thumb|Mestre João Vicente, fundador da Ordem dos Lóios e do Convento de Vilar de Frades.A estampa provém de Galeria das ordens religiosas e militares desde a mais remota antiguidade até nossos dias adornada com muitas estampas, autor desconhecido, 1843. thumb|Cónego da Ordem dos Lóios. thumb|Pormenor do portal sul da fachada, em estilo revivalista do românico, usando vestígios do mosteiro original - aqui, um pormenor alegórico de uma águia, símbolo da congregação, levantando um réptil.
A Igreja de São Salvador de Vilar de Frades, também referida como Igreja de Vilar de Frades e Igreja do Mosteiro dos Lóios, localiza-se no sopé do monte Airó, junto à margem esquerda do rio Cávado, na freguesia de Areias de Vilar e Encourados, município de Barcelos, distrito de Braga, em Portugal.Ficha na base de dados SIPA
Faz parte do complexo do convento da Congregação dos Cónegos Seculares de S. João Evangelista que aí estabeleceu a sua primeira casa-mãe, tendo sido, antes, um mosteiro beneditino.
A sua arquitectura é notável, especialmente pelo abobadamento da igreja, principalmente na capela-mor e transepto, bem como pelo portal manuelino da fachada principal, ao lado do qual se encontra, na torre sul, um portal e uma janela de características românicas, construídos, contudo, já no século XIX com vestígios do mosteiro original.
Encontra-se classificada como Monumento Nacional desde 1910.Decreto de 16 de junho de 1910, publicado no Diário do Governo nº 136 de 23 de junho de 1910. Ver Igreja de Vilar de Frades, in IGESPAR, acesso a 25 de Abril de 2007. Por despacho de 16 de Outubro de 2001 do IPPAR, foi determinada a abertura da instrução do processo de reclassificação da Igreja de Vilar de Frades, passando a incluir a cerca bem como outros elementos construídos na envolvente exterior à cerca.
História A mais antiga referência ao mosteiro beneditino de Vilar de Frades data de 1509.<ref>MARQUES, José, A Arquidiocese de Braga no Século XV, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1998, p. 652</ref> Contudo, segundo Frei Leão de São Tomás, teria existido uma carta do monge beneditino frei Drumário, escrita em 7 de Outubro de 571 que datava a fundação do mosteiro em 566, pela mão de São Martinho de Dume.SÃO TOMÁS Frei Leão de, introd. e notas críticas de José Mattoso, Benedictina Lusitana, Tomo I, pp. 358-359 Segundo Jorge de São Paulo, acreditando na existência dessa carta, o mosteiro seguiu a regra de São Bento desde essa data até 714, ano em que foi destruído devido às invasões muçulmanas, nada restando dessa fase da vida do convento. Teria sido reconstruído, segundo o mesmo autor, em 1070, mantendo-se sob a alçada da Ordem Beneditina até 1425. A reconstrução foi obra, sobretudo, de nobres locais, como D. Godinho Viegas, que pelo seu empenho na Reconquista Cristã, receberam os favores dos primeiros monarcas portugueses, como Sancho I, que deu a carta de couto ao mosteiro em 1172. Em 1104, Dona Gotinha, parente de D. Godinho Viegas, terá dado um novo estímulo ao convento, doando uma propriedade rústica da freguesia de Santiago de Encourados.
