A Catedral de Santiago de Compostela é um templo católico situada na cidade de Santiago de Compostela, capital da Galiza, Espanha. É a sé da arquidiocese homónima e foi construída entre 1075 e 1128, em estilo românico, na época das cruzadas e durante a Reconquista Cristã, tendo sofrido depois várias reformas que lhe adicionaram elementos góticos, renascentistas e barrocos.

Segundo a tradição, acolhe o túmulo do apóstolo Santiago Maior, padroeiro e santo protetor de Espanha, o que a converteu no principal destino de peregrinação cristã na Europa a seguir a Roma durante a Idade Média, através do chamado Caminho de Santiago, uma rota iniciática na qual se seguia a Via Láctea que se estendia por toda a Península Ibérica e Europa Ocidental. A peregrinação foi um fator determinante para a afirmação política dos reinos cristãos hispânicos medievais e na sua participação nos movimentos culturais da sua época. Atualmente continua a ser um importante destino de peregrinação, para o que contribui a renovada popularidade do Caminho de Santiago a partir dos anos 1990, que levou à catedral mais de peregrinos registados.

A catedral foi declarada Bem de Interesse Cultural em 1896 e a chamada cidade velha de Santiago de Compostela, que se concentra em torno da catedral, foi incluída na lista do Património Mundial da UNESCO em 1985.

História thumb|292px|Urna de prata com os supostos restos mortais de Santiago Maior

Segundo a tradição católica, o apóstolo Santiago Maior difundiu o cristianismo na Península Ibérica nos anos 36–37 ou 40. No ano 44 foi decapitado em Jerusalém por ordem de (neto de Herodes, o Grande) e os seus restos mortais foram depois trasladados para a Galiza numa barca de pedra. Devido às perseguições dos romanos aos cristãos da Hispânia, o seu túmulo foi abandonado no . Ainda segundo a lenda, este túmulo foi descoberto na segunda década do pelo eremita Pelágio (ou Paio) depois de avistar umas luzes estranhas no céu durante a noite. Tendo comunicado a descoberta ao bispo de Iria Flávia, Teodomiro, este reconheceu o feito como um milagre e informou da descoberta o rei das Astúrias e da Galiza. O rei ordenou a construção de uma capela no local da sepultura, dedicada ao culto do apóstolo. Diz a lenda que o rei foi o primeiro peregrino do santuário. A capela foi substituída por uma primeira igreja em 829, a qual deu lugar em 899 a uma outra, em estilo pré-românico. Esta última foi construída a partir de 872 por ordem de e foi consagrada por dezassete bispos. O local tornou-se um destino de peregrinação cuja popularidade e importância foi aumentando gradualmente.

Em 997, Almançor, o poderoso hájibe (governador) e comandante do exército do Califado de Córdova, saqueou a cidade e arrasou a igreja, apenas deixando intacto o túmulo de Santiago. As portas e os sinos da igreja destruída foram levadas aos ombros pelos cativos cristãos para Córdova, onde foram usados numa mesquita.

A construção da catedral atual foi iniciada em 1075, durante o reinado de , com o patrocínio do bispo Diego Páez. Uma inscrição na capela do Salvador comemora o acontecimento: «Aos trinta anos do milésimo septuagésimo quinto depois da Encarnação do Senhor, em cujo tempo se fundou esta igreja de Santiago». Foi construída segundo o mesmo plano que a igreja de tijolo monástica de São Saturnino de Toulouse, provavelmente o maior edifício românico de França. A construção foi interrompida em várias ocasiões, pelo que se consideram três fases construtivas, a primeira das quais foi terminada em 1088, quando o bispo Diego Páez foi preso por traição, o que originou a primeira paragem das obras.

