A História de Vila Nova de Poiares é a história de um concelho, como muitos outros, em que é difícil deslindar com precisão a sua origem. Esta circunstância, deve-se a variadas razões: para uns a falta de documentos é notória (JÚNIOR, 1978), outros apontam também como causa “a estrutura geográfica que retardou a concentração urbana.” (SERRÃO, 2001: 13), o que torna o objecto de estudo mais difícil de encontrar. Na verdade, “Poiares” foi durante muito tempo uma zona e não uma localidade. As Terras de Poyares estendiam-se, numa zona não facilmente demarcada, por vales e serras. O topónimo Poiares encontra ainda outras utilizações pelo território Português, o que pode surgir como problema aos olhos mais desatentos. Convém frisar que se trata do “Poiares de Coimbra” (SERRÃO, 2001: 14), visto ter pertencido durante séculos ao termo desta cidade.
A Origem do Topónimo
A própria origem do topónimo tem constituído uma dificuldade para os investigadores, na medida em que se discutem várias possibilidades da origem do vocábulo “Poiares”. Alguns autores têm discutido esta matéria, mas parece encontrar-se uma certa complementaridade entre as interpretações (FERRÃO, 1905; JÚNIOR, 1978 e SERRÃO, 2001). Assim, o vocábulo ter-se-á originado a partir da antiga forma verbal “poyar”, cujo significado seria “por, assentar, pousar, desembarcar, etc.” (FERRÃO, 1905: 11), ou “subir, trepar ou ‘fazer poyo’”, isto é, subir a um lugar alto donde se aviste a paisagem (SERRÃO, 2001: 14). A primeira das hipóteses aponta como explicação o facto de as Terras de Poyares constituírem uma vasta área deserta em que o poyar, isto é, o assento, o local de descanso durante a caminhada, o local de desembarque escasseava, no entanto, aqui e ali apareciam os poyar (ou poyares?). Como certamente, terá sido a Albergaria de Poiares, sita a Santa Maria de Arrifana, para uns (FERRÃO, 1905), e a Vila Chã (actualmente São Miguel de Poiares), para outros (SERRÃO, 2001: 18). Para a segunda hipótese explicativa, o termo “Poiares” significava um lugar de acesso a sítios altos. Hermano Saraiva no seu programa de televisão dedicado ao concelho de Vila Nova de Poiares aponta ainda uma outra hipótese: a de “poiares” ter evoluído desde “padalares”, passando por “paaares”. Explica que existe um documento do século IX em que aparece o topónimo Padalares e que as leis da evolução fonética apontam para este tipo de evolução (SARAIVA, 2002).
De facto, não existem dúvidas sobre a origem deste topónimo bem como o seu significado, pelo que poderemos considerar válidas todas as observações anteriores, a menos do caso único de "padalares" que se trata de uma desviante, mal dita, mal entendida ou mal escrita à época, mas com a mesma origem. Existem vários locais no território português com esta designação, pelo que não se trata de um caso fortuito. Assim, devemos deixar à toponímia o acerto deste nome. Como muitos nomes, é mais um que resulta da geografia ou orografia dos locais onde se aplica. O vocábulo Poiares é o mesmo que poiais ou Poiais, plural de poial, e que se descreve como um lugar ou local relativamente mais alto onde se pousa(m) alguma(s) coisa(s) ou pessoa(s); a evolução provável a partir da raiz e na escrita moderna será: Podi+al > Podi+al+es (plural) > Poiales (este já existente no português arcaico) > Poiares; a evolução de Poiais é fácil de admitir.
Pré-História O vale e serras circundantes, onde se localiza actualmente o concelho de Vila Nova de Poiares, terão tido ocupação desde o período Neolítico, como prova a existência do Dólmen de S. Pedro Dias, localizado na Serra com o mesmo nome (SANTOS, A., 1997).
