Abede Almotalibe ibne Haxime (), nascido Xiba ibne Haxime (; Iatrebe, – Meca, ), foi um membro proeminente dos haxemitas, clã dos coraixitas, e avô paterno do profeta islâmico Maomé. Filho de Haxime ibne Abede Manafe e da najarita , nasceu e passou a infância entre os parentes maternos em Iatrebe, posterior Medina, antes de ser levado para Meca por seu tio Almotalibe. Após a morte deste, tornou-se uma das principais figuras dos haxemitas e exerceu posição de destaque entre os coraixitas. Sua prosperidade esteve ligada ao comércio com a Síria e o Iêmem e às funções de fornecimento de água e alimentos aos peregrinos de Meca, conhecidas como sicaia e rifada.

As tradições islâmicas atribuem a Abede Almotalibe a redescoberta e reescavação do poço de Zenzem, cuja administração passou a exercer apesar da oposição inicial de outros grupos coraixitas. Também lhe atribuem o voto de sacrificar um de seus filhos caso tivesse dez descendentes masculinos; o sorteio teria recaído sobre Abedalá, posteriormente poupado mediante o sacrifício de cem camelos. A historicidade desse último episódio é considerada incerta. Abede Almotalibe também figura nas tradições relativas ao Ano do Elefante como o representante dos habitantes de Meca que negociou com Abramo durante a expedição deste contra a cidade e a Caaba.

Abede Almotalibe teve numerosos filhos, entre os quais Abedalá, Abu Talibe, Hâmeza, Alabás e Abu Laabe, dos quais descenderam diferentes ramos dos haxemitas. Após a morte de Amina binte Uabe, assumiu a tutela do neto Maomé, então com cerca de seis anos, e, antes de morrer, confiou seus cuidados a Abu Talibe. Segundo a tradição mais difundida, morreu em Meca aos 82 anos e foi sepultado no cemitério de , junto a Cuçai ibne Quilabe. Sua morte teria sido seguida pelo enfraquecimento temporário da posição política dos haxemitas em relação aos Banu Omaia, embora a sicaia permanecesse com sua família, passando para seu filho Alabás.

Vida

Origens

Abede Almotalibe, cujo nome pessoal era Xiba, era filho de Haxime ibne Abede Manafe, ancestral epônimo dos haxemitas, um dos clãs dos coraixitas de Meca, e de , pertencente aos najaritas, ramo dos cazerajitas de Iatrebe, posterior Medina. Nasceu em Iatrebe em ca. 495 e passou ali os primeiros anos de vida junto à família materna. Haxime conhecera Salma ao passar pela cidade durante suas viagens comerciais à Síria e casara-se com ela; dessa união nasceram Xiba e uma filha chamada . Watt considera que a permanência de Salma e dos filhos junto à família materna pode refletir práticas de parentesco matrilinear existentes em seu grupo. Segundo a tradição transmitida por Subhani, Salma passou algum tempo com o marido em Meca, mas retornou a Iatrebe para dar à luz. Haxime morreu em Gaza quando Xiba ainda era criança, e este permaneceu com a mãe em Iatrebe até aproximadamente os oito anos de idade. Posteriormente, seu tio paterno Almotalibe foi buscá-lo e levou-o para Meca. Segundo uma explicação tradicional, ao entrarem na cidade, os habitantes teriam confundido Xiba com um escravo de Almotalibe, passando a chamá-lo de Abede Almotalibe ("servo de Almotalibe"), nome pelo qual ficou conhecido. Watt, contudo, rejeita essa explicação e considera provável que o nome tivesse originalmente significado religioso.

Após a morte de Almotalibe, Abede Almotalibe assumiu uma posição de destaque entre os haxemitas. Segundo a TDV, o próprio tio o teria criado e, pouco antes de morrer, confiado a ele a chefia anteriormente exercida por seu pai. Watt observa que as fontes árabes tendem a apresentá-lo como o principal homem de Meca, enquanto alguns estudiosos ocidentais procuraram minimizar sua importância. Considera mais provável que Abede Almotalibe tenha sido o líder de uma das facções políticas dos coraixitas, formada em torno dos clãs anteriormente associados na aliança dos mutaiabitas, da qual faziam parte os abedemanafitas, açaditas, zuraítas, taimitas e alharititas, depois da separação dos ramos naufalita e abedexemecita. Suas disputas com membros desses últimos grupos são apontadas por Watt como indício dessa posição política.

