Antonio Sastre (Lomas de Zamora, 27 de abril de 1911 — Buenos Aires, 23 de novembro de 1987) foi um futebolista argentino.

Sastre se destacou como um dos jogadores mais virtuosos da história, atuando em diversos setores do campo, inclusive como goleiro improvisado, e descrito como sempre tendo grande desempenho, seja em que posição jogasse. Era eficaz nas alas, preciso como atacante, seguro como defensor e sempre solidário com os colegas, sendo considerado um jogador moderno da década de 1930.MACÍAS, Julio. SASTRE, Antonio. Quién es quién en la Selección Argentina, 1 ed. Buenos Aires: Corregidor, 2011, pp. 650-651

No Independiente, no São Paulo, no Gimnasia y Esgrima La Plata, os clubes que defendeu, foi considerado um grande ídolo e vitorioso,POMATO, Alberto (abril de 2011). Antonio Sastre. El Gráfico Especial n. 29 - "100 Ídolos de Independiente". Revistas Deportivas, pp. 46-47 bem como também na seleção argentina.PERUGINO, Elías (junho de 2011). Antonio Sastre. El Gráfico Especial n. 30 - "100 Ídolos de la Selección". Revistas Deportivas, p. 55

Vida pessoal Seus pais chamavam-se Eugenio e María, e tiveram outros cinco filhos — um deles, Oscar, também se tornaria jogador de futebol. O pai morreu cedo, fazendo com que Antonio, o filho mais velho, tivesse de agir como o homem da casa desde então. Nas folgas dos trabalhos que arranjava para ajudar no sustento da casa, praticava futebol, jogando regularmente em uma equipe de Avellaneda chamada Progresista. Foi ali que foi descoberto por um ex-jogador do Independiente e da seleção, Manuel Seoane, que o trouxe para um dos grandes clubes de Avellaneda e do país.

Carreira Independiente thumb|200px|right|Sastre em capa de El Gráfico de 1942, seu último ano no Independiente, com jogador do arquirrival Racing. El Cuila marcou seis vezes nos clássicos de Avellaneda. Sastre chegou ao Independiente aos 19 anos, em 1930. Debutou na equipe principal do Rojo um ano depois, para substituir Alberto Lalín, ídolo do clube nos anos 1920 e que tivera de parar de jogar em função da ruptura do menisco do joelho direito.POMATO, Alberto (abril de 2011). Alberto Lalín. El Gráfico Especial n. 29 - "100 Ídolos de Independiente". Revistas Deportivas, p. 71 Originalmente, Sastre jogava na meia-esquerda, mas sua versatilidade logo chamou a atenção. Em 1933, já fazia seu primeiro jogo pela seleção argentina.

Já vitorioso na própria seleção, veio enfim a ganhar um título com o Independiente em 1938. O time não conquistava o campeonato argentino desde 1926, ainda na fase amadora do futebol local e, já com Sastre em campo, havia sido vice-campeão em 1932, 1934, 1935 e 1937. O jejum terminou por conta da demolidora linha ofensiva formada por Sastre com Vicente de la Mata e Arsenio Erico, um trio que quebrou recordes de gols e foi o mais goleador do torneio naquele ano e no seguinte, em que os diablos conseguiram o bicampeonato seguido. Foram os primeiros títulos do Independiente na era profissional. De la Mata, por sinal, era um recém-chegado que lhe havia tomado a posição de insider direito. Sastre manteve a categoria jogando no lado esquerdo do posto.

Sobre sua polivalência em campo, descreveu: "Gosto de jogar como centromédio, como volante e até como marcador de ponta-direita. De camisa 4, só há uma receita: antecipar-se." Seu apelido de Cuila surgiu em razão dessa habilidade: no Peru, maravilhou torcedores locais, que passaram a tratá-lo dessa forma, em referência a um animal local famoso pela grande facilidade que tem para escapar de caçadores. Mesmo como goleiro Sastre foi utilizado, improvisado na função em jogos contra Peñarol e San Lorenzo, e não sofreu gols. Jogou ainda, e bem, como centroavante, ponta-direita, meia-direita e nas duas alas.

