Lanceiros Negros foram dois corpos de lanceiros constituídos, basicamente, de negros livres ou de libertos pela República Rio-Grandense que lutaram na Revolução Farroupilha. Possuíam 8 companhias de 51 homens cada, totalizando 408 lanceiros que andavam com seus cavalos.
Tornou-se célebre o 1.º Corpo de Lanceiros Negros organizado e instruído, inicialmente, pelo coronel Joaquim Pedro, antigo capitão do Exército Imperial, que participara da Guerra Peninsular e se destacara nas guerras platinas. Ajudou, nesta tarefa, o major Joaquim Teixeira Nunes, veterano e com ação destacada na Guerra Cisplatina. Este bravo, à frente deste Corpo de Lanceiros Negros, libertos, prestaria relevantes serviços militares à República Rio-Grandense.
Principais oficiais Foram seus oficiais, entre outros: Coronel Joaquim Pedro Coronel Joaquim Teixeira Nunes Tenente Manuel Alves da Silva Caldeira Capitão Vicente Ferrer de Almeida Capitão Marcos de Azambuja Cidade Primeiro-tenente Antônio José Coritiba Segundo-tenente Caetano Gonçalves da Silva (filho de Bento Gonçalves) Segundo-tenente Ezequiel Antônio da Silva Segundo-tenente Antônio José Pereira
O Corpo de Lanceiros Negros em Campo do Menezes O 1.º Corpo de Lanceiros Negros, ao comando do tenente-coronel Joaquim Pedro Soares e subcomandado pelo então major Teixeira Nunes, teve atuação importante na Batalha do Seival, em 11 de setembro de 1836, em reforço à Brigada Liberal de Antônio de Sousa Netto que surgiu por transformação do Corpo da Guarda Nacional de Piratini integrado por 2 esquadrões com 4 companhias, recrutados em Piratini e em seus distritos Canguçu, Cerrito e Bagé até o Pirai .
As tropas para o combate de Seival foram dispostas por Joaquim Pedro, na qualidade de imediato e assessor militar de Antônio Netto. Deixou um esquadrão em reserva que foi empregado em momento oportuno, decidindo a sorte da luta.
Segundo Docca, coube a este bravo e a Manuel Lucas de Oliveira convencerem Antônio Neto da proclamação da República Rio-Grandense, bem como "a grande satisfação de ler, a 11, no campo do Menezes, à frente da garbosa tropa por ele instruída, a Proclamação da República Rio-Grandense."
Recrutamento O Corpo de Lanceiros Negros era integrado por negros livres ou libertados pela Revolução e, após, pela República, com a condição de lutarem como soldados pela causa.
O 1.º Corpo foi recrutado, principalmente, entre os negros campeiros, domadores e tropeiros das charqueadas de Pelotas e do então município de Piratini (atuais Canguçu, Piratini, Pedro Osório, Pinheiro Machado, Herval, Bagé, até o Pirai e parte de Arroio Grande).
Armamento individual Excelentes combatentes de cavalaria, entregavam-se ao combate com grande denodo, por saberem, como verdadeiros filhos da liberdade, que esta, para si, seus irmãos de cor e libertadores, estaria em jogo em cada combate. Manejam como grande habilidade suas armas prediletas - as lanças. Estas, por eles usadas mais longas do que o comum. Combinada esta característica, com instrução para o combate e disposição para a luta, foram usados como tropas de choque, uso hoje reservado às formações de blindados. Por tudo isto infundiram grande terror aos adversários. Eram armados também com adaga ou facão e, em certos casos, algumas armas de fogo em determinadas ocasiões.
Como lanceiros não utilizavam escudos de proteção, mas sim seus grosseiros ponchos de lã - bicharás, que serviram-lhes de cama, cobertor e proteção do frio e da chuva. Quando em combate a cavalo, enrolado no braço esquerdo, o poncho (bichará) servia-lhes para amortecer ou desviar um golpe de lança ou espada. No corpo a corpo desmontado, servia para aparar ou desviar um golpe de adaga ou espada em cuja esgrima eram habilíssimos, em decorrência da prática continuada do jogo do talho, nome dado pelo gaúcho à esgrima simulada com faca, adaga ou facão.
