O lince-pardo ou lince-vermelho (nome científico: Lynx rufus) é um felídeo selvagem nativo da América do Norte. Com doze subespécies reconhecidas, esse animal pode ser encontrado entre o sul do Canadá e o norte do México, incluindo a maioria dos Estados Unidos continentais. O lince-pardo é um predador adaptável que habita ambientes diversos, tais como florestas, semi-desertos, zonas urbanas ou até pantanosas. Os linces-pardos vivem numa determinada área que varia conforme a estação do ano.
Fisicamente, o Lynx rufus possui listas pretas características nas patas dianteiras e na cauda. As suas orelhas são proeminentemente pontiagudas com pequenos tufos pretos nas pontas. A sua cauda é curta e grossa, de ponta preta e distingue-se de outras espécies de lince pela lista branca que possui por baixo da cauda. O seu pelo é normalmente de cor cinza ou de vários tons de castanho avermelhado, intercalando com manchas pretas ou dissipando-se nos tons claros das partes inferiores do seu corpo. Um macho adulto tem aproximadamente 90 cm de comprimento e varia entre os sete e os quatorze kg, e é geralmente 30 a 40% maior que a fêmea.
É um animal carnívoro e, embora prefira se alimentar com coelhos e lebres, também pode caçar desde insetos e pequenos roedores a quadrúpedes de maior porte, tais como o cervo. A localização, estação do ano e escassez das presas influenciam bastante as suas escolhas enquanto predador. Como a maioria dos felinos, é territorialista e geralmente solitário, embora possa acontecer de mais de um indivíduo habitar uma área. Eles utilizam vários métodos para determinar os limites de seu território, tais como marcações com as garras, urina e fezes.
O lince-pardo acasala entre o inverno e a primavera e tem um período de gestação de cerca de dois meses. Embora tenham sido extensivamente caçados por humanos, por esporte ou peles, sua população se provou resistente. A espécie continua com um número estável e a população é saudável. Eles fazem parte da mitologia nativo americana e do folclore dos colonizadores europeus.
Taxonomia
O lince-pardo foi descrito por Johann Christian Daniel von Schreber, em 1777, inicialmente no gênero Felis. A classificação da espécie como Lynx rufus foi debatida como parte de uma questão mais ampla: se as quatro espécies de Lynx deveriam possuir seu próprio gênero ou ser classificadas como um subgênero de Felis, fazendo dela Felis (Lynx) rufus. O gênero Lynx é aceito atualmente e o lince-pardo é referido como Lynx rufus nas fontes taxonômicas.
Johnson et al. reportou que Lynx compartilha o clado com as linhagens do puma, dos Prionailurus e do gato doméstico, cerca 7,5 milhões de anos atrás, quando a linhagem do gênero Lynx passou a evoluir independentemente das desses felinos. Dentro do gênero, L. rufus foi a primeira espécie a divergir, cerca de 3,24 milhões de anos atrás.
Acredita-se que o Lynx rufus tenha se desenvolvido a partir dos linces-euroasiáticos (Lynx lynx), que chegaram à América do Norte pela Ponte Terrestre de Bering durante o Pleistoceno, há aproximadamente 2,6 milhões de anos. O primeiro grupo se estabeleceu na porção sul da América do Norte, que foi logo separada do norte pelas geleiras. Essa população virou o lince-pardo moderno cerca de 20 mil anos atrás. Uma segunda leva deixou a Ásia e se instalou no norte, e evoluiu no lince-do-canadá moderno. Pode ocorrer ocasionalmente hibridação entre o lince-pardo e o lince-do-canadá.
