miniatura|GIF animado do Prof. Stampfer's Stroboscopische Scheibe n.º X, publicado por Trentsensky & Vieweg em 1833. miniatura|Uma família observa animações em um espelho pelas fendas de discos estroboscópicos. Detalhe de uma ilustração de E. Schule no rótulo da caixa de Magic Disk - Disques Magiques, c. 1833.

O fenacistoscópio, também conhecido pelas grafias phénakisticope e phenakistiscope, foi o primeiro dispositivo de animação de ampla difusão capaz de criar uma ilusão fluida de movimento. Seus inventores o chamaram de e , "discos estroboscópicos". O aparelho recebeu muitos outros nomes até que o nome comercial francês , com grafias alternativas, se tornou comum. Foi uma das primeiras formas de entretenimento com imagens em movimento e antecedeu o desenvolvimento posterior do cinema e da indústria cinematográfica. De modo semelhante a uma animação em GIF, exibe uma sequência curta em repetição contínua.

Etimologia e grafia

Quando o nome comercial phénakisticope foi apresentado no jornal francês Le Figaro em 27 de junho de 1833, sua origem foi explicada a partir das palavras gregas phenakisticos, "enganar", e ops, "olho", , ou, mais precisamente, , phenakizein, e ou .LIDDELL, Henry George; SCOTT, Robert. A Greek-English Lexicon, verbetes "φενακιστικός" e "φενακίζω".LIDDELL, Henry George; SCOTT, Robert. A Greek-English Lexicon, verbete "ὄψ". O nome provavelmente pretendia significar "engano óptico" ou "ilusão óptica".

O termo phénakisticope foi usado pela primeira vez pela empresa francesa Alphonse Giroux et Compagnie em seu pedido de licença de importação, apresentado em 29 de maio de 1833, e esse nome foi usado nas caixas dos conjuntos vendidos pela empresa. O editor parisiense Junin também usou o termo phenakisticope, com e sem acento.

O inventor Joseph Plateau não deu um nome ao aparelho quando escreveu sobre ele pela primeira vez, em janeiro de 1833. Ainda naquele ano, usou phénakisticope em um artigo para se referir às versões publicadas sem sua participação. Nessa época, já havia autorizado um conjunto lançado como Phantasmascope pela Ackermann, em Londres. Alguns meses depois, o nome foi alterado para Fantascope em uma nova edição e em conjuntos criados por outros animadores. Em muitos textos e apresentações, Plateau usou phénakisticope e fantascope. Parecia aceitar o primeiro como o nome mais difundido, embora mantivesse fantascope como sua denominação preferida.

A grafia phenakistiscope pode ter sido introduzida pelos litógrafos Forrester & Nichol em colaboração com o oculista John Dunn. Eles usaram o título The Phenakistiscope, or, Magic Disc em seus conjuntos, anunciados em setembro de 1833. A terminação alterada scope foi entendida como derivada do grego skopos, "alvo", "objetivo", "objeto de atenção" ou "observador", ou, mais precisamente, de , skopein. A terminação já era comum na nomenclatura de instrumentos ópticos, como telescópio, microscópio, caleidoscópio, fantascope e bioscope.LIDDELL, Henry George; SCOTT, Robert. A Greek-English Lexicon, verbetes "σκοπός" e "σκοπεῖν".

A grafia equivocada phenakistoscope já aparecia em 1835 em The American Journal of Science and Arts. Ela se tornou uma grafia comum em obras enciclopédicas, entre elas A Dictionary of Science, Literature, & Art, publicado em Londres em 1842, e Iconographic Encyclopaedia of Science, Literature, and Art, publicado em Nova York em 1852.

Tecnologia

miniatura|Um "Phantasmascope" com cartões expostos no Bedford Museum, na Inglaterra.

O fenacistoscópio costuma ser formado por um disco de papelão com uma sequência de imagens dispostas em torno do centro e aberturas retangulares igualmente espaçadas junto à borda. Para ver as imagens em movimento, o disco é preso a um cabo e girado diante de um espelho, enquanto o observador olha pelas fendas a partir da parte traseira. Se o disco gira com rapidez suficiente, o sistema visual funde as visões alternadas da imagem refletida e do papelão que passa entre elas, fenômeno chamado fusão de cintilação. Nos intervalos que passam despercebidos, cada imagem é substituída pela seguinte e é percebida como a mesma figura atravessando as fases de movimento representadas.

