Limite é um filme mudo brasileiro de 1931, dirigido e roteirizado por Mário Peixoto, com produção da Cinédia. A obra utiliza de metáforas para abordar de maneira poética o interior de seus personagens. Marcam o filme a impotência, solidão, desespero, resignação, passagem do tempo e a condição humana.LIMITE. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obras/123468-limite. Acesso em: 18 de abril de 2026. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7 Acabou que gradativamente adquiriu o status de obra-prima do cinema brasileiro, principalmente devido ao teor inovador adotado por Peixoto na produção, além do valor histórico de ser um dos precursores do cinema do Brasil. Ficou conhecido como o filme "mais comentado do que visto", pois nunca foi exibido comercialmente. É considerado um dos primeiros filmes experimentais já realizados na América Latina, embora o termo ainda não estivesse em circulação na época.

Considerado um dos melhores filmes de todos os tempos, Limite foi elogiado por inúmeras personalidades, como o cineasta Walter Salles e o poeta Vinicius de Moraes. Em 1988, a Cinemateca Brasileira elegeu a obra como o "melhor filme brasileiro de todos os tempos". Já em 1995, o jornal Folha de São Paulo também deu esse título ao longa, de acordo com uma pesquisa nacional. Em novembro de 2015, Limite atingiu o 1º lugar na lista dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos organizada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Em maio de 2026, foi incluído na lista dos cem filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos, da mesma associação, agora em ordem cronológica, continuando em primeiro lugar.

Enredo

Em um pequeno barco à deriva, duas mulheres e um homem, referidos apenas como Mulher 1, Mulher 2 e Homem 1, relembram seu passado recente. Cansados, eles param de remar e se conformam com a morte, relembrando (através de flashbacks) as situações de seu passado. Eles não têm mais força ou desejo de viver e atingiram o limite de suas existências.

Uma mulher, costureira, escapou da prisão com a ajuda de um guarda. Tentou recomeçar a vida em outra cidade, mas teve que fugir novamente ao ver nos jornais que a polícia ainda a procurava. A outra mulher deixou seu casamento infeliz com um pianista alcoólatra, cansada de sua frieza e falta de cuidado. O homem, viúvo, conta que se apaixonou por uma mulher casada. Mais tarde, ao visitar o túmulo de sua falecida esposa, soube pelo marido dela que ela tinha lepra.

Elenco Nos letreiros iniciais, apenas os nomes dos quatro protagonistas são creditados. O elenco do filme foi o seguinte;

Creditados mulher 1... Olga Breno mulher 2... Taciana Rei homem 1... Raul Schnoor homem 2... D.G Pedrera

Não creditados mulher comendo fruta... Carmen Santos homem sentado no cemitério... Mário Peixoto homem dormindo... Edgar Brasil mulher na máquina de costura... Iolanda Bernardes

Produção Em agosto de 1929, Mário Peixoto estava em Paris, durante as férias de verão dos seus estudos na Inglaterra, quando viu uma fotografia de André Kertész de duas mãos masculinas algemadas em volta do pescoço de uma mulher que olha para a câmara. Esta tornou-se a imagem "geradora" ou "proteica" de Limite.Ruiz, Raúl; Bressane, Julio; et al. (2008) "Limite, le film culte de Mário Peixoto" Cinémas d'Amérique Latine n.16

Peixoto queria interpretar o protagonista masculino, apresentando seu projeto aos diretores Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga, o último sendo o dono da Cinédia, que disseram que seu roteiro era pessoal demais para ser dirigido por qualquer outra pessoa. Gonzaga acabou por indicar Edgar Brasil para realizar e fotografar o longa e Ruy Costa como assistente. Peixoto então, financiou a produção com recursos familiares. As filmagens do longa foram realizadas no município de Mangaratiba na Fazenda Santa Justina, pertencente a Victor de Souza Breves, parente de Peixoto, com as primeiras cenas sendo tomadas com uma máquina emprestada pela Phebo Brasil Film, de Humberto Mauro. Segundo Peixoto, a produção custou 60 mil réis.

Lançamento e exibições

Foi filmado em 1930 e apresentado pela primeira vez para em 17 de maio de 1931, para uma plateia de convidados no Cinema Capitólio, localizado na Cinelândia, na cidade do Rio de Janeiro, tendo sido recebido de forma fria. O filme foi lançado no Chaplin Clube, Rio de Janeiro, em 17 de outubro de 1931, para uma exibição especial em homenagem a Charlie Chaplin, que aparece brevemente no filme em uma inserção de O Aventureiro, de 1917.

Por volta da década de 60, Peixoto não permitiu que o filme, que havia sido retirado de cartaz após 1940, fosse visto por ninguém. Como Georges Sadoul escreveu na época , "(...) esta obra única assumiu, ao longo do tempo, um significado mítico que é impossível de controlar."

Home video No Brasil, Limite foi lançado em VHS pela Fundação Nacional de Artes (Funarte). Em 2017, nos Estados Unidos, foi lançado em DVD pela The Criterion Collection.

