Inovação aberta (open innovation) é um termo abrangente criado por Henry Chesbrough, professor e diretor executivo no Centro de Inovação Aberta da Universidade de Berkeley e chairman do Centro de Open Innovation - Brasil. Origens
Ao analisar o comportamento histórico das grandes firmas americanas ao longo do séc. XX, Chesbrough percebeu que o modelo de gestão da inovação utilizado nessas empresas foi bastante fechado no que se refere ao surgimento das ideias e sua aplicação no mercado. Duas premissas fundamentais mantiverem esse modelo: “nós detemos os melhores talentos e portanto nossas ideias são melhores que a dos demais” e “se nós inventamos ninguém melhor do que nós para comercializar”. Entretanto, essas premissas começam a ruir a medida que passamos por alterações sociais profundas na disseminação do conhecimento e portanto na divisão do trabalho para a inovação.
Esse fenômeno ainda ganha reforço pela crescente globalização da pesquisa, da tecnologia e da própria inovação, que agora podem ser aplicadas em qualquer lugar do planeta graças às novas formas de tecnologia da informação e comunicação que abriram os mercados mundiais para as empresas.
Paralelamente, é crescente a adesão de consumidores e organizações ao mundo conectado em rede. Rapidamente, as informações trocadas nesses ambientes vêm sendo transformadas em conhecimento, que por sua vez, tem sido cada vez mais capitalizado pelas empresas.
Destacam-se a crescente mobilidade de mão-de-obra, o surgimento de centros de formação de excelência em todo o mundo, a perda de hegemonia dos EUA, Europa e Japão para outras regiões emergentes e o crescente investimento em capital empreendedor (capital de risco).
A mobilidade do conhecimento torna impossível manter todos os melhores talentos e os mais importantes conhecimentos dentro dos departamentos de Pesquisa e Desenvolvimento- P&D. Além de tudo, esses custam caro. Ao invés disso, as organizações precisam olhar para fora em busca de novos caminhos para geração de inovação ao invés de depender inteiramente de seus departamentos de P&D, afirma Chesbrough (2003)CHESBROUGH, H. (2003). Open Innovation: The New Imperative for Creating and Profiting from Technology, Harvard Business School Press, Boston, MA.. Elas precisam colaborar, comprar ou licenciar processos ou invenções (patentes, propriedade intelectual) de outras companhias, organizações ou instituições. No sentido oposto, invenções internas que não estão sendo usadas em uma organização deveriam ser levadas a público através de licenciamento, joint ventures, spin-offs etc.
Nesse novo paradigma, no qual o ambiente externo pode e deve ser considerado pelas estratégias de inovação, os departamentos de pesquisa pesquisa e desenvolvimento internos deixaram de ser a única fonte de inovação para as organizações, que precisam então inovar com velocidade cada vez maior. Sendo assim, a inovação passa a fazer parte de um fluxo que tanto pode ser do ambiente interno ao externo e vice-versa, num processo colaborativo (CHESBROUGH,2003).
Conceito
Inovação aberta, ou em inglês, open innovation, é um termo criado (2003) para as indústrias e organizações que promovem ideias, pensamentos, processos e pesquisas abertos, a fim de melhorar o desenvolvimento de seus produtos, prover melhores serviços para seus clientes, aumentar a eficiência e reforçar o valor agregado (Wikipedia).Chesbrough (2006)CHESBROUGH, H., Vanhaverbeke, W., West, J. (2006). Open Innovation: Researching a New Paradigm. USA: Oxford University Press. afirma que inovação aberta é um paradigma que assume que as organizações podem e devem usar ideias internas e externas, assim como caminhos internos e externos para o mercado.
