A Batalha de Valmy foi travada a 20 de setembro de 1792, durante as guerras da Revolução Francesa. Foi travada no início das guerras da Primeira Coligação. Nesta batalha enfrentaram-se as tropas francesas e prussianas, um exército que espelhava a revolução e um exército convencional, criado por monarquias absolutas. O primeiro estava sob o comando dos generais Charles Dumouriez e François Kellermann, o segundo sob o comando do Duque de Brunswick. Esta batalha, que não chegou a consumar-se, foi, apesar de tudo, a primeira vitória militar da Revolução Francesa, pois o exército prussiano retirou. Não sendo um feito militarmente relevante, reveste-se de enorme importância histórica.
Antecedentes A Revolução Francesa tinha retirado a maioria dos poderes ao rei, Luís XVI. Parte da nobreza francesa tinha começado a emigrar e muitos, os émigrés, encontravam-se na Prússia e no Arquiducado da Áustria. Os tumultos sucedem-se na capital francesa e, de igual forma, a repressão. Luís XVI tenta a fuga mas é preso em Varennes-en-Argonne (Ver o artigo Fuga de Varennes). Uma manifestação para exigir a queda da monarquia provoca o Massacre do Campo de Marte. Aproxima-se a data da aprovação da constituição. Frederico Guilherme II da Prússia e Leopoldo II da Áustria, irmão da rainha Maria Antonieta, em reunião no Castelo de Pillnitz, na Saxónia, redigiram uma declaração, conhecida como Declaração de Pillnitz, em que pediam que fossem restituídos os poderes a Luís XVI e faziam um apelo às potências europeias para agirem antes que as ideias da Revolução Francesa se expandissem para os seus reinos. Convidaram essas potências para unirem-se com a finalidade de restaurar o poder monárquico em França. Alguns países concordaram em começar a organizar contingentes militares para responderem a este apelo mas o Reino Unido declinou o convite.
Em setembro de 1791, foi aprovada a constituição francesa e a 1 de outubro desse ano reuniu-se a Assembleia Legislativa. Apesar disto, a situação interna em França continuou a deteriorar-se e os primeiros meses de 1792, em Paris, foram de tumultos provocados pela fome que ali se fazia sentir. No dia 7 de Fevereiro desse ano, a Prússia e a Áustria estabeleceram uma aliança militar. Pressionados pelos émigrés, os governos destas duas potências esperavam tirar vantagem militar e política do caos em França e começaram a movimentar tropas em direcção à fronteira. Em breve juntar-se-á a esta aliança o Reino da Sardenha (Piemonte). O alarme que esta situação provocou levou a França, a 20 de abril de 1792, a declarar a guerra à Áustria, à Prússia e ao Piemonte.
Foi organizado um exército aliado, sob o comando de Karl Wilhelm Ferdinand, Duque de Brunswick, que proclamou, a 25 de Julho de 1792, através do que ficou conhecido como o Manifesto de Brunswick, que, se a família real francesa não fosse prejudicada, então os aliados não prejudicariam os civis franceses nem seriam autorizados saques das cidades; no entanto, se a família real fosse sujeita a actos de violência ou de humilhação, os aliados atacariam Paris. Imediatamente se verificaram combates ao longo da fronteira com a Flandres. O exército francês, desorganizado pela revolução, foi facilmente repelido pelas tropas austríacas nos primeiros combates. Estas primeiras derrotas foram vistas no exterior de França como um sinal de que este país já não tinha um exército capaz de cumprir as suas missões.Duroselle, p. 377
As forças aliadas avançaram pela Floresta de Argonne, capturaram as fortalezas de Longwy e Verdun e dirigiram-se a Paris. No exército francês, o general Conde de Rochambeau, comandante do Exército do Norte (Ver As forças em presença), demitiu-se descontente com o comportamento das suas tropas. Foi substituído pelo Marquês de La Fayette que, em agosto, desertou para o lado dos Austríacos. O Exército do Norte passou a ser comandado pelo general Charles-François du Perrier du Mouriez, conhecido como general Dumouriez. A junção das tropas de Dumoriez com o Exército do Centro, sob comando do general François Christophe de Kellermann, formou o exército que enfrentou com sucesso esta invasão de França.Dupuy & Dupuy, pp. 678 e 679
O campo de batalha thumb|direita|250 px|Moinho de vento reconstruído, idêntico ao que existia na colina de Valmy na altura da batalha.