Após o bicampeonato, o time chegou perto de um tri consecutivo, algo até então inédito no profissionalismo, mas ficou no vice. Sastre continuou mais dois anos no Independiente, convivendo no plantel com o irmão Oscar em 1942, ano em que este debutou POMATO, Alberto (abril de 2011). Oscar Sastre. El Gráfico Especial n. 29 - "100 Ídolos de Independiente". Revistas Deportivas, p. 80 e em que El Cuila se retirou. No total, marcou 112 vezes em 341 partidas em onze anos. Saiu como o quinto maior artilheiro e o jogador que mais atuou pelo time. Atualmente, é o sexto e o oitavo, respectivamente.POMATO, Alberto (abril de 2011). Los que más jugaron. El Gráfico Especial n. 29 - "100 Ídolos de Independiente". Revistas Deportivas, pp. 121-122 Ele também nomeia um dos setores do estádio da instituição, o Libertadores de América.

São Paulo

Em 1943 o São Paulo ainda não tinha conquistado nenhum título após sua refundação, em 1935. Leônidas da Silva tinha sido contratado no anterior, mas o clube acreditava que ainda precisava de um "comandante" e foi atrás de Sastre após indicação do jornalista argentino Carlito de la Braga. O Independiente não tinha interesse em vendê-lo, mas acabaria cedendo, especialmente após a intermediação do cônsul brasileiro em Buenos Aires, Roberto Guimarães Bastos, e do empresário Alfonso Doce. Quando Sastre foi contratado, a opinião gerou ficou dividida entre os que aplaudiam e os que atacavam o jogador, especialmente por sua idade avançada para a época, 32 anos. "Em fim de carreira", diziam. Chegaram a apelidá-lo de "DeSastre". Não eram todos, entretanto, que criticavam a contratação. "Com a aquisição de Sastre, enche-se toda a família são-paulina de verdadeiro júbilo", escreveu a Folha da Manhã em 31 de março, "pois sabe perfeitamente que se trata de um remarcado valor que o seu clube, sem medir sacrifícios de qualquer espécie, foi buscar na Argentina, para melhorar ainda mais o nível técnico de seu apurado 'onze' de profissionais".

Apesar de a contratação de Sastre estar acertada desde março, o jogador demorou para chegar a São Paulo, tendo seu embarque seguidamente sido retardado, por indisponibilidade de passagens aéreas, difíceis de se conseguir naquela época. Seu contrato foi autorizado pela Confederação Brasileira de Desportos em 3 de abril. Uma recepção "grande e festiva" foi programada para o Aeroporto de Congonhas, aonde o jogador chegaria às 14h35 do dia 8 de abril, no avião "Abaitará", da Cruzeiro do Sul. Ele foi recebido por "uma grande massa popular" no aeroporto. Sastre falou à Folha da Manhã após descer da aeronave: "Estou entre vocês bastante satisfeito pela magnífica oportunidade que acaba de me ser concedida de atuar nesta famosa capital, após integrar um mesmo quadro argentino durante treze anos consecutivos. Estou em absoluta forma técnica e física, jamais deixando de exercitar-me diariamente, não obstante estar afastado do gramado há três meses. O desejo grande que tinha de um dia vir a integrar um conjunto brasileiro, da expressão do 'onze' do São Paulo, que tem como uma de suas maiores figuras o centroavante Leônidas da Silva, um dos maiores craques que tenho visto, está agora finalmente satisfeito. Defenderei o meu novo clube com todas as forças do meu coração. Por intermédio de seu jornal, saúdo o grande povo paulista e, em particular, aos afeiçoados do clube mais querido da cidade." Após desembarcar, Sastre foi para o Hotel da Paz.

Sastre destacou-se nos treinos e, em seu primeiro jogo com a camisa tricolor, uma derrota por 3 a 1 em amistoso contra o Fluminense, em 21 de abril, teve uma boa atuação no primeiro tempo, dando o passe para Luizinho que deu origem ao pênalti convertido por Leônidas. No segundo tempo, entretanto, ele caiu de produção, e sua atuação na partida seria lembrada 36 anos depois como "medíocre". Em sua segunda partida, contra o Corinthians, nova derrota, desta vez pelo Campeonato Paulista, gerou muitas críticas contra ele e Waldemar de Brito, e ambos foram sacados do time, apesar de Sastre ter-se destacado novamente no treinamento antes da partida seguinte, contra o Juventus.

