Marco Cláudio Marcelo (m. 208 a.C.; ) foi um político da gente Cláudia da República Romana eleito cônsul por cinco vezes, em 222, 215, 214, 210 e 208 a.C. com Cneu Cornélio Cipião Calvo, Tibério Semprônio Graco (suf.), Fábio Máximo, Marco Valério Levino e Tito Quíncio Peno Capitolino Crispino respectivamente. Além disso foi procônsul outras cinco vezes, vencedor dos gauleses ínsubres, recebendo o mais prestigioso prêmio que podia ser dado a um general, a spolia opima, por vencer em combate singular o seu líder, Viridomaro na Batalha de Clastídio. Foi um dos grandes heróis da Segunda Guerra Púnica, não apenas por conduzir a recuperação de Roma depois da desastrosa derrota na Batalha de Canas mas principalmente por ter conquistado Siracusa, garantindo aos romanos o controle total da Sicília, uma dura batalha que tirou a vida de Arquimedes. Pereceu durante um encontro com uma unidade de cavalaria cartaginesa perto de Venosa e recebeu o apelido de "Espada de Roma".
Era neto de Marco Cláudio Marcelo, cônsul em 287 a.C., e pai de Marco Cláudio Marcelo.
Primeiros anos Pouco se sabe sobre os primeiros anos de Marcelo, pois a maior parte da informação biográfica que temos sobre ele refere-se às suas campanhas militares. O mais completo relato da vida dele foi escrito por Plutarco, um biógrafo grego que viveu nos primeiros anos do período imperial. Sua biografia, parte da obra Vidas Paralelas, se concentra nas campanhas militares e na vida política de Marcelo, praticamente pulando todos os eventos ocorridos antes de 225 a.C.,Plutarco, "Vida de Marcelo", Vidas Paralelas apesar de Plutarco fornecer alguns poucos indícios sobre a juventude de Marcelo. A data exata de seu nascimento é desconhecida, mas os estudiosos estão certos de que ele nasceu antes de 268 a.C., pois ele tinha que ter mais de 42 anos quando foi eleito cônsul pela primeira vez em 222 a.C. e ainda conseguiu ser eleito para um quinto (e último) consulado em 208 a.C., quando já tinha mais de sessenta anos, idade considerada avançada para os padrões romanos. Diz-se que Marcelo teria sido o primeiro de sua família a adotar o cognome de "Marcelo", mas há registros genealógicos que traçam o cognome até o longínquo ano de 331 a.C..Smith, "M. Claudius M. F M. N. Marcellus" De acordo com Plutarco, Marcelo era um habilidoso guerreiro já na juventude e foi educado para servir no exército romano, o que pode indicar lacunas em sua educação de maneira geral. Em sua juventude, Marcelo rapidamente se destacou por ser um ambicioso guerreiro, conhecido por sua habilidade no combate corpo-a-corpo e é lembrado por ter salvo a vida de seu irmão, Otacílio, quando os dois foram cercados por soldados inimigos na Itália.
Já alistado no exército, Marcelo foi elogiado por seus superiores por sua habilidade e valor e, como resultado de seu excelente serviço, foi eleito, em 226 a.C., para a posição de edil curul.<ref name="LivioXXIII30.17">Lívio, Ab Urbe Condita XXIII, 30.17.</ref> Era posição bastante prestigiosa para alguém como Marcelo e sua função era supervisionar os edifícios e festivais públicos e manter a ordem. Era geralmente a primeira posição do cursus honorum para os que almejavam uma carreira política na magistratura romana, Por volta da mesma época, Marcelo também recebeu a função de áugure, que Plutarco descreve como sendo um "intérprete de augúrios. Ao chegar aos quarenta anos, Marcelo já era um aclamado soldado e um funcionário público.
