O Museu Municipal de Caxias do Sul é um museu histórico brasileiro, localizado na rua Visconde de Pelotas, nº 586, em Caxias do Sul, estado do Rio Grande do Sul. É um órgão da Secretaria Municipal da Cultura.
Dedicado principalmente à preservação da cultura material dos processos de colonização italiana na região e desenvolvimento da cidade, além de mostrar seu acervo próprio, oferece uma série de atividades didáticas e culturais para o público.
História Primeira fase
O Museu Municipal de Caxias do Sul foi criado pelo prefeito interino Demétrio Niederauer através do Decreto Municipal nº 2 de 3 de outubro de 1947, criando pelo mesmo ato a Biblioteca Pública Municipal. As duas instituições foram instaladas em um casarão em frente à praça Dante Alighieri, mas o espaço disponível para exposições era muito limitado."Biblioteca Pública amplia sua cobertura". Pioneiro, 1 de setembro de 1962, p. 13 A inauguração oficial ocorreu em 13 de novembro, abrindo à visitação em 20 de dezembro do mesmo ano."Mais de 24 mil pessoas frequentaram a Biblioteca Municipal". Pioneiro, 24 de fevereiro de 1950, p. 2 Logo após deixar o mandato interino, Niederauer assumiu a direção das duas instituições, que funcionavam integradas. Ele tinha um grande interesse pela ciência e os primeiros objetos recolhidos para o acervo pertenciam à categoria da história natural, incluindo animais empalhados, ninhos, ovos, crânios humanos, artefatos indígenas e arqueológicos, amostras de rochas e minerais, além de armamentos e apetrechos militares, alguns objetos de arte e moedas antigas. O local também contava com espaço para exposições temporárias. Várias atividades foram organizadas nos primeiros anos, com boa receptividade da comunidade.Comarú, Itamar Ferretto. Um Museu Inacabado: tramas e disputas em torno do Museu Municipal de Caxias do Sul/RS (1947-1990). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2025, pp. 30-37
Na década de 1950 o jornal Pioneiro identificou o Museu como um potencial instrumento para a preservação da memória caxiense, fazendo uma campanha para que desenvolvesse um perfil histórico, adotasse uma política de enaltecimento do processo de colonização da região pelos imigrantes italianos, e recolhesse o grande acervo de objetos que estavam esquecidos e se degradando nas casas das famílias da zona rural, mas neste momento a direção e os funcionários do Museu e os professores que o usavam para atividades pedagógicas não apoiaram a proposta, preferindo manter seu perfil científico e didático.Comarú, pp. 38-46
A campanha foi reativada em 1964, depois da chegada do jornalista Antônio de Lacerda, apresentado pelo Pioneiro como uma autoridade e autor de um estudo "sobre os valores históricos da colonização italiana", que pretendia levar ao prefeito Hermes Webber, a fim de alavancar uma reformulação completa na política do Museu e descartar as suas coleções de história natural e tudo que não tivesse interesse histórico. Webber não se posicionou claramente, mas também não dava grande apoio ao Museu, que definhava com recursos exíguos e escassos funcionários, e parecia entender os museus em geral apenas como atrativos turísticos.Comarú, pp. 51-52
Em 1965, diante da pressão da imprensa e da falta de apoio institucional, Niederauer solicitou sua exoneração, e o Pioneiro passou a dar amplos espaços para divulgar as ideias de Lacerda, que alegava que as coleções eram uma "uma cacofonia" de meras curiosidades que "provocava espanto" e suas atividades didáticas não tinham nenhuma relevância, voltando a enfatizar a necessidade de se dar atenção à história da cidade, o que para ele contemplaria a função de um museu verdadeiramente moderno. Apesar da forte campanha, nem a Prefeitura e nem a sociedade pareciam muito impressionadas, mas em 19 de junho de 1965 Lacerda anunciou que a Câmara de Vereadores havia lhe dado completo apoio.Comarú, pp. 54-56; 64 Mesmo já afastado, Niederaurer rebateu a proposta com veemência, considerando importante a seção de história natural como instrumento didático e acusando o seu oponente de despreparo para a tarefa que chamava para si, apontando também para a inexistência de fundos públicos necessários para essa transformação. Niederauer era figura muito respeitada na cidade, e depois da sua réplica, Lacerda silenciou e deixou Caxias.Comarú, pp. 65-66Niederauer, Demétrio. "Desfazendo equívocos". Pioneiro, 10 de julho de 1965, p. 6 O Museu acabou sendo fechado e em 1968 o acervo foi encaminhado para a guarda do museu do Centro de Tradições Gaúchas Rincão da Lealdade, quando boa parte das peças foi extraviada.