A segunda fase de construção decorreu de 1100 a 1140, tendo sido iniciada quando o Raimundo de Borgonha nomeou Diego Gelmires bispo de Compostela em 1100 e terminado com a morte do último. As obras decorreram sob a direção de Bernardo, o Velho («um mestre maravilhoso»), coadjuvado por Galperinus Robertus. É provável que mais tarde a direção das obras tivesse passado para o (o Mestre de Pratarias). As capelas absidais foram consagradas em 1105 e segundo o Códice Calixtino, a última pedra foi colocada em 1122, tendo a catedral sido consagrada em 1128. No período final desta segunda fase, Bernardo, o Moço terminou o edifício, enquanto Galperinus coordenou a construção. Bernardo construiu também uma fonte monumental diante do portal setentrional (da Acibechería) em 1122.

A terceira e última fase de construção foi iniciada em 1168, quando o capítulo da arquidiocese encarrega das obras o Mestre Mateus. Este respeita o projeto inicial e termina a construção dos últimos quatro tramos na nave maior, a cripta e o Pórtico da Glória. A catedral é definitivamente consagrada em abril de 1211, na manhã de quinta-feira da segunda semana da Páscoa, pelo arcebispo e na presença do rei , do filho deste e de numerosas autoridades eclesiásticas e civis.

A igreja ganha o estatuto de sé episcopal em 1075, substituindo Iria Flávia, em grande medida graças à ação do bispo Gelmires e à sua importância crescente como lugar de peregrinação. O (irmão de Raimundo de Borgonha) consolida-a como sé arcebispal em 1120. Ao longo dos séculos seguintes, a catedral foi objeto de numerosas ampliações e reformas, tanto no exterior como no interior.

Descoberta do sepulcro As origens do culto a Santiago na Galécia perdem-se nos anais dos tempos. Em finais do difunde-se no noroeste da Península Ibérica a lenda de que o apóstolo teria sido enterrado nessas terras, depois de as evangelizar. A evangelização da Hispânia por Santiago é mencionada pelo arcebispo hispânico Isidoro de Sevilha no seu tratado “De Ortu et Obitu Patrum” e pelo bispo inglês Adelmo de Malmesbury . Segundo esta lenda, na primeira década do (é comum referir especificamente o ano 813), oito séculos depois da morte do apóstolo Santiago, um eremita chamado Pelágio (ou Paio), juntamente com outros fiéis, viu umas luzes estranhas perto de um lugar conhecido como Solovio, num bosque chamado Libredón, e comunica a ocorrência a Teodomiro, bispo de Iria Flávia. Depois de três dias de jejum, o bispo e o seu séquito deslocaram-se ao local e descobriram entre o matagal um monumento construído em placas de mármore, constituído por um pequeno edifício abobadado em ruínas. Numa câmara do interior havia um túmulo em mármore e um altar, pelo que não tiveram dúvida alguma de que se tratava do sepulcro do apóstolo e dos seus dois discípulos Atanásio e Teodoro.

O bispo comunicou o achado ao rei das Astúrias e Galiza Afonso II, o Casto, que se deslocou imediatamente com a sua corte ao local. O rei outorgou ao bispo as terras vizinhas do sepulcro, mais as suas respetivas rendas, e mandou construir uma pequena igreja sobre o cemitério (compositum) «supra corpus apostoli» ("por cima do corpo do apóstolo"), junto a um batistério e outra igreja dedicada ao Salvador. Algum tempo depois, num documento datado de 4 de setembro de 834, o rei dizia:

Igreja primitiva thumb|upright|Iluminura do (início do ), com , o Casto, , considerado o primeiro peregrino de Santiago

Dada a importância religiosa e política do achado, como já foi referido, o rei Afonso II mandou construir uma igreja pequena e simples. Para tal foram derrubadas as colunas existentes e construída uma parede rodeando a arca de mármore e formando uma nave de planta retangular, com uma pequena abside. A igreja foi coberta com um teto em madeira. A antiga cela do sepulcro foi mantida na cabeceira. Deste primeiro templo só se conserva o lintel da entrada e as bases das paredes. Aparentemente também existia um batistério a norte da igreja.

