230px|thumb|Mulheres no «soalheiro» - aspecto cultural que consiste em reunirem-se na praia em dia de sol para conversarem sobre vários assuntos, muitas vezes, sobre bruxas e outras histórias da mitologia local 230px|thumb|Sargaceiros na apanha e secagem de sargaço numa praia A Póvoa de Varzim é uma entidade etno-cultural com origem nas suas classes trabalhadoras e com influências provenientes de rotas marítimas entre o Mar Báltico e o Mediterrâneo. A mais carismática, e outrora amplamente dominante, é a comunidade piscatória. Esta tem semelhanças significativas com comunidades pesqueiras dos fiordes dinamarqueses e é um dos mais antigos portos portugueses. A Póvoa de Varzim tem particularidades culturais próprias, muitas bastante diferentes do resto do país, originando uma identidade local bastante forte.

Aspectos étnicos thumb|left|240px|Gravura de pescador poveiro, cerca de 1868 A Póvoa de Varzim é uma unidade etnocultural. Até ao início do século XX, as comunidades da Póvoa de Varzim apresentavam-se marcadas pela endogamia, exclusivismo e princípios de identidades de feições com vários séculos.

Devido à prática da endogamia e ao sistema de castas, a comunidade piscatória da Póvoa manteve características étnicas próprias. Desde o século XIX que existe debate sobre as suas origens étnicas. Desde suevos, prussianos, normandos a fenícios. A maioria concordava de se tratar de uma população com parte da sua origem no Norte da Europa, da região do Báltico, o que levou Baptista de Lima a afirmar «Os poveiros não são fenícios, nem estes trouxeram aqui a sua colonização.»

Dados antropológicos e culturais indicam a colonização de pescadores nórdicos durante a fase do repovoamento do litoral. No livro The Races of Europe, os poveiros nativos eram relatados como sendo ligeiramente mais loiros que o comum, tendo caras largas de origem desconhecida e queixos robustos. Numa pesquisa publicada em «O poveiro» em 1908, logo usando a ciência do século XIX, o antropólogo Fonseca Cardoso considerou que um elemento antropológico dolicocéfalo, de nariz aquilino, era de origem semito-fenícia. Considera assim que o Poveiro é o resultado de uma mistura de fenícios, teutões, judeus e, principalmente, normandos.

Ramalho Ortigão na passagem sobre a Póvoa no livro "As Praias de Portugal" de 1876, relata que o mais curioso da Póvoa é o pescador poveiro, que constitui uma "raça" especial no litoral português; inteiramente diferente do tipo mediterrânico típico de Ovar e Olhão, o poveiro é do tipo "saxónio": "é ruivo, de olhos claros, largos ombros, peito atlético, pernas e braços hercúleos, as feições arredondadas e duras."

O pescador poveiro apenas se relacionava maritalmente com alguém da sua casta piscatória, e apenas da sua comunidade, ou seja da Póvoa de Varzim ou de antigas pequenas aldeias piscatórias a ela ligadas nomeadamente Santo André (hoje parte das novas freguesias de Aver-o-Mar e Aguçadoura) e Fão (em Esposende). Assim, a dispersão territorial contínua do pescador poveiro vai desde a Aguçadoura às Caxinas, separada do núcleo norte em Esposende. Ao contrário das restantes freguesias do litoral poveiro, a Estela não possuiu uma comunidade piscatória, e o seu litoral encontra-se despovoado desde o desaparecimento de Villa Mendo. O pescador poveiro, aliado a teorias do século XIX, via-se como uma raça (grupo étnico). Hoje o termo "Raça Poveira" é mais usado em futebol para descrever garra e valentia, - Varzim S.C. ou para descrever um poveiro de gema. No entanto, ainda e até durante o Estado Novo, a etnia foi usada para justificar a unificação do concelho, nomeadamente a anexação das Caxinas e Poça da Barca, que se encontram no termo de Vila do Conde.