Da Antiguidade Clássica aos alvores da Nacionalidade Mas terá sido após a romanização que terá tido maior importância, mercê das vias militares que por aqui passavam. Na verdade, atravessavam estas terras duas vias militares: a que ligava Coimbra à Egitânia, passando por Carvalho, Santo André de Poiares e Ponte de Mucela (SERRÃO, 2001) e a que ligava Tomar a Tondela, atravessando estas terras em S. Miguel de Poiares e em Ponte de Mucela, onde havia uma importante ponte romana sobre o Rio Alva (JÚNIOR, 1978). Se recorrermos à toponímia (basta lembrar o nome de algumas localidades do concelho como “Moura Morta”) e acrescentarmos a existência de algumas lendas em que se fala invariavelmente de “Mouras”, encontramos também a possibilidade de por aqui terem vivido muçulmanos (SANTOS, 2001). Para além disso, estão também documentados combates entre cristãos e mouros em Mucela, que terá sido completamente destruída pelos muçulmanos em 1231 (JÚNIOR, 1978). Temos fontes documentais, provando que já no século VIII havia pelo Chão de Poiares várias localidades que foram doadas ao Mosteiro de Lorvão pelo rei Ordonho II das Astúrias, como sejam “no subúrbio de Coimbra a vila chamada Algazala [...]; bem como outros vilares junto do rio Mondego chamados Lauredo e Sautelo”, as quais corresponderiam aos lugares de Algaça, Louredo e Soutelo actuais. Outros documentos da época referenciam ainda outros lugares que ainda hoje existem como Vale de Vaíde, Vale de Afonso, Vale de Lobo, entre outros (JÚNIOR, 1978). Às Terras de Poyares está também ligada uma lenda de D. Afonso Henriques ou, pelo menos, uma das suas versões (FERRÃO, 1905). Com efeito, a lenda conta-nos que el-rei alcançara um vil cardeal (o qual o havia excomungado, assim como à cidade de Coimbra e ao Reino) “em hum lugar a que chamão a Vimieira, que he a par de Poyares caminho da Beira” (cit. em SERRÃO, 2001: 16). Este pequeno excerto de uma lenda dá-nos duas pistas fundamentais, pois todas as lendas têm fundos de verdade, a saber: Em primeiro lugar, atesta que o topónimo “Poiares” era já utilizado ainda antes da nacionalidade e não para designar uma localidade, mas uma zona, tal como havíamos concluído. Em segundo lugar, mostra a o importância das vias de comunicação que cruzavam estas terras, pois eram quase obrigatórias para quem pretende-se viajar entre Coimbra e o interior das Beiras ou o resto da Península. Tal facto confirma a necessidade de existência dos poyar nesta região (FERRÃO, 1905).
Albergaria de Poiares É sobre a Albergaria de Poiares que mais documentação, desta época anterior e dos primeiros tempos da nacionalidade, há das Terras de Poyares. As albergarias desta época eram casas pias, localizadas junto a estradas importantes ou a instituições religiosas e ligadas a estas, que ajudavam os peregrinos e viajantes, principalmente os mais pobres. Desempenhavam um importante papel na assistência pública, servindo de hospitais de caridade e eram no início da nacionalidade, mercê da grande instabilidade militar, normalmente controladas pelas rainhas (FERRÃO, 1905). A “Albergaria de Poiares” terá sido fundada no sítio de Arrifana, devido à acção da rainha D. Mafalda, esposa de D. Afonso Henriques, nesta época, como afirma o Prof. Doutor Veríssimo Serrão (2001: 17). No entanto, o mesmo autor e na mesma obra afirma: “a implantação da albergaria deu-se no sítio de Vila Chã, hoje identificada com São Miguel de Poiares, embora outros autores a preferiam colocar no lugar de Arrifana.” (SERRÃO, 2001: 18) como, aliás, ele próprio e outros (FERRÃO, 1905 e JÚNIOR, 1978). Temos conhecimento de uma Carta de Foral dada pela rainha D. Dulce, esposa de D. Sancho I, à Albergaria de Poiares e ao Convento de São Miguel, em Maio de 1195: “Em nome de Samta e Emdepartida Trindade eu a Raynha dona Doce a vos frei Joan mestre da allbarguaria do Poiares