Rahman e Ramos(2010)Rahman, H., Ramos, I. Open Innovation in SMEs: From Closed Boundaries to Networked Paradigm. Issues in Informing Science and Information Technology. v. 7, 2010. afirmam que em termos de processo, a inovação aberta abrange o gerenciamento e a acumulação de ideias, conhecimentos, licenças, propriedade intelectual, patentes e invenções. Em termos de inovação, pode-se considerar inovação pelo usuário, inovação de marketing, inovação cumulativa e inovação distribuída. Portanto, a teoria de inovação aberta corresponde a uma série de abordagens de inovação cujo elemento base é a inovação feita além dos departamentos de pesquisa e desenvolvimento das organizações. Em outras palavras, inovação aberta incorpora esforços conjuntos de iniciativas internas à organização e uma possível terceirização ou combinação de várias entradas advindas do ambiente externo, durante o processo de concepção e desenvolvimento dos produtos (RAHMAN E RAMOS, 2010)
No contexto das iniciativas de inovação aberta, o termo “open innovation” tem sido utilizado para designar vários fenômenos, como por exemplo, open source, (West and Gallagher ,2007)West, Joel and Scott Gallagher (2006) “Challenges of open innovation: the paradox of firm investment in open-source software,” R&D Management, 36, 3 (June): 319-331. DOI: 10.1111/j.1467-9310.2006.00436.x , inovação centrada no usuário (von Hippel 2005), inovação distribuída (Sawhney and Prandelli 2000)Sawhney, M. and E. Prandelli. 2000. Communities of creation: Managing distributed innovation in turbulent markets. California Management Review 42 (4) 24-54., co-criação (Franke and Piller 2004)Franke, N., & Piller, F. (2004). Toolkits for user innovation and design: an exploration of user interaction and value creation. Journal of Product Innovation Management, 21 (6), 401-415.. A dificuldade em se extrair a essência do termo levou a um uso disperso do termo e alguns autores afirmam que pouco existe de novo no fenômeno da inovação aberta (e.g. Piller and Walcher, 2006) com base no fato de que muitos dos clássicos exemplos de Chesbrough (2003) datam da década de 1950 em diante (GIANNOPOULOU ET al.,2010).
A partir de pesquisa feita com especialistas da área de inovação dentro do escopo de sua revisão de literatura, Elmquist et al. (2009)Elmquist,M. Fredberg, T., Ollila, S. Exploring the field of open innovation. European Journal of Innovation Management, v. 12. n3. 2009. afirmam que o conceito de inovação aberta precisa ser explorado mais profundamente, especialmente no que diz respeito a sua terminologia:
Desenvolver uma terminologia mais precisa[é importante]. Chesbrough usou o termo ‘inovação aberta’ principalmente para a troca de conhecimento baseada em contratos etc., como sua prática. Entretanto o que nós observamos no campo de software open source é algo completamente diferente, e seria interessante separar os dois fenômenos conceitualmente. Assume-se por “aberto”, algo colaborativo e construído com base em inovação, algo parecido com o software open source. A versão de Chesbrough de “aberto” é relativa a abertura do processo de inovação de uma empresa.
Dessa forma, fica claro que existe ainda a necessidade de unificação do conceito utilizado pela comunidade em volta do modelo pensado por Chesbrough(2003).
Baldwin e Hienerth (2006) estudaram o conceito de inovação centrada no usuário. Em seu trabalho, procuraram traçar um modelo de como a inovação centrada no usuário iria evoluir:
Primeiro, um ou mais usuários de algum produto ou serviço reconhecem um novo conjunto de possibilidades de design e começam a explorá-lo. Esses usuários empregam como recursos para desenvolvimento o próprio tempo, esforço ou dinheiro. Na sequência, eles revelam seus produtos/serviços a uma comunidade formada por usuários de mesmas características. Em um determinado ponto, usuários interessados em comprar os produtos começarão a aparecer, interessados em comprar as inovações ao invés de fazê-las,. Em resposta, alguns usuários tornam-se produtores desses bens, aproveitando os baixos custos de capital de produção para satisfazer as demandas da comunidade recém-formada.
