miniaturadaimagem|Um manaschi Quirguiz a declamar um poema épico em Karakol Oralidade é a prática de uso da língua natural por meio da produção sonora, em diversos gêneros de texto orais, nos mais diferentes contextos e níveis de formalidade. Nela, estaria inclusa a fala (forma de produção textual por meio de sons articulados e de significados), acompanhada de outros aspectos como a prosódia, os gestos, a expressão facial, os movimentos corporais, entre outros.Marcuschi, Luiz Antônio. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. 10. ed. São Paulo: Cortez, 2010, p. 25.

É considerada, também, como a transmissão oral dos conhecimentos armazenados na memória humana. Antes do surgimento da escrita (3.000 a.C., com entrada no mundo ocidental por volta de 600 a.C.), grande parte dos conhecimentos eram transmitidos oralmente, sendo, pois, o principal meio de comunicação entre os homens. As memórias auditiva e visual eram os únicos recursos de que dispunham as culturas orais para o armazenamento e a transmissão do conhecimento às futuras gerações (de uma geração a outra).Machado, Vanda . Tradiçao Oral- Vida Africana e Afro-brasileira. In: FLORENTINA SOUZA E MARIA NAZARÉ LIMA. (Org.). Literatura Afro-brasileira. 1ed.Salvador: CEAO - Fundaçao Cultural Palmares, 2006, v. , p. 79-109.Vansina, Jan: Oral Tradition as History, 1985, James Currey Publishers, ISBN 0-85255-007-3, ISBN 978-0-85255-007-6; na página 27 e 28, onde Vasina define tradição oral como "mensagens verbais onde são relatadas declarações da geração atual", que "especifica que a mensagem devem ser declarações orais faladas, cantadas ou gritadas apenas em instrumentos musicais"; "Deve haver transmissão por palavra por pelo menos uma geração". Ele ressalta que "Nossa definição é uma definição funcional para o uso de historiadores. Sociólogos, linguistas ou estudiosos das artes verbais propõem sua própria, que em, por exemplo, sociologia, salienta conhecimento comum. Em linguística, características que distinguem a linguagem do diálogo comum (linguistas) e nas características das artes verbais de forma e conteúdo que definem arte (folcloristas)."Ki-Zerbo, Joseph: "Methodology and African Prehistory", 1990, UNESCO International Scientific Committee for the Drafting of a General History of Africa; James Currey Publishers, ISBN 0-85255-091-X, 9780852550915; veja o capítulo 7; "A tradição oral e sua metodologia" nas páginas 54-61; na página 54: "tradição oral pode ser definida como um testemunho transmitido de geração em geração. Suas características especiais são que é oral e a forma em que ele é transmitida."

A inteligência estava intimamente relacionada a memória. Os anciões eram considerados os mais sábios, consequência de seu vasto conhecimento acumulado.

Em muitas culturas, a identidade do grupo estava sob guarda a de contadores de histórias, cantores e outros tipos de arautos que, na prática, eram autenticamente os portadores da memória da comunidade. É é o caso do papel desempenhado pelos griot, na África Ocidental , os quais têm como relato mais famoso os feitos do rei Sundiata Queita, soberano do Império do Mali. Esse é um exemplo de que a oralidade apresentou papel principal e fundamental na comunicação humana durante muitos anos e que, ainda hoje, estudiosos contemporâneos concordam com sua influência na estrutura do pensamento de sociedades letradas (imersas nas diversas práticas de leitura e usos da escrita).

Evolução na história A tradição oral, na Grécia Antiga, era de extrema importância no ensino da arte da retórica, a arte de falar bem em público. Os sofistas da Grécia do diziam que a retórica era a fonte de uma base racional para eficazes desempenhos. O princípio fundamental de tal arte (a retórica) era basicamente demonstrar a capacidade do orador de refutar ou demonstrar um argumento.