Em 1302, Dona Beringeira Aires, herdeira e padroeira de outros conventos além deste, doou, a 12 de Agosto, o padroado e jurisdição que tinha sobre o mosteiro a D. Geraldo, bispo do Porto. Em 1400, passou a ser uma abadia secular, sob o padroado do arcebispo de Braga, D. Martinho Afonso Pires. Em 1425, finalmente, D. Fernando da Guerra, arcebispo de Braga, passa o mosteiro para as mãos de Mestre João Vicente, futuro bispo de Lamego e Viseu. Este encontrou-o em bastante mau estado, mas reformou-o de forma exemplar, com o apoio que recebeu da Santa Sé e da Diocese de Braga que anexaram 13 igrejas ao convento até 1510, depois de ter faltado apoio semelhante à nova congregação religiosa em outros locais. A congregação ainda teve o apoio de D. Vasco, em Évora, mas a oferta do mosteiro veio a mostrar-se decisiva.FERREIRA, Monsenhor José Augusto, Fastos episcopaes da igreja primacial de Braga : sec. III- sec. XX, Tomo I, Mitra Bracarense, 1928 O Mestre terá encontrado o antigo mosteiro reduzido a umas "pobres casas ou chóças, & huma pequena Igreja, tudo em tal estado que mais tinha de ruína, que de edifício". O Claustro servia, nessa altura, de corte de gado, as oficinas estavam arrasadas, a igreja servia de celeiro e adega. Os frades passaram a viver nas celas térreas e na igreja velha.SANTA MARIA, Francisco de, O Ceo aberto na Terra : historia das sagradas congregações dos Conegos Seculares de S. Jorge em Alga de Venesa & de S. João Evangelista em Portugal, Lisboa, Off. de Manoel Lopes Ferreyra, 1697.
O apoio da Sé de Braga não foi constante. Ainda que a congregação se tenha instalado em Vilar com a concordância do cabido da Sé de Braga, que permitiu a anexação da Igreja do Mosteiro de São Bento da Várzea desde que os futuros reitores se submetessem à autoridade do arcebispo de Braga, ficando a confirmação da eleição dos mesmos, em Capítulo Geral, dependente da confirmação da Sé.
Os cónegos, contudo, desde cedo que manifestaram desejos de autonomia em relação a Braga, procurando apoio junto da corte régia (Afonso V de Portugal), junto do conde de Barcelos, do Duque de Bragança e mesmo da Santa Sé. Esta última confirmaria o seu apoio à nova Ordem, durante o pontificado dos papas Martinho V e Eugénio IV - este último promoveu o mestre João Vicente a bispo de Lamego, além de ordenar que o convento ficasse sem dependência do Arcebispo. Monsenhor José Augusto Ferreira chega mesmo a dizer que os "Cónegos Azuis de Vilar fizeram-se vermelhos e enveredaram pelo caminho da ingratidão". A acção de D. Fernando da Guerra é, aliás, paradoxal neste conflito de interesses, já que continuou a anexar igrejas ao convento, ao mesmo tempo que tentava forçar os frades a reconhecerem a sua autoridade, o que conseguiu a 29 de Abril de 1461, ao confirmar o Reitor João de Nazareth. Nos séculos seguintes, os reitores tentarão, de novo, o máximo de autonomia em relação ao arcebispado. Há que ter em conta que, tal como defende José Marques,MARQUES, José, D. Fernando da Guerra, prelado reformador do século XV, Lisboa: Academia Portuguesa da História, 1993 a Ordem dos Lóios, ou cónegos seculares evangelistas, que se apresentava como uma comunidade de "tipo novo", deve, sem dúvida, a sua existência e fundação ao apoio de D. Fernando da Guerra, ao ceder as instalações do convento de S. Salvador de Vilar de Frades - até porque a congregação tinha tido problemas em instalar-se tanto em Lisboa como no Porto, recebendo apenas apoio em Braga.
Ao convento foram anexadas, ao longo da sua ocupação pelos Lóios, várias igrejas, a maioria das quais pela mão de D. Fernando da Guerra, dando um poderio crescente à Ordem nesta região. Além da já citada igreja do Mosteiro de São Bento da Várzea, anexou ainda a Igreja de Santa Maria Madalena, de São João de Areias de Vilar, Santa Leocádia de Pedra Furada, Santa Maria de Moure, São Jorge de Airó, São Martinho de Airó, São Vicente de Areias, São Pedro de Adães e Santiago de Encourados. O Arcebispo D. Luís Pires fará ainda a anexação de Santa Maria de Góis, depois da renúncia do abade desta Igreja ao ingressar na Ordem dos Lóios.