Nova sede O Museu permaneceu esquecido até que em 1974, durante os preparativos para as comemorações do centenário da imigração italiana, programadas para 1975, subitamente a atenção da comunidade se voltou para ele. Para a sua reabertura foi necessário encontrar uma nova sede, sendo escolhido o antigo casarão da família Morandi Otolini. Este prédio, construído em 1884 e ampliado com um pavimento adicional em 1893, foi posto a leilão em 1894 e adquirido pela Intendência Municipal pelo valor de 3,62 contos de réis, servindo inicialmente como prisão, colégio e delegacia de polícia. Em 1919 a sede da Intendência foi lá instalada, onde permaneceu até 1974."O Museu Municipal de Caxias do Sul". Pioneiro, 21 de maio de 1975, p. 2 Nesta altura o prédio encontrava-se em mau estado e superpovoado, pois nele funcionavam quase todas as secretarias municipais. Decidiu-se, então, que a Prefeitura seria transferida para o grande pavilhão onde até então se realizavam as exposições da Festa da Uva. thumb|esquerda|Pietà rústica do século XIX, uma das peças mais icônicas da coleção
Foi formada uma Comissão de Professores para elaborar um projeto para o novo Museu, e em 1974 iniciou o processo de instalação. Sob um outro contexto, com forte apoio do poder público e da comunidade, e envolvido no clima de celebração da imigração italiana, priorizou-se a valorização da história local e a coleta de móveis, utensílios domésticos, ferramentas agrícolas e industriais, objetos de uso pessoal, arte sacra, documentos, cartas, passaportes e outros objetos que pudessem reconstituir essa história. Ao mesmo tempo, o Museu passaria a supervisionar o restauro da antiga Casa de Pedra para transformá-la em um segundo museu da colonização.Comarú, pp. 74-78
Caxias do Sul havia efetivamente sido povoada em sua grande maioria por italianos, mas eles não foram os únicos, e a partir de meados do século muitos outros grupos de outras origens e etnias haviam migrado para lá atraídos pelo rápido crescimento econômico da cidade. No momento da reconstituição do Museu e definição das suas políticas essas outras populações foram esquecidas e alijadas dos processos decisórios. De toda forma, na década de 1970 os descendentes de italianos ainda compunham uma grande parcela da população, e especificamente nas elites econômica, social e política ainda eram ampla maioria, e sua decisiva influência determinaria o rumo do Museu e exerceria uma influência poderosa na historiografia, assim como na construção da imagem pública e da memória coletiva de Caxias.Comarú, pp. 81-93 Segundo Itamar Ferretto Comarú,
"Assim, com maior ou menor intensidade, os primeiros diretores do Museu extrapolaram suas ações e responsabilidades enquanto gestores de um museu e passaram a desenvolver um conjunto de ações que influenciaram diretamente o campo da memória e da história local e regional, passando a receber apoio de parte do empresariado local, vinculado às origens colonizadoras, da Fundação Nacional de Artes e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o que propicia que as ações por eles desenvolvidas ganhassem ainda maior destaque, levando suas experiências para vários estados brasileiros, além de estruturar exposições sobre a temática colonial em outros museus do país".Comarú, p. 94 thumb|left|Vitrine com utilitários de cobre
