Abde Almumine ibne Ali ibne Alui ibne Ialá Alcumi Abu Maomé (; n. 1094 - m. ), melhor conhecido apenas como Abde Almumine ou Abd-el-Mumen, foi o segundo imame do movimento almóada em sucessão do mádi Ibne Tumarte, primeiro califa do Califado Almóada e fundador da dinastia mumínida. Nasceu em data incerta na vila de Tagra, no território então sob domínio do Reino Hamádida, integrando uma família de origem humilde pertencente à tribo berbere arabizada dos cúmias, da confederação dos zenetas, estabelecida no norte da atual região de Orã. Em sua juventude, realizou deslocações de estudo religioso (ṭalab al-ʿilm) ao Oriente ou à Ifríquia, chegando até Bugia, onde, no subúrbio de Malala, entrou em contacto com Ibne Tumarte, líder do movimento masmuda. Tornou-se um dos seus principais discípulos, sendo integrado no núcleo dirigente almóada e recebendo papel de destaque no “Conselho dos Dez”. Após a morte de Ibne Tumarte em 1130, Abde Almumine consolidou gradualmente sua posição, apoiado por figuras influentes do movimento, até ser reconhecido como líder e reorganizar a estrutura política almóada, suprimindo conselhos tradicionais e instituindo novos mecanismos de autoridade.

A partir de sua base no Alto Atlas e com apoio de diversas cabilas berberes, Abde Almumine iniciou a conquista sistemática do enfraquecido Império Almorávida, evitando inicialmente as planícies e priorizando o controle das regiões montanhosas e dos eixos comerciais. Após submeter áreas do Atlas, do Suz, do Drá e do Médio Atlas, avançou progressivamente sobre o norte do Marrocos, tomando cidades como Fez, Mequinez e Salé, culminando na captura de Marraquexe em 1147, que se tornou a capital almóada. Em seguida, consolidou o domínio sobre o Magrebe Ocidental, reprimindo revoltas internas e reorganizando a administração do território sob um modelo centralizado de caráter imperial.

Após estabilizar o Magrebe Ocidental, Abde Almumine expandiu-se para o Magrebe Central e a Ifríquia, conquistando Argel, Bugia, Constantina e o território do Reino Hamádida, além de expulsar os normandos de várias cidades costeiras. Paralelamente, interveio no Alandalus, onde diferentes cidades, incluindo Sevilha, Córdova e Silves, passaram para a esfera almóada em meio ao colapso do poder almorávida. No plano interno, consolidou a autoridade dinástica ao designar seus filhos como governadores e reorganizar a elite política, ao mesmo tempo em que enfrentava revoltas de cabilas e dissidências internas, até estabelecer um poder central estável. No final de seu reinado, havia unificado grande parte do Magrebe sob domínio almóada, tendo transformado o movimento religioso original em um império estruturado, com administração própria e forte projeção no Mediterrâneo ocidental. Ao falecer em 1163, foi sucedido por seu filho .

Vida Origens e proclamação

Abde Almumine nasceu em data incerta na vila de Tagra, então pertencente ao Reino Hamádida. Tinha origem humilde e pertencia a tribo berbere arabizada dos cúmias, da confederação dos zenetas, assentados ao norte da atual província de Orã, não muito longe de Nedroma, na Argélia. Quando ainda era jovem, ele e seu tio Ialu deixaram Tagra para visitar o Oriente, ou talvez a Ifríquia, de modo a completar seus estudos lá, mas sua peregrinação, por motivos do ṭalab al-ʿilm, não levou-o até mais longe que Bugia. Foi no subúrbio daquele cidade, chamado Malala, quando se preparava para voltar à região do atual Marrocos, que se encontrou com Ibne Tumarte, mestre dos masmudas. Ibne Tumarte persuadiu-o a unir-se ao pequeno grupo de discípulos que acompanhavam-o, e ensinou-lhe sua doutrina "unitária" durante os poucos meses que ficou em Bugia; E. Levi-Provençal datou esse evento em 1117.