A Igreja de São Martinho de Manhente (e convento) terá sido confiada pelo Papa Nicolau V, através de uma bula de 1448, confirmada por uma bula posterior de 1450, tendo sido feita a tomada de posse em 1480, após confirmação também de D. Luís Pires. Com esta anexação, o reitor de Vilar de Frades passou a deter as prerrogativas do couto de Manhente, ou seja, capitão-mor, coudel-mor, repartidor das armas, alcaide-mor e ouvidor do cível, tendo a competência de nomear o juiz do couto. A Igreja de São Melião de Mariz foi anexada após um conjunto de peripécias: após a morte do abade desta igreja, os cónegos pediram a D. Jorge da Costa, que estava em Roma, para que anexasse também esta igreja ao seu convento. O Cardeal, contudo, designou João dos Santos como abade desta igreja. Os cónegos, contudo, convenceram o novo abade a ingressar na congregação e a pedir a anexação da igreja ao seu convento. O Papa Júlio II confirmará a anexação.
A Congregação coleccionará, durante a sua história, vários favores, indultos, graças, isenções e privilégios concedidos por vários papas, como Gregório VII, Eugénio IV, Leão X, Pio II, Alexandre VI, Clemente VII, Pio V, Sisto V, Clemente VIII, Inocêncio XI e Alexandre VIII.
D. Afonso V foi um dos reis portugueses que mais beneficiou a Ordem, e Vilar de Frades em particular, com diversos privilégios e isenções. Francisco de Santa Maria refere ainda a participação entusiástica dos frades aquando da aclamação de João IV de Portugal, após o domínio filipino. João V de Portugal confirmou os privilégios concedidos pelos seus antecessores, ao conceder ao Convento de Vilar de Frades o mesmo alvará que tinha concedido ao Hospital Real de Todos os Santos. Maria I de Portugal, a 23 de outubro de 1779 fundou no convento uma escola "de ler, escrever e contar". Por provisão régia de 1782, a soberana concedia aos cónegos de Vilar de Frades os mesmos privilégios que tinham sido atribuídos ao cabido da Sé do Porto e aos monges da Ordem beneditina, no intuito de proteger os interesses económicos do convento. No final do século XVIII, Vilar de Frades detinha um largo poder temporal e económico sobre 126 freguesias. A ostentação e riqueza da colegiada é testemunhada pelo abade barcelense José Rosa, que em 1899 escrevia, em "O Comércio de Barcelos", que estes cónegos "ostentavam mais fausto e apparato na sua collegial ou collegiada que os Cónegos da metrópole bracharense".
A Igreja Visão geral thumb|Abóbada da nave da Igreja. thumb|Torre-grande do alçado principal, a norte com ameias e a águia, símbolo da Congregação. thumb|Portada de acesso ao adro, com a imagem de São Lourenço Justiniano.
Acede-se ao terreiro da Igreja por uma portada em cujo nicho da parte superior pontifica a figura de São Lourenço Justiniano, reformador da ordem dos Cónegos Seculares de São João Evangelista.
A Igreja românica primitiva, de que subsistem alguns elementos no lado sul - à direita de quem vê - da fachada ("torre velha") tem sido datada de forma irregular por vários autores, variando de 1070 até ao início do século XIII. Contudo, tendo em conta a data da carta de couto e as características estilísticas dos elementos conservados, próprios do Românico tardio, crê-se que tenha sido feita no último quartel do século XII.GRAF, Gerhard N., Portugal Roman: Le Nord du Portugal", Paris: Zodiaque, 1987. ISBN 2736900286 Tanto o portal como a janela que o encima foram reconstruídos no início do século XIX, modificando, provavelmente, grande parte da estrutura original, por ordem do reitor Martinho José de Almeida. O portal está dotado actualmente de três arquivoltas ornamentadas com seres fabulosos e elementos naturalistas e geométricos, que assentam em colunelos com capitéis onde estão lavrados elementos típicos do bestiário românico.
A Igreja, com planta em forma de cruz latina com transepto reduzido, tem a cabeceira para leste. O corpo é de nave única, separada de cinco capelas laterais intercomunicantes de cada lado que se demarcam da nave por grades de madeira. Estas características assemelham-se ao que foi designado como igrejas criptocolaterais, comuns desde meados do século XVI. A capela mor é relativamente profunda, com planta rectangular, de dimensões monumentais, ao contrário do transepto, mais modesto na sua volumetria, existindo um desnivelamento pouco acentuado entre estes dois espaços, o que facilitaria a comunicação com a nave. Este aspecto funcional será, depois, largamente utilizado nas igrejas jesuíticas.