400px|thumb| Cannabis sativa é a denominação científica atualmente aceita para designar uma única espécie de planta, encontrada na forma de três sub-espécies C. indica, C. ruderalis e C. sativa MALCHER-LOPES, Renato; RIBEIRO, Sidarta. Maconha, cérebro e saúde.RJ, Vieira & Lent, 2007 thumb|right|A descoberta e isolamento do THC um dos principais elementos ativos responsáveis pelo efeito psicoativo da cannabis se deve aos químicos Raphael Mechoulam e Yehiel Gaoni, da Faculdade de Farmácia da Universidade Hebraica de Jerusalém, em trabalho publicado em 1964.Gaoni Y, Mechoulam R (1964). "Isolation, structure and partial synthesis of an active constituent of hashish". Journal of the American Chemical Society 86 (8): 1646–1647. Abstract Estudos do efeito da Cannabis à saúde envolvem tanto seu aspectos terapêuticos quanto os adversos ou tóxicos. Apesar dos recentes investimentos em pesquisa sobre sua composição bioquímica, formas de uso farmacológico ou étnico-histórico, risco toxicológico e potencial terapêutico na clínica de distintas patologias, como poderá ser visto neste texto, ainda não se possui um consenso quanto aos prejuízos ou benefícios de sua utilização.
Dentre a relação da Cannabis sativa ou maconha e a saúde humana, há vários efeitos positivos e negativos que podem variar de acordo com a condição psicológica de cada usuário e o uso ou abuso da droga. No entanto, os pesquisadores, divergem quanto a nocividade e utilização medicinal.
O tetraidrocanabinol (THC) é o principal responsável pelos efeitos psíquicos da droga no organismo, sendo bastante lipossolúvel. Metabolizado no fígado, é bio-transformada em um metabólito mais potente que o THC.
Uso medicinal thumb|right|O canabidiol (CBD) é um dos principais componentes da C. sativa responsável por seus efeitos terapêuticos no sistema nervoso inclusive como anti-convulsivanteZUARDI, Antonio Waldo. Cannabidiol: from an inactive cannabinoid to a drug with wide spectrum of action. Rev. Bras. Psiquiatr., São Paulo , v. 30, n. 3, Sept. 2008 . . access on 20 Jan. 2015.
Entre as possibilidades de uso medicinal já reconhecida para a Cannabis está seu efeito analgésicoCAMPBELL, Fiona A; TRAMÈR, Martin; R; CARROLL, Dawn; REYNOLDS, D John M; MOORE, R Andrew; MCQUAY Henry J. Are cannabinoids an effective and safe treatment option in the management of pain? A qualitative systematic review BMJ VOLUME 323 7 JULY 2001 bmj.com PDF sua capacidade sedativa e mio-relaxante, capaz de não só potencializar a ação de opióides, diminuindo seus efeitos colaterais, inclusive de obstipação em portadores de dor crônica.BROOKS, Megan. Cannabis Augments Analgesic Effect of Opioids. Medscape. Dec 13, 2011. <> Acesso Set. 2014CAPONERO, Ricardo; NEVES JORGE, José Marcio (Coord.) Consenso Brasileiro de Constipação Intestinal Induzida por Opioides. Revista Brasileira de Cuidados Paliativos 2009; 2 (3 - Suplemento 1) PDFABRAMS, DI; COUEY, P; SHADE SB; KELLY, ME; BENOWITZ, NL. Cannabinoid-Opioid Interaction in Chronic Pain, A Review. Clinical pharmacology & Therapeutics. Nature Publishing Group advance online publication 2 November 2011 PDF No seu potencial terapêutico também está sua capacidade de restaurar o apetite e/ou controle das náuseas e vômitos sendo por isto utilizada para aliviar sintomas relacionados ao tratamento de câncer, AIDSHONÓRIO, KÁTHIA MARIA; ARROIO, AGNALDO; SILVA, ALBÉRICO B. F. Aspectos terapêuticos de compostos da planta Cannabis sativa. Quim. Nova, Vol. 29, No. 2, 318-325, 2006RICHARDSON, Jennelle D. Cannabinoids modulate pain by multiple mechanisms of action. J Pain, 1(1):2-14, 2000. 118 The American Pain Society, USA
