A Basílica de São Vital () é o monumento mais famoso de Ravena, Itália e um dos exemplos mais importantes de arte bizantina (e arquitetura) na Europa Ocidental. A basílica é uma das oito construções dos monumentos paleocristãos de Ravena, consideradas Património Cultural da Humanidade pela UNESCO.Early Christian Monuments of Ravenna Unesco. É dedicada a Vital de Milão.
A Basílica começou a ser construída em , sob ordem do bispo Eclésio, ainda no reinado do ostrogodo e foi concluída por Maximiniano em , durante o Exarcado de Ravena, já há sete anos sob domínio do Império Bizantino. Não se sabe quem foi o arquiteto da obra.
A igreja tem um plano octogonal em mármore e combina elementos de arquitetura romana (cúpula, forma dos vãos das portas) com elementos bizantinos (abside poligonal, capiteis, tijolos estreitos). Contudo, a basílica é mais famosa por sua riqueza de mosaicos bizantinos, os maiores e mais bem preservados fora de Constantinopla. A Basílica é de extrema importância para a arte bizantina, visto que é a única grande igreja do período do imperador Justiniano que sobreviveu virtualmente intacta até hoje.
A construção foi patrocinada pelo banqueiro grego Juliano Argentário,Basilica of San Vitale. famouswonders.com(em inglês) de quem pouco se sabe, exceto que também tinha patrocinado a construção da Basílica de Santo Apolinário em Classe na mesma época. O imperador bizantino Justiniano deve também ter patrocinado a obra como propaganda de seu governo, a fim de acelerar a incorporação de novos territórios ao império. O banqueiro Juliano Argentário é representado nos mosaicos na corte de dignitários de Justiniano, entre o imperador e o bispo.
As séries de mosaicos representam sacrifícios do Antigo Testamento: a história de Abraão e Melquisedeque, o sacrifício de Isaac, a história de Moisés, Jeremias e Isaías, representações das 12 tribos de Israel, Abel, Caim e o Cordeiro de Deus. Há também mosaicos dos quatro Evangelistas, sob seus símbolos e todos vestidos de branco. Todos os mosaicos foram executados na tradição helenístico-romana: vívidos e imaginativos, com ricas cores e uma certa perspectiva, com vívidas representações da paisagem, plantas e pássaros.
Ao pé da abside estão os dois mosaicos mais famosos, executados em 548, com o Imperador Justiniano, vestido com um manto de cor púrpura e com um halo dourado, ao lado do clero. A semelhança da corte do imperador com Jesus e seus apóstolos marca a simbologia de que o Império Romano tinha se transformado no teocrático Império Bizantino. Do outro lado está a imperatriz Teodora, solene e formal, também com um halo dourado, joias e sua corte. Esses mosaicos são praticamente os únicos exemplos que ainda existem de mosaicos seculares do Império Bizantino.
A basílica foi a inspiração para que Filippo Brunelleschi projetasse a cúpula da Santa Maria del Fiore, em Florença.