Primeiro consulado (222 a.C.) thumb|esquerda|upright=.6|Marcelo depositando a sua spolia opima no Templo de Júpiter Ferétrio.Reverso de um denário da época de Nerva. Logo depois do final da Primeira Guerra Púnica, na qual Marcelo lutou como soldado, os gauleses do norte da Itália declararam guerra a Roma em 225 a.C.. No quarto e último ano desta guerra, 222 a.C., Marcelo foi eleito cônsul com Cneu Cornélio Cipião Calvo. Os cônsules anteriores já haviam derrotado os ínsubres, a principal tribo gaulesa envolvida, até o rio Pó. Depois de terríveis derrotas, eles se renderam, mas Marcelo, ainda antes de se tornar cônsul, convenceu os dois cônsules a não aceitarem os termos de paz. Assim que Marcelo e seu colega assumiram o posto, os ínsubres juntaram guerreiros entre seus aliados, os gesetas, para lutar contra os romanos.Políbio II.34. Marcelo invadiu o território ínsubre até o rio Pó, exatamente como seus antecessores haviam feito. A partir dali, os gauleses enviaram guerreiros através do rio e atacaram Clastídio, uma fortaleza aliada dos romanos, para desviar o foco do ataque romano. Este foi o campo de batalha que serviria de palco para o combate entre o rei gaulês, Viridomaro, e Marcelo e que lhe valeria um lugar na história.
O confronto, segundo o relato de Plutarco, é tão cheio de detalhes que é possível duvidar da veracidade de sua narração. Ele conta que, antes da batalha, Viridomaro avistou Marcelo, que portava a insígnia de comando em sua armadura, e cavalgou para encontrá-lo. Do outro lado do campo de batalha, Marcelo viu a bela armadura vestida pelo inimigo que cavalgava até ele e concluiu que era a melhor das armaduras, uma pela qual ele havia pedido aos deuses que lhe fosse entregue. Os dois imediataram iniciaram o combate, no qual Marcelo "com um golpe de sua lança, atravessou a placa peitoral do adversário e, pelo impacto de seu cavalo, em cavalgada, atirou-o, ainda vivo, no chão, onde, com um segundo e um terceiro golpe, imediatamente o matou". Marcelo tirou a armadura do inimigo caído e a declarou spolia opima, o "espólio definitivo", conhecido na história romana como o mais prestigioso e honrado prêmio que um general podia receber. Apenas um general que matasse em combate singular o líder do exército inimigo antes da batalha podia reivindicar esta honra.
Depois de ter assassinado o formidável guerreiro, que depois ele soube ser o rei, Marcelo dedicou a armadura no Templo de Júpiter Ferétrio, como havia prometido antes da batalha. Este fato revela uma falha no relato de Plutarco. Quando Marcelo viu o guerreiro bem armado, ele não o reconheceu como rei, mas apenas como um homem com uma bela armadura. Mas imediatamente depois da batalha, Marcelo rezou para Júpiter Ferétrio, afirmando ter assassinado um rei ou governante.Flower, Harriet I. "The Tradition of the Spolia Opima: M. Claudius Marcellus and Augustus", Classical Antiquity, Apr. 2000: 37. Esta inconsistência indica a história de Plutarco pode ter sido exagerada para aumentar o efeito dramático, o que levou a algumas discrepâncias. Além disso, Plutarco provavelmente escreveu o relato para glorificar Marcelo como um herói romano e não como um registro histórico. Políbio, por exemplo, não menciona a spolia opima de Marcelo.
Depois do combate entre Marcelo e Viridomaro, os romanos, em menor número, levantaram o cerco de Clastídio e empurraram o exército gaulês de volta para sua capital, Mediolano. Lá, os romanos derrotaram definitivamente os gauleses, que se renderam incondicionalmente aos romanos, encerrando a guerra. Políbio, um historiador do século II a.C. e cliente dos Cipiões, afirma que muito do sucesso geral na guerra contra os gauleses pertence ao colega de Marcelo, Cipião Calvo, mas sabemos por outras fontes que, como Marcelo ganhou a spolia opima, foi ele que recebeu um triunfo. Depois da conquista da Gália Cisalpina, Marcelo desaparece dos registros e só vai reaparecer novamente em 216 a.C., já durante a Segunda Guerra Púnica.