Valmy é uma comuna francesa, situada no departamento do Marne, região Champagne-Ardenne, Nordeste da França, a cerca de 100 Km da fronteira com a actual Bélgica. Localiza-se perto da auto-estrada A4, entre Reims e Verdun. O local do campo de batalha está hoje bem sinalizado, por placas onde encontramos escrito «Site de la Bataille de Valmy». Um moinho de vento com cerca de 14 metros de altura, restaurado e idêntico ao que se encontrava no mesmo local durante a batalha, facilita a sua localização.battlefieldseurope.co.uk/Valmy.aspx
Este campo de batalha é delimitado, a Norte, pela Ribeira de Bionne, que vai desaguar no Rio Aisne, onde assentava o flanco direito do dispositivo francês. A sul do campo de batalha corre o Rio Auve, que recebe o Jeure como afluente. Trata-se de uma região agrícola, pouco arborizada, com algumas colinas de encostas suaves. A Leste do campo de batalha encontram-se os Montes Argonne, cadeia de colinas de formação rochosa e cortada por desfiladeiros e cursos de água, onde se situa a Floresta de Argonne. Por esta região passavam cinco estradas que a atravessavam em cinco desfiladeiros. Por si só, este facto já constituía uma dificuldade para o invasor mas, além disso, as estradas transformavam-se em percursos de lama quando chovia.Fuller, p. 355. Para Sul de Valmy estende-se uma colina em que, no seu extremo sul, foi construído o moinho de vento, e a Norte encontra-se o Monte Yron.
As forças em presença A força invasora thumb|direita|upright|Karl Wilhelm Ferdinand, Duque de Brunswick, comandante do Exército Prussiano.
As forças invasoras eram formadas por tropas prussianas, austríacas, hessianas e émigrés sob o comando de Karl Wilhelm Ferdinand, Duque de Brunswick, oficial prussiano que tinha servido sob as ordens de Frederico o Grande e se tinha distinguido na Guerra dos Sete Anos e nas campanhas da Baviera e da Holanda.Chandler, pp. 70 e 71 No entanto, a presença de Frederico Guilherme II da Prússia inibia Brunswick de agir exclusivamente de acordo com a sua linha de pensamento. Os exércitos prussiano e austríaco eram os mecanismos obedientes dos seus respectivos monarcas, com excelentes infantaria e cavalaria, mas com uma artilharia pouco evoluída. Muitos dos seus generais estavam velhos e alguns dos mais novos olhavam com simpatia os movimentos revolucionários em França. O elo mais fraco deste exército era o seu comando pois, entre Frederico Guilherme II da Prússia e Brunswick, não havia unidade de pensamento. O primeiro era muito influenciado pelos émigrés e o segundo não gostava deles; pelo contrário, demonstrava alguma simpatia pelos Girondinos e Jacobinos, de tal forma que, no início de 1792, o Governo Revolucionário lhe tinha oferecido o comando do Exército Francês.Fuller, pp. 346 a 351
O exército reunido em Koblenz contava, assim, com cerca de 82 000 homens distribuídos da seguinte forma:Fuller, p. 351
thumb|esquerda|200 px|Dumouriez, comandante do Exército do Norte. Retrato póstumo, Paris, 1834.
Sob o comando de Brunswick: 42 000 prussianos, 5 500 Hessianos e 4 500 émigrés, num total de 52 000 homens; este corpo de tropas dispunha de 58 bocas de fogo de artilharia.
Sob o comando de François Sébastien de Croix de Clerfayt: 15 000 austríacos;
Sob o comando do Príncipe Friedrich Wilhelm, Fürst zu Hohenlohe-Kirchberg: 15 000 austríacos.
Na Batalha de Valmy só cerca de 34 000 homens do exército de Brunswick estiveram presentes. As restantes forças estavam distribuídas ao longo da linha de comunicações com Coblenz e em outros pontos do território francês, junto à fronteira.