No decurso de escavações levadas a cabo em 1879 por baixo da abside da catedral, dirigidas pelo historiador López Ferreiro, quando Miguel Payá y Rico era arcebispo de Compostela, foram descobertas as fundações do sepulcro primitivo, denominado "Arca marmarica", com restos de um altar que constava de uma lage lisa sobre um fuste de pedra de pedra também ele liso. Era de planta quadrada, com cerca de oito metros de lado, e tinha outro corpo central, mais pequeno e retangular, construído com grandes perpianhos; as paredes exteriores eram em alvenaria. Tinha um pórtico com colunas e era pavimentada com lajes de granito. A cobertura do sepulcro tinha uma orla de mosaico romano.

As escavações realizadas debaixo da nave maior da catedral evidenciaram também a presença de uma necrópole cujo uso se prolongou pelo menos desde a construção da igreja até à primeira metade do e que ocupou o espaço de outra necrópole anterior, usada entre os séculos IV e VII. Os enterramentos estendiam-se ao longo da frente ocidental da igreja e em seu redor, com túmulos feitos com pedras e cobertos por lajes, outros escavados na rocha do subsolo e outros constituídos por uma lápide monolítica, por vezes com inscrições; foram também descobertos ainda sarcófagos monolíticos. Foram ainda encontrados dois recintos funerários adjacentes à basílica; num deles foi encontrado o túmulo de Teodomiro.

Igreja pré-românica Durante o reinado de Afonso III, o Grande , devido ao número crescente de peregrinos e às pequenas dimensões da igreja, decidiu-se construir um novo templo, de maiores dimensões e com melhor construção do que o existente. A nova igreja foi construída em estilo estilo pré-românico, com três naves e uma abside quadrangular, que integrou a igreja anterior no presbitério. As sepulturas de Santiago e dos seus discípulos não foram mexidas.

thumb|esquerda|Maquete hipotética da catedral existente em 899

Na cabeceira central foi colocado um altar dedicado a São Salvador e nas absidíolas laterais foram construídos dois altares: um à direita, dedicado a São Pedro, e outro à esquerda, dedicado a São João Evangelista. Na fachada havia um nártex com pórtico e no lado norte foi mantido o edifício do batistério. O teto era de madeira, com duas águas. Ainda existem restos da parte superior de três janelas laterais, em arco de ferradura.

A consagração da nova igreja teve lugar com grande pompa em maio de 899. A ela assistiram «a família real, 17 bispos, 14 nobres e outras personalidades». Num livro em pergaminho da catedral conserva-se a escritura de doação por parte de Afonso III.

Em volta da igreja surgem na mesma época outras edificações, como os mosteiros de São Martinho Pinário e a sua Igreja de Santa Maria da Corticela, situado a norte da basílica, e o de São Paio de Antealtares, situado a leste. O primeiro paço episcopal data também dessa altura; situava-se a sul da igreja, aproximadamente no local onde depois se construiu a porta de Pratarias.

No verão de 997, Santiago de Compostela foi atacada por Almançor, o governante de facto do Califado de Córdova. Prevendo esse ataque, o bispo Pedro de Mezonzo tinha mandado evacuar a cidade. As hostes de Almançor incendiaram a cidade e o templo pré-românico, mas respeitaram o sepulcro do apóstolo, um gesto que é comparado ao de Átila ao poupar Roma. Antes de incendiar a igreja, o comandante muçulmano teria dado de beber ao se cavalo de uma pia de água benta existente perto da porta de Pratarias. A conservação do sepulcro permitiu que o Caminho de Santiado continuasse apesar da destruição do santuário, o qual voltou a ser reconstruído cerca do ano 1000 pelo bispo Pedro de Mezonzo.

Igreja românica thumb|Maquete hipotética da catedral imediatamente após a reforma de 1075

O templo do também se mostrou pequeno para atender às numerosas peregrinações que acorriam a Santiago de Compostela. Sob o impulso do rei Afonso VI, o Bravo e do bispo Diego Páez em 1075 foram iniciadas as obras para construir uma grande catedral românica, as quais ficaram a cargo dos mestres de obras Bernardo, o Velho, que concebeu e desenhou o projeto, e do seu ajudante Galperino Roberto. Segundo Códice Calixtino, trabalharam na construção 50 canteiros. A destituição do bispo Diego Páez em 1088 fez parar as obras por algum tempo.