Eraserhead (Em Portugal: No Céu Tudo é Perfeito) é um filme estadunidense de 1977, dirigido e escrito por David Lynch. Gravado em preto e branco, o terror surrealista foi o primeiro longa-metragem de Lynch, o qual foi produzido com o apoio da American Film Institute (AFI) no período em que o diretor estudava na instituição. Estrelado por Jack Nance, Charlotte Stewart, Jeanne Bates, Judith Anna Roberts, Laurel Near e Jack Fisk, conta a história de Henry Spencer, o qual é responsável por cuidar de seu filho deformado em meio a uma sequência de sonhos e alucinações.
Eraserhead demorou muito tempo na filmagem devido à dificuldade em financiar o filme, entretanto doações de Jack Fisk e sua esposa Sissy Spacek mantiveram a produção à tona. Ele foi filmado em vários locais de propriedade da AFI na Califórnia, incluindo a Greystone Mansion. Lynch e o designer de som Alan Splet passaram um ano trabalhando no áudio após seu estúdio ser insonorizado. A trilha sonora do filme apresenta uma música de Fats Waller e a canção "In Heaven", escrita por Peter Ivers.
A princípio, não despertou muito interesse no público, porém Eraserhead conquistou popularidade depois de ser exibido em diversas sessões de cinema como filme da meia-noite. Desde seu lançamento, a obra de Lynch recebeu inúmeras críticas positivas. O imaginário surrealista e as correntes sexuais são vistas como elementos temáticos principais, e o projeto sonoro obscuro como o destaque técnico. Em 2004, o filme foi preservado pela National Film Registry na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos como "cultural, histórico ou esteticamente significativo".
Enredo
Henry Spencer é um impressor de férias que vive em um pequeno apartamento na área industrial de uma cidade abandonada. Um dia, Henry vê o Homem no Planeta, que vive no prédio ao lado, operando alavancas. De repente, uma criatura fantasmagórica, semelhante a um flagelo, emerge da boca de Henry e desaparece no Espaço, em meio a imagens de pedras, líquidos e um círculo.
Um dia, ao voltar do supermercado, Henry conhece sua nova vizinha, a Moça Bonita do Apartamento ao Lado, que o avisa que a ex-namorada de Henry, Mary X, o convidou para um jantar com a família. Na casa de Mary, seu pai, Senhor X, fala sem parar sobre encanamentos, e sua mãe escova compulsivamente o cabelo da filha. Henry, durante o jantar é praticamente forçado a cortar um frango minúsculo que se debate e verte uma gosma. Mais tarde, a mãe de Mary tenta beijá-lo antes de revelar que Mary teve o filho de Henry, após quatro semanas de gestação. O bebê é uma criança deformada, sem músculos nem pele, e seus órgãos internos são mantidos por ataduras. O bebê não come, não dorme e choraminga o dia inteiro. 220px|miniaturadaimagem|esquerda|A cena em que Henry Spencer (à esquerda) encontra a Mulher no Radiador (à direita), ao som de "In Heaven", é interpretada de diferentes formas pelos críticos. Os pais de Mary forçam Henry a se casar e acolher ela e o bebê em seu apartamento. O radiador faz um barulho estranho, há vidro quebrado em toda parte, uma árvore morta ao lado da cama de Henry, e fotos de explosões atômicas nas paredes. Mary não suporta os constantes gemidos do bebê e vai embora, o deixando aos cuidados do pai. Logo depois, Henry decide verificar a temperatura da criança apenas para cobri-la de ferimentos. O bebê logo começa a chorar dia e noite, enquanto Henry inicia um relacionamento sexual com a Moça Bonita do Apartamento ao Lado.
Um dia, investigando o barulho no radiador, Henry encontra um palco onde a Mulher no Radiador, uma senhora de tamanho minúsculo com bochechas deformadas, dança enquanto fetos caem do céu e são pisoteados por ela. Pouco depois, a cabeça de Henry cai e a do bebê aparece no lugar. A cabeça de Henry atravessa o chão e cai do céu em um beco, onde é encontrado por um menino que a leva para uma fábrica de lápis, onde o cérebro de Henry é usado para fabricar borrachas escolares.