Segunda Guerra Púnica
Em 216 a.C., o terceiro ano da Segunda Guerra Púnica, Marcelo foi eleito pretor militar e recebeu ordens de seguir para a Sicília. Infelizmente, assim que ele e seus homens se preparavam para embarcar, seu exército foi reconvocado a Roma por causa da devastadora derrota sofrida na Batalha de Canas, uma das piores da história de Roma.Lendering, Jona. "Marcus Claudius Marcellus", Livius: Articles on Ancient History, 26 Nov. 2008. Por ordem do Senado, ele foi forçado a enviar de seus homens para proteger Roma das forças de Aníbal. Com o restante de seu exército, reforçado pelos sobreviventes de Canas (considerados em desgraça por terem sido derrotados e sobrevivido), Marcelo acampou perto de Suéssula, uma cidade da Campânia, no sul da Itália. Neste ponto, parte do exército cartaginês começou a marchar em direção da cidade de Nola. Na Primeira Batalha de Nola, Marcelo conseguiu repelir os ataques cartagineses e manteve a cidade fora do alcance de Aníbal. Embora esta batalha tenha tido pouca importância no contexto geral da guerra, foi uma vitória "importante por seu efeito moral, como o primeiro obstáculo, pequeno que fosse, que Aníbal ainda não havia enfrentado".
Segundo consulado (215 a.C.)
Então, em 215 a.C., Marcelo foi convocado a Roma pelo ditador Marco Júnio Pera, que queria se aconselhar com ele sobre a condução da guerra. Depois deste encontro, Marcelo recebeu o título de procônsul.Lívio, Ab Urbe Condita XXIII, 30.19. No mesmo ano, quando o cônsul Lúcio Postúmio Albino foi morto na emboscada da Floresta Litana,Políbio III, 118, 6; Lívio, Ab Urbe Condita Epit 23.8; Lívio, Ab Urbe Condita XXIII, 24.6-11. Marcelo foi escolhido de forma unânime para ser o novo cônsul sufecto.Lívio, Ab Urbe Condita XXIII, 31.12-14. Lívio e Plutarco contam que um mau agouro teria ocorrido, supostamente por que o outro cônsul era também um plebeu. Marcelo renunciou e Fábio Máximo assumiu seu lugar, uma vez que o Senado, interpretando a vontade dos deuses romanos, não aprovou que houvesse dois cônsules plebeus. Marcelo recebeu de volta o título de procônsul e defendeu Nola novamente de um ataque da retaguarda do exército de Aníbal.
Terceiro consulado (214 a.C.)
No ano seguinte, Marcelo foi eleito cônsul novamente, desta vez com Fábio Máximo.Lívio, Ab Urbe Condita XXIV, 9.3. E, pela terceira vez, Marcelo defendeu a cidade de Nola de Aníbal e enquanto Fábio conseguiu capturar a pequena e importante cidade de Casilino.
Sicília e Siracusa
Depois da vitória em Casilino, Marcelo foi finalmente enviado para Sicília, para onde Aníbal tinha voltado sua atenção. Ao chegar, encontrou a ilha mergulhada no caos. Jerônimo, o novo tirano do Reino de Siracusa, aliado de longa de data dos romanos, havia assumido o trono depois da morte de seu avô, Hierão II, e foi fortemente influenciado pelos agentes cartagineses Hipócrates e Epicides. Ele declarou guerra contra os romanos logo depois da vitória cartaginesa em Canas. Porém, ele foi rapidamente deposto e a nova liderança siracusana tentou se reconciliar com os romanos, mas, sem conseguir superar suas suspeitas, acabaram se aliando aos cartagineses de forma definitiva. Em 214 a.C., já como cônsul, Marcelo atacou Leontini, onde viviam os governantes siracusanos. Depois de capturar a cidade, Marcelo executou desertores romanos que estavam escondidos na cidade e marchou para iniciar o cerco da grande e antiga cidade de Siracusa. Neste ponto, diversas cidades da Sicília se levantaram em revolta contra o jugo romano. O cerco durou dois anos, parcialmente por que os esforços romanos eram repetidamente frustrados pelas máquinas de guerra construídas pelo famoso físico e inventor siracusano Arquimedes. Enquanto isso, deixando o grosso de suas legiões sob o comando de Ápio Cláudio Pulcro em Siracusa, Marcelo, com poderes proconsulares,Lívio, Ab Urbe Condita XXIV, 44.4. e um pequeno exército marchou pela Sicília, conquistando cidades inimigas ou rebeldes como Helorus, Megara Hibleia e Herbessus.