Àquela altura, até mesmo alguns torcedores são-paulinos começavam a questionar a contratação do argentino, mas sua atuação contra o Santos, em 16 de maio, começou a dirimir quaisquer dúvidas. "El Maestro, que muitos [torcedores] acreditavam tivesse sido uma aquisição desastrosa, mostrou ser elemento imprescindível na equipe", escreveu a Folha da Manhã na ocasião. "Foi o cérebro dos ataques são-paulinos, firmando-se definitivamente no conceito dos torcedores." Ele destacou-se novamente no jogo seguinte, outro amistoso contra o Fluminense (vitória por 3 a 0), gerando uma coluna da mesma Folha da Manhã exaltando-o: "Jogou um belo futebol, impressionando profundamente com seus lances calculados. Sua técnica não é daquelas que fazer [a torcida] delirar de entusiasmo e que geralmente terminam com lances estéreis. Finta muito pouco, mas faz coisa mais difícil: escapa à marcação do adversário e, mesmo quando fortemente acossado, tem sempre tempo para fazer um bom passe. Anteontem (…) Sastre mais uma vez demonstrou que é um jogador de dotes excepcionais, anulando completamente as dúvidas porventura ainda existentes sobre sua capacidade."

Menos de dois meses depois, em 14 de agosto, Sastre marcou seis dos nove gols são-paulinos contra a Portuguesa Santista, na goleada por 9 a 0 durante a campanha do título paulista daquele ano. Ele ainda é o são-paulino que mais marcou gols em um mesmo jogo.

O título viria em 3 de outubro, contra o Palmeiras, quando um empate bastava ao São Paulo, mas o jogo ganhou contornos dramáticos para os são-paulinos quando Sastre se machucou no início do primeiro tempo, após uma "tesoura voadora" do zagueiro palmeirense Junqueira. Naquele tempo não eram permitidas substituições, e Sastre teve de brigar com o médico do clube enquanto era atendido fora do campo, para que pudesse voltar, apesar da expressão de dor estampada em seu rosto. Ele mancou muito durante o restante do jogo, mas acabou como o melhor em campo e o principal responsável pelo empate por 0 a 0 que deu o título ao São Paulo. "Um verdadeiro leão", escreveria a revista Placar em 1984.

O São Paulo de Sastre também conquistaria os Campeonatos Paulistas de 1945 e 1946, este último de maneira invicta. "Sastre era um jogador incomum pelo seu talento criador, pelo ritmo de seus movimentos com a bola ou sem ela e, principalmente, pela força de sua grande inteligência, maior que a do seu chute, de pouca potência", lembraria o colega Teixeirinha mais de trinta anos depois. "Joguei com ele e posso dizer: era um jogador desconcertante. Nunca se sabia exatamente o que ele iria fazer com a bola. Tudo nele era criação, inspiração e beleza. Era um craque do tipo cerebral. Posso dizer, para explicar melhor o seu estilo, que tinha um pouco do Gérson, do Rivelino e do Clodoaldo, mas não se parecia em nada, separadamente, com o futebol de nenhum dos três."

Durante seu período no São Paulo, Sastre ganhou o apelido de Maestro, por ser considerado o cérebro do time. Sua última partida pelo São Paulo foi um amistoso contra o River Plate, no Pacaembu, em 15 de dezembro de 1946, quando a torcida lhe fez uma grande festa. Quando ele voltou a Buenos Aires, três dias depois, acreditava-se que ele tinha encerrado a carreira e iria cuidar de seu estabelecimento comercial na capital argentina. Sastre seria eleito em 1979 e em 1982 para a seleção de todos os tempos do São Paulo pela Placar.Oswaldo Brandão: "Os argentinos querem copiar os brasileiros, mas se esquecem que um argentino veio ao Brasil há 20 anos para nos ensinar futebol. Se chamava Antonio Sastre." Teixeirinha: "Joguei com ele e posso dizer: era um jogador desconcertante. Nunca se sabia exatamente o que ele iria fazer com a bola. Tudo nele era criação, inspiração e beleza. Era um craque do tipo cerebral. Posso dizer, para explicar melhor o seu estilo, que tinha um pouco do Gérson, do Rivelino e do Clodoaldo, mas não se parecia em nada, separadamente, com o futebol de nenhum dos três."

Gimnasia y Esgrima La Plata