A Batalha do Lago Trasimeno, travada na primavera de 217 a.C. nas margens do lago Trasimeno, na província de Perúgia, Itália, foi uma batalha da Segunda Guerra Púnica, na qual Aníbal destruiu o exército romano de Caio Flamínio numa emboscada, matando-o.
Antecedentes Ansioso por administrar sua vantagem após a vitória em Trébia, na região da Emília, era vontade de Aníbal realizar a passagem dos Apeninos imediatamente. mas a crescente severidade do clima e a precária saúde de suas tropas estavam contra ele. Além disso, ele agora tinha que conviver com o temperamento gaulês — e os gauleses não aceitavam que uma vitória fosse seguida de mais ação, e sim de pilhagem e comemoração. Era um fator que Aníbal teria de levar em conta doravante. No momento, dera a eles, bem como às suas tropas, total liberdade para saquear as terras das redondezas, e "os romanos não tiveram paz mesmo em seus quartéis de inverno". Lívio nos diz que as cidades-guarnições de Placência e Cremona, que abrigavam os sobreviventes das legiões, estavam totalmente isoladas dos locais onde havia suprimentos e só podiam sustentar-se trazendo todos os víveres de que necessitavam através do rio Pó em barcaças. Na própria Roma, agora que se evidenciava a verdadeira situação, houve "tal consternação que as pessoas esperavam a aparição imediata do exército hostil na sua própria cidade, não sabendo o que fazer para ter qualquer esperança de ajuda e para defender seus portões e muralhas contra essa investida".
O retorno de Semprônio a Roma A chegada de Tibério Semprônio Longo a Roma, que com grandes riscos havia aberto seu caminho de volta através de uma região sob o domínio da cavalaria de Aníbal, facilitou a eleição dos novos cônsules para o ano de 217 a.C. Caio Flamínio e Cneu Servílio foram os cônsules escolhidos, sendo Flamínio eleito pela segunda vez. Ele havia adquirido grande popularidade junto ao povo por sua atitude hostil contra o senado e o partido da aristocracia. Gozava também de alto conceito por suas proezas militares em uma campanha anterior contra os gauleses. Enquanto Servílio comandaria as legiões baseadas em Arímino (atual Rimini), para Flamínio foi designada a bem-vinda tarefa de assumir o comando das tropas em Arécio (atual Arezzo), onde ele deveria barrar a passagem dos invasores em direção a Roma. Uma vez que ambos os exércitos consulares haviam sido dizimados na batalha do Trébia, quatro novas legiões foram imediatamente recrutadas — um sinal precoce de que o poderio humano de Roma provaria sua enorme capacidade.
Aníbal e seu exército Antes de cessar todas as operações naquele ano, Aníbal, a despeito de um ferimento adquirido numa ação de cavalaria, capturou o grande posto de trocas de Victúmulas. Ali havia sido recebido por uma população de gauleses hostis, que tentaram opor-se ao seu ataque à aldeia. Eles foram derrotados e exterminados por serem fiéis a Roma. Era vital, nesse primeiro estágio da guerra, que os gauleses do norte da península Itálica percebessem, desde o início, que a fortuna e a liberdade estavam em juntar-se ao cartaginês, mas Aníbal também queria mostrar que seria mais impiedoso que os romanos quando contrariado.
