The God Delusion (chamado, no Brasil, de Deus, um Delírio e, em Portugal, de A Desilusão de Deus) é um livro não ficcional escrito pelo biólogo e divulgador científico Richard Dawkins. O livro aborda, segundo o autor, todos os argumentos necessários a favor da conclusão da inexistência de qualquer Deus, além de raciocínios a favor do ateísmo em detrimento ao agnosticismo e outros posicionamentos religiosos.
Além de acusar várias religiões de terem cometido inúmeras atrocidades históricas, especialmente o cristianismo, judaísmo e islamismo, Dawkins defende a ideia que um Deus tal qual pregado por essas religiões não passa de um conjunto de histórias criativas e irreais para explicar tudo o que conhecemos, concluindo, então, que essas religiões atentam contra a razão.
O livro ataca a ideia de um criador sobrenatural, afirmando que isso não passa de um delírio, definido como "uma falsa crendice mantida diante de fortes evidências em contrário". Dawkins simpatiza com Robert Pirsig quando este diz que "quando uma pessoa tem um delírio, chama-se a isso 'insanidade'; quando muitas pessoas sofrem de um delírio, chama-se a isso religião".Dawkins, Richard. Preface The God Delusion.
Antecedentes Dawkins argumentou contra as explicações criacionistas sobre a origem da vida em suas obras anteriores sobre a evolução. O tema de O Relojoeiro Cego, publicado em 1986, é o de que a evolução pode explicar o "aparente projeto" da natureza. Em Deus, um Delírio ele se foca em uma abrangência maior de argumentos utilizados a favor e contra a existência de Deus (ou deuses).
Dawkins há muito tempo queria escrever um livro para abertamente criticar as religiões, mas o seu editor o aconselhara a não fazer. Por volta de 2006, o seu editor passou a simpatizar com a ideia. Dawkins atribui essa mudança de ideia a "quatro anos de Bush" ("four years of Bush"). Naquela época, uma certa quantidade de autores, incluindo Sam Harris e Christopher Hitchens, que juntamente com Dawkins foram rotulados de "The Unholy Trinity" ("A Trindade Profana") por Robert Weitzel, já haviam escrito livros abertamente criticando as religiões.
De acordo com o site da Amazon, o livro causou um crescimento de 50% nas vendas de livros sobre religião e espiritualidade (incluindo livros antirreligiosos como Deus, um Delírio e Deus Não É Grande) e um crescimento de 120% no número de vendas da Bíblia.
Sinopse O livro contém dez capítulos. Os primeiros expõem os argumentos propostos acerca da inexistência de Deus, enquanto que os outros discutem as relações entre religião e moral. Ao dedicar o livro ao seu amigo Douglas Adams,"Douglas, eu sinto falta de você. Você é o meu mais inteligente, engraçado, mente-aberta, brilhante, alto e possivelmente único convertido. Eu espero que este livro pudesse ter feito você rir – embora não tanto quanto você me fez" ("Douglas, I miss you. You are my cleverest, funniest, most open-minded, wittiest, tallest and possibly only convert. I hope this book might have made you laugh - though not as much as you made me"). (The God Delusion, p. 117) Dawkins cita o livro de Adams O Guia do Mochileiro das Galáxias: "Não é suficiente ver que o jardim é belo sem ter que acreditar que há fadas morando nele também?" ("Isn't it enough to see that a garden is beautiful without having to believe that there are fairies at the bottom of it too?").
Dawkins escreve que Deus, um Delírio contém quatro mensagens para um aumento de "conscientização": Ateus podem ser felizes, ponderados, morais e intelectualmente realizados. A seleção natural e teorias científicas similares são superiores à "hipótese de Deus" e à ilusão do design inteligente em se tratando de explicar o mundo vivo e o cosmos. As crianças não deveriam ser rotuladas de acordo com a religião de seus pais. Termos como "criança católica" ou "criança muçulmana" deveriam fazer as pessoas sentirem-se constrangidas. Ateus deveriam ser orgulhosos, não apologéticos, pois o ateísmo é a prova de uma mente saudável e independente.
A hipótese de Deus Como existe um grande número de ideias teístas que buscam explicar a natureza de Deus(es), Dawkins define o conceito de Deus ao qual ele deseja direcionar-se no começo do livro. Ele cunha o termo "religião einsteiniana" ("Einsteinian religion"), referindo-se ao uso de Albert Einstein do termo "Deus", como uma metáfora para a natureza ou os mistérios do universo. Ele faz uma distinção entre essa "religião einsteiniana" e a ideia teística geral de Deus como o criador do universo que deveria ser adorado.The God Delusion, page 13 Enquanto que Dawkins considera a "religião einsteiniana" uma hipótese respeitável, ele não pensa o mesmo sobre as religiões convencionais. Dawkins sustenta que para as religiões convencionais é dada uma imunidade privilegiada e não merecida contra críticas, citando Douglas Adams para ilustrar o seu argumento:
Dawkins passa a listar exemplos de atribuição de status privilegiados a religiões, tais como a facilidade de obter a condição de objetor de consciência, o uso de eufemismos para conflitos religiosos, imunidades tributárias, possibilidade de proselitismo em escolas, várias exceções ao cumprimento do Direito, e a polêmica das caricaturas da Jyllands-Posten sobre Maomé.