Contexto histórico
O imperador Justiniano I (527–565) foi o protagonista do período de máximo esplendor do Império Romano do Oriente, denominado «primeira idade de ouro» (). Justiniano tentou recuperar a glória do antigo Império Romano empreendendo a reconquista do Mediterrâneo: entre outros territórios, recuperou a Itália —que pertencia aos ostrogodos—, onde se encontrava a cidade de Ravena, que no se tornou a segunda capital do império e foi governada pelo exarca. Com jurisdição nominal sobre a Itália meridional e a Sicília, Justiniano reconquistou o Reino Vândalo no Norte de África e os domínios da Hispânia na Península Ibérica aos visigodos. É natural, portanto, que em Ravena tenham sido construídos os mais ricos edifícios romanos do Oriente nos territórios reconquistados, entre os quais se encontram a Basílica de Santo Apolinário em Classe, a Basílica de Santo Apolinário Novo e a Basílica de São Vital de Ravena.Pijoan 1966: p. 15
miniatura|esquerda|Império Romano do Oriente em 550 (reconquistas de Justiniano I a verde)
Durante o reinado de Justiniano desenvolveu-se uma colossal atividade construtiva, emulando a dos grandes imperadores romanos do passado. A arte bizantina atingiu a sua maturidade com a união de elementos gregos, latinos, orientais e cristãos. As principais características dos templos bizantinos são as seguintes: planta central, abóbadas de pedra ou tijolo, cúpulas normalmente apoiadas sobre pechinas, janelas geminadas e, por fim, as principais paredes cobertas de mosaicos e pinturas a fresco, com grande riqueza de simbologia e de figuras hieráticas. A escultura teve pouco desenvolvimento, embora no interior dos edifícios tenham sido esculpidos capitelos talhados em formas cúbicas ou piramidais.Salvat 1997: p. 531
Edifício
O templo foi iniciado no ano de 527, sob o patrocínio do arcebispo Eclesius (522–532), quando Ravena ainda pertencia aos ostrogodos. Após a sua morte, o seu sucessor, o bispo Vítor, assumiu a direção das obras. Após a reconquista romana do Oriente, decidiu-se que seria o templo oficial do governador da região ocidental do império — o chamado Exarcado de Ravena —, e foi durante o mandato do bispo Maximiano que foram concluídas as obras, a decoração com mosaicos e a consagração da igreja (547).Sureda 1989: p. 60
miniatura|esquerda|Planta de São Vital de Ravena.
A igreja consagrada a São Vital é a mais rica de todas as que os romanos do Oriente erigiram em Ravena. Foi construída para dotar esta grande cidade de um templo digno de uma cidade que era a segunda capital do império e que, por conseguinte, tinha um forte conteúdo propagandístico. Conhece-se o custo exato do edifício, pois ficou inscrito no epitáfio do seu doador, Iulianus Argentarius: 26 000 sólidos de ouro.Historia Universal del Arte 1984: p. 426
Desconhece-se o nome do arquiteto ou arquitetos que conceberam o projeto, que é muito semelhante ao da Igreja dos Santos Sérgio e Baco, em Constantinopla. São Vital, porém, está mais afastada da arquitetura paleocristã, substituindo a ideia de «espaço-caminho» das primeiras basílicas pela de «contemplação do âmbito celestial», com um maior caráter ascensional graças ao esbelto tambor que sustenta a cúpula.
O templo é acedido através de um nártex descentrado que dá acesso a uma sala de oração de planta central com um duplo anel octogonal formado pelo deambulatório, sobre o qual se dispõe a tribuna sustentada por pilastras que delimitam um oratório circular coberto pela referida cúpula semiesférica. Esta cúpula está rodeada por exedras de duas ordens sobrepostas, com tribunas de tripla arcada voltadas para o altar-mor. O presbitério de planta quadrada encontra-se ao fundo, com um tramo coberto por uma abóbada de aresta e um fecho final em abóbada de forno de um quarto de esfera; de cada lado encontram-se as duas dependências pastofórias típicas da arquitetura bizantina: a norte da abside, a prótese (local destinado a preparar, consagrar e guardar o pão e o vinho) e, a sul, o diacónico (recinto onde se guardam os objetos litúrgicos).
A história do edifício, apesar do seu excelente estado de conservação, é longa e cheia de contratempos, como acontece com qualquer construção antiga. No início do instalou-se junto à basílica uma comunidade beneditina que transformou o átrio do templo em claustro do seu mosteiro. Posteriormente, os monges abriram uma porta de estilo românico de acesso direto à igreja para os leigos e, no , acrescentaram um campanário que desabou durante o devido a um terramoto, afetando a zona de acesso à tribuna. No realizaram-se numerosas reformas: o claustro foi renovado, o pavimento foi elevado cerca de 80 cm na zona do presbitério para evitar humidades e a cúpula original foi substituída, o que implicou a destruição de parte dos mosaicos. No , quando os especialistas começaram a tomar consciência do valor da arte dos primeiros cristãos, tentou-se recuperar o suposto aspeto primitivo do templo através de intervenções muito agressivas e discutíveis: foram eliminadas todas as estruturas acrescentadas posteriormente, incluindo o portal românico e o mobiliário barroco, reabriu-se a entrada original através do claustro e o pavimento foi reposto à sua altura inicial, instalando-se um sistema de drenagem.
