Um laboratório de ideias, think tank, gabinete estratégico, centro de pensamento ou centro de reflexão, é uma instituição de pesquisa composta por especialistas que realizam investigações e defesas sobre tópicos reflexiva cuja função é a reflexão intelectual sobre assuntos de política social, estratégia política, economia, assuntos militares, de tecnologia e cultura. A maioria dos think tanks são organizações não-governamentais, mas algumas são agências semi-autônomas possuindo laços com o governo, partido políticos, empresas ou militares.
De acordo com o escritor norte-americano Paul Dickson (1972), think tanks podem ser chamados de fábricas de ideias.DICKSON, Paul. Think Tanks. New York: Ballantine Books, 1972 Também podem ser traduzidos como círculo de reflexão ou laboratório de ideias. Think, na língua inglesa, pode ser traduzido como ‘pensar’; já a palavra tank significa ‘tanque’, ‘reservatório’, por isso o termo think tank pode ser traduzido como ‘grupo de reflexão’, ‘laboratório/fábrica de ideias’, como mencionado anteriormente. O “2017 Global Go To Index Report” considera think tanks como “organizações de análise e compromisso de pesquisa sobre políticas públicas”.
Inicialmente, a tentativa de encontrar um significado satisfatório dessa expressão chegou à conclusão que think tank seria uma associação de indivíduos especializados, formando instituições e/ou organizações, proporcionando pesquisas e discussões sobre assuntos políticos, econômicos, estratégicos, englobando também diversos outros temas, sendo estas pesquisas tanto sobre problemas domésticos quanto internacionais. Os institutos de pesquisa normalmente são organizações sem fins lucrativos, mas também podem ser subsidiados por governos, corporações ou grupos de advocacia. São formados “como instituições permanentes e contínuas, não servindo como comissões ad hoc”. Os think tanks, dessa forma, estruturam-se para produzir conhecimento sobre um tempo indeterminado, não sendo formados para uma situação em especial. Alguns países possuem políticas de incentivo a essas instituições, como é o caso da isenção de impostos no Imposto sobre o Rendimento no Canadá, fornecida aos think tanks desde que sejam apartidários, de acordo com McGann e Weaver (2002).MCGANN, James G.; WEAVER, R. Kent. Think Tanks and Civil Societies: Catalysts for Ideas and Action. New York: Routledge, 2002. Em 2010, existiam cerca de 6.846 think tanks ao redor do globo segundo o “2017 Global Go To Index Report” (2018).
Contexto histórico Segundo o professor da Universidade do Sul da Califórnia Jacob Soll (2017), think tanks podem ser rastreados ao longo dos anos 800 – na época do imperador romano Carlos Magno – na qual monarcas e imperadores começaram a ter embates financeiros com a Igreja Católica, mais especificamente em relação à isenção de taxas. O historiador também afirma que a partir daquela época ao século XVII, foi estabelecida uma tradição de contratação de grupos de advogados com o intuito de fornecer conselhos sobre os elementos financeiros e políticos aos reis – assim, pode ser feito claramente um paralelo entre os institutos de ideias atuais e esses grupos de conselhos especializados.
Entre o início do século XVI e o fim do século XVIII, também foi utilizado o recrutamento de agrupamentos de indivíduos qualificados, no caso de historiadores clericais com o intuito de defender uma comunidade religiosa através da pesquisa e da escrita, de acordo com Soll (2017). Foram incorporados, principalmente, no contexto da Reforma Protestante e da Contrarreforma. Um exemplo dessas associações, exposto por Soll (2017), foi a dos Centuriators de Magdeburgo, acadêmicos protestantes reunidos em Magdeburgo, na Alemanha, que produziam textos acerca de suas considerações religiosas. A Igreja Católica, por sua vez, teve como representante Cesare Baronio, que, com seu grupo, Congregação de Oratório, escreveu a Annales Ecclesiastici (1588 - 1607), acerca de suas pesquisas e considerações sobre a Igreja Católica.
Na França, a Coroa costumava convocar grupos de estudiosos provenientes da República das Letras, associação internacional de acadêmicos que produziam, encontravam e providenciavam pesquisas – dessa forma, um próprio think tank em si. Portanto, Soll (2017) afirma que estes grupos mencionados, tanto de caráter religioso-acadêmico quanto somente acadêmico, sem ligações propriamente ditas, podem ser considerados os antepassados dos atuais think tanks. esquerda|miniaturadaimagem|289x289px|A partir da esquerda, Michael O'Hanlon, o Secretário da Marinha - Ray Mabus - e o Chefe de Operações Navais - Almirante John M. Richardson - ouviram o Comandante do Corpo de Fuzileiros Navais, o general Robert B. Neller, durante um evento com o Centro para Segurança e Inteligência do século XXI na Brookings Institution, Washington, DC, 26 de fevereiro de 2016. Mabus, Richardson e Neller discutiram os conceitos, estratégias e tecnologias marítimas futuras, com O'Hanlon como moderador. (Foto do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA pela Sargento Gabriela Garcia / Liberada).