Subespécies Atualmente são reconhecidas treze subespécies de lince-pardo:
L. rufus rufus – leste e centro-oeste dos Estados Unidos. L. rufus gigas – do norte de Nova Iorque a Nova Escócia e Nova Brunswick. L. rufus floridanus – sudeste dos Estados Unidos, arredores do rio Mississippi, sudeste do Missouri e sul de Illinois. L. rufus superiorensis – oeste da área dos Grandes Lagos, incluindo a alta Michigan, Wisconsin, o sul e Ontário e maior parte do Minnesota. L. rufus baileyi – sudoeste dos Estados Unidos e noroeste do México. L. rufus californicus – arredores da Serra Nevada, Califórnia. L. rufus mohavensis - Deserto de Mojave, Califórnia. L. rufus escuinipae – México central, com uma extensão ao norte ao longo da costa oeste e sul de Sonora. L. rufus fasciatus – Oregon, Washington, oeste da Cordilheira das Cascatas, noroeste da Califórnia e sudoeste da Colúmbia Britânica. L. rufus oaxacensis – Oaxaca. L. rufus pallescens (Merriam) – noroeste dos Estados Unidos e sul da Colúmbia Britânica, Alberta e Saskatchewan. L. rufus peninsularis – Baja California. L. rufus texensis (Mearns) – oeste de Louisiana, Texas, central sul de Oklahoma e sul de Tamaulipas, Nuevo León e Coahuila.
A divisão em subespécies já foi contestada, devido a falta de diferenças geográficas claras e a grande semelhança entre elas.
Características físicas thumb|left|Um lince-pardo avistado na Califórnia. O lince-pardo é fisicamente semelhante às outras espécies de Lynx, mas é em média o menor entre as quatro. Sua pele é variável, embora geralmente entre castanho e marrom acinzentado, com faixas pretas no corpo e partes escurecidas nas patas e cauda. Ele tem uma cor base cinza, amarelada ou vermelho-amarronzada no seu rosto, lados e costas. Sua coloração manchada funciona como camuflagem. As orelhas são pontiagudas e escuras nas pontas, com pequenos tufos. Em geral há uma cor esbranquiçada nos lábios, queixo e partes inferiores. Os lince-vermelhos das regiões desertas no sul possuem as peles de cores mais claras, enquanto os do norte, de áreas arborizadas, são mais escuros. Os filhotes já nascem peludos e com manchas. A face aparenta ser vasta devido aos rufos de pelo que possuem abaixo das orelhas. Seus olhos são amarelos com pupilas pretas. As pupilas são arrodeadas por círculos negros e ficam totalmente dilatadas durante o período noturno para maximizar a recepção de luz. O nariz é de um vermelho rosado. Alguns exemplares com melanismo foram avistados e capturados na Flórida; eles são pretos, mas ainda existem as manchas. A espécie possui uma audição e visão afiada, e um bom faro; eles são excelentes escaladores e podem nadar se precisarem, mas normalmente evitam a água. thumb|right|Espécime também avistada na Califórnia, na trilha de Calero Creek.|240px
Um lince-pardo adulto mede de 47,5 e 125 centímetros entre a cabeça e a base da cauda, em média 82,7 cm; a cauda atarracada adiciona de 9 a 20 cm e, devido a sua aparência "cortada" (bobbed), foi dado o nome da espécie em inglês, bobcat. Um adulto tem de 30 a 60 cm nos ombros. Um macho adulto pode pesar entre 6,4 e 18,3 quilogramas, em média 9,6 kg; as fêmeas, entre quatro e 15,3 kg, em média 6,8 kg.Burnie D and Wilson DE (Eds.), Animal: The Definitive Visual Guide to the World's Wildlife. DK Adult (2005), ISBN 0789477645 O lince-vermelho com maior peso comprovado possuía 22,2 kg, embora existam relatos não confirmados deles chegando a 27 kg; em 20 de junho de 2012, após um atropelamento em New Hampshire, o peso do animal foi registrado como 27 kg. A espécie é musculosa e suas patas traseiras são mais longas que as dianteiras, dando-lhe um andar balançado. Eles nascem pesando entre 270 e 340 gramas e medindo cerca de 25 cm. Em seu primeiro ano, alcançam aproximadamente 4,5 kg.
