Cultura visual é um campo de estudos que aborda os processos culturais: hábitos, costumes visuais, referentes a um ou vários povos. Área que, sobretudo, procura entender os aspectos visuais como fonte de transmissão cultural e, as relações e interferências que os sistemas culturais acarretam ao processo visual de identificação e entendimento do mundo e da realidade. Por essas razões, geralmente inclui alguma combinação de estudos culturais, história da arte e antropologia, enfocando aspectos da cultura que se apoiem em imagens.

Estudos sobre cultura e cultura visual Entre os teóricos dos estudos culturais que trabalham com a cultura contemporânea, frequentemente se estuda a filmologia e os estudos sobre televisão, embora também possa incluir os estudos de Vídeo-games, HQs, mídia artística tradicional, publicidade, Internet e qualquer outro meio que possua um componente visual crucial.

Outras definições de cultura visual Nosso tempo é marcado e definido pelas imagens. Podemos nos perguntar, diante desta constatação, o que significa dizer que nossa Cultura é predominantemente visual?

Para Oliveira, cultura visual é “um termo híbrido que descreve uma situação onde obras de arte se fundem com referenciais de outras disciplinas e campos, como o da psicologia, da antropologia, da história, da filosofia, da sociologia, etc”.

A afirmação de Nicholas Mirzoeff (1999) de que a pós-modernidade é marcada pelo visual em contraposição ao romance que havia sido a forma de expressão do século XIX, nos remete a uma discussão bastante mais antiga e que vez ou outra assombra poetas e pensadores.

Lessing (1766) já se perguntava sobre os limites da pintura e da poesia. A preocupação também não foi estranha a Octávio Paz, que em seu texto “A imagem” reflete sobre as diferenças e especificidades da imagem e do conceito.PAZ, O. O arco e a lira. Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. Se Lessing remetia ao instante à duração como marcas distintivas de uma e outra forma de expressão, Paz aponta a precisão e a criação como distintivos, a imagem, ainda que criada por palavras, como na poesia, expande o horizonte da expressividade humana.LESSING, G. E. Laocoonte ou sobre as fronteiras da Pintura e da Poesia. Trad. Márcio Seligmann-Silva. São Paulo: Iluminuras, 1998.

A vagueza da imagem em oposição à pretensão definidora do conceito facilita o trato das diferenças irreconciliáveis. A diversidade, variedade e contradições do nosso tempo parecem ter na imagem a sua forma de expressão. A discussão que se coloca é, desse modo, motivada pela identidade caótica do nosso mundo. A potência criativa que a vagueza expressiva da imagem permite é tanto boa como má, porque fruto do mundo contraditório em que vivemos.

Para Mirzoeff (2003), “a cultura visual é uma tática para estudar a genealogia, a definição e as funções da vida cotidiana pós-moderna a partir da perspectiva do consumidor, mais que do produtor". Segundo ele, “não se trata de uma história das imagens, nem depende das imagens em si mesmas, mas sim dessa tendência de plasmar a vida em imagens ou visualizar a existência, pois o visual é um lugar sempre desafiante de interação social e definição em termos de classe, gênero, identidade sexual e racial".SARDELICH, M. E. Leitura de imagens, cultura visual e prática educativa. Cad. Pesqui. vol. 36 no. 128 São Paulo May/Aug. 2006.

Barnard (2001), cita duas vertentes para identificar a cultura visual: “A primeira enfatiza o visual e trata de normatizar e prescrever seus objetos de estudo como sendo a arte, o design, as expressões faciais, a moda, a tatuagem etc. A outra vertente toma a cultura como traço definidor do estudo, e portanto se refere a valores e identidades construídos e comunicados pela cultura via mediação visual, como também à natureza conflituosa desse visual devido aos seus mecanismos de inclusão e exclusão de processos identitários".

O termo "cultura visual” pode se entrelaçar com outro termo, o da "cultura da imagem". Segundo Abril, "o que é certo é que nem as imagens são necessariamente fenômenos da experiência visual, nem a cultura visual se restringe ao domínio da imagem".

Para Freedman (2003), "a cultura é a forma de viver e a cultura visual dá forma ao nosso mundo, ao mesmo tempo em que é nossa forma de olhar o mundo".

Trabalhos pioneiros em cultura visual foram produzidos por John Berger (Ways of Seeing, 1972) e Laura Mulvey (Visual Pleasure and Narrative Cinema, 1975).

Segundo John Berger, "Ver precede as palavras. A criança olha e reconhece, antes mesmo de poder falar". A visão dá o poder de ver as coisas e interpretá-las conforme a vivência de cada indivíduo.BERGER, J. Modos de Ver. Trad. Lucia Olinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.167. O significado de uma imagem muda de acordo com o que é imediatamente visto ao seu lado, ou com o que imediatamente vem depois dela. O significado pode também ter grande influência da época, cada época vê de uma forma diferente.

Segundo Mirzoeff “o primeiro passo para estudos de cultura visual é um reconhecimento de que a imagem visual não é estável, mas muda a sua relação com a realidade exterior em momentos particulares da modernidade”.

Visão e Visualidade A experiência visual pode ser compreendida, inicialmente, como um processo biológico. A luz é refratada e direcionada para a retina, onde ondas eletromagnéticas são transformadas em impulsos elétricos. Esses impulsos atravessam o nervo óptico até alcançar o córtex visual, região em que a imagem é processada e convertida em percepção.

No entanto, a visão não se limita a esse funcionamento fisiológico. Quando integrada aos circuitos cognitivos, psíquicos e sociais, a imagem passa a ser interpretada por meio de normas, valores, desejos e referências culturais. Nesse processo, a percepção visual transforma-se também em interpretação. Assim, a visão pode ser entendida como um fenômeno cultural, pois participa de disputas sobre o que pode ser visto, por quem e com quais efeitos.