A força francesa thumb|direita|200 px|Kellermann, comandante do Exército do Centro.
O Exército Francês daquela época estava dividido em três exércitos de campanha: Exército do Norte, Exército do Centro e Exército do Reno. As forças que participaram na Batalha de Valmy pertenciam aos Exércitos do Norte e do Centro. O Exército do Norte tinha como comandante o General Charles François Dumouriez e o Exército do Centro era comandado pelo General François Christopher de Kellermann.
Embora ainda dispondo de muitos soldados do Exército Real, as fileiras eram preenchidas por muitos voluntários com pouca ou nenhuma experiência e de cuja lealdade os chefes militares duvidavam. No entanto, este era um exército animado por um espírito nacional e cabia aos seus comandantes saberem explorar esse espírito, que se traduzia numa grande força anímica.
O problema maior que então se colocava era o do enquadramento das tropas, devido à emigração de parte dos seus oficiais, especialmente de infantaria e cavalaria. Era assim, aparentemente, um exército de qualidade questionável, com um efectivo que rondaria os 52 000 homens, dos quais foram empenhados cerca de 36 000.Dupuy & Dupuy, p. 679, Fuller, p. 360. O exército do Centro tinha cerca de 40 bocas de fogo de artilharia. Ao contrário da Infantaria e da Cavalaria, a Artilharia francesa, na época, era a melhor na Europa, devido aos progressos que tinham sido feitos sob a direcção de Gribeauval.Fuller, pp. 349 e 350.
A batalha A invasão e a marcha até Valmy A força invasora entrou em França com três exércitos. O exército de Brunswick saiu de Koblenz e entrou na Lorena, colocando-se entre o exército de Kellermann, em Metz, e o de Dumouriez em Sedan. No seu flanco esquerdo movimentavam-se os austríacos, sob o comando do Príncipe Hohenlohe-Kirchberg e no flanco direito o corpo de tropas de Clerfayt. Estes três exércitos juntaram-se na Lorena. O plano era atravessar o Rio Mosa e avançar pela estrada que conduzia a Paris.
thumb|esquerda|400px|Mapa da região dos Montes Argonne, em 1792.
No dia 23 de Agosto, o exército de Brunswick atingiu a fortaleza de Longwy que, após um curto bombardeamento, aceitou render-se. Quando a ameaça passou a pender sobre a fortaleza de Verdun, Dumouriez enviou dois batalhões para reforçar a guarnição daquela praça. Não chegaram a tempo, pois a fortaleza entretanto caiu em poder dos prussianos. O exército de Dumouriez ocupou posições em St. Ménehould. A sua missão era agora defender as passagens nos Montes Argonne e aguardar a chegada de Kellermann, que tinha recebido ordens para o apoiar. O exército de Dumouriez, por si só, não dispunha de tropas suficientes para defender os cinco desfiladeiros.
Entretanto, Verdun capitulou no dia 2 de Setembro e Brunswick manteve-se ali até ao dia 11. O mau tempo que se fazia sentir desde que tinham atravessado a fronteira, transformou os caminhos em trilhos de lama, dificultando a marcha das tropas, entre as quais a disenteria começava a causar baixas. No entanto, esta demora em prosseguir com as operações deveu-se principalmente aos desentendimentos entre Brunswick e Frederico Guilherme II, que não chegavam a acordo sobre a forma como deviam actuar. Brunswick pretendia ocupar Sedan e acantonar as tropas para o Inverno em povoações da região. Para ele, o estado do exército e das estradas e a dificuldade em abastecer as tropas, justificavam esta paragem nas operações. Frederico Guilherme II, apoiado pelos émigrés e também por alguns dos oficiais de Brunswick, pretendia continuar a avançar em França e, numa grande batalha, obter uma vitória decisiva sobre os Franceses. A vitória, no seu entender, estaria assegurada, pois trava-se de confrontar um exército revolucionário, não convencional, com um exército com uma preparação e disciplina superiores. O dever de obediência, levou Brunswick a dar continuidade às operações em França.Fuller, pp. 355 e 356.