Poço de Zenzem

Uma das principais tradições associadas a Abede Almotalibe diz respeito à redescoberta do poço de Zenzem. Segundo os relatos transmitidos pelas fontes islâmicas, o poço havia deixado de ser utilizado durante o período em que Meca esteve sob domínio dos jurumitas. Uma versão atribui seu desaparecimento ao progressivo esgotamento provocado pelo uso da água, enquanto outra afirma que, diante da ascensão dos cuzaaítas, o chefe jurumita teria depositado no poço objetos preciosos pertencentes à Caaba, entre eles dois veados de ouro e espadas, antes de preenchê-lo e abandonar Meca. Depois do domínio dos cuzaaítas, os coraixitas estabeleceram sua supremacia em Meca sob Cuçai ibne Quilabe, antepassado de Abede Almotalibe. Segundo a tradição, a localização de Zenzem acabou sendo esquecida até que Abede Almotalibe decidiu procurá-la e reabrir o poço. A TDV relaciona a iniciativa a um sonho no qual lhe teria sido indicada sua localização. Após identificar o local, Abede Almotalibe iniciou a escavação auxiliado por seu filho Alharite. A iniciativa teria provocado uma disputa com outros clãs coraixitas, que reivindicavam participação na exploração do poço por considerá-lo herança comum dos descendentes de Ismael. Abede Almotalibe, por sua vez, reivindicou para si a responsabilidade por sua escavação e administração, embora a água permanecesse disponível aos peregrinos. Segundo o mesmo relato, as partes decidiram submeter a disputa a um árbitro e partiram de Meca para consultá-lo. Durante a viagem, ficaram sem água no deserto, mas encontraram posteriormente uma fonte que lhes permitiu prosseguir. Os demais coraixitas teriam interpretado o episódio como um sinal favorável a Abede Almotalibe e abandonado sua reivindicação sobre a escavação de Zenzem, reconhecendo-lhe a administração do poço.

A tradição de que Abede Almotalibe reescavou Zenzem é também registrada por Watt, que lhe atribui a abertura de vários poços em Meca, sendo Zenzem o mais importante. A administração da água relacionava-se à sicaia, o privilégio de fornecer água aos peregrinos, que, juntamente com a rifada, responsável por sua alimentação, teria sido herdada de Haxime e constituído uma das bases da posição de Abede Almotalibe em Meca. Uma tradição amplamente difundida na literatura islâmica relaciona Abede Almotalibe a uma tentativa de sacrificar seu filho Abedalá. Segundo o relato, durante a escavação de Zenzem, Abede Almotalibe, que então teria apenas Alharite entre seus filhos, encontrava dificuldades para fazer frente à oposição dos demais coraixitas e teria feito o voto de sacrificar um deles caso chegasse a ter dez filhos. Quando esse número foi alcançado, realizou-se um sorteio entre eles, que recaiu sobre Abedalá, futuro pai de Maomé. A intenção de cumprir o voto teria provocado a oposição dos coraixitas, que procuraram dissuadi-lo e recomendaram que consultasse uma autoridade sobre uma forma alternativa de satisfazê-lo. De acordo com a continuação do relato, Abede Almotalibe consultou em Iatrebe uma pessoa apresentada como conhecedora dessas questões, que recomendou realizar um sorteio entre Abedalá e dez camelos, aumentando sucessivamente o número de animais em grupos de dez enquanto o resultado continuasse recaindo sobre o filho. O sorteio teria recaído repetidamente sobre Abedalá até que o número alcançou cem camelos, quando passou a favorecer os animais. Abede Almotalibe teria repetido o procedimento para confirmar o resultado e, em seguida, sacrificado os cem camelos, poupando Abedalá. A TDV registra igualmente o sorteio e o sacrifício substitutivo de cem camelos. A historicidade do episódio é incerta: Watt caracteriza a narrativa como conhecida e pitoresca, mas considera provável que possua pouca base factual.