O altar, durante a Idade Média na Europa Ocidental, mais do que o púlpito, tomava o lugar de importância no centro das igrejas. Os sermões e as pregações nas ruas e praças eram exemplos da importância do discurso oral para a Igreja. Não só ela, mas também os grandes governantes perceberam o poder da comunicação oral, sendo um exemplo disso o discurso da rainha Elizabeth I sobre a necessidade de "sintonizar os púlpitos". Assim, partindo da premissa de Isabel I de Inglaterra, Carlos I declarou que em períodos nos quais há ausência de guerras as pessoas são mais governadas pelo púlpito do que por espadas.

No , o desenvolvimento do comércio mudou consideravelmente a comunicação oral, pois o aumento no intercâmbio de mercadorias e o nascimento das bolsas comerciais criavam o ambiente perfeito para a prática oral. As inovações do período permitiram a efervescência de bares, cafés, tabernas e clubes, espaços onde a prática oral, através dos discursos e debates, era essencial. Tais locais de debate foram, desta forma, o ambiente propício para, a partir do , desenvolver o que denominamos de "esfera pública".

A Universidade sempre foi outro ambiente propício e favorável ao uso da oralidade, pois a arte da retórica era de grande valor neste espaço, tendo em vista que era através de debates formais, declarações e disputas que os estudantes eram ensinados e estimulados ao aprendizado. Uma forte influência e consequência deste uso é que a maioria dos estilos literários, já no , derivava da retórica acadêmica. Atualmente, um resíduo da arte retórica encontra-se nos discursos de defesa de trabalhos de conclusão de curso nas graduações, mestrados e doutorados.

Tipos de oralidade A oralidade, estudada por inúmeros especialistas, é dividida em dois tipos: primária e secundária. Essas duas concepções de oralidade podem ser encontradas em obras como "As Tecnologias da Inteligência: O Futuro do pensamento na Era da Informática" do filósofo francês, Pierre Lévy, e "Oralidade e Cultura Escrita - A Tecnologização da Palavra" de Walter J. Ong, sendo, no entanto, abordadas de maneiras diferentes por cada especialista, pois tiveram seu destaque em momentos históricos distintos.

Oralidade primária Os elementos técnicos condicionam as formas de pensamento ou as temporalidades de uma sociedade. Isso quer dizer que uma sociedade que não possui influências da escrita ou da impressão organiza-se de uma forma diferente de uma outra que possua tais influências. A oralidade primária é o tipo de oralidade que não é influenciada de nenhuma forma pela escrita ou pela impressão, pois não possui contato com as mesmas. Nessas sociedades, a palavra tem como função básica a gestão da memória social, e, desta forma, o edifício cultural estaria fundado sobre as lembranças dos indivíduos.

Uma característica importante da comunicação oral é que ela não deixa resíduos táteis. Isto é, uma sociedade puramente oral não possui registros e se baseia totalmente na memória. A memória humana não corresponde a um equipamento de armazenamento e recuperação fiel das informações, pois há, muitas vezes, dificuldades para diferenciar as mensagens originais que recebemos das relações e associações que fazemos a elas.

Apesar da grande diversidade técnica das últimas décadas, há uma persistência da oralidade primária nas sociedades modernas, visto que as "representações e maneiras de ser ainda são transmitidas independentemente dos circuitos de escrita e dos meios de comunicação eletrônicos". Ou seja, a maior parte dos conhecimentos adquiridos experimentalmente ainda são repassados por meio da oralidade.

Oralidade secundária A oralidade secundária pertencente às culturas eletrônicas que dependem diretamente da cultura escrita e da impressão. O fato de ainda falarmos hoje está diretamente ligado à oralidade secundária. Apesar de muitas culturas altamente desenvolvidas a nível tecnológico ainda apresentarem muito da estrutura mental oriunda da oralidade primária, a existência de sociedades que ainda não tiveram contato com a escrita é rara atualmente. Diante disso, é difícil imaginar uma tradição puramente oral ou a oralidade primária de forma significativa, pois a tradição oral não possui resíduos ou depósitos e não pode ser tocada.