Sob a coordenação da museóloga Maria Frigeri Horn, a Comissão organizou o espaço expositivo em uma sala de exposição permanente, uma sala do século XIX, uma sala do século XX, uma sala de móveis, uma sala de arte sacra e uma para exposições temporárias, além dos espaços administrativos e outros para eventos variados. Uma campanha pública foi lançada na imprensa para recolher doações a fim de reconstituir o primitivo acervo disperso."Museu vai funcionar na Prefeitura". Pioneiro, 27 de abril de 1974 No início de 1975 já era prevista a criação do Arquivo Histórico Municipal, que deveria funcionar nas mesmas instalações do Museu."Museu Municipal já tem 500 peças". Correio Riograndense, 26 de fevereiro de 1975, p. 1
Na reabertura em 2 de março de 1975 o acervo tinha cerca de 500 peças. Como primeira diretora foi indicada Maria Horn."Inaugurado o Museu Municipal". Pioneiro, 8 de março de 1975, p. 20 Em junho o Museu inaugurou uma nova seção, a Pinacoteca Aldo Locatelli, destinada a receber obras de artistas caxienses,"Semana cheia de atividades da Prefeitura Municipal". Pioneiro, 7 de junho de 1975, p. 28 e pouco depois foram criadas uma seção de filmes, fotografias e gravações e uma sala para audiovisuais. A instituição renovada foi bem recebida pela comunidade, logo tinha significativa visitação (2.408 visitantes em setembro), organizava variados eventos, e muitas novas doações continuavam ocorrendo.Mascia, Nelly Veronese. "Museu Municipal de Caxias do Sul". Pioneiro, 6 de setembro de 1975, p. 21"Notícias do Museu Municipal". Pioneiro, 25 de outubro de 1975, p. 29 A intensidade das atividades obrigava o Museu a manter-se aberto até horários avançados, e em pouco tempo passou a ser percebido como um importante espaço cultural, mas ao contrário do esperado, as exposições de arte se tornaram o carro chefe, e não as atividades históricas e memorialísticas.Comarú, pp. 96-98 Em 5 de agosto de 1976 o Arquivo Histórico foi criado oficialmente, sendo instalado numa casinha de madeira nos fundos do Museu, onde as condições eram extremamente precárias. O Arquivo passou a atuar como um departamento do Museu e na prática as duas instituições funcionavam como uma só, tendo um mesmo diretor.Pontalti, Patrícia. "Trilhas da cultura". Pioneiro, 18-19 de janeiro de 1976, p. 5 "A arte de esquecer". Correio Riograndense, 19 de abril de 1978, p. 6
Em 1982 o Museu já contava com cerca de 2,5 mil peças, cerca de 700 em exposição permanente, 300 alocadas na Casa de Pedra, e o restante em depósito, havendo um projeto em andamento para aquisição de mais 900 peças de maquinário e ferramentas agrícolas."35 anos do Museu Municipal'. Folha Regional de Caxias do Sul, 24-30 de setembro de 1982, p. 15 No mesmo ano foi iniciado um projeto de reorganização completa do já obsoleto sistema de catalogação e tombamento do material."Museu recebe mais doações e realiza retombamento". Folha Regional de Caxias do Sul, 24-30 de dezembro de 1982, p. 20 Contudo, a adaptação do prédio histórico havia sido apressada e inadequada, pelo que logo surgiram muitos problemas. Um relatório de 1983 da administração dizia que o prédio "não oferece condições de abrigar um acervo de tamanha importância. Como consequência, é motivo de preocupação constante os problemas com relação à umidade, mofo e bolor nas peças expostas, provocando uma acelerada deterioração, tendo, inclusive, acontecido a perda de dezenas de objetos e obrigando a retirada e inutilização de outros. A umidade é acentuada pelas condições do prédio: goteiras, infiltração de água nas paredes, etc".Apud Comarú, p. 73