Administração de Meca

Posteriormente, Abede Almotalibe promoveu o casamento de Abedalá com Amina binte Uabe, filha de Uabe ibne Abede Manafe e pertencente aos zuraítas. O casamento pode ter integrado uma aproximação entre Abede Almotalibe e esse clã, pois, segundo uma tradição, na mesma ocasião ele próprio se casou com Hala binte Uaibe, sobrinha de Uabe e futura mãe de Hâmeza. Pouco tempo depois do casamento, Abedalá partiu de Meca em uma caravana comercial com destino à Síria, quando Amina já estava grávida. Durante a viagem de regresso, adoeceu e permaneceu em Iatrebe entre os parentes de seu pai, os . Ao saber da enfermidade, Abede Almotalibe enviou seu filho Alharite à cidade, mas Abedalá morreu antes de sua chegada. Segundo a tradição reproduzida por Subhani, seus bens consistiam em cinco camelos, um rebanho de ovelhas e uma escrava chamada Ume Aimane, que posteriormente esteve ligada aos cuidados de Maomé. Além da administração de Zenzem e das funções relacionadas à peregrinação, a posição de Abede Almotalibe em Meca apoiava-se em suas atividades comerciais. Segundo Watt, dedicava-se sobretudo ao comércio com a Síria e o Iêmem e havia herdado de Haxime a sicaia e a rifada, respectivamente o fornecimento de água e alimentos aos peregrinos que visitavam Meca. Possuía também um poço em e mantinha relações de aliança com grupos situados nas proximidades da cidade, entre os quais os cuzaaítas, os quinanaítas e os taquifitas.

Sua posição entre os coraixitas, contudo, não correspondia necessariamente a uma autoridade indisputada sobre toda a tribo. Watt interpreta-o antes como líder de uma das principais facções coraixitas e relaciona a essa condição suas disputas com os naufalitas e com descendentes de Abede Xemece. Um dos episódios mais conhecidos associados a Abede Almotalibe ocorreu durante a expedição contra Meca tradicionalmente vinculada ao chamado Ano do Elefante. Segundo as fontes islâmicas, o exército era comandado por Abramo, governante do Iêmem ligado ao Império de Axum, que avançou contra a cidade com a intenção de destruir a Caaba. Abede Almotalibe teria negociado diretamente com Abramo durante a aproximação do exército. Watt considera significativo que tenha sido ele o representante mecano nessas negociações e sugere que sua atuação pode ser compreendida no contexto das rivalidades políticas existentes entre os próprios coraixitas: como chefe de uma das facções da cidade, Abede Almotalibe poderia ter esperado obter alguma vantagem sobre seus adversários mediante um entendimento com o comandante abissínio. A tradição islâmica posterior atribuiu-lhe ainda a afirmação de que a Caaba possuía um senhor que a protegeria de Abramo, associando o episódio à destruição do exército invasor narrada na sura al-Fil do Alcorão.

Descendência e morte

Abede Almotalibe teve numerosos filhos com diferentes mulheres. , dos maquezumitas, foi mãe da maior parte deles, entre os quais Abedalá, pai de Maomé, Abu Talibe e Azobair. Entre suas outras esposas estavam Hala binte Uaibe, dos zuraítas, mãe de Hâmeza e Safia; Natila binte Janabe, dos , mãe de Alabás; Samra binte Jundabe, dos amiritas, mãe de Alharite; e Lubna binte Hajar, dos cuzaaítas, mãe de Abu Laabe. Após a morte de Amina binte Uabe, Abede Almotalibe assumiu os cuidados de seu neto Maomé, então com cerca de seis anos de idade, levando-o para sua própria casa. Segundo a tradição registrada pela TDV, dedicou especial atenção ao neto durante os últimos anos de sua vida e, antes de morrer, confiou sua tutela a Abu Talibe.