Exemplos claros da diferença entre oralidade primária e secundária foram os debates entre, na época candidato a senador pelo estado de Illinois, Abraham Lincoln, e o senador Stephen Douglas, nos Estados Unidos:

Distúrbios que afetam a oralidade Considerando a importância da informação auditiva para a aquisição e organização das regras fonológicas, a avaliação do processamento auditivo (central) contribui para o diagnóstico de distúrbios fonológicos, que afetam a oralidade.

Gagueira: um transtorno que afeta a fluência da fala, tornando-a interrompida ou repetitiva. Disartria: uma condição que causa dificuldade na articulação das palavras devido a problemas neurológicos ou musculares. Apraxia da fala: uma condição em que o cérebro tem dificuldade em coordenar os movimentos necessários para produzir a fala. Afasia: uma condição que afeta a capacidade de compreender ou produzir linguagem devido a danos no cérebro, geralmente causados ​​por um acidente vascular cerebral ou traumatismo craniano. Disfonia: um distúrbio que afeta a qualidade da voz, tornando-a rouca, fraca ou áspera. Mutações: um problema de fala que faz com que as palavras sejam pronunciadas de maneira incorreta ou com substituições de sons. Distúrbio Fonológico: caracterizado por dificuldades na organização e utilização dos sons da fala de acordo com as regras fonológicas do idioma, podendo comprometer a inteligibilidade da comunicação oral.

Esses transtornos podem variar em gravidade e muitos deles podem ser tratados com terapia da fala. Se você estiver preocupado com sua capacidade de falar ou a de alguém que conhece, é importante procurar um profissional de saúde para obter um diagnóstico preciso e um plano de tratamento adequado.

Oralidade e escrita O linguísta Luiz Antônio Marcuschi, em sua obra “Da fala para a escrita: atividades de retextualização”, discute sobre as relações entre oralidade e letramento e fala e escrita de uma forma não dicotômica, isto é, que não vê as duas modalidades (fala e escrita) de uso da língua como diferentes, fechadas e opostas, como eram vistas até a década de 1980. Segundo o autor, a perspectiva dicotômica e tradicional de olhar paras as duas modalidades fez surgir o mito da supremacia cognitiva da escrita, ou seja, de que esta teria valores superiores à oralidade pois seria mais ordenada, organizada e lógica. E, consequentemente, a noção de que as sociedades letradas seriam superiores em relação às sociedades de cultura e tradição oral.

A visão dicotômica costuma apresentar as duas modalidades tendo como principais características:

Fala EscritaContextualizadaDescontextualizadaDependenteAutônomaImplícitaExplícitaRedundanteCondensadaNão planejadaPlanejadaImprecisaPrecisaNão normatizadaNormatizadaFragmentáriaCompleta

No entanto, como apresenta e defende Marcuschi, tais modalidades são práticas sociais de realização da língua, com semelhanças e diferenças, que convivem e são utilizadas cotidianamente para atender a diferentes propósitos em diferentes contextos de uso (no trabalho, na escola, grupos sociais, família, vida burocrática, atividade intelectual, etc), podendo, ainda, sofrerem influências mútuas e se complementarem (como nos chats, aplicativos de mensagem instantânea, aulas expositivas, jornais televisivos, entre outros).

Desta forma, o autor colocar em vista o contínuo existente entre as modalidades, em outras palavras, que seus usos podem ir da fala mais informal (conversa espontânea) a escrita mais formal (artigo científico) ou da escrita mais informal (bilhete de geladeira) a fala mais formal (conferência acadêmica num congresso). De modo global, o linguísta afirma que são os usos reais da língua (interlocutores, necessidades, objetivos, contextos) que determinam as formas (escrita ou oralidade e formalidade ou informalidade) de utilizá-la.