Para além do pescador no litoral, há os casais galegos (minhotos) agrícolas, povos mais antigos, de feição típica nortenha portuguesa. Também contribuiu para a identidade da Póvoa de Varzim, como os campos masseira ou a carroça poveira. As movimentações dentro dos concelhos da Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Esposende e Barcelos, espaço circundante, não são tidas aqui em consideração, dado ocorrerem, de forma constante e desde bastante cedo. O autor de Sete Séculos na Vida dos Poveiros, o portuense de origem poveira Óscar Fangueiro não concorda com a visão endogâmica e os mundos à parte entre pescadores e lavradores, notando imigração desde cedo e notou que lavradores tinham passado à classe de pescadores.

A imigração da Galiza para a Póvoa de Varzim é antiga. Existindo destacados poveiros de ascendência galega. Por exemplo, o apelido "Nova", uma corrupção de "Nóvoa", é um apelido de poveiros de antiga ascendência galega. Com o desenvolvimento das pescas e posteriormente da talassoterapia balnear, a Póvoa de Varzim começou a receber imigração. Já no século XIX e fruto dessa economia piscatório-balnear, a Póvoa de Varzim tinha laços regionais que iam da Galiza, Minho, Alto Douro, Trás-os-Montes e até à Beira Alta.

O século XX trouxe profundas alterações com a popularização do turismo balnear. Destaca-se a imigração de povos do Norte de Portugal, nomeadamente do Vale do Ave, em especial na zona norte da cidade, destacando-se as colónias de Guimarães e Famalicão. O regresso de Portugueses de África, fruto da descolonização, é também notório e de expressivo impacto. No final do século, há que ressalvar a imigração de povos do leste europeu, da China, do Brasil e de Angola.

Identidade local Ala-Arriba A expressão local Ala-Arriba! significa "força, para cima!", e era gritada quando se puxava um barco para terra por toda a comunidade, passando a ser vista como o lema da Póvoa de Varzim. Foi Leitão de Barros, com o filme "Ala-Arriba!", cinema do género drama-documental, que popularizou esta comunidade piscatória durante a década de 1940.

Reino da Póvoa As expressões "Poveirinhos pela graça de Deus" e "Reino da Póvoa" tem origem numa viagem marítima de D. Luis I que passando num navio junto à costa, viu uma lancha poveira. O rei ficou admirado pela aparência física distinta dos tripulantes e perguntou-lhes se eram espanhóis, que indignou os poveiros que responderam que não. O rei pergunta então se são portugueses, e os poveiros dizem de novo que não, que são "Poveirinhos pela Graça de Deus". Ao que o rei lhes pergunta de que reino são, respondem que são do "Reino da Póvoa".

Mitologia thumb|140px|O Sanselimão era uma sigla mágico-religiosa usada como protecção thumb|140px|right|Santo André, o santo do cabo, que pesca as almas afogadas no mar As histórias mais abundantes são as das bruxas poveiras, algumas más denominadas Bruxas do Diabo e outras que não tinham culpa da sua condição. As bruxas viveriam no meio da população, em especial no Ramalhão e Norte, era possível até mesmo o marido de uma bruxa desconhecer o fado da sua esposa. O fado das bruxas, pela noite, era terem de sair de suas casas e seguirem o Diabo pelas ruas. Ao passarem, as bruxas causavam danos aos haveres da população, levantavam os remos dos barcos dos pescadores, abriam as pipas dos lavradores, e outros tipos de tormentos. Às bruxa está associado o uso mágico e protector da sigla Sanselimão, um pentagrama. O uso da sigla tinha vários propósitos, desde a protecção ao salvar uma bruxa do seu fado. Para salvar uma bruxa do seu fado, era necessário um Sanselimão em aço na mão, desenhar um outro sanselimão no chão da rua onde esperaria, à noite, que o Diabo passasse com as bruxas atrás de si. A bruxa, sua esposa, ao lançar a mão deveria ser puxada pelo marido para dentro do sanselimão desenhado no chão. As outras bruxas atormentariam o homem, chamando nomes e assobiando.

Os pescadores que viajavam à Terra Nova para a pesca do Bacalhau contavam histórias das esquimós apaixonadas por pescadores poveiros, naufrágios, as visitas a Saint John's (São Jones) e doris perdidos no meio do oceano, baseadas em parte realidade e parte lenda.

