Aulo Barretti Filho ( São Paulo, 23 de agosto de 1953 – São Paulo, 3 de novembro de 2016) Foi um odontólogo, pesquisador, escritor e professor da religião tradicional Iorubá, da afrodescendente e babalorixá do candomblé do Ilê Axé Odé Quitaleci em São Paulo e Asojú Obá Alaqueto (em Queto no Benim), mais conhecido como Aulo de Oxóssi. Prandi, Reginaldo. Os Candomblés de São Paulo, São Paulo, Edusp, 1991. (Prandi, 1991, p.283) "Presidente da FUNACULTY – Fundação de Apoio ao Culto e Tradição Yorùbá no Brasil" (Silva, 2000, pp. 47-48, nota 29)Silva, Vagner Gonçalves da. O Antropólogo e Sua Magia, São Paulo, Edusp, 2000., que desde 1985 fomenta as questões socioculturais e religiosas do povo Iorubá no Brasil.FUNACULTY
Religião
“Seu primeiro contato (ainda adolescente) com as religiões afrodescendentes foi com a umbanda.” (Prandi, 1991, p. 99)Idem, nota 1. Iniciou-se no candomblé pelas mãos de Mãe Manodê, em 1974 e com ela confirmou sua maioridade sacerdotal em 1981, casa de nação Angola em São Paulo. “A casa de Manodê, fundada em 1965[…] iniciou […] muitos filhos, entre os quais, o Pai Aulo de Oxóssi, hoje Queto reafricanizado (BA) […]”. (Prandi, 1991, p. 99) “Em 1983, na Bahia, passou a fazer parte do Ilê Axé Opô Aganju (Prandi & Gonçalves, 1989, p. 230),Prandi, Reginaldo & Gonçalves, Vagner. “Axé São Paulo”. In: Meu Sinal Está No Teu Corpo. Carlos Eugênio Marcondes de Moura (org.), pp. 220-239. São Paulo, Edusp, 1989.“casa descendente da qual atualmente pertence, desde 1996, o Ilê Axé Opô Afonjá, esta por sua vez, descendente da Casa Branca do Engenho Velho – Ilê Axé Iá Nassô Ocá.” (Barretti, 2009, p. 122)Barretti Filho, Aulo. “Dall'oralità alla scrittura - La Riafricanizzazzione”. In: La Voce Degli Dei. Bruno Barba (org.), pp. 118-135. Gênova, Cisu, 2009. Portanto, desde 1996, é filho de santo, de Mãe Stella: “O presente capítulo, agora integralizado e finalizado, dedico à minha ialorixá Maria Stella de Azevedo Santos, Odé Caiodê, de Oxóssi, suma sacerdotisa do Ilê Axé Opô Afonjá.” (Barretti, 2010, p. 76, nota 4)Barretti Filho, Aulo. “Òsóòsì e Èsù, os Òrìsà Alákétu”. In: Dos Yorùbá ao Candomblé Kétu. Aulo Barretti Filho (org.), pp. 75-139. São Paulo, Edusp, 2010., é também Asojú Obá Alaqueto, oiê (título) recebido em Queto, no Benim em 12 de julho de 1986.
Atividades Socioculturais Relatos Etnográficos A Reafricanização
Antes mesmo do “Manifesto das Ialorixás baianas contra o sincretismo de 29 de julho de 1983” (Consorte, 2010, p. 195)Consorte, Josildeth. “Sincretismo ou Antissincretismo”? In: Dos Yorùbá ao Candomblé Kétu. Aulo Barretti Filho (org.), pp. 195-235. São Paulo, Edusp, 2010., Aulo Barretti Filho já havia iniciado em São Paulo um “movimento social” de (re) africanização e antissincretismo. “[…] Na ACACAB (Associação Casa de Cultura Afro-brasileira), fundada em São Paulo com intenção de promover aspectos da cultura negra, desenvolveram-se, no final dos anos 70, cursos de língua iorubá e mitologia dos orixás [ministrado por Aulo] […].” (Silva, 2000, p. 264)Idem, nota 2. , e esta foi “ [...] uma das primeiras iniciativas privadas em São Paulo a abrir caminho para a africanização institucional do candomblé, ou melhor, a instituição do aprendizado fora do modelo iniciático baseado na transmissão oral […].” (Prandi & Gonçalves, 1989, p. 236)Idem, nota 6..