A visão estroboscópica pelas fendas evita o borramento de movimento na percepção das imagens giratórias. Quanto mais estreitas as fendas, mais nítida e também mais escura é a imagem.

Quando há o mesmo número de fendas e imagens, as figuras parecem mover-se em uma posição fixa, sem se deslocar pelo disco. Se houver menos imagens do que fendas, elas parecem deslocar-se no sentido contrário ao da rotação. Se houver mais imagens do que fendas, o deslocamento aparente ocorre no mesmo sentido da rotação.

Ao contrário do zootropo e de outros aparelhos posteriores, as versões comuns do fenacistoscópio só podiam, na prática, ser vistas por uma pessoa de cada vez.

A velocidade do disco provoca uma pequena distorção na percepção das imagens. Elas parecem um pouco mais estreitas e ligeiramente curvas. Os animadores podem compensar parcialmente esse efeito aumentando a largura das figuras e curvando-as no sentido oposto ao da distorção. A correção necessária muda conforme a velocidade. A maioria das animações para fenacistoscópio não pretendia reproduzir movimentos de forma realista, e a distorção pouco chama a atenção nas figuras de caráter mais cartunesco.

A distorção e a cintilação causadas pelas fendas giratórias não são vistas na maioria das animações de fenacistoscópio disponíveis na internet, inclusive no GIF desta página. Essas versões costumam ser produzidas por software e não reproduzem a experiência real de observação do aparelho, embora permitam apresentar o trabalho dos animadores de forma mais limpa. Algumas recriações modernas calculadas incorretamente também mostram as fendas em rotação, embora elas parecessem imóveis quando vistas através de um fenacistoscópio verdadeiro, ou fazem as figuras percorrerem o disco quando deveriam permanecer no lugar, e vice-versa.

A maior parte dos discos produzidos comercialmente era impressa por litografia e colorida à mão. Alguns fabricantes também empregaram litografia multicolorida e outras técnicas de impressão.

Invenção

miniatura|Ilustração de Joseph Plateau publicada em Correspondance Mathématique et Physique em 1833.

O fenacistoscópio foi inventado quase ao mesmo tempo, por volta de dezembro de 1832, pelo físico belga Joseph Plateau e pelo professor austríaco de geometria prática Simon Stampfer.

Quando era estudante universitário, Plateau percebeu em alguns de seus primeiros experimentos que a observação, a curta distância, de duas rodas dentadas concêntricas girando rapidamente em sentidos opostos produzia a ilusão óptica de uma roda imóvel. Mais tarde, leu o artigo de Peter Mark Roget de 1824, Explanation of an optical deception in the appearance of the spokes of a wheel when seen through vertical apertures, dedicado à mesma ilusão. Plateau decidiu investigar o fenômeno e publicou seus resultados em Correspondance Mathématique et Physique em 1828. Em uma carta datada de 5 de dezembro de 1829 ao mesmo periódico científico, apresentou seu ainda inominado anortoscópio, um disco que transforma uma imagem anamórfica em uma imagem normal quando gira rapidamente e é visto pelas quatro fendas radiais de um disco preto que gira no sentido contrário. A invenção foi comercializada mais tarde, entre outras empresas pela Newton & Co, de Londres.