e a todolos moradores dese mesmo convemto de Sam Miguel também aos moradores e povoradores que hahy moram como aos que vierem fasemos carta de poduravel fermidom de bom foro perduravel para sempre pello qual ajades e posuades e pobredes a sobredita erdade em pas. [...] Feita a carta de comfirmasão e de firmidõe no mês de Maio da Era de mil dusemtos e trimta e tres annos. Eu a Rainha dona Dose a vos frei Joane de allberguaria de Poiares emsembra e com meus irmãos que a mandamos escrever e com as nosas propias mãos a roboramos.” (cit. em SOARES, 2002: 10). Com esta Carta de Foral provamos a existência da Albergaria de Poiares e a sua ligação ao Convento de São Miguel, que terá existido na localidade que hoje tem esse nome (?), tendo assim ligações a uma instituição religiosa como muitas outras albergarias. Esta proximidade ao convento de São Miguel poderá ter sido também espacial e, se assim fora, parece que ganha consistência a ideia de alguns que afirmam ter-se a Albergaria de Poiares localizado em Vila Chã (actual São Miguel de Poiares) (SERRÃO, 2001: 18). Do mesmo ano de 1195, data um outro documento em que é referido o nome de Frei João da Albergaria de Poiares. Trata-se da outorga do foro e costumes de Évora aos povoadores de S. Vicente da Beira, por parte da mesma rainha D. Dulce, em que se dá a estes povoadores o direito de utilizar a Albergaria de Poiares (SERRÃO, 2001). Deve igualmente referir-se que D. Sancho I concedeu no seu testamento de 1209 à Albergaria de Poiares 200 maravedis, o que mostra a importância da albergaria (SERRÃO, 2001). É também referido nas inquirições de 1258 ordenadas por D. Afonso III que “D. Aldonça ou D. Dulce, esposa de D. Sancho I, comprou o Ervedal, e seu termo para fazer presente à Albergaria de Poiares”, a qual depois de alguma instabilidade terá pertencido a D. Teresa, filha de D. Sancho I, que lhe deu foral “Datum apud Monasterum de Celis Mense Januario, sub era 1287 [1249 da Era de Cristo]” (FERRÃO, 1905: 23 e 26-27). Quando D. Teresa morreu, a Albergaria de Poiares passou para os bens da coroa, para depois D. Afonso III a trocar pela vila de Arronches que pertencia ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, no ano de 1264 (FERRÃO, 1905). No entanto, o Prof. Doutor Veríssimo Serrão menciona, em “Um Passeio pela História de Poiares”, o carinho de D. Afonso III à Albergaria de Poiares, citando a carta régia de 20 de Abril de 1264: “Tomo em minha encomenda e sob a minha defensão a albergaria de Poiares com todos os seus habitantes e possessões e herdades e gados e com todas suas coisas.” (cit. em SERRÃO, 2001: 17-18). A Albergaria teria, mais tarde, regressado à coroa, mercê de legislação de D. Dinis, que restituía ao Estado alguns bens que estavam dependentes da Igreja (FERRÃO, 1905). Desde da Idade Média até ao século XIX nada mais há escrito sobre a Albergaria de Poiares, à excepção de umas lápides encontradas no início do século XIX, uma delas ainda existente, servindo de ombreia da porta da sacristia da Igreja Matriz de Arrifana. No entanto, sabemos que na sessão de 25 de Abril de 1837 da, então, recém criada Câmara Municipal de Poiares foi presente um requerimento do vereador Joaquim Fernandes da Cunha, de S. Miguel de Poiares, em que pede os seus direitos enquanto cirurgião residente na Albergaria de Poiares (FERRÃO, 1905). É-nos assim possível afirmar que em meados do século XIX a Albergaria de Poiares ainda existia, possivelmente, num local diferente do original.
Séculos XV e XVI Referente ao século XV temos também alguma documentação sobre algumas povoações da Chã de Poiares. Nomeadamente, sabemos que no reinado de D. Pedro a administração da Justiça em Poiares passa do Mosteiro de Santa Cruz para o Município de Coimbra e que a Peste Negra não terá afectado esta região, visto ter aumentado a população (SERRÃO, 2001).