Fintar o Destino é um filme de longa-metragem dramático luso-cabo-verdiano de 1998, realizado por Fernando Vendrell a partir de um argumento seu escrito em colaboração com a jornalista Carla Baptista. Rodado sobretudo na cidade do Mindelo, na ilha de São Vicente, conta a história de um antigo guarda-redes que tenta recuperar, através de um jovem jogador que treina, o sonho de juventude que não chegou a concretizar: jogar no Benfica, em Lisboa.
Primeira longa-metragem de ficção de Vendrell, o filme foi apresentado no Fantasporto em Fevereiro de 1998 e integrou a secção Panorama do Festival Internacional de Cinema de Berlim do mesmo ano, onde recebeu uma menção especial do júri da CICAE. Estreou comercialmente em Portugal a 8 de Janeiro de 1999.
Enredo Mané é dono de uma pequena tasca no Mindelo. Na juventude foi guarda-redes do Mindelense e chegou a ser convidado pelo Benfica para jogar em Lisboa, convite que acabou por não aceitar, entre outras razões por a namorada, Lucy, estar grávida. O amigo Américo, convidado na mesma altura, partiu para a antiga metrópole e nunca mais deu notícias, subsistindo entre os conhecidos a convicção de que terá feito vida.
Passados os cinquenta anos, Mané vive da memória desse passado e da paixão pelo futebol português, que acompanha pela rádio e pelos jornais. Deposita as suas expectativas em Kalu, jovem talentoso da equipa de juvenis que treina, e viaja para Lisboa com o pretexto de assistir à final do campeonato e de conseguir uma oportunidade para o rapaz no Benfica. Na capital fica em casa do filho Alberto, com quem tem uma relação difícil, reencontra Américo a viver na pobreza e acaba enganado por um revendedor de bilhetes, vendo o jogo na rua, através de uma montra. Regressa a Cabo Verde recebido como herói pelos amigos, sem desmentir a versão que lhe atribuem.
Elenco Carlos Germano — Mané Betina Lopes — Lucy Paulo Miranda — Kalu Manuel Estevão — Djack Figueiredo Cid — Joaquim Daniel Martinho — Alberto Horácio Santos — Américo Rita Loureiro — Júlia José Spencer — Nhô Luís Elíseo Leite — Toy Diogo Dória — segurança do Benfica Ana Firmino — Manuela
Os futebolistas Rui Águas, António Veloso e Fernando Correia participam no filme no papel de si próprios.
Produção A ideia do filme terá surgido durante uma estadia de Vendrell em Cabo Verde, quando o realizador assistiu à final do campeonato português e se surpreendeu com a mobilização que o acontecimento gerava no arquipélago; documentou-se depois sobre o peso do futebol português na vida local — o diário desportivo A Bola era então o jornal mais vendido nas ilhas — e sobre os percursos de jogadores cabo-verdianos que emigraram. Segundo a crítica do Público, a preparação demorou vários anos, ao longo dos quais Vendrell se deslocou repetidamente a Cabo Verde.
As filmagens decorreram entre Janeiro e Março de 1997, em exteriores em Cabo Verde e em Lisboa. A produção esteve a cargo da David & Golias, com Luís Alvarães como produtor executivo, em co-produção com a RTP, o Instituto Caboverdiano de Cinema e António da Cunha Telles, e com apoios do European Script Fund, do Instituto Camões, da Fundação Calouste Gulbenkian e do Centro Nacional de Cultura. A direcção de fotografia coube a Luís Correia, a montagem a Pedro Ribeiro e Sandro Aguilar, o som a Vasco Pimentel e a música a Nuno Canavarro. O filme foi rodado a cores em 35 mm, no formato 1.66:1 e com som Dolby SR.
As fontes divergem quanto à duração da obra, indicando entre 82 e 90 minutos consoante a cópia considerada.
Lançamento e receção O filme foi apresentado no Fantasporto a 28 de Fevereiro de 1998, teve ante-estreia no Fórum Lisboa a 4 de Janeiro de 1999 e estreou comercialmente em Portugal a 8 de Janeiro seguinte, distribuído pela UniPortugal. Foi posteriormente editado em videocassete pela Costa do Castelo Filmes e em DVD pela Tobis Portuguesa, em 2007.
Na crítica que assinou no Público, Luís Miguel Oliveira assinalou tratar-se da primeira estreia portuguesa de 1999 e da primeira longa-metragem de ficção de Vendrell, destacou as imagens de abertura e considerou o filme um sinal da crescente aproximação do cinema português aos PALOP e ao passado africano de Portugal; para o crítico, o ponto de vista adoptado resulta do longo trabalho de preparação e da sintonia do realizador com os lugares e as populações filmadas. O mesmo jornal publicou uma segunda apreciação, assinada por Mário Jorge Torres.
A obra tem sido objecto de atenção académica no âmbito dos estudos pós-coloniais e da história do desporto. Victor Andrade de Melo e Coriolano Pereira da Rocha Junior tomaram-na como ponto de partida para discutir a relação das antigas colónias com os antigos colonizadores e a migração de atletas de países economicamente menos desenvolvidos para o mercado europeu, argumentando que essas ligações não se deixam ler de forma linear como manifestações de neocolonialismo. Mário Vaz Almeida analisou o filme como afirmação de uma identidade pós-colonial do homem cabo-verdiano.
Prémios e festivais Além da menção da CICAE em Berlim, o filme foi distinguido em vários festivais internacionais.
Ano Festival Categoria Resultado 1998 Fantasporto (Semana dos Novos Realizadores) Prémio Especial do Júri 1998 Festival Internacional de Cinema de Berlim (Panorama) Menção especial do júri CICAE 1998 Napoli Film Festival Prémio Vesúvio s.d. Festival de Cine Deportivo Ciudad de Santander Prémio ALMA de melhor argumento original s.d. Mittelmeer Filmfestival (Colónia) 2.º prémio da competição
Ver também Cinema de Portugal
Ligações externas
Ficha do filme na base de dados CinePT da Universidade da Beira Interior Ficha do filme na RTP
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