Baker et al. (2003) em artigo para o Lancet acrescenta ainda que já foi utilizada como anticonvulsivante, ansiolítico, analgésico, antiemético para o tratamento de cólicas, asma, e dismenorréia e que vem sendo pesquisada para tratamento doenças neurológicas espásticas (esclerose múltipla e síndrome de Tourette), além das possibilidades terapêuticas de intervenção nos receptores endocanabinóides recentemente descobertos, contudo, este autor alerta sobre a necessidade de maiores pesquisas sobretudo sobre seu possível efeito neuroprotetor.BAKER, David; PRYCE, Gareth; GIOVANNONI, Gavin; THOMPSON Alan J. The therapeutic potential of cannabis THE LANCET Neurology Vol 2: 291–98 May 2003 The Lancet
A Cannabis pode ser considerada um remédio leve e de toxicidade aguda baixa. Há relatos de sucesso no tratamento de depressão e insônia, casos em que os remédios disponíveis no mercado, embora sejam mais eficientes, são também bem mais agressivos e têm maior potencial de dependência.BURGIERMAN, Denis Russo; NUNES, Alceu. A verdade sobre a maconha. Super Interessante 179, Agosto, 2002 Abril Cultural Acesso, Agosto, 2014 Estudos recentes, mostraram que o THC, principal componente psicoativo da Cannabis, destruiu células cancerígenas em animais induzindo as células cancerígenas a produzirem uma substância gordurosa chamada "ceramida", a qual faz com que a célula cancerosa "devore a si mesma".Liga Contra o Câncer / Science News.THC pode eliminar tumores cancerígenos, sugere pesquisa. Liga Contra o Câncer 18/06/2010 Outro experimento mostrou que o vírus SIV, variante do HIV em macacos, teve seu avanço freado, sua carga viral e replicação reduzidasVírus da Aids tem avanço diminuído em macacos tratados com maconha O Diário 02/06/2011
Incluem-se, em uso medicinal, a redução da pressão intraocular,Green K: Marijuana smoking vs cannabinoids for glaucoma therapy. Arch Ophthalmol 116:1433-7, 1998 o controle da epilepsia severa (Síndrome de Dravet) tratamento da esclerose amiotrófica e trauma raquimedular , bem como a dor de natureza neuropática.WARE, Mark A. et AL. Smoked cannabis for chronic neuropathic pain: a randomized controlled trial CMAJ • October 5, 2010 • 182 (14) PDF acesso, 2014
Dois psiquiatras brasileiros, Dartiu Xavier e Eliseu Labigalini, fizeram uma experiência interessante. Incentivaram dependentes de crack a fumar maconha no processo de largar o vício. Resultado: 68% deles abandonaram o crack e, depois, pararam espontaneamente com a maconha, um índice altíssimo. Segundo eles, a maconha é um remédio feito sob medida para combater a dependência de crack e cocaína, porque estimula o apetite e combate a ansiedade, dois problemas sérios para cocainômanos. Dartiu e Eliseu pretendiam continuar as pesquisas, mas se depararam com problemas para conseguir financiamento e apoio dos órgãos públicos à época desta publicação (2002).Labigalini Junior, Eliseu; Rodrigues, Lúcio Ribeiro. O uso "Terapêutico" de Cannabis por dependentes de crack no Brasil International Journal of Psychiatry, Fevereiro de 1997 - Vol.2 - Nº 2 Psychiatry On-line Brazil Acesso, Agosto, 2014
História
São bastantes conhecidas as descrições do uso médico da cannabis no oriente especialmente as referências a sua utilização na Índia, onde a planta também é conhecida pelos antigos hindus como ganjika em sânscrito (गांजा, ganja nas modernas línguas indo-arianas). inclusive se denomina uma das variedades da espécie como Cannabis indica . Na China é conhecida por (麻 ou 大麻 - dà má Chinese Herb Dictionary - ma ren (huo ma ren) 麻仁,火麻仁 Complementary and Alternative Healing University Acesso Jan. 2015) e descrita como uma erva de superior qualidade e importância em manuscritos chineses (a farmacopéia de Shen Nong) escrito por volta de 2737 aC.GELLER, Allen; BOAS, Maxell. As drogas matam bicho! (The drug beat). RJ, Edições MM, (1969) 1971The Divine Farmer's Materia Medica (A Translation of the Shen Nong Ben Cao Jing by Yang Shorr-zhong). Colorado: Blue Poppy Press, INC. 2008 [Herbs: Superior Class p.148] Google Books Aces. agosto, 2017