Henry acorda e decide procurar a Moça Bonita do Apartamento ao Lado e a encontra com outro homem. A cabeça de Henry se transforma na do bebê, que começa a rir de Henry. Enfurecido, Henry corta as ataduras e esfaqueia os órgãos do bebê com uma tesoura. Eles começam a emitir uma substância espumosa que cobre o corpo do bebê. Seu pescoço começa a crescer, similar à do flagelo que apareceu antes. As luzes do apartamento explodem, e a cabeça do bebê se transforma em um planeta, que se racha ao meio. Henry olha dentro do "planeta" e encontra o laboratório do Homem no Planeta, que é incapaz de controlar as alavancas. Elas explodem, queimando seu rosto. A Mulher no Radiador aparece e abraça Henry, enquanto eles ouvem um barulho ensurdecedor e desaparecem após uma forte luz branca.
Elenco Jack Nance como Henry Spencer Charlotte Stewart como Mary X Jeanne Bates como Mãe de Mary X Allen Joseph como Bill X Jean Lange como Avó de Mary X Judith Anna Roberts como Moça Bonita do Apartamento ao Lado Laurel Near como Mulher no Radiador Jack Fisk como Homem no Planeta Darwin Joston como Paul T. Max Graham como Neil Moran, o patrão Hal Landon Jr. como Operador da Máquina de Lápis
Produção Pré-produção
O diretor e escritor, David Lynch, havia estudado previamente pintura, chegando a criar uma série de curta-metragens na década de 1960. Em 1970, porém, ele mudou seu foco para o cinema e com 24 anos, aceitou uma bolsa de estudos para o Centro de Estudos de Filmes Avançados na American Film Institute (AFI). Lynch, no entanto, não gostou do curso e considerou abandoná-lo, mas mudou de ideia após oferecerem a ele a oportunidade de roteirizar uma história original. Foi-lhe dada a permissão para usar o campus da escola como set de filmagem; assim, converteu o espaço em estábulo que acabou se tornando também moradia do diretor. Em complemento, a Greystone Mansion foi disponibilizada pela AFI para ser utilizada em algumas cenas.
Inicialmente, Lynch estava trabalhando em um roteiro intitulado Gardenback, uma história surrealista sobre um adultério, que conta o crescimento de um inseto paralelamente à representação da luxúria de um homem pelo seu vizinho. O roteiro teria resultado em um filme de 45 minutos de duração, o qual a AFI considerava demasiado longo por ser tão metafórico e não-linear. Em seu lugar, foi apresentado Eraserhead, desenvolvido pela premissa de um sonho de um homem levado à fábrica de lápis por um garoto. Mesmo assim, alguns membros da AFI se opunham à produção de um conteúdo tão surrealista, todavia foram persuadidos pelo decano da instituição, Frank Daniel, que ameaçou renunciar caso seu roteiro fosse vetado. Aceito, Eraserhead reflete influências de algumas leituras do então estudante de cinema, a exemplo da novela Die Verwandlung (1915), de Franz Kafka, e do conto Нос (1836), do russo Nikolai Gogol.
A ideia de que Lynch tinha medo da paternidade também serviu como inspiração para a história; sua filha Jennifer Lynch nasceu com o pé torto e precisou de uma complicada cirurgia corretiva quando criança. Jennifer disse que sua condição inesperada e problemas no nascimento foram base para temas de seus filmes. O tom obscuro foi moldado pelo tempo em que Lynch e sua família viveram em um bairro periférico de Filadélfia, descrito pelo diretor como "[uma atmosfera] de violência, ódio e sujeira". O crítico de cinema Greg Olson, em seu livro David Lynch: Beautiful Dark, afirmou que observou um contraste entre a infância do diretor e a satisfação no Noroeste Pacífico, tornando possível que ele vivenciasse o "antagonismo céu-inferno na América", dualismo que se tornaria recorrente em suas obras.
