Jessé José Freire de Souza (Natal, 29 de março de 1960) é um sociólogo, advogado, professor universitário, escritor e pesquisador brasileiro, que atua nas áreas de Teoria Social, pensamento social brasileiro e de estudos teórico-empíricos sobre a desigualdade e as classes sociais no Brasil contemporâneo. É autor dos livros A Ralé Brasileira, A Radiografia do Golpe, A Elite do Atraso e A Classe Média no Espelho.

Em 2 de abril de 2015 foi nomeado pela Presidência da República ao cargo de presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O cargo era anteriormente ocupado por Sergei Suarez Dillon Soares.Sergei Soares é nomeado presidente do Ipea Pediu demissão do cargo em maio de 2016, quando Michel Temer assumiu interinamente a Presidência, depois do afastamento da presidente Dilma por ocasião do processo de impeachment.

Biografia

Formação e primeiros anos Jessé Souza nasceu em Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte no ano de 1960. Mudou-se para Brasília, para realizar a graduação no curso de Direito na Universidade de Brasília (UNB) concluída no ano de 1981. Concluiu seu Mestrado na área de Sociologia na mesma instituição no ano de 1986.

Em 1991, doutorou-se em sociologia pela Universidade de Heidelberg localizada na Alemanha, país onde obteve livre docência nesta mesma disciplina pela Universidade de Flensburg no ano de 2006.

Também fez pós-doutorado em filosofia e psicanálise na New School for Social Research, em Nova Iorque (1994/1995).

Carreira Escreveu e organizou 22 livros, em português, inglês e alemão sobre sociologia política, teoria da modernização periférica e desigualdade no Brasil contemporâneo. Foi professor titular da Universidade Federal do ABC (UFABC), onde se aposentou em maio de 2025.

Em 2 de abril de 2015, foi nomeado pela Presidência da República ao cargo de presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cargo anteriormente ocupado por Sergei Suarez Dillon Soares. Permaneceu no cargo até 2016, quando foi exonerado logo após Michel Temer (MDB) assumir provisoriamente a presidência do Brasil durante o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff (PT).

Integra o conselho editorial do Brasil 247.

Trabalho e ideias A desigualdade no Brasil Como presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) no período correspondente as anos de 2015/2016, Souza realizou pesquisas importantes na área de desigualdade econômica, contribuindo para o surgimento de um novo paradigma para os estudos econômicos e social referentes a essa área. Dessa forma, fica evidente, ao menos nos artigos publicados pelo autor na primeira década do século XXI, a centralidade da discussão a respeito da “desigualdade social” e o esforço de Jessé por autonomização do pensamento científico brasileiro para a produção de categorias, eixos de sentidos, significações e explicações que partissem das reais demandas experimentadas no cenário nacional. Mesmo sendo um forte leitor do pensamento weberiano, isso não impede que Jessé produza críticas diretas a outros reprodutores do autor que, de acordo com o posicionamento de Jessé, reduzem a realidade brasileira para comportar os conceitos e categorias pretéritas que, ao serem produzidas, não consideraram a realidade brasileira. Essa mesma crítica é endereçada aos marxistas e a outras linhas de produção científica que não se esforçam na direção de dialogo acurado com o campo brasileiro. Em seus escritos, sempre críticos, Jessé dialoga com diversos pensadores, destaca-se entre ele o sociólogo francês Pierre Bourdieu, do qual Jessé toma de empréstimo a noção de habitus, além de tratar com interesse a discussão em torno das noções de estruturas estruturantes e estruturas estruturadas, centrais para boa parte do pensamento bourdieusiano. Jessé não é um institucionalista, tampouco um culturalista, o que ele procura construir é uma intersecção entre os processos de institucionalização, ideologização e subjetivação, afim de dar conta de uma realidade multifacetada, a brasileira (2003, p.13-15).

Classes sociais no Brasil contemporâneo

A divisão de classes de Jessé, inspirada por Pierre Bourdieu, não tem por base as faixas de renda (classes A, B, C D, e E), nem a concepção marxista-leninista de classe (burguesia, proletariado, etc). Ela se baseia em sociabilidades diferentes. Isto é, cada classe social tem um método próprio de criar os filhos, de socializá-los, e essas diferenças geram as classes sociais e as suas respectivas mentalidades e visões de mundo.