Voltando as suas atenções para a "religião einsteiniana", ele sustenta que essa ideia de Deus é uma hipótese válida, tendo efeitos no universo físico, e, como muitas outras hipóteses, pode ser testada e falsificada.The God Delusion, page 50. Isso se torna um tema importante no livro, o qual ele chama de "Hipótese de Deus" (God Hypothesis).The God Delusion, page 31
Dawkins faz uma análise breve dos principais argumentos filosóficos a favor da existência de Deus. Das várias alegações filosóficas que ele discute, ele seleciona o argumento do design para uma consideração maior. Dawkins conclui que a evolução através da seleção natural pode explicar uma "aparente concepção" da natureza.
Ele escreve que um dos grandes desafios ao intelecto humano tem sido explicar "Como surge a complexa, improvável concepção no universo" ("how the complex, improbable design in the universe arises"), e sugere que existem duas explicações que competem entre elas:
Uma hipótese envolvendo um conceptor, isto é, um ser complexo para ser responsabilizado pela complexidade do que vemos. Uma hipótese, com teorias de apoio, que explica como, a partir de origens e princípios simples, algo mais complexo pode surgir.
Essa é a base de seu argumento contra a existência de Deus, o "Ultimate Boeing 747 gambit"The God Delusion, page 114 ("gambito último Boeing 747″), onde ele argumenta que a primeira tentativa é auto-refutável, e a segunda abordagem é um melhor caminho a seguir.Essa interpretação do argumento está baseada em resenhas de Daniel Dennett e PZ Myers.
Ao final do capítulo 4, "Por que quase com certeza Deus não existe", Dawkins resume o seu argumento e declara, sobre a teoria do Design Inteligente, que "a tentativa é falsa, porque a hipótese do conceptor (designer) imediatamente levanta um problema maior sobre quem concebeu (designed) o conceptor (designer). Todo o problema com o qual nós começamos era o problema de explicar a improbabilidade estatística. Obviamente, não é uma solução postular algo ainda mais improvável" ("The temptation is a false one, because the designer hypothesis immediately raises the larger problem of who designed the designer. The whole problem we started out with was the problem of explaining statistical improbability. It is obviously no solution to postulate something even more improbable").The God Delusion, page 158
Dawkins não pretende dizer que Deus não existe com certeza absoluta (um Deus no sentido da "religião einsteiniana"). Em vez disso, ele sugere como um princípio geral que as explicações mais prováveis são preferíveis, em detrimento de explicações improváveis, como a de um Deus omnisciente e omnipotente. E, desse modo, ele argumenta que a teoria de um universo sem Deus é preferível a uma teoria de um universo com Deus.The God Delusion, page 147-150
Religião e moral A segunda metade do livro começa explorando as raízes da religião e buscando uma explicação para a sua presença nas culturas humanas. Dawkins advoga a "teoria da religião como um subproduto acidental – um "erro ao alvo" de algo útil" ("theory of religion as an accidental by-product – a misfiring of something useful"),"A teoria da religião como um subproduto acidental – um "erro ao alvo" de algo útil – é a que eu desejo advogar" ("The general theory of religion as an accidental by-product – a misfiring of something useful – is the one I wish to advocate"). The God Delusion, p. 188 como, por exemplo, o emprego da mente na postura intencional ("intentional stance"). Dawkins sugere que a teoria dos memes, e a susceptibilidade humana a memes religiosas em específico, pode explicar como as religiões se espalharam como "viroses mentais" ("mind viruses") pelas sociedades."o propósito desta seção é perguntar se a teoria do meme poderia funcionar para o caso especial da religião" ("the purpose of this section is to ask whether meme theory might work for the special case of religion") (itálico no original, referindo-se a uma das cinco seções do capítulo 5), The God Delusion, p. 191
Ele então se volta para o assunto da moral, sustentando que nós não precisamos da religião para sermos bons. Em vez disso, a nossa moral tem uma explicação darwiniana: genes altruístas, selecionados através do processo da evolução, dão às pessoas empatia natural. Ele pergunta, "você cometeria assassinatos, estupros, ou roubos se soubesse que Deus não existe?" ("would you commit murder, rape or robbery if you knew that no God existed?"). Ele argumenta que poucas pessoas iriam responder "sim", fazendo assim uma objeção à alegação de que a religião é necessária para nós nos comportarmos moralmente. Quem diz isso são aqueles religiosos que provavelmente não iriam se comportar moralmente caso descobrissem que Deus não existe. Em apoio a sua visão, ele analisa a história da moral, argumentando que há um Zeitgeist moral que continuamente evolui na sociedade. Com o seu progresso, esse consenso moral influencia como os líderes religiosos interpretam as suas escrituras sagradas. Portanto, Dawkins declara, a moral não se origina da Bíblia, em vez disso o nosso progresso moral informa qual parte da Bíblia os cristãos aceitam e qual eles agora dispensam.Após dar alguns exemplos da moral bestial do Antigo Testamento, ele escreve que "com certeza, teólogos irritados irão protestar que nós não tomamos mais o livro do Gênesis literalmente. Mas esse é exatamente o meu argumento! Nós pegamos e escolhemos quais pedaços da escritura nós acreditamos, e quais pedaços cancelamos como símbolos e alegorias" ("Of course, irritated theologians will protest that we don't take the book of Genesis literally any more. But that is my whole point! We pick and choose which bits of scripture to believe, which bits to write off as symbols and allegories"). The God Delusion, p. 238.