Castor Gonçalves de Andrade e Silva (Rio de Janeiro, 12 de fevereiro de 1926 – Rio de Janeiro, 11 de abril de 1997) foi um bicheiro, criminoso e cartola brasileiro.
Ainda em vida Castor de Andrade foi conhecido como o maior bicheiro brasileiro.noticias.r7.com/ Saiba quem foi Castor de Andrade, o mais poderoso dos contraventores Autoproclamava-se um "bicheiro romântico", já que não permitiria que outros negócios ilícitos, como o tráfico de drogas, fossem explorados junto com o jogo do bicho. No entanto em 1994 descobriu-se 17 livros-caixa de Castor de Andrade mostrando sua ligação com o tráfico de drogas, assassinatos, contrabando de armas e lavagem de dinheiro. O bicho era só fachada para negócios ilícitos desses grupos criminosos. “O bicho não tem a menor importância. Por trás da inocente aparência da contravenção passa uma montanha de dinheiro. O bicho é a forma verde-e-amarela de se lavar dinheiro sujo", descreveu Denise Frossard em 2003.
No auge de seus negócios Castor de Andrade contou com mais de 100 policiais e vários servidores públicos, políticos proeminentes e juízes trabalhando para ele. Em meados dos anos de 1980 foi listado como segundo homem mais rico do Brasil.diariodorio.com/ Polêmica: escola de samba Unidos de Bangu vai homenagear o contraventor Castor de Andrade Castor tinha o costume de andar escoltado até por 23 seguranças. Formalmente 53 mortes foram atribuídas ao grupo de Castor em 1994. . O Globo. April 13, 2007.
Como cartola Castor esteve muito envolvido no Carnaval brasileiro e com o futebol. Foi o maior patrocinador do Bangu Atlético Clube. Na época o time do Bangu ficou conhecido como “o esquadrão da malandragem”. Em 1986 financiou a vitória de Octávio Pinto Guimarães à presidência da CBF.
Foi patrono da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel. Também ajudou a fundar em 1984 a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, que comanda o Carnaval do Rio de Janeiro desde então.
Em 1993 Castor de Andrade e outros 13 grandes bicheiros cariocas foram presos. Cada um deles foi condenado a seis anos de prisão, mas Castor obteve um habeas corpus e foi solto no mesmo ano. Em março de 1994 uma operação subsequente conseguiu quebrar o reduto de Castor. Documentos revelaram os nomes de muitos policiais, políticos, juízes, servidores públicos e outras pessoas proeminentes que estavam lucrando com suas atividades ilegais. Após sua morte, em abril de 1997, os herdeiros de sua fortuna começaram a brigar entre si pela herança, o que levou ao assassinato de seu filho, Paulo de Andrade, em outubro de 1998.g1.globo.com/ #66 Isso é Fantástico - A guerra pelo espólio do jogo do bicho
Biografia Castor era filho de Eusébio de Andrade, que foi presidente do Bangu Atlético Clube entre os anos de 1963 a 1969, e Dona Carmem. Seu pai já fizera fortuna explorando o jogo do bicho e Castor teve uma infância despreocupada. Após abandonar o tradicional Colégio de São Bento, concluiu seus ensinos no também tradicional Colégio Pedro II, do Governo Federal. Foi um aluno relapso, que matava aulas para nadar na praia do Flamengo, no entanto, isso não o impediu de ingressar e se formar em Direito pela Faculdade Nacional de Direito da UFRJ.
Castor herdou a banca de bicho de seu pai e a transformou num império. A Folha de S.Paulo descreveu a apreensão de um livro de registro em 1994:
Castor transitou com prestígio e desembaraço pelo poder. No governo militar diversos generais lhe dedicaram atenção especial, a ponto de um secretário de Segurança do Rio de Janeiro, o general Waldir Alves Muniz, ter recebido instrução para "evitar problemas com Castor de Andrade". E o ex-presidente João Figueiredo quebrou o cerimonial certa vez, afastando-se do grupo de autoridades que o cercava e indo pessoalmente cumprimentar o bicheiro.
