miniaturadaimagem|461x461px|Brasília, marco da arquitetura modernista brasileira Arquitetura modernista no Brasil refere-se, principalmente, ao movimento arquitetônico brasileiro que teve destaque principalmente no período entre 1930 e 1960. Recebeu a influência direta do movimento moderno europeu e mais especificamente do arquiteto e pensador francês Le CorbusierCAVALCANTI, Lauro. Moderno e brasileiro: A história de uma nova linguagem na arquitetura (1930-60). Rio de Janeiro: Zahar, 2006.. Exemplos dessa arquitetura moderna são o Edifício Gustavo Capanema, a Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, em Belo Horizonte, e todo o projeto arquitetônico e urbanístico de BrasíliaSEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil: 1900-1990. 2.ed. São Paulo: Edusp, 1999.KAMITA, João Masao. Espaço moderno e país novo. Arquitetura moderna no Rio de Janeiro. 1999. 184f. Tese (Doutorado) - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1999.GUIMARÃES, Cêça. Arquitetura MARTINS, Carlos Alberto F. (coord.). Projeto integrado de pesquisa "Constituição da Arquitetura Moderna em São Paulo (1939-1970)" .
Como disse o crítico britânico Reyner Banham em 1962, o Brasil foi o primeiro país a criar um "estilo nacional de arquitetura moderna". O desenvolvimento do modernismo em toda a expressão artística brasileira esteve ligado à busca por um projeto nacionalKAMITA, João Masao. Espaço moderno e país novo. Arquitetura moderna no Rio de Janeiro. 1999. 184f. Tese (Doutorado) - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1999..
Histórico
A arquitetura modernista brasileira consolidou-se entre as décadas de 1930 e 1960, sendo um movimento amplo que perpassou por várias instâncias da vida nacional, como política, educação, economia e sociedade, uma forma de criar um novo país por meio da arquitetura e do urbanismoCAVALCANTI, Lauro. Moderno e brasileiro: A história de uma nova linguagem na arquitetura (1930-60). Rio de Janeiro: Zahar, 2006.. Em Moderno e brasileiro, Lauro Cavalcanti interpreta esse processo como a construção de uma linguagem arquitetônica nacional ao mesmo tempo que também busca referências e marcos internacionais. Para o autor, o modernismo brasileiro não surgiu como apenas a importação das vanguardas europeias, mas como resultado de um complexo e constante diálogo entre influências estrangeiras, transformações políticas internas e a busca por uma identidade cultural própria CAVALCANTI, Lauro. Moderno e brasileiro: A história de uma nova linguagem na arquitetura (1930-60). Rio de Janeiro: Zahar, 2006..
As origens desse movimento antecedem a Revolução de 1930 e se relacionam às mudanças culturais, políticas, intelectuais e socioeconômicas ocorridas nas primeiras décadas do século XX. Até então, predominavam no país estilos historicistas e ecléticos, inspirados sobretudo em modelos franceses. A arquitetura predominante na Primeira República buscava afirmar prestígio e civilização por meio de edifícios monumentais inspirados nos movimentos clássicos, neobarrocos ou art nouveau. Contudo, com os avanços industriais, a urbanização crescente e o contato da intelectualidade com novas correntes artísticas, esses modelos tradicionais passam a ser questionadosCAVALCANTI, Lauro. Moderno e brasileiro: A história de uma nova linguagem na arquitetura (1930-60). Rio de Janeiro: Zahar, 2006..
A Semana de Arte Moderna de 1922, realizada em São Paulo, tem um papel simbólico fundamental nesse processo de criação de um modernismo brasileiro. Embora voltada principalmente ás artes plásticas e à literatura, a Semana de 1922 abriu espaço para a formação de um arcabouço crítico às convenções acadêmicas, clamando pela valorização de uma cultura autenticamente brasileira GONÇALVES, Marcos A. 1922 - A Semana Que Não Terminou. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.ANDRADE, Gênese (org.). Modernismos 1922-2022. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.. A arquitetura ainda não era peça central desse movimento incial dos modernistas, mas os ideais do movimento de ruptura estética, funcionalidade e nacionalismo cultural já preparavam o terreno para as transformações que se dariam dali em diante, principalmente a partir de 1930, início da era Vargas.