Daí em diante, e até a morte de Ibne Tumarte em 1130, desempenhou papel ativo junto de seu mestre, que o adotou em sua própria tribo, os hargas, e lhe deu lugar em seu "Conselho dos Dez". Abde Almumine teve papel ativo nas expedições e nas deliberações dos assuntos almóadas e viu um protetor na figura do mais ativo membro do movimento, Abu Háfece Omar Hintati. Foi Abu que, após a morte de Ibne Tumarte, impôs aos berberes de Tinmel a aceitação de Abde Almumine como sucessor. Sua proclamação, contudo, só ocorre três anos depois, quando recebeu de seus súditos o baya de aliança, mas teve que enfrentar certa situação política. Parece que como medida imediata, Abde Almumine suprimiu o Conselho dos Dez e o Conselho dos Cinquenta, outro importante conselho de Ibne Tumarte, e criou o conselho de xeques almóadas. A medida causou desentendimento entre os dignitários, que apoiaram revoltas fracassadas de ibne Maluia ainda em 1133 e de dois irmãos de Ibne Tumarte, um deles Abedalazize ibne Carmane Alargui, cujo clã não produziu xeques do novo conselho.

Conquista do Império Almorávida

thumb|upright=1.05|esquerda|Dinar do emir Ali . Ele lutou contra os almóadas desde o início thumb|upright=1.05|esquerda|Império Almorávida em sua maior extensão

O primeiro objetivo de Abde Almumine foi conquistar o já enfraquecido Império Almorávida. Evitando as planícies, onde a cavalaria almorávida tinha vantagem, preparou-se para submeter as montanhas berberes para tomar as riquezas minerais e controlar as vias comerciais. Obtendo apoio de várias cabilas do Atlas, submeteu Suz e o vale do rio Drá, regiões essenciais para o lucrativo comércio que os almorávidas mantinham com a África subsaariana, onde construiu sólida base de ataque e possível recuo. Dali, conquistou a linha de fortalezas que no norte cercavam o Alto Atlas, evitando o acesso às planícies e a capital Marraquexe. Deixando as planícies, Abde Almumine seguiu o caminho das montanhas para nordeste, tomando as cidades fortificadas de Demnate e Dei, numa manobra destinada a isolar o território almorávida central.

Em 1140-1141, assegurou o Médio Atlas e oásis de Tafilete. A partir do maciço montanhoso de Jebala, ao norte do Marrocos, tomou as fortalezas da região de Taza, de onde fez a conquista das cabilas submediterrâneas de , Badis, Necor, Melilha e a região oraniana setentrional, terminando numa entrada triunfal em Tagra. Com tais sucessos, deixou os almorávidas flanqueados e os privou das minas das montanhas, centro nevrálgico da guerra. A partir de então, à frente de forças consideráveis e dispondo de importantes recursos, se preparou para enfrentar os almorávidas nas planícies. Sua investida foi facilitada porque, em 1143, a sucessão do emir Taxufine ibne Ali ibne Iúçufe provocou dissensões entre os chefes lantunas e massufas, e em 1145 a morte do catalão Reverter, chefe das milícias cristãs almorávidas, privou-os de seus generais mais devotos e hábeis. Além disso, o tawhid (unicidade) almóada compeliu os zenetas a tomarem Tremecém, obrigando o emir Taxufine a recuar para Orã, onde morreu em consequência de uma queda de cavalo. Com essas vitórias, Abde Almumine marchou contra Ujda e Guercife, Fez, que foi tomada após cerco de 9 meses em 1146, e finalmente Mequinez e Salé.

Essa série de vitórias foi rapidamente seguida pela captura de Marraquexe. A capital almorávida tentou resistir aos atacantes, mas foi logo forçada a capitular em abril de 1147, apesar dos esforços da guarnição da alcáçova, e houve grande massacre dos almorávidas, inclusive o príncipe Isaque ibne Ali. A dinastia mumínida escolheu-a como sua capital e o palácio almorávida foi escolhido como sede pessoal de Abde Almumine, que ordenou a construção da Mesquita Cutubia ("Mesquita dos Vendedores de Livros"). Com tal vitória, todo o Atlas, inclusive o Rife, a costa mediterrânea e o Magrebe Ocidental estavam dominados. Os sucessos almóadas foram, na maior parte das vezes, episódios sangrentos, e segundo O Saidi, a julgar pela estrutura de poder flexível dos almorávidas, eles não eram entendidos como libertadores, senão daqueles que, descontentes, procuraram fugir, ainda que provisoriamente, de imposições do fisco.

