saga de Bond". Sun deseja poder sobre um indivíduo e a capacidade de lhe machucar apenas para infligir dor. O historiador cultural Jeremy Black enxergou similaridades entre Sun e Julius No, o vilão chinês de Fleming de Dr. No. É mostrado que ambos os personagens não tem consideração pela vida humana. John Dugdale, em uma resenha retrospectiva, chamou Sun de "a caricatura racial mais repulsiva de todas, um descendente de Fu Manchu e outros orientais diabólicos".
O papel de M mudou em relação às obras de Fleming. Em vez da figura que instrui Bond sobre sua missão, ele se tornou a causa da missão. Os historiadores culturais Janet Woollacott e Tony Bennett consideraram que M não dá à missão de Bond sua perspectiva ideológica necessária, assim o duelo de Bond com Sun "torna-se pouco mais de uma disputa pessoal". Amis não gostava de M e, como Donald Stanley da revista Life destacou, "passou um capítulo acabando com ele" em The James Bond Dossier. Benson considerou que M causou uma resposta emocional no leitor por causa da mudança de seu estado normal, apenas negócios e semi-catatônico para sequestrado e drogado.
Temas Benson destacou um nível maior de intriga política presente em Colonel Sun quando comparado aos romances anteriores. Bond atua em conjunto com soviéticos contra os chineses, algo que Benson considerou uma demonstração do tema de manutenção da paz entre nações. Black achou que o livro reflete as realidades do final da década de 1960, pois a China tinha desenvolvido uma bomba de hidrogênio em 1967 e a ruptura sino-soviética tinha ocorrido pelo decorrer de toda a década até culminar com o conflito fronteiriço sino-soviético em 1969. O romance reflete isso e mostra uma mudança do equilíbrio de poder mundial para longe das políticas bipartidárias da Guerra Fria.
Black destacou uma tristeza emocional e social. Esta é uma reação à modernidade e lamentação pelo que foi perdido em seu lugar. Amis, na Inglaterra, descreveu "a erupção feia da habitação moderna – vilas Tudor sem muito entusiasmo, bangalôs e caixas de dois andares com uma variação sem sentido de tábuas, tijolos e pavimentação irregular na frente de cada uma e a inevitável antena de TV brotando de cada telhado", enquanto mais tarde escreveu como logo todo o ocidente terá uma cultura uniformizada, "um complexo de superestradas, barracas de cachorro-quente e neon, interrompido apenas pelo Atlântico". Isto é similar à nostalgia de Fleming sobre Paris em "From a View to a Kill".
Benson enxergou o desejo de vingança de Bond como um tema central. O enredo gira em torno da necessidade de vingança de Bond pela morte de amigos e o sequestro de M. Benson achou isso notável: "Bond é especialmente brutal em alcançar seu objetivo ... A vingança é muito satisfatória. Isto é Bond em seu mais durão".
Recepção Publicação