Alguns dos think tanks mais relevantes datam do século XIX, como por exemplo o Royal United Services Institute (RUSI), criado em 1831 na Inglaterra com o intuito de viabilizar “pesquisas de ponta em defesa e segurança” e a Sociedade Fabiana, fundada também na Inglaterra em 1884, estabelecendo conhecimentos e impulsionando o movimento socialista. O mais importante think tank atualmente, de acordo com o ranking produzido pelo Relatório Anual de Think Tanks Globais de 2017 (2018), foi a Brookings Institution, fundada no século XX, em 1916, nos Estados Unidos, para “conduzir pesquisa aprofundada que leva a novas ideias para resolver problemas enfrentados pela sociedade nos níveis local, nacional e global”. O segundo think tank mais influente no mundo é, conforme o mesmo instrumento de pesquisa, é o Instituto Francês de Relacões Internacionais (IFRI), criado em 1979, com o intento de promover pesquisas acerca de assuntos políticos visando as relações internacionais. Outro instituto extremamente relevante, o terceiro no ranking de McGann (2018), é o Carnegie Endowment for International Peace, fundado em 1910 por Andrew Carnegie com o objetivo de analisar e promover o processo de cooperação entre as nações, além de esclarecer temas de preocupação internacional – como é o caso dos projetos especiais da organização sobre as relações entre Estados Unidos e Rússia, segurança na Europa e a Iniciativa Carnegie para o Petróleo. Atualmente, essa instituição possui o diferencial de dispor de escritórios em seis países (Estados Unidos – onde foi criado –, Rússia, Líbano, Bélgica, China e Índia), se tornando, então, um think tank transnacional e multicultural.
Após 1945, foram criados institutos de pesquisa para produzir e analisar conhecimentos acerca dos elementos estratégico-militares, pretendendo expressar os vários problemas da sociedade e das agendas políticas durante a Guerra Fria e, em consequência disso, o número dessas instituições aumentou. Durante a Segunda Guerra Mundial, os think tanks eram referenciados como caixas-cérebro (brain boxes) seguindo a gíria para crânio (skull). A expressão think tank, na gíria americana do período de guerra se referia às salas onde estrategistas discutiam os planos de guerra. Em 1948, foi formada a Corporação RAND para tais fins – anteriormente era uma ramificação da Douglas Aircraft (fábrica de aviões), tornando-se posteriormente em uma corporação independente – aconselhando as Forças Armadas estadunidenses. Apesar de ser uma organização sem fins lucrativos, é financiada pelo governo dos Estados Unidos, corporações, universidades, contribuições filantrópicas, e outros, segundo os dados provenientes do próprio site da instituição.
Somente a partir da década de 1980, devido à globalização, é que os think tanks se tornaram populares ao redor do mundo. Na primeira metade do século XX, a maioria deles era proveniente dos Estados Unidos e do Reino Unido, existindo apenas alguns no Canadá e no restante da Europa Ocidental, segundo McGann (2003).MCGANN, James. Think Tanks and the Transnationalization of Foreign Policy. Connections, 2003. Após 1991, com o fim da Guerra Fria, juntamente com a intensificação do processo de globalização, ocorreu um crescimento enorme do número de think tanks ao redor do globo, sendo que metade dos existentes atualmente foram fundados após a década de 1980.
O impacto da globalização na história do movimento dos think tanks é mais evidente em regiões tais como a África, Europa Oriental, Ásia Central e partes do Sudoeste Asiático, onde houve um esforço em conjunto da comunidade internacional no suporte à criação de organizações independentes de pesquisa em políticas públicas. Atualmente existem mais de 6.500 destas instituições ao redor do mundo. Muitos dos think tanks mais bem estabelecidos criados durante a Guerra Fria focam em assuntos internacionais, estudos na área de segurança e política externa.
Tipos e Características Os think tanks possuem caracterizações que as separam em grupos relacionados ao seu caráter de afiliação. Vários autores delinearam diferentes maneiras de como descrever think tanks de modo que leve em consideração as variações regionais e nacionais. Assim, de acordo com o “2017 Global Go To Index Report”(2018), os think tanks podem, então, ser:
autônomos e independentes, possuindo “independência de qualquer grupo de interesse e doador e autonomia em sua operação e fundação pelo governo”; quase independentes, sendo “autônomos do governo mas controlados por um grupo de interesse, doador ou agência contratante”; afiliados ao governo, sendo partes de uma estrutura governamental; quase governamentais, fundados por “concessões e contratos do governo, mas não são partes da estrutura formal"; afiliados a universidades; afiliados a um partido político; corporativos, sendo uma “organização de pesquisa para fins lucrativos de políticas públicas”.
Dessa maneira, fontes de financiamento definem as áreas de atuação dos think tanks. Alguns recebem suporte direto de governos, enquanto outros dependem de doações de indivíduos ou corporações, influenciando nos níveis de liberdade acadêmica e objetivos dos think tanks – e para quem ou o quê a instituição se sente em dívida.
Essas instituições também podem variar entre si por perspectivas ideológicas, fontes dos seus fundos, tipo de problema foco e potencial público. Alguns think tanks, como o Heritage Foundation, que promove o liberalismo econômico, e o Center for American Progress no lado progressista, são menos imparciais em seus propósitos. Outros, incluindo o Tellus Institute, que tem foco em tópicos sociais e ambientais, são grupos mais orientados em temas específicos. Ainda existem outros, como o Cato Institute, que promovem teorias sociais e econômicas libertarianistas baseadas nos ideais de Friedrich von Hayek de liberdades individuais e de mercado.
Uma nova tendência resultante da globalização é a colaboração entre think tanks de diferentes continentes. Por exemplo, o Carnegie Endowment for International Peace tem escritórios em Washington, D.C., Pequim, Beirute, Bruxelas e Moscou.