“Desse processo [de reafricanização] [...], Pai Aulo de Oxóssi, concilia as atividades de pai-de-santo com as de professor de cursos sobre teologia iorubá.” (Silva, 1995, p. 93)Silva, Vagner Gonçalves da. Orixás da Metrópole. Rio de janeiro, Vozes, 1995.. “No curso de [Aulo] teologia iorubana comparada, [...] eram ensinados aspectos históricos relativos ao tráfico de escravos e à formação dos reinos iorubás e nações vizinhas. A seguir vinham às descrições de cultos e ritos africanos, alguns mais conhecidos no candomblé brasileiro, como o bori, e outros menos conhecidos como o iporí (culto da placenta) e o isassún (culto do cordão umbilical).” (Silva, 1995, pp. 264-265)Idem, nota 12.
Na época em que atuava como professor de teologia yorùbá comparada ao candomblé na ACACAB, foi também articulista da Revista Ébano (São Paulo), escrevendo vários artigos sobre religião tradicional Iorubá e a comparada ao candomblé, alguns dos quais foram registrados pela etnografia bibliográfica (Moura, 1982, pp. 171-172)Moura, Carlos Eugênio Marcondes de. "Candomblé, xangô, [...]: Bibliografia prévia." In: Bandeira de Alairá. Carlos Eugênio Marcondes de Moura (org.), pp. 123-191. São Paulo, Nobel, 1982., como segue:
“BARRETTI Fº. Aulo. “Orunmilá, um dos deuses do panteão religioso yorubano”, Ébano, São Paulo, I (7/8): 19, maio-jul, 1981. “Ifá: os odus da vida”, Ébano, São Paulo, II (10); 12, dez, 1981. “Igba-Odu-Iwa, a cabaça dos odus da existência.” Ébano, São Paulo, II (13): 4, fev-mar, 1982. “Um Itan do Omo Odu Ofun Iwori”, Ébano, São Paulo, II (13): 4, abr, 1982.”
A FUNACULTY
Nos anos 80, “[…] Aulo Barretti Filho, antigo aluno de iorubá na ACACAB e depois seu professor de mitologia dos orixás durante seis anos (1979/84), partirá para outro empreendimento digno de nota […] fundará a FUNACULTY (Fundação de Apoio ao Culto e a Tradição Iorubá) com sede na Lapa […] Na FUNACULTY se ensinará além do curso do Aulo […] As novas informações passadas pelo professor, [...] implicam em substituir práticas arraigadas por outras inteiramente novas para se chegar à africanização. [...] Terminado o curso básico, aqueles mais interessados formavam pequenos grupos, dando continuidade aos estudos, com ênfase especialmente no aprendizado do oráculo de Orumilá […]” (Prandi & Gonçalves, 1989 p. 236)Idem, nota 6.. O slogan da fundação era: “Funaculty - uma tentativa de volta as origens.”
“Em um dos capítulos [...], analisei os cursos de ioruba e teologia africana, frequentada, sobretudo por pessoas da religião, como formas alternativas de transmissão de conhecimento além daquela estabelecida pelo modelo iniciático regido pela senioridade. Esta interpretação, que apresento abaixo, baseou-se em minha experiência como aluno de um desses cursos, o da Funaculty (Fundação de Apoio ao Culto e Tradição Iorubá no Brasil), do qual Aulo Barretti Filho era professor: [...]” (Silva, 2000, p. 178)Idem, nota 2. O curso foi também intitulado como “Africanização Acadêmica. - Ali passaram a ser ministradas, além do curso de Aulo, aulas de dança afro, percussão dos ritmos do candomblé e língua iorubana, contando com biblioteca especializada em história, religião e cultura dos povos iorubanos que serve [também] aos alunos. [...].”(Prandi & Gonçalves, 1989a pp. 33-34)Prandi, Reginaldo & Gonçalves, Vagner. “Deuses tribais de São Paulo.” In: Ciência Hoje, 10 (57). São Paulo set.1989a
Na introdução do organizador italiano, o professor Bruno Barba(2009, p.119)Barba, Bruno. La Voce Degli Dei - Il Brasile e la sua magia. Gênova, Cisu, 2009. do capítulo de Aulo Barretti Filho “Dall'oralità alla scrittura - La Riafricanizzazzione” (“Da oralidade à escrita – A Reafricanização”), na coletânea, traduzido do italiano, assim apresenta-o: “Aulo Barretti Filho sempre foi interessado na dinâmica da transmissão dessa cultura. Como podemos transformar um conhecimento que sempre foi tradicionalmente transmitido oralmente, em um "ensino" ocidental, organizado como nas salas das modernas universidades brasileiras? Questionável ou não esse processo, o fato é, que Aulo Barretti Filho levou à descoberta - e, de fato, para muitos a descobrir - o Candomblé Queto, que acompanha a "reafricanização" dos terreiros. Nem todos concordam em aceitar esse "caminhar": os candomblés, como são conhecidos, embora de origem africana, são “criações” brasileiras. Entretanto, o significado e a exaltação das raízes africanas são, no entanto, para milhões de fiéis, uma importantíssima referência social, cultural e ideológica.”