É referida no “manual dos médicos de pés descalços” como laxante, ante-espasmodica (desconforto abdominal que melhora com a pressão). Descrita como uma "planta neutra e tônica" indicada para funções Yin (tranquilidade, astenia, inibição, "esfriamento", etc.) por sua ação, especialmente as sementes, sob forma de chá também é prescrita para pacientes idosos com irritabilidade insônia, boca seca e constipação. Segundo a concepção etnomédica chinesa é capaz de “apagar o fogo”, “umedecer os intestinos”, “tornando descendente o Chi túrbido”.CHINA GOV. REVOLUTIONARY, HEALTH, COMMITTEE (Comitê Revolucionário da Provincia de Hunam - China) A Bare Foot Doctor’s Manual London GB, Routledge & Kegan Paul LTD 1978CHINA Gov. Manual chino de plantas medicinales, uso y dosificacion (sección del Manual del medico descalzo Hunan - China). México, Editorial Concepto, 1978BOTSARIS, ALEXANDROS S. Fitoterapia chinesa e plantas brasileiras. SP, Ícone, 1995
thumb|Dr. William Brooke O'Shaughnessy (1809 -1889) Atribui-se a introdução da cannabis para a medicina ocidental ao Dr William Brooke O'Shaughnessy, um médico irlandês conhecido seu trabalho em farmacologia toxicologia forense e fluidos eletrólitos para terapia intravenosa. Publicou em 1839 "On the Preparations of the Indian Hemp, or Gunjah" no "Transactions of the Medical and Physical Society of Bengal" após leitura na Sociedade Médica e Física de Calcutá. Ele residiu na índia por 9 anos quanto contratado pela British East India Company (1833) exercendo também o papel de cirurgião, médico, professor de química na Faculdade de Medicina e Hospital de Calcutá.
O'Shaughnessy realizou os primeiros testes clínicos de preparações de canábis em animais, produziu extratos e tinturas com base em receitas nativas e experimentou seus efeitos clínicos em casos de reumatismo, hidrofobia, cólera e tétano e convulsões, relatou possíveis efeitos colaterais como formas típicas de delirium por uso continuado Em 1841 introduziu espécimes de Cannabis indica e Nux Pharmaceutical vomica nos Jardins Botânicos Reais de Kew, e guiou as reimpressões de seu artigo na Provincial Medical Journal. Chemists. Consta inclusive a sua recomendação de uso para cólicas menstruais à rainha Victoria através de Sir J. Russell Reynolds, MD, médico pessoal da corte e que foi eleito Fellow da Royal Society em 1843.HERB MUSEUM. The Antique Cannabis Book. W. B. O'Shaughnessy, The man who brought medical cannabis to the West (Cap. 2) Medical cannabis a short graphical history Acesso Jan. 2015
Contribuição da ciência brasileira
O Brasil ocupou papel de destaque na pesquisa farmacológica sobre a cannabis a partir da década de 1960. Na Escola Paulista de Medicina, Elisaldo Carlini — formado sob orientação de José Ribeiro do Valle — reuniu um grupo que passou a estudar os constituintes da planta em colaboração com Raphael Mechoulam, que enviava do laboratório israelense os compostos isolados. Ao testar extratos com diferentes composições, o grupo brasileiro observou que os efeitos observados não podiam ser atribuídos apenas ao teor de tetra-hidrocanabinol e demonstrou que o canabidiol possuía ação farmacológica própria.
Em 1973, Isac Karniol e Carlini descreveram a interação farmacológica entre o canabidiol e o Δ9-tetra-hidrocanabinol, mostrando que o primeiro bloqueia parte dos efeitos do segundo. Em 1980, o grupo de Carlini publicou, com Mechoulam, o primeiro ensaio clínico de administração crônica de canabidiol a voluntários sadios e a pacientes com epilepsia refratária.