Entre os pioneiros dessa nova arquitetura, destaca-se Gregori Warchavchik, arquiteto russo naturalizado brasileiro e frequentemente considerado um dos pioneiros da arquitetura moderna no paísFERRAZ, Geraldo. Warchavchik e a introdução da nova arquitetura no Brasil: 1925 a 1940. São Paulo: Ed. Habitat, 1965. Seus projetos construídos em São Paulo ao fim da década de 1920, especialmente a Casa Modernista, situada à rua Santa Cruz, na Vila Mariana, romperam com os padrões ornamentais do ecletismo e incorporaram princípios racionalistas inspirados nas vanguardas europeias. Formas geométricas simples, ausência de ornamentos complexos e valorização da funcionalidade passaram a caracterizar uma arquitetura alinhada aos debates internacionaisCAVALCANTI, Lauro. Moderno e brasileiro: A história de uma nova linguagem na arquitetura (1930-60). Rio de Janeiro: Zahar, 2006..
No entanto, segundo CavalcantiCAVALCANTI, Lauro. Moderno e brasileiro: A história de uma nova linguagem na arquitetura (1930-60). Rio de Janeiro: Zahar, 2006., a arquitetura modernista brasileira ganha força a partir da década de 1930, em estreita relação com a ascensão de um Estado nacional centralizador, liderado por Getúlio Vargas. O novo governo buscava construir um construir uma imagem de modernização e progresso, e a arquitetura tornou-se instrumento simbólico dessa transformação. Nesse cenário, o modernismo passa a representar eficiência administrativa, racionalidade técnica e renovação cultural.
miniaturadaimagem|Fachada sul do Edifício Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro
Um marco dessa época foi o projeto do prédio do Ministério da Educação e Saúde, na então capital federal, encomendado pelo ministro da pasta Gustavo Capanema em 1936. O projeto reuniu uma equipe de jovens arquitetos liderada por Lúcio Costa e integrada por Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy e outros profissionais ligados ao modernismo. A consultoria de Le Corbusier reforçou a conexão do projeto do edifício com o modernismo internacional. COSTA, Lucio. Edificio do Ministério da Educação e Saude. AU-Arquitetura e Urbanismo. Rio de Janeiro. jul./ago. 1939.COSTA, Lucio. Ministério, da participação de Baumgart à revelação de Niemeyer. Projeto. ago. 1987. O prédio do MES sintetizou diversos proncípios modernistas, como pilotis, fachada livre, integração entre arquitetura e artes plásticas, uso de brises-soleil e valorização das condiçoes climáticas tropicais. Para CavalcantiCAVALCANTI, Lauro. Moderno e brasileiro: A história de uma nova linguagem na arquitetura (1930-60). Rio de Janeiro: Zahar, 2006., esse projeto marca o momento que o Brasil deixa de apenas receber influências externas e começa a formular uma linguagem moderna própria.
Ao longo das décadas de 1940 e 1950, a arquitetura moderna brasileira passa a alcançar reconhecimento internacional e o Brasil passa a ser visto como um laboratório criativo capaz de reinterpretar princípios racionalistas do modernismo europeu de uma forma mais leve, plástica e adaptada às condições tropicais do país, Oscar Niemeyer destacou-se nesse processo ao explorar curvas, volumes escultóricos e uso criativo do concreto armado. Suas obras na Pampulha são exemplos de uma arquitetura marcada pela liberdade formal e a integração entre edificações, paisagem e arte. Além de Niemeyer, outros arquitetos desempenharam papel central na consolidação da arquitetura modernista no país. Lúcio Costa articulou os fundamentos teóricos do movimento e defendeu a conciliação entre a tradição e a modernidade. Affonso Eduardo Reidy destacou-se pela preocupação social e urbanística, sobretudo em projetos habitacionais. Roberto Burle Marx transformou o paisagismo moderno em elemento fundamental da arquitetura nacional, incorporando espécies tropicais e composições abstratas aos espaços urbanos. João Batista Vilanova Artigas desenvolveu, principalmente em São Paulo, uma vertente mais estrutural e socialmente engajada do modernismoCAVALCANTI, Lauro. Moderno e brasileiro: A história de uma nova linguagem na arquitetura (1930-60). Rio de Janeiro: Zahar, 2006..
miniaturadaimagem | direita | alt=Palácio do planalto com luzes laranja durante a tarde | Palácio do Planalto
O ápice simbólico desse processo ocorreu com a construção de Brasília. Promessa de campanha, a nova capital foi construída por Juscelino Kubitschek em três anos, inaugurada a 21 de abril de 1960 e teve projeto urbanístico de Lúcio Costa e edificações de Niemeyer. Brasília representa a síntese do projeto moderno brasileiro, simbolizando uma ideia de futuro, integração territorial e desenvolvimento nacionalKUBITSCHEK, Juscelino. ''Por que construí Brasília. Brasília: Senado Federal, 2000.
Ver também
Modernismo no Brasil Escola Carioca Escola Paulista
Referências
Categoria:Arquitetura do Brasil do século XX