As relações pessoais de Aníbal com os gauleses que se uniam ao seu exército, agora e mais tarde em suas campanhas, eram importantíssimas para que tivesse êxito na Itália. O que ele lhes prometeu, assim como aos seus próprios homens que o seguiram desde a Península Ibérica, foi a liberdade completa e o direito, por conquista, às terras que fizessem suas. Uma vez que a vida dos guerreiros gauleses, naqueles tempos, girava em torno da guerra, geralmente contra seus companheiros gauleses, e eles dificilmente adotavam o modo de se estabelecer dos italianos, que eram agricultores antes de mais nada, o apelo da batalha e da pilhagem era irresistível. Não desejavam nada além disso; acreditavam que morrer em batalha era o mais apropriado para um homem — e que seus espíritos, em qualquer caso, sobreviveriam. Sua perspetiva de vida era a do mundo homérico; em quase todos os aspetos faziam lembrar os escandinavos de séculos posteriores. Banqueteando-se e bebendo vinho, vangloriando-se de seus feitos, ouvindo contos de heroísmo de seus trovadores, eles eram, ao mesmo tempo, valentes e ingênuas crianças. Colares, pulseiras e anéis de ouro demonstravam sua riqueza; os corpos sem armadura demonstravam o seu desprezo pelo inimigo (até que fossem treinados na utilização de corseletes cartagineses e romanos). E assim iam eles mundo afora, vestidos com calças compridas — ao contrário dos homens do Mediterrâneo, que viam nas compridas polainas do norte a marca do selvagem. Deles o historiador Diodoro escreve que alegremente se atiravam a combates individuais pelo incidente mais trivial em suas festas de bebedeiras, e que eram amantes de canções sobre as grandes façanhas de seus ancestrais. "Eles aumentam os elmos de bronze que usam com chifres, para aparentarem maior tamanho. Carregam sobre seus corpos escudos incrustados com a cabeça de bronze de algum animal. Falam por meio de enigmas, apenas insinuando seu pensamento, sempre exaltando a si mesmos. Horríveis em aspeto, eles parecem ameaçadores; também têm uma aguçada destreza e são frequentemente rápidos no aprendizado".
Eram estes os homens que formariam o grosso do exército de Aníbal por muitos anos, e ele precisava impressioná-los acima de tudo — não somente com sua inteligência e astúcia, com uma bravura que se igualaria à deles no campo de batalhas, mas com alguma qualidade que parecesse diferenciá-lo de outros seres humanos. Como homem culto e nobre cartaginês, descendente de gerações de homens ricos e nobres, estava acostumado às maneiras diante das quais o homem simples pode se impressionar e até apavorar-se. Em sua equipe pessoal achava-se um sacerdote e vidente cartaginês, e Aníbal deve ter sido versado nas habilidades com as quais o sacerdócio" agia sobre as superstições dos ignorantes. Políbio, quase certamente citando alguma autoridade primitiva da época, afirma que foi "durante o inverno que ele adotou um artifício verdadeiramente púnico. Temendo a inconstância dos celtas e possíveis atentados à sua vida, devido ao fato de as relações amigáveis com eles serem bastante recentes, ele tinha várias perucas fabricadas e tingidas de modo a produzirem a aparência de pessoas de diferentes idades, e vivia a trocá-las constantemente, ao mesmo tempo que se vestia de acordo com a peruca; assim, não somente os que o viam de relance, mas até mesmo seus familiares achariam difícil reconhecê-lo".
Aníbal possuía bons motivos para temer um atentado à sua vida, pois durante seus poucos meses na Península Itálica fora responsável pela morte de muitos gauleses — entre os taurinos, antes da batalha do Trébia, e recentemente em Victúmulas — e ele sabia como o código dos laços de sangue funcionava entre eles. Ele se lembrava do destino de seu cunhado Asdrúbal, assassinado na Península Ibérica por alguma desavença não especificada. Seu ferimento recente também deve ter servido para rememorá-lo de que dele, e somente dele, dependia o sucesso da guerra contra Roma. Não somente Asdrúbal, mas também seu pai Amílcar Barca, morto em batalha, haviam perecido antes de poderem cumprir o grande juramento que haviam feito sobre o altar — vingar-se de Roma por seu pérfido tratamento a Cartago. Muitos milhares já haviam tombado em consequência desse juramento, e estava claro para Aníbal que, ao colocar sua mão sobre as oferendas sacrificiais, ele não tinha somente firmado um compromisso: na verdade, sem ele a causa cartaginesa estaria arrasada.