Recepção e legado

Mesmo após décadas de seu lançamento, Limite continua sendo comentado e visto por muitos críticos de cinema como uma obra-prima. Outras produções também utilizam sequências do filme, como em O Cinema Falado, filme dirigido por Caetano Veloso, e na canção O Mocho e a Gatinha, da cantora e compositora Adriana Calcanhoto. Em 2007, para o High Line Festival, o cantor David Bowie escolheu Limite como um de seus dez filmes favoritos.

Apesar de ter se tornado uma referência no cinema mundial, apresentou pouca repercussão no circuito cinematográfico da época e só voltou a ser exibido em alguns festivais, continuando, porém, a ser objeto de estudos e discussões. O escritor Otávio de Faria, fundador do Chaplin Clube, organizou, por muitas décadas, uma sessão anual do filme na Associação Brasileira de Imprensa, consolidando o mito em torno da obra, contribuído também pela apreensão do longa pela polícia militar.

Georges Sadoul, um crítico de cinema francês, disse que o filme era uma "obra-prima desconhecida" e que, uma vez, viajou até o Brasil na esperança de conseguir ver uma versão completa dele. O diretor Orson Welles, no início dos anos 1940 estando no Brasil para fazer um filme próprio, assistiu ao longa em sua totalidade e conclamou a experiência visual como "fabulosa". O diretor Walter Lima Jr. declarou: "há dois filmes que são claros arquétipos da busca eterna do Brasil, nomeadamente Limite e Ganga Bruta. Eles representam algo que você tem que polir e algo que determina seu próprio espaço, sugerindo ao mesmo tempo que algo mais existe além de seus limites."

Em 8 de novembro de 2007, o Comitê Nacional do Brasil do Programa Memória do Mundo da UNESCO nominou Limite, apresentado pela Cinemateca Brasileira e a Secretaria do Audiovisual / MinC, como patrimônio nacional brasileiro protegido em benefício da humanidade. Em 25 de março de 2008, o Comitê Regional para América Latina e Caribe, do mesmo Programa, confirmou a produção como patrimônio protegido no âmbito da América Latina e Caribe.

Temas e análises

Limite foi criado em um momento de transição do cinema mudo para o sonoro. Apresenta inovações em fotografia e montagem, além do fato de apresentar uma narração não linear. A partir do roteiro principal, o diretor questiona “a passagem do tempo e a condição humana”.

A montagem da obra tem uma clara inspiração no construtivismo soviético, como apontado por Alvaro Goulart no site Cinema com Crítica. A cena da fuga da prisão é mostrada em paralelo com uma inserção de The Adventurer (1917), de Charles Chaplin, com o título “Carlitos encrencou a zona”, significando: Charlie estragou sua saída - onde a cabeça do condenado, com a tampa, surge justamente ao lado do guarda da prisão. A sequência é mostrada como um “filme-no-filme”, durante uma projeção em um cinema com um pianista proporcionando o acompanhamento para o filme mudo de Charles Chaplin.

Estilisticamente, Limite segue a linha de vários grandes diretores da década de 1920. Em seu artigo sobre o filme, o crítico Fábio Andrade observa a influência de D.W. Griffith , da montagem soviética , das obras expressionistas alemãs de F.W. Murnau e Robert Wiene , dos curtas surrealistas franceses de Germaine Dulac e Man Ray , de Robert J. Flaherty , de Carl Theodor Dreyer e, particularmente , de Jean Epstein , todos visíveis na cinematografia do alemão Edgar Brasil.

Restauração

Em 1959, a única cópia em nitrato de Limite estava apresentando sinais de deterioração, devido as más condições de armazenamento. Com isso, o longa não pode ser mais exibido, o que contribuiu para o mito em torno da obra. Até 1966, a cópia estava armazenada na Faculdade Nacional de Filosofia (FNF), quando, em meio a ditadura militar brasileira, foi apreendida pela polícia militar, ao lado de obras de Eisenstein, Pudovkin e outros diretores soviéticos. Saulo Pereira de Mello, ex-aluno da FNF, conseguiu recuperar a cópia ainda naquele ano. O trabalho de restauração foi concluído em 1978. Apesar da restauração ter conseguido salvar quase que completamente o longa, uma das cenas foi completamente deteriorada e não conseguiu ser restaurada. Na restauração, a cena foi substituída por um intertítulo, que informa ao espectador o conteúdo da sequência.

Em maio de 2007, uma nova restauração da obra, dessa vez financiada pela World Cinema Foundation, organização do cineasta norte-americano Martin Scorsese, em parceria com a Cinemateca Brasileira foi apresentada na seção "Clássicos" do Festival de Cannes daquele ano. A restauração foi relançada nos dias 5 e 6 de novembro de 2011, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Foi apresentado, então, com trilha sonora do norueguês Bugge Wesseltoft. Wesseltoft veio ao país para tocar ao vivo durante a primeira exibição no palco do Auditório Ibirapuera, sendo acompanhado por Naná Vasconcelos, Marlui Miranda, Rodolfo Stroeter e Ola Kvernberg.

Ligações externas

TOCANTINS, Leandro. O Limite do Mito. Filme cultura nº 31 SOUZA, Tânia C. Clemente de. Discurso e Cinema: uma análise de LIMITE

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