Alguns poucos eram hábeis no uso das boleadeiras como arma de guerra, principalmente para abater o inimigo longe do alcance de sua lança, quer em fuga, quer manobrando para obter melhor posição tática.
De peões a guerreiros Eram rústicos e disciplinados. Faziam a guerra à base de recursos locais, comiam se houvesse alimento e dormiam em qualquer local, tendo como teto o firmamento do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. A maioria montava a cavalo quase que em pêlo, a moda charrua. Vale também lembrar que os Lanceiros Negros exerciam uma função de tropa de choque no exército farroupilha, pelo simples fato de manejar com eximia destreza a lança que é uma arma essencial para este tipo de combate.
Vestuário Seu vestuário era constituído de sandálias de couro cru, chiripá de pano grosseiro, um colete recobrindo o tronco e na cabeça uma vincha (braçadeira) vermelha símbolo de república.
Como esporas improvisavam uma forquilha de madeira presa ao pé com tiras de couro cru. Esta espora farroupilha acomodava-se ao calcanhar e possuía a ponta bem afiada. Alguns poucos usavam calças, cartola e chilenas (esporas), como imortalizado em pintura no Museu de Bolonha, na cidade de Bolonha, Itália.
Lanceiros Negros na Expedição de Laguna Parte do 1.º Corpo de Lanceiros Negros participou da expedição a Laguna, ao comando de David Canabarro, que teve como comandante de vanguarda o tenente-coronel Joaquim Teixeira Nunes com seus Lanceiros Negros.
A retirada dos farroupilhas de Laguna para o Rio Grande do Sul, através de Lages e Vacaria, contou com a presença de Teixeira Nunes, Giuseppe Garibaldi, Luigi Rossetti e Anita Garibaldi e foi assegurada por muitos valorosos Lanceiros Negros.
Massacre de Porongos
O Massacre de Porongos ocorreu na madrugada de 14 de novembro de 1844, na localidade de Porongos, hoje parte do município de Pinheiro Machado. O evento culminou na dizimação do 1º Corpo de Lanceiros Negros. A natureza exata deste acontecimento, chamado por diversas denominações ("Surpresa", "Massacre" ou "Traição"), divide profundamente a historiografia em duas correntes principais: a da Traição e a da Surpresa.Ana Paula Comin De Carvalho, “O memorial dos lanceiros negros: disputas simbólicas, configurações de identidades e relações interétnicas no Sul do Brasil,” Sociedade e Cultura 8, no. 2 (2007), https://doi.org/10.5216/sec.v8i2.1018, 143-144
A corrente da Traição defende que o massacre foi resultado de um acordo prévio entre o general farroupilha David Canabarro e o Barão (futuro Duque) de Caxias, comandante do Exército Imperial. O principal objetivo de Canabarro, à frente do partido da "Minoria" (reconciliadora), seria o de eliminar os elementos mais radicais da Revolução, notadamente os lanceiros negros que lutavam pela liberdade e eram uma força abolicionista, facilitando a paz com o Império e garantindo anistia e privilégios para os chefes brancos.Kárita Gill Sinotti, Leonardo Betemps Kontz, and Odilon Leston Júnior. "A Revolução Farroupilha: o massacre de cerro dos Porongos." Revista Contribuciones a las Ciencias Sociales 27 (2015), 7, 11
A prova documental mais citada pelos defensores desta tese é um ofício que teria sido enviado por Caxias ao Coronel Francisco Pedro de Abreu (Moringue), o comandante imperial no ataque. O documento instruía especificamente a poupar brancos e índios ("pois bem sabe que essa pobre gente ainda nos pode ser útil no futuro") e a massacrar os negros, além de proteger a bagagem de Canabarro, indicando que o ataque não era uma surpresa para o comando farroupilha.Moacyr Flores, Negros na Revolução Farroupilha: Traição em Porongos e farsa em Ponche Verde (Est Edições, 2008), 58-59Sinotti et al., A REVOLUÇÃO FARROUPILHA: O MASSACRE DE CERRO DOS PORONGOS, 10 Evidências comportamentais também são citadas, como o fato de a infantaria negra ter sido desarmada ("tiraram o cartuchame") na véspera por ordem de Canabarro.Sinotti et al., A REVOLUÇÃO FARROUPILHA: O MASSACRE DE CERRO DOS PORONGOS, 11 Por fim, o ataque imperial foi direcionado apenas ao acampamento dos negros, que estavam separados, enquanto brancos e índios conseguiram fugir, reforçando a ideia de que o massacre foi um ato cirúrgico para destruir a principal força republicana pró-libertação.Sinotti et al., A REVOLUÇÃO FARROUPILHA: O MASSACRE DE CERRO DOS PORONGOS, 12