Os linces-pardos mais largos são do leste do Canadá e norte da Nova Inglaterra, da subespécie L. r. gigas, enquanto os menos largos são do sul, da subespécie L. r. floridanus, especialmente os do sul da cordilheira Apalaches. Eles também crescem mais em habitats abertos.Nowell, K. and Jackson, P. (1996). Wild Cats. Status Survey and Conservation Action Plan. (PDF). IUCN/SSC Cat Specialist Group. IUCN, Gland, Suíça. Uma comparação morfológica feita no leste dos Estados Unidos encontrou uma divergência na localização dos maiores espécimes masculinos e femininos, sugerindo restrições diferentes na seleção natural dos sexos.
Comportamento É um animal crepuscular. Ele se coloca em movimento a partir de três horas antes do pôr do sol e continua até perto da meia-noite, e então novamente antes do amanhecer até três horas depois do nascer do sol. Todas as noites ele se afasta de três a onze km de seu lar habitual. Esse comportamento pode ser apenas sazonal, já que eles são mais diurnos durante o outono e o inverno, como uma resposta à atividade de suas presas, mais ativas durante os meses mais frios.
Estrutura social e território As atividades dos linces-pardos são restritas a territórios bem definidos, cujo tamanho pode variar de acordo com seu gênero ou a distribuição das presas. O local que habitam é marcado com o cheiro de suas fezes e urina, além das marcas que faz em árvores. Nessa área, o animal terá vários locais para servirem de refúgio - comumente uma toca principal e vários abrigos auxiliares ao redor dela, como troncos ocos, pilhas de gravetos, moitas e/ou grandes pedras. Ele deixa seu cheiro bastante forte na toca. thumb|right|220px|Animal utilizando gravetos como abrigo. O tamanho do território dos linces-pardos pode variar significativamente; um sumário da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN) afirma que pode medir entre 0,052 e 330 quilômetros quadrados. Um estudo realizado no Kansas descobriu machos que utilizavam uma área de 21 km² e fêmeas com menos da metade disso. Alguns deles, no entanto, possuem territórios não muito definidos. Os filhotes usam uma área menor, de aproximadamente oito km². Outros estudos mostraram que o afastamento do local de nascimento é maior entre os machos.
Relatórios sobre variação sazonal do tamanho do território foram algumas vezes contraditórios. Um estudo descobriu uma grande variação nos dos machos, de 41 km² no verão para 100 km² no inverno. Outro, que as fêmeas, especialmente as reprodutivamente ativas, expandiam seus território no inverno, mas os machos meramente se deslocaram sem expandir a área, o que foi compatível com numerosos estudos anteriores. Outra pesquisa feita em vários estados dos Estados Unidos mostrou pouca ou nenhuma variação sazonal.
Como a maioria dos felinos, o Lynx rufus é solitário, mas pode acontecer de compartilharem um território. Os machos em geral aceitam isso melhor do que as fêmeas, algo incomum quando comparado com espécies semelhantes. Por serem menores, duas ou mais fêmeas podem residir no território de um macho. Quando vários machos desejam uma mesma área, é estabelecida uma hierarquia de dominação que resulta na expulsão dos que se mudaram. Assim como as diferenças das estimativas de tamanho de território, a densidade da população diverge - entre um e 38 linces-pardos por 65 km², de acordo com um estudo. A média é calculada em um a cada 10 km². Foi observada uma ligação entre a densidade da população e a proporção dos sexos: um estudo notou que um grupo denso na Califórnia tinha um índice de 2,1 machos para cada fêmea. Quando a densidade caiu, a proporção foi para 0,86 macho por fêmea. Outro estudo observou uma situação semelhante, e sugeriu que os machos poderiam lidar melhor com maior competição, o que ajudou a limitar a reprodução até vários fatores diminuírem a densidade.
Hábitos alimentares