Para Jessé, há quatro classes no Brasil contemporâneo. Duas já existem há muito tempo: a "elite da rapina" e a "ralé de novos escravos". Ambas existem desde os tempos mais remotos da história do país. As outras duas — uma classe média e outra trabalhadora — são mais recentes. Estas tiveram um começo incipiente na Primeira Guerra Mundial, mas só se firmaram na década de 1930 com Getúlio Vargas. A industrialização do Brasil promovida por Vargas foi responsável pelo surgimento dessas duas novas classes e pela configuração da sociedade brasileira da forma como ela é reconhecida hoje.

+ClasseDescriçãoA elite dos proprietáriosCaracterizada pela posse do capital econômico, que é transmitido hereditariamente. Controlam tanto os meios de produção de bens materiais como de bens simbólicos, como parte da mídia.Classe média(1)Sua ênfase está no capital cultural. A classe também possui capital econômico hereditário, mas esse capital não tem a mesma importância que para a classe alta dos proprietários. A classe possui quatro subdivisões, conforme a tabela abaixo.Também chamada de classe trabalhadora semiqualificada. Conforme Souza, "é uma classe extremamente heterogênea, ela vai desde toda a forma de trabalho precarizado até pequenos empreendedores." Compreende 70% da população. É composta, em parte, por aquilo que se habitou chamar de "nova classe média", emergida durante os governos do PT.Ralé de novos escravosComposta pelos descendentes dos escravos, bem como de indivíduos livres, mas em situação de dependência. É uma classe que não tem acesso aos capitais econômico e cultural, e não dispõe nem das condições de adquiri-los, pois, para Jessé, eles são socializados de modo a viver sempre no presente, sem pensamento prospectivo, e sem estímulos dos pais para a leitura, o que faz com que eles não tenham a capacidade de concentração necessária para os estudos e a ascensão para a classe imediatamente superior.

(1) classes de origem mais recente.

A classe média, por sua vez, se divide e diferencia conforme o tipo de capital cultural que ela adquire. Esse capital cultural também é quantitativamente diferente: pode ser maior (nas frações expressivistas e críticas) ou menor (na liberal e na protofascista). As divisões da classe média foram apresentadas pela primeira vez no livro A Elite do Atraso (2017) e desenvolvidas em A Classe Média no Espelho (2018).

+Divisões da classe médiaCapital culturalFração liberalTanto a fração liberal como a protofascista se caracterizam pela posse de um conhecimento técnico adaptativo, que serve para se adaptar às necessidades do capital, e não para criticar a ordem social. Essas frações buscam o conforto das certezas compartilhadas, veiculadas sobretudo pela mídia. Também se caracterizam pelo moralismo. Em comparação com a protofascista, a fração liberal possui maior apego ao ideário democrático.Fração protofascistaConforme Souza, "o ódio às classes populares é aqui aberto e proclamado com orgulho, como expressão de ousadia ou sinceridade. O protofascista se orgulha de não ser falso como os outros e poder dizer o que lhe vem à mente. O mal e o bem estão claramente definidos, e o bem se confunde com a própria personalidade." Distingue-se da liberal também por sua maior sensibilidade a críticas, que são vistas como uma negação da própria personalidade.Também chamada de "classe média de Oslo", assim como a fração crítica, é mais crítica. Porém, sua atenção é mais voltada a causas ambientais, ecológicas, e de direitos dos animais, e não dá suficiente atenção ao principal, que, no Brasil, é a miséria e a desigualdade. A classe média é de "Oslo", portanto, porque dá a impressão de viver em um país em que as desigualdades e misérias foram praticamente resolvidas.Fração críticaO menor segmento da classe média, são os setores mais intelectualizados, e que buscam criticar a sociedade. Esse segmento percebe a realidade social como uma invenção, algo construído.

thumb|center|297px|Composição da classe média brasileira, segundo suas frações, ou nichos.

Crítica ao paradigma vigente nas Ciências Sociais Souza analisa as produções de Sérgio Buarque de Holanda, Raimundo Faoro e Simon Schwartzman que, a partir de bases Weberianas, vão produzir discussões e conceitos que marcarão a produção das ciências sociais, como as ideias de Homem Cordial, Patrimonialismo e modernização, muito caras para produção teórica do século XX. Souza desenvolve e articula as ideias da produção Weberiana com os acertos e equívocos relativos a sua apropriação para explicação da realidade brasileira por acreditar que é importante “rejeitarmos modelos societários exemplares e absolutos. As escolhas culturais, assim como as individuais, implicam perdas e ganhos. Perceber aonde temos a aprender com outros povos e sociedades é uma reflexão que deve ser simultânea àquilo que devemos rejeitar" (1998, p.19).

A instituição de um novo paradigma