A logística de Aníbal As notícias vindas da Península Ibérica eram más. Sob o ataque das legiões romanas, comandadas pelo irmão do cônsul Cipião, as forças cartaginesas no norte da Península haviam sido derrotadas. A maior parte da região entre os Pirenéus e o rio Ebro estava agora em mãos romanas e, contrariando em suas esperanças e expectativas, Aníbal não poderia mais receber reforços por terra pelo caminho de onde viera. Além do mais, os romanos, utilizando adequadamente seu domínio do mar, haviam frustrado uma tentativa cartaginesa de desembarcar reforços perto de Pisa. As comunicações de Aníbal foram eficientemente estranguladas e, embora seu primeiro combate na península Itálica tivesse sido bem-sucedido, a estratégia romana de longo prazo para reduzir a fonte de poder cartaginesa — a Hispânia — e impedir sua assistência pelo mar estava quase dando resultado.
"Roma", escreveu William O'Connor Morris, "era uma grande nação, e Cartago um malgovernado Estado", e a verdade dessas palavras ficaria ainda mais evidente à medida que os anos passassem. Aníbal não possuía outra fonte segura de reservas senão os gauleses da Península Itálica: dependia deles, e todo o sucesso da expedição residia no fato de permanecer vivo. Suas esperanças, naquele momento, também devem ter sido mantidas pela possibilidade de seduzir e atrair os aliados latinos de Roma, que em muitos aspetos formavam o grosso de seus exércitos. Se conseguisse destruir a confederação que mantinha esses Estados unidos, ele privaria Roma de sua principal fonte de poderio humano e a isolaria. Por esse motivo, tanto no presente quanto no futuro, teria o cuidado de fazer uma distinção entre os prisioneiros que capturasse: os romanos eram reduzidos à posição de escravos, mas os aliados eram tratados gentilmente e, na medida do possível, enviados de volta aos seus lares com a mensagem de que os cartagineses não possuíam qualquer inimizade com eles. Sua guerra era contra Roma.
O deslocamento do exército thumb|direita|Movimentação das forças na Batalha do Lago Trasimeno. No começo da primavera, devidamente certificado de que os gauleses estavam refeitos e ansiosos para deixar seu próprio território e avançar sobre a terra do inimigo, Aníbal ordenou o deslocamento do exército para o sul rumo à Etrúria. Sabendo que a rota oriental por Arímino (atual Rimini) no Adriático estaria guardada por duas legiões consulares, e tendo, sem dúvida, descoberto que a outra força principal o aguardava no flanco ocidental dos Apeninos em Arécio (atual Arezzo), decidiu tomar uma rota que os romanos não tivessem previsto. O caminho escolhido era mais direto, mas suas desvantagens logo se tornariam evidentes. Parece provável que, tendo marchado até atingir Bolonha, ele então virou a oeste, cruzando os Apeninos pelo Passo Colina até perto de Pistoia. Surgiu no vale do rio Arno inferior, uma região alagada e extremamente pantanosa.
A ordem do exército na marcha, no dizer de Políbio, é interessante, uma vez que mostra a confiança que ele depositava sobre as várias unidades nacionais. Na vanguarda iam os africanos e espanhóis e todas as tropas mais disciplinadas, sendo que o comboio de bagagem estava disposto entre eles; atrás, formando o corpo principal, vinham os milhares de gauleses, e na retaguarda ficava a cavalaria, tanto pesada quanto ligeira, preparada para agir se houvesse qualquer tentativa de atacar o exército; esta última formação também constituía uma formidável advertência a quaisquer gauleses que viessem a pensar em deserção se o avanço ficasse difícil. A travessia dos pântanos do Arno inferior foi quase tão difícil para as tropas, guardadas as devidas proporções, quanto haviam sido os últimos estágios nos Alpes. "Todo o exército", diz Políbio, "sofreu muito, principalmente pela falta de sono, pois tiveram que marchar através da água por três dias e três noites consecutivos.