Em 1986, nos dias 07 e 8 de junho, a Funaculty idealizou e organizou o simpósio “Nações Africanas – Identidade Étnica no Candomblé Brasileiro”, sob a égide da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo e com patrocínio da VASP e do SESC Campestre de São Paulo, onde o evento se realizou, tendo Aulo como coordenador e mediador desse simpósio. Com grande repercussão nos meios religiosos e acadêmicos, a citação abaixo revela a importância social do evento no relato da professora Monique Augras, assim noticiado nas “Comunicações do ISER” do Rio de Janeiro (ano V, 1986.): “- A absoluta originalidade, do simpósio foi devida à modalidade de diálogo proposta pelos organizadores. Se, no primeiro dia, os sacerdotes descreveram as peculiaridades de cada nação e relataram história e o funcionamento das casas a que pertencem, sendo inquiridos pelos pesquisadores acadêmicos, no segundo dia, foi a vez dos cientistas sociais se colocarem, sendo questionados pelos sacerdotes. Deste modo, estabeleceu-se, um diálogo que primou pela autenticidade. Tanto acadêmicos como sacerdotes acabaram expondo-se claramente, sem lançar mão dos tradicionais recursos geralmente utilizados por ambas as categorias para assegurar a manutenção dos esquemas do poder sacerdotal e magistral. Esta ocorrência, por si só, garante a importância e repercussão do evento. No decorrer do diálogo, foram particularmente enfatizados os aspectos ligados aos processos de legitimação, de transmissão dos conhecimentos, de relação com o sagrado, e, especificamente, às modalidades de articulação dos terreiros com a sociedade global, em termos de relação cultural, social e política. Encerrou-se o simpósio destacando a essencial importância da inserção da cultura negra na construção do Brasil contemporâneo”
Simpósio este, que contou com as participações acadêmicas de Vivaldo da Costa Lima, Carlos Eugênio Marcondes de Moura, Liana Trindade e obvio de Monique Augras e agentes religiosos especialmente convidados. O simpósio teve como um dos seus objetivos, ou melhor, o final, de formar a delegação oficial brasileira, que participaria do “III Congresso Internacional da Tradição e Cultura dos Òrìsà” que se realizaria em julho de 1986, em Ilê-Ifé, na Nigéria.
Em Ilê-Ifé
Sendo assim, Aulo, Ari Cândido Fernandes,Assessor para Assuntos Afro-Brasileiro da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, na época. convidados especiais e dois diretores da Funaculty vão à África para participar do “III Congresso Internacional da Tradição e Cultura dos Orixás”, “[…] tendo participado da delegação paulista organizada pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo [e pela Funaculty], com patrocínio da Varig, da qual fizeram parte […] e Aulo de Oxóssi [Coordenador da Delegação Oficial Brasileira] […]” (Prandi, 1991, p. 206, nota 2) Aulo também participa como palestrante com a comunicação “O Culto de Orí na Diáspora. - Perdas e Preservações no Candomblé”.
Um grupo menor dos participantes desta viagem, após o congresso, vai com Aulo à Queto, no Benim, e no Afim Queto (Ààfin Kétu; palácio real de Queto) recebe do 49º Rei de Queto, o Obá Alaqueto Adiro Adetutu, o oiê (título) de Asojú Obá Alaqueto (cujo ato religioso foi registrado originalmente em VHS e atualmente em DVD). Este fato é citado na etnografia italiana, que o apresenta como “Ricercatore e Bàbálórìsà del candomblé Ilé Àse Ode Kitálesi e Asojú Oba Alákétu, iniziato alla divinità Òsóòsì fin dal 1974, Aulo Barretti Filho [...]” (Barba, 2009, p. 119)Idem, nota 18.
De volta ao Brasil, com os resultados obtidos nesta viagem à terra dos Iorubás e com uma mostra de mais de cem peças tradicionais entre as quais - vestimentas, tecidos, utensílios litúrgicos, joias, instrumentos musicais, esculturas e afins, além de fotografias e tomadas de vídeo, a Funaculty (de Aulo) realizou a exposição “Arte Yorùbá – Tradição e Religião.” dedicada como forma de agradecimento a “todos os artistas e ao povo Iorubá”. Pode ser vista em Exposição: “Viagem à Terra dos Yorùbá – Nigéria e Benin” a qual, foi amplamente difundida pelos meios de comunicação na época.