A maior parte das cidades resistiu aos assaltos dos almóadas, que demoraram 15 anos para submeter a totalidade do Marrocos. Abde Almumine organizou o império, usando como base o sistema político da comunidade almóada, que adaptou a seu propósito. Realizou um novo escrutínio de seus apoiadores, milhares dos quais, julgados de lealdade duvidosa ou sem fervor religioso, foram postos à espada. Também, com severidade, suprimiu várias revoltas e conjurações, das quais as mais relevantes foram lideradas por Masbugue Aliadaine ("o homem de mãos tingidas") na região de Guercife e Fez, Abu Iala da cabila dos sanajas, e Saíde dos na região de Taza.

Conquista do Reino Hamádida

thumb|upright=1.05|Alandalus em 1150 thumb|upright=1.05|Ruínas do Alcalá dos Banu Hamade

Após estabelecer solidamente sua posição no Magrebe Ocidental, Abde Almumine iniciou planos para conquistar o resto do Magrebe, expandindo além dos limites do Império Almorávida. Antes de prosseguir com seu projeto foi chamado a intervir no Alandalus, onde a população não suportava mais a autoridade almorávida e o perigo de ataque pelo Reino de Castela crescia. Em 1144, cidades como Xerez aceitaram os almóadas, em 1145, logo após a captura de Tremecém, a expedição naval sob ibne Maimune tomou Cádis, e em 1145-1146, ocorre a primeira menção da dinastia nas orações. Quando o califa cercava Marraquexe, recebeu deputação de andalusinos e em responda enviou corpo expedicionário no qual participaram dois de seus irmãos, Abedalazize e Issa Angar. A isso seguiram outras adesões, dentre as quais Sevilha e Córdova, mas as províncias orientais mantiveram-se avessas aos almóadas. Tal era o motivo pelo qual, quando o califa recebeu delegação andalusina em 1150 que vinha prestar juramento de fidelidade, optou por marchar contra o Magrebe Oriental.

A Ifríquia estava sob ameaça dos normandos do rei , que pretendia criar o vassalo Reino da África e já havia ocupado os principais portos. Juntamente, dinastias sanajas de Cairuão e Bugia estavam minadas na base pela nova organização do espaço na Ifríquia e no Magrebe Central, beneficiando principados sanajas e árabes do interior. A expedição almóada à Ifríquia seria justificada pelo dever da jiade. Em 1151, concentrou forças em Salé antes de se dirigir para Ceuta, em suposto ataque no Alandalus. Porém, Abde Almumine tomou o caminho do leste no verão de 1152 e, forçando a marcha, atingiu o Magrebe Central.

Abde Almumine tomou Argel, ocupando em seguida Bugia, sem grandes dificuldades. Enviou um destacamento sob seu filho Abedalá para capturar o Alcalá dos Banu Hamade, capital do Reino Hamádida, que foi tomada à força, saqueada e a população massacrada. Constantina, cidade onde o emir Iáia ibne Abedalazize refugiou-se, foi entregue por seu vizir aos almóadas, que então usaram-a para lançar uma expedição contra beduínos da região. Durante as operações, certo Abu Cássaba, na companhia dos Banu Zaldauiu, fez ataque contra Bugia que, por suas características, parecia coordenado para matar o califa. Ao serem derrotados, Abde Almumine empreendeu a violenta dispersão dos sanajas, leuatas e cotamas que uniram-se ao rebelde. Grupos árabes – aliados ou clientes dos hamádidas – partiram em socorro de Bugia quando Abde Almumine se preparava para voltar ao Magrebe Ocidental. Em 1153, foram rechaçados e arrastados até a planície de Setife, onde, após 3 dias de forte resistência, foram derrotados e despojados de seus bens, mulheres e crianças. Abde Almumine foi clemente com os árabes, talvez como forma de impressioná-los uma vez que eram preponderantes na região, e deixou governadores e guarnições no Magrebe Central antes de retornar ao Magrebe Ocidental.

Consolidação do poder

thumb|upright=1.05|esquerda|Mesquita de Tinmel