Em 10 de dezembro de 1830, Michael Faraday apresentou na Royal Institution da Grã-Bretanha o artigo On a Peculiar Class of Optical Deceptions, sobre ilusões ópticas observadas em rodas giratórias. Ele mencionou o artigo de Roget e apresentou novas observações relacionadas ao fenômeno. Faraday não sabia que Plateau já havia publicado explicações semelhantes. Quando soube disso, escreveu a Plateau para reconhecer seu trabalho anterior. Alguns dos experimentos de Faraday eram novos para Plateau. Um deles, no qual uma roda giratória diante de um espelho produzia uma imagem fixa, levou Plateau a imaginar novas ilusões. Em julho de 1832, Plateau enviou uma carta a Faraday acompanhada por um disco experimental com algumas "anamorfoses" que, ao girar diante de um espelho, produziam a "imagem completamente imóvel de um pequeno cavalo perfeitamente regular". Carta original de 24 de julho de 1832. Depois de muitas tentativas e dificuldades, construiu um modelo funcional do fenacistoscópio em novembro ou dezembro de 1832. Plateau apresentou a invenção em uma carta de 20 de janeiro de 1833 publicada em Correspondance Mathématique et Physique. Ele acreditava que, se o método usado para produzir as ilusões pudesse ser modificado, seria possível aplicá-lo a outros usos, "por exemplo, na fantasmagoria". Carta original de 8 de março de 1833.

Stampfer leu sobre as observações de Faraday em dezembro de 1832 e começou a fazer experimentos semelhantes. Eles logo levaram à invenção do que chamou de Stroboscopischen Scheiben oder optischen Zauberscheiben, "discos estroboscópicos ou discos mágicos ópticos". Stampfer pensou em colocar a sequência de imagens sobre um disco, sobre um cilindro, como no zootropo posterior, ou, para acomodar um número maior de imagens, sobre uma longa faixa de papel ou tecido fechada em laço e estendida ao redor de dois rolos paralelos, de modo semelhante a rolos de filme. Também propôs cobrir a maior parte do disco ou do espelho com uma folha recortada de papelão, deixando visível apenas uma das figuras em movimento, e pintar elementos de cenário teatral ao redor da abertura, solução que se aproximava do posterior Praxinoscope-Théâtre.

Stampfer também mencionou uma versão com um disco de imagens em uma extremidade de um eixo e um disco com fendas na outra, mas achou mais simples girar o disco diante de um espelho. Em fevereiro de 1833, havia preparado seis discos de dupla face, publicados mais tarde por Trentsensky & Vieweg. Matthias Trentsensky e Stampfer receberam uma patente austríaca, o Kaiserlichen königlichen Privilegium, para os discos em 7 de maio de 1833.

O editor e orientador de doutorado de Plateau, Adolphe Quételet, afirmou ter recebido um modelo funcional para mostrar a Faraday já em novembro de 1832. Em 1836, Plateau escreveu que era difícil precisar quando tivera a ideia, mas acreditava ter conseguido montar sua invenção com êxito pela primeira vez em dezembro. Disse confiar na afirmação de Stampfer de que este havia criado sua versão na mesma época.

Peter Mark Roget afirmou em 1834 ter construído alguns fenacistoscópios e mostrado os aparelhos a muitos amigos já na primavera de 1831. Ocupações que considerava mais sérias, porém, impediram-no de publicar uma descrição da invenção.

Produção comercial

miniatura|Disco de papel de Eadweard Muybridge para o zoopraxiscópio, 1893. miniatura|Reanimação feita a partir do mesmo disco. miniatura|Animação de um disco Fantascope criado por Thomas Mann Baynes em 1833.

Mathias Trentsensky, da empresa de comércio de arte e editora Trentsensky & Vieweg, afirmou que Stampfer já havia preparado seis discos de dupla face em fevereiro de 1833 e que os demonstrara repetidas vezes a muitos amigos. Em abril de 1833, Trentsensky e Stampfer solicitaram uma patente austríaca, o k.k. Privilegium, concedida em 7 de maio. Uma primeira edição de quatro discos de dupla face foi publicada pouco depois, mas se esgotou em quatro semanas e a empresa ficou sem condições de atender os pedidos. Esses discos provavelmente tinham orifícios redondos, como mostram uma ilustração de 1868 e uma reconstrução feita por William Day em 1922, mas não se conhece nenhum exemplar original ainda existente.

Trentsensky & Vieweg publicaram em julho de 1833 um conjunto ampliado e aperfeiçoado de oito discos de dupla face com fendas verticais. Edições inglesas foram lançadas pouco depois por James Black e Joseph Myers & Co. Ao todo, 28 desenhos diferentes de discos foram atribuídos ao professor Stampfer.