Na Cultura Visual, essa experiência não é compreendida apenas como um dado natural ou imediato, mas como um fenômeno social e histórico, condicionado por práticas, mediações e discursos. Essa distinção conduz ao conceito de visualidade, que se diferencia da visão por designar o campo social no qual o visível é organizado, interpretado e investido de sentido por regimes culturais específicos.

Hal Foster distingue visão e visualidade ao afirmar que a visão está relacionada aos mecanismos fisiológicos da percepção, enquanto a visualidade se refere à percepção visual como fato social. No entanto, os dois conceitos não se opõem de forma absoluta, pois a visão também é social e histórica, e a visualidade envolve o corpo e a psique. A diferença entre os termos indica, portanto, uma distinção interna ao campo do visual, entre os mecanismos da visão e suas técnicas históricas, entre o ato de ver e as condições culturais que definem como se vê.

Nicholas Mirzoeff analisou a genealogia do conceito de visualidade com o objetivo de evitar seu uso genérico para designar qualquer conjunto de imagens ou dispositivos visuais. Segundo o autor, o termo surgiu no início do século XIX associado a uma forma específica de visualização histórica. A partir dessa genealogia, Mirzoeff propõe compreender a visualidade como uma prática imaginária e social, e não apenas como um ato perceptivo individual. Trata-se de um conjunto de relações que articula informação, imaginação e introspecção na interpretação do espaço físico e psíquico.

A visualidade constitui um dos objetos centrais da Cultura Visual, campo interdisciplinar que articula contribuições da estética, da comunicação, da política, da antropologia e da teoria da imagem. A Cultura Visual reúne diferentes métodos para estudar a relação entre imagens e sociedade. Esse campo investiga tanto a construção social do visual, isto é, as determinações culturais e históricas do olhar, quanto a construção visual do social, ou seja, a maneira como práticas e dispositivos visuais participam da organização das relações sociais.

De modo mais amplo, a Cultura Visual investiga a produção imagética que caracteriza determinados grupos sociais. Seu objetivo é compreender como as imagens circulam no cotidiano, como afetam os sujeitos e quais consequências sociais, culturais e políticas decorrem desse contato.

A centralidade da imagem como objeto de estudo decorre de sua capacidade de mediar a experiência humana do mundo. Para Vilém Flusser , as imagens surgem como instrumentos de orientação, semelhantes a mapas. No entanto, podem também operar como “biombos”, passando a interpor-se entre o sujeito e a realidade. Nesse caso, em vez de ampliar a percepção, as imagens podem limitar ou organizar aquilo que se torna perceptível.

Essa perspectiva fundamenta a crítica de Norval Baitello Junior à chamada “crise da visibilidade”, conceito associado a Dietmar Kamper. A crise da visibilidade refere-se à multiplicação contemporânea de imagens e à redução proporcional da capacidade de percebê-las criticamente. Para analisar esse fenômeno, Baitello Junior utiliza o conceito de iconofagia, entendido como o devoramento simbólico e mútuo entre seres humanos e imagens.

Essa discussão aproxima-se da noção de sociedade ocularcêntrica, proposta por Chris Jenks , que descreve o processo histórico pelo qual a visão e as tecnologias visuais adquiriram centralidade na cultura ocidental, subordinando outros sentidos. Mirzoeff também observa a forte dependência da sociabilidade contemporânea em relação ao sentido da visão.

A preocupação com a hegemonia do olhar antecede a consolidação da Cultura Visual como campo de estudos. Em Michel Foucault, essa questão aparece na análise da vigilância como mecanismo de domesticação dos corpos e de produção de subjetividades. O olhar, nesse caso, funciona simultaneamente como instrumento de poder e como meio de formação dos sujeitos. Em Guy Debord, a discussão assume uma dimensão econômica e política, pois o capitalismo não apenas organiza a produção material, mas também os regimes de visibilidade, definindo o que pode ou não ser visto.

Além de sua dimensão política, a imagem possui uma dimensão antropológica. Essa perspectiva parte da ideia de que toda comunidade se expressa visualmente e que suas imagens podem ser analisadas como manifestações culturais. Jacques Aumont descreve a esfera do visível como um campo no qual a percepção humana foi historicamente codificada e ordenada por critérios culturais. Segundo essa concepção, a cultura manifesta-se também por meio de repertórios de símbolos visuais.

Esse entendimento dialoga com as reflexões de Aby Warburg, que, na passagem do século XIX para o século XX, compreendia a imagem como um fenômeno antropológico amplo, capaz de condensar aspectos culturais de um determinado momento histórico. Seu projeto intelectual destacou a sobrevivência das imagens, conceito conhecido como Nachleben, que influenciou autores como Walter Benjamin, Carlo Ginzburg e Georges Didi-Huberman .

Na década de 1990, W. J. T. Mitchell propôs o conceito de “virada pictórica” (pictorial turn). Esse deslocamento epistemológico sugere que as imagens não devem ser tratadas apenas como ilustrações de ideias expressas verbalmente, mas como formas de conhecimento dotadas de capacidades próprias. A proposta questiona a primazia histórica do texto e atribui maior autonomia às representações visuais.

No campo da Cultura Visual, portanto, a imagem não é compreendida apenas como imitação ou representação neutra da realidade. Ela é analisada como produto de relações sociais, históricas e culturais, articulando memória, práticas sociais, valores e disputas de sentido. Seu estudo não busca apenas decodificar significados fixos, mas compreender como as imagens participam da produção de experiências, conhecimentos e formas de percepção do mundo.

Cultura visual e tecnologia