A corrente da Surpresa, endossada por diversos historiadores e pela memória tradicionalista, argumenta que o evento foi uma derrota militar legítima causada pela negligência de Canabarro, mas não por traição. A tese aponta que Canabarro, apesar de sua fama de vigilância, foi pego de surpresa ("a primeira surpresa" em sua carreira, segundo Caxias) e estava recolhido em sua barraca no momento do ataque.Sinotti et al., A REVOLUÇÃO FARROUPILHA: O MASSACRE DE CERRO DOS PORONGOS, 6 A surpresa teria sido facilitada pela "displicência" de Canabarro, que não deu ouvidos a advertências prévias.Sinotti et al., A REVOLUÇÃO FARROUPILHA: O MASSACRE DE CERRO DOS PORONGOS, 67
Os defensores desta tese argumentam que o ofício de Caxias instruindo o massacre dos negros e a proteção dos brancos e da bagagem de Canabarro foi, na verdade, uma falsificação criada pelo Coronel Moringue para desmoralizar Canabarro e dividir as forças farroupilhas. Tratava-se, portanto, de um golpe de "guerra psicológica".Sinotti et al., A REVOLUÇÃO FARROUPILHA: O MASSACRE DE CERRO DOS PORONGOS, 7, 9 O historiador Walter Spalding, segundo Sinotti et al., refere-se ao evento como a "surpresa de Porongos" e o maior desastre do período revolucionário, mas nega a traição de Canabarro, defendendo seu caráter.Sinotti et al., A REVOLUÇÃO FARROUPILHA: O MASSACRE DE CERRO DOS PORONGOS, 7
A perda foi desastrosa, com mais de 100 mortos e 300 prisioneiros (entre negros, brancos e oficiais), além da perda total de equipamentos.Flores, Negros na Revolução Farroupilha: Traição em Porongos e farsa em Ponche Verde, 59Sinotti et al., A REVOLUÇÃO FARROUPILHA: O MASSACRE DE CERRO DOS PORONGOS, 8 O destino imediato dos entre 120 e 200 combatentes negros que sobreviveram ao ataque foi a captura e remessa como prisioneiros de guerra para locais como a "Presiganga" em Pelotas, aguardando ordens da Corte Imperial.Sinotti et al., A REVOLUÇÃO FARROUPILHA: O MASSACRE DE CERRO DOS PORONGOS, 62
O derradeiro combate Em 28 de novembro de 1844, Teixeira Nunes e remanescentes de seu legendário Corpo de Lanceiros Negros travaram o último combate da Revolução em terras do Rio Grande do Sul, consta que em terras do atual município de Arroio Grande, berço do Visconde de Mauá.
A morte de Teixeira Nunes foi assim comunicada pelo então Barão de Caxias, em ofício: Posso assegurar a V. Exa. que o Coronel Teixeira Nunes foi batido no campo de combate, deixando o campo, por espaço de duas léguas, juncando de cadáveres. Eram seguramente cadáveres de Lanceiros negros.
Teixeira Nunes foi um dos maiores lanceiros de seu tempo, e como uma ironia do destino teria caído mortalmente ferido por uma lança manejada pelo braço vigoroso do alferes Manduca Rodrigues.
O destino final dos Lanceiros Negros O destino dos entre 120 e 200 Lanceiros Negros sobreviventes e aprisionados em Porongos e outras batalhas é o ponto mais sombrio e contestado do final da Revolução Farroupilha.
O fim da Revolução Farroupilha foi selado na região de Ponche Verde, em 1º de Março de 1845. As negociações que culminaram na paz ocorreram em um contexto de extrema exaustão da população e das forças rebeldes, devido à estratégia militar de Caxias, que restringiu o espaço farroupilha e cortou seus meios de financiamento.Flores, Negros na Revolução Farroupilha: Traição em Porongos e farsa em Ponche Verde, 66-67