A Aventesma (na gíria local Benetesma) era um vulto muito alto, cuja forma se assemelharia às vestes de um padre. E, quanto mais se olhava mais crescia, se fosse muito alto formava um arco. Ao se ver no caminho, dever-se-ia lançar um tamanco e se o tamanco trespassar o arco do vulto, poderia-se passar e seguir caminho, se não era mau sinal.

O Bezerro Maldito era um bezerro ou boi maldito que andava pelas ruas da Póvoa, ouvindo-se o som das patas ao passar. Na Póvoa não havia gado, esse existia apenas nas aldeias. Ti Desterra, uma conhecida contadora de histórias, conta que sempre ouviu essas histórias e, quando criança, que o viu numa noite de Verão de forte nortada, que era preto e branco e, quando o bezerro passou, havia uma ventania tal que fazia remoinho.

O Peixe Grande era o nome que os poveiros davam a uma gigantesca criatura marinha. Nos dias santos (Dia de Corpo de Deus, Sexta-Feira Santa, Domingo, etc.) o pescador não ia para o mar por causa de um acontecimento que se contava que no Dia do Corpo de Deus, uns pescadores foram para o mar, o barco encheu-se do melhor peixe, os pescadores contentes seguiram de volta para a Póvoa, pois neste dia estava cheia de visitantes por causa da festa religiosa. De repente, notam que atrás deles vinha um peixe muito grande, o mestre disse logo que foi castigo divino e eles para se defenderem, atiravam o peixe ao mar, ao chegarem à terra já sem peixe beijaram a areia e nunca mais o pescador poveiro foi ao mar em dias santos.

thumb|140px|left|Dizia-se que a Fonte da Bica providenciava às raparigas solteiras "um meio excelente de provisão de matrimónio" A lenda da Grande Cobra, relatada em 1758, está ligada à devoção da Senhora de Varzim, uma imagem do século XIII que teria aparecido milagrosamente, e à antiga Matriz da Póvoa, templo românico-gótico do século XI localizado no Largo das Dores, local que era conhecido por ser habitado por répteis venenosos especialmente a Grande Cobra. A Matriz localizada no largo possuía um ofídio, um elemento arquitectónico tipicamente românico semelhante a uma serpente ao qual o povo associava à lenda do aparecimento da imagem e do desejo da Senhora de Varzim de ali se manter, segundo interpretação popular, e não no templo localizado no centro da povoação, que era preferido pela população.

O Cabo de Santo André, um local que evidencia romanização, que na época denominava-se Promontorium Avarus e em Grego Auaron akron (Αὔαρον ἄκρον), um nome de origem celta. É local de culto antigo entre os poveiros, que era comum ver grupos de pescadores, de lampião na mão, em peregrinação até à Capela na última noite de Novembro. Santo André pesca, das profundezas, as almas dos náufragos e quem não ia a Santo André em vida lá terá de ir depois de morto. - CMPV Junto ao cabo, existe um penedo, cujas fossas o povo acredita serem as pegadas do santo. Consta que no grande naufrágio de 1892, muitos corpos foram encontrados junto ao cabo.

O Monte de São Félix é um monte religioso, e de devoção entre os pescadores por ser visível do mar. Ao monte está associada a lenda de São Félix, um pescador de Villa Mendo, uma vila desaparecida nas dunas e reencontrada no século XX, e a São Pedro de Rates, mítico pregador da cristandade na região que terá sido martilizado numa fonte posteriormente dita milagrosa, denominada Fonte de São Pedro de Rates na aldeia de Casal em Balazar. Outra fonte em zona rural, era a Fonte da Moura Encantada, ou do Castro, ligada à divindade pagã Moura. Na cidade, a Fonte da Bica era tida como fonte casamenteira, mas por onde o Diabo passava nas noites de sexta-feira de lua cheia.

Usos e costumes thumb|Um homem trajando uma camisola poveira durante um espectáculo do Rancho Poveiro no Passeio Alegre Influências nórdicas