Em 1994 foi aprendido um livro de registro indicando que a quadrilha financiou a campanha de diversos políticos como Fernando Collor de Mello, Paulo Maluf, Nilo Batista, Marcello Alencar, Alberto Brizola e José Vicente Brizola. A quadrilha também financiou juízes, policiais, dirigentes esportivos como João Havelange e Eurico Miranda.
Futebol e carnaval Castor foi presidente de honra e grande financiador do Bangu Atlético Clube.
Desde a década de 1970 a maioria das grandes escolas de samba tinha um "patrono" relacionado ao jogo do bicho. Por conta disso foi também patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel, escola de samba à qual ajudou a conquistar os títulos dos carnavais de 1979, 1985, 1990, 1991 e 1996. Mas sua participação no Carnaval não se limitava a esta escola de samba. Durante décadas colocou dinheiro na organização dos desfiles, numa época em que os demais contraventores não ousavam aparecer.
Deve-se ainda a Castor a fundação da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, que surgiu de uma dissidência da Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro. Sob a liderança de Castor e de Capitão Guimarães, dez escolas de samba, financiadas por bicheiros, que eram minoria e sempre derrotadas nas deliberações da Associação, criaram a LIESA, que passou a dominar o Carnaval carioca.
Conquistas como cartola do Bangu Atlético Clube
Castor herdou a paixão pelo Bangu Atlético Clube de seu pai, Euzébio de Andrade (mais conhecido como Seu Zizinho), que foi presidente do clube entre 1963 e 1969, período em que Castor comandou o Departamento de Futebol Profissional do clube.
Neste período, o Bangu sagrou-se vice-campeão carioca nas edições de 1964, 1965 e 1967, além de campeão de 1966, o ponto alto da administração dos “Andrade e Silva”.
Nos anos 80, com Castor como “padrinho”, os grandes investimentos voltaram ao Bangu. Quando colocava na cabeça que queria um jogador não media esforços para fechar o negócio: “Craques são como cavalos de exposição; cada um tem o seu preço”.
Neste período, o clube alcançou a terceira colocação no campeonato carioca de 1983, e viveu seu melhor ano em 1985, com o segundo lugar no campeonato carioca e no Campeonato Brasileiro.
Seu último grande feito como dirigente foi a conquista da Taça Rio em 1987. No ano seguinte, Castor deixou o futebol com os dedos da Justiça em seu encalço.
Em 1981, ao lado do brasão desenhado por José Vilas Boas em 1904, a camisa da equipe banguense passaria a ostentar o novo mascote do time: um castor, que simbolizava, de maneira bastante óbvia, uma homenagem ao seu grande benemérito.
Invasão de campo Em 26 de novembro de 1966, Bangu e América jogavam no Maracanã. Aos 27′ do segundo tempo, o árbitro Idovan Silva marcou um pênalti duvidoso em favor do América. Na cobrança, o ponteiro esquerdo Eduardo do América estabeleceu 2×2.
Revoltado, Castor invadiu o campo e com um revólver nas mãos partiu em direção ao homem do apito. A confusão foi contida pelo Major Hélio Vieira, chefe da segurança do Maracanã, que retirou Castor da roda formada por um montão de gente.
Porém, Castor permaneceu firme na beira do gramado, armado, assistindo o jogo ao lado do técnico Alfredo Gonzalez.
Invasão a um estúdio de TV
Em dezembro de 1967, Castor entrou armado em um estúdio de TV. Tudo começou depois das declarações de João Saldanha sobre um possível suborno junto ao goleiro Manga do Botafogo.globoesporte.globo.com/ Histórias Incríveis: os tiros de João Saldanha que Manga não esquece
Uma reportagem publicada na revista Placar pelo repórter Marcelo Rezende dá para se ter uma noção do que aconteceu:
Coação do juiz da partida Certa vez, Castor fez a seguinte declararação a Revista Placar: “Eu não compro juiz. Ligo pra ele e digo: você não pode errar. Nada de coação. Só um jeitinho especial”.
Prisão na Ditadura Militar Castor de Andrade foi preso no Instituto Penal Cândido Mendes, aos 42 anos, em Ilha Grande, no dia 16 de dezembro de 1968.