A escolha para o elenco iniciou em 1971 e Jack Nance foi rapidamente selecionado para o papel principal. No entanto, a AFI havia subestimado o projeto e ainda não tinha dado sinal verde para as filmagens. Eraserhead tinha apenas vinte e uma páginas em seu roteiro, assim a indústria cinematográfica assumiu que o filme teria aproximadamente vinte minutos. Esse mal entendido, associado à direção meticulosa, fez com que a produção demorasse anos para concluir. Um exemplo extremo dessa produção trabalhosa é uma cena do filme que se inicia com a personagem de Nance abrindo uma porta e, apenas um ano depois, foi filmado ele entrando na sala. Apesar disso, o ator principal se dedicou inteiramente à gravação e manteve seu penteado durante todos estes anos.
Filmagem
Com doações regulares do amigo de infância do diretor Jack Fisk e sua esposa Sissy Spacek, a filmagem demorou anos para ser concluída. Fundos adicionais foram fornecidos pela esposa de Nance, Catherine E. Coulson, que trabalhava como garçonete e doou sua renda. Durante um período na pausa das gravações, Lynch produziu, em 1974, The Amputee, aproveitando-se do desejo da AFI de testar novas produções. O curta foi protagonizado por E. Coulson, a qual ajudou na parte técnica de Eraserhead. A equipe de produção do filme era muito pequena, composta por Lynch, o designer de som Alan Splet, o diretor de fotografia Herb Cardwell, que morreu durante as filmagens e foi substituído por Frederick Elmes, a gerente Doreen Small e Coulson, que ocupava diversas funções. miniaturadaimagem|esquerda|O filho da protagonista Henry Spencer aparece no filme como uma criança deformada. Os efeitos físicos utilizados para criar a criança deformada foram mantidos em segredo. O projecionista que trabalhava no filme foi proibido por Lynch de revelar o suporte usado para a construção da personagem e ele se recusou a discutir sobre o assunto em entrevistas posteriores. O suporte — apelidado por Nance de "Spike" — era composto por uma série de peças que permitiam a coordenação dos olhos, da boca e do pescoço independentemente. Às vezes, o diretor comentava de forma sarcástica sobre tal confecção, afirmando que "[a criança] nasceu nas proximidades [...] ou talvez tenha sido encontrada". Foi especulado por John Patterson, do The Guardian, que o suporte tenha sido construído a partir de um coelho esfolado ou de um feto de cordeiro. Essa elaboração influenciou outras obras de Lynch, como a representação de Joseph Merrick em The Elephant Man (1980).
Durante a produção, Lynch quis experimentar uma técnica de diálogo que consiste em inverter o áudio resultante para tornar mais obscuras as cenas desejadas. Embora não tenha concluído esse desejo, esta foi utilizada no terceiro episódio de Twin Peaks (1990), "Episode 2". Na vida pessoal, o diretor se interessou pela meditação transcendental, adotou uma dieta vegetariana e parou de consumir álcool durante a produção do filme.
Pós-produção
Lynch trabalhou com Alan Splet para o projeto sonoro do filme. O estúdio foi isolado à prova de som a fim de conseguir a edição e os efeitos almejados. A trilha sonora é densa e inclui até quinze diferentes sons reproduzidos simultaneamente com múltiplas bobinas. Os sons foram desenvolvidos de diferentes maneiras: em uma cena em que uma cama se dissolve em uma piscina, Lynch e Splet inseriram um microfone dentro de uma garrafa de plástico, a colocaram para flutuar numa banheira e gravaram o som do ar soprado através da garrafa. Após gravados, alguns sons ainda sofreram alterações na afinação, reverberação e frequência para torná-los mais audíveis.
Depois de uma má recepção na exibição teste, Lynch acreditou que, em uma parte do filme, a trilha sonora não se adequou à história e decidiu cortar vinte minutos, sobrando oitenta e oito para o resultado final. Dentre as eliminadas, estava a cena do parto da criança, de um homem torturando duas mulheres e outra de Spencer, a protagonista, brincando com um gato morto.
Trilha sonora