Esse cenário descrito reflete um ambiente de verdadeira pulverização de ideias e de transações e parcerias que podem ser realizadas, a partir de iniciativas de inovação dos usuários de uma comunidade. Tal cenário pode ser explicado pelo conceito de inovação aberta de Gassmann e Enkel (2004)Gassmann, Oliver; Enkel, E. Towards a Theory of Open Innovation: Three Core Process Archetypes. R&D Management Conference (Lisbon, Portugal), 2004. , que afirmam que “fazer inovação aberta significa que uma organização precisa abrir suas sólidas fronteiras para deixar conhecimento de valor fluir com o objetivo de criar oportunidades para cooperação entre parceiros, clientes e/ou fornecedores”.
Um conceito complementar ao conceito de Baldwin e Hienerth (2006) é o crowdsourcing, amplamente utilizado na internet. De acordo com a Wikipédia,” o crowdsourcing é um modelo de produção que utiliza a inteligência e os conhecimentos coletivos e voluntários espalhados pela internet para resolver problemas, criar conteúdo e soluções ou desenvolver novas tecnologias”.
Villarroel e Reis (2010) desenvolveram uma ferramenta de “intra-crowdsourcing” ou crowdsourcing corporativo e a deram o nome de “Stock Market for Innovation” (“bolsa para inovação”, em português) , trabalhando assim num contexto ainda mais específico de inovação aberta.
A ideia foi estender a resolução de problemas para um largo pool de voluntários colaboradores alocados nas diversas unidades de negócio espalhadas em localidades geográficas distintas. Dessa forma, qualquer funcionário da organização, independente de sua localidade, poderia contribuir para a inovação de qualquer unidade de negócio. Os autores relatam diversos benefícios obtidos a partir da ferramenta implantada. Apesar das diferentes nomenclaturas adotadas pelos diversos autores, pode-se observar em comum entre as iniciativas apresentadas o caráter de abertura do processo de inovação para que outras fontes pudessem sem exploradas.
Inovação aberta vs. inovação fechada ou tradicional
A inovação aberta se refere assim a um fluxo aberto, no qual os recursos se movem facilmente na fronteira porosa entre empresa e mercado.
De maneira oposta, closed innovation (ou inovação fechada em português) refere-se ao processo de limitar o conhecimento ao uso interno da empresa e não fazer uso ou somente pouco uso do conhecimento exterior.
Rahman e Ramos(2010) aponta objetivamente as principais características e diferenças dos dois modelos de inovação, que foram sintetizadas na Tabela I, abaixo:
Valores da Inovação tradicional Valores da Inovação aberta Pesquisa e Desenvolvimento: Inovações ancoradas nos departamentos de P&D Conexão e desenvolvimento:
Executivos da Procter & Gamble estudaram as fonts de inovação externas e estimaram que para cada pesquisador interno havia cerca de 200 cientistas ou engenheiros no mundo (total de 1,5 milhão de pessoas) os quais eram tão bons quanto os talentos internos e que tinham conhecimentos potencialmente utilizáveis Rahman e Ramos(2010). Competição Com a globalização, a organização compete com o mundo. Cooperação Parceiros podem ser identificados em qualquer lugar do mundo Periferias fechadas Colaboração em rede Organizações atuando com poucos ou nenhum parceiro. Estabelecimento de parcerias para inserção de novos produtos no mercado, determinação de padrões, joint ventures etc
Processos centrais de inovação aberta
Em busca de um estabelecimento de uma teoria para o campo da inovação aberta, o trabalho de Gassmann e Enkel (2004) apresenta os conceitos que formalizam os processos que compõem o modelo um teórico, são eles: processo outside-in; processo inside-out; processo acoplado.
Processo Outside in
Esse processo é responsável por enriquecer a base de conhecimento da organização através da integração de fornecedores, clientes e conhecimento externo, aumentando assim a capacidade de inovação da organização.
Isto pode ser atingindo abrindo canais de comunicação com clientes e fornecedores, investindo em uma base global de criação de conhecimento, comprando patentes, dentre outros.