Função
Todo o edifício foi concebido respeitando a maioria dos elementos da antiga tradição eclesiástica, na qual se exigia a separação dos sexos durante os atos de culto, bem como a possibilidade de assistência de altas hierarquias, segundo um protocolo rigoroso, refletido simbolicamente nos mosaicos. Assim, o nártex tem duas portas, uma para os homens e outra para as mulheres; estas deviam entrar pela nave da Epístola (a sul) e, se fossem casadas, deviam assistir à eucaristia a partir da tribuna ou matroneu, situada no piso superior, sobre o deambulatório. A tribuna dispõe também de tribunas reservadas às altas hierarquias, com acesso direto ao presbitério, teoricamente destinadas ao imperador e à sua esposa, embora os representantes tenham sido o exarca ou o governador (uma vez que nunca chegaram a conhecer o templo concluído). Por outro lado, aos homens estava reservada a parte norte ou lado do Evangelho, embora, de facto, ocupassem o piso principal. Embora tenha desaparecido, é de supor que a igreja dispusesse de uma iconóstase que separava e ocultava o altar durante determinadas fases da liturgia, bem como de um pequeno templete ou cibório situado sobre a própria iconóstase.
Construção
miniatura|Cúpula central com as pinturas a fresco, do
Do exterior, extremamente sóbrio e volumétrico, é possível observar que o templo foi construído com materiais leves, mas resistentes, com paramentos de tijolo maciço unidos por argamassa, que deixa visíveis linhas bastante espessas. O edifício é reforçado nos cantos por grandes arcobotantes, além de lesenas e arcos de descarga embutidos na parede. O cibório que oculta a cúpula é octogonal e muito leve: é construído com tubos concêntricos de terracota. Em contrapartida, o interior está ricamente decorado com mármores raiados, parapeitos, colunas, capitelos tronco-piramidais finamente talhados por meio de um berbequim (provavelmente importados das oficinas do Proconeso, uma ilha do mar de Mármara próxima de Constantinopla), pinturas a fresco e, sobretudo, mosaicos.A técnica do mosaico consiste na colocação de tesselas (peças pequenas de diferentes tamanhos e cores) formando desenhos. As tesselas de São Vital são, sobretudo, de pasta vítrea e pedras semipreciosas, previamente preparadas sobre um suporte provisório: aí era realizado o desenho e depois este era transferido para a parede com argamassa. O efeito do interior é o de um espaço dilatado e imaterial, repleto de contrastes de cor e luz, que penetra generosamente pelas grandes janelas do tambor.Felici (1991): p. 1052
Decoração
Embora a decoração da igreja esteja parcialmente danificada, a parte do presbitério conserva-se praticamente no seu estado original e possui um valor inestimável, pois trata-se do único «edifício áulico bizantino virtualmente intacto» que dá uma vaga ideia da riqueza do palácio do imperador ou de outros grandes edifícios oficiais de Constantinopla, atualmente destruídos. Os mosaicos que decoram o interior do templo estão entre os de maior qualidade e mais variados da arte bizantina (ver Mosaicos).
A decoração das imagens da zona da cúpula central foi realizada no final do ou no início do , por encomenda dos monges beneditinos ao artista Serafino Barozzi, e foi concluída por Jacopo Guaraná e Ubaldo Gandolfo, que anteriormente tinha colaborado com Barozzi. O fresco é uma pintura tipicamente ilusionista e, na cúpula, representa São Vital e São Bento no céu.Pijoan 1966: p. 12
Mosaicos
Ver também
Monumentos paleocristãos de Ravena Pintura bizantina História da pintura Mausoléu de Gala Placídia
Galeria
Ligações externas
Video da Basílica - Canal oficial da Unesco (Youtube)
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