O então secretário de Segurança Pública da Guanabara, general Luís de França Oliveira, iniciou uma das maiores investidas contra bicheiros cariocas. Porém esta investida, que fora prometida como implacável, não passaria de encenação de combate de combate ao crime.
Castor de Andrade fora preso junto a outros bicheiros, acusados de enriquecimento ilícito através de jogos ilegais, sendo transferido para Ilha Grande, chegando à Penitenciária Cândido Mendes no dia 27 de dezembro de 1968, onde ficou preso por quatro meses. Na época o secretário de Segurança Pública da Guanabara, general Luís de França Oliveira afirmara que Castor “praticou a corrupção e a deturpação dos costumes — corrupção esta que alcançou vários campos da administração pública, inclusive a própria polícia, formando um cinto de impunidade em torno dos distribuidores da propina”.Jornal do Brasil, 8/4/1969, p. 18, e O Globo, 8/4/1969, p. 19.
Apesar da investida, Castor não teria ficado preocupado, pois por causa da obtenção do diploma de advogado tinha direito a ter uma prisão especial. O caso é que não ficara em cela, fora abrigado em uma casa distante dos muros da penitenciária, enquanto outros detentos ficaram em cela. A “cela” de Castor na Ilha Grande era mobiliada, tinha oito quartos, empregados e quintal, o mesmo relata:
Na Ilha recebia tratamento diferenciado: a comida era diferente dos demais presos, recebia inúmeras visitas a qualquer hora que vinham de lancha, passeava com os inspetores da penitenciária, não era obrigado a usar uniforme e não tinha contato com outros presos. Castor tinha a certeza da impunidade, e fez de sua passagem em Ilha Grande de férias, se ocupando em jogos e outras atividades, recebendo ocasionalmente a visita da esposa, Vilma, e dos dois filhos, Paulo e Carmén Lúcia. Chegaria até a compor a música “A Ilha” junto a Carlos Imperial, preso pela acusação de atentado ao pudor e desrespeito às autoridades. Enquanto Castor aproveitava sua estadia em Ilha Grande, seu advogado, Wilson Lopes dos Santos, corria atrás do processo de pedido de habeas corpus na Justiça, que alcançara no dia 10 de abril de 1969 pela 2ª Câmara Criminal.
Castor deixou a Ilha Grande em 16 de abril de 1969, levado de helicóptero ao aeroporto de Manguinhos, onde foi preso novamente por agentes do Cenimar que investigavam Castor e seus investimentos em Porto Seguro em meados de 1968. Castor relata:
A nova prisão era totalmente fora dos padrões da anterior, conheceu o isolamento total na Ilha das Flores, na Baía de Guanabara, até novo pedido de habeas corpus pelos seus advogados, no Superior Tribunal Militar. Castor de Andrade foi solto no início do mês de Maio de 1969, ficando detido por menos de um mês em Ilha das Flores, desta forma marcando a última vez que fora detido pelo regime militar e a evidente falta de esforços para o combate ao crime e ao poder paralelo que se tinha instalado no país
Prisão na Nova República
Aproveitando a atenção da mídia e da opinião pública durante o Carnaval de 1993, Castor fez um discurso de 5 minutos condenando com raiva a perseguição aos bicheiros em pleno Sambódromo.Miranda, Ricardo. . Istoé. March 5, 2003. Três meses depois, a juíza Denise Frossard condenou Castor e outros 13 grandes bicheiros (entre eles Capitão Guimarães, Luizinho Drummond, Antonio Petrus Kalil, vulgo Turcão, e Anísio Abraão David) a seis anos de prisão por associação criminosa. Formalmente, 53 mortes foram atribuídas ao grupo. No entanto, no mesmo ano, Castor obteve um habeas corpus e foi solto, e em dezembro de 1996 o resto dos bicheiros estavam todos de volta às ruas, após concessão de liberdade condicional ou clemência.Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti. "Conhecer Desconhecendo: a Etnografia do Espiritismo e do Carnaval Carioca." Pesquisas urbanas: desafios do trabalho antropológico. By Gilberto Velho and Karina Kuschinir. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 130.