Admirável Chip Novo é o álbum de estreia da artista musical brasileira Pitty. O seu lançamento ocorreu em 3 de abril de 2003, através da gravadora independente Deckdisc. Após se desligar das atividades como vocalista do grupo de hardcore punk Inkoma, Pitty continuou a compor novas canções, porém sem quaisquer pretensões de registrá-las naquele momento. Em 2002, Pitty foi procurada pelo produtor musical e executivo da Deckdisc, Rafael Ramos, que lhe pediu uma fita com suas composições em voz e violão. Depois de ouvir o material gravado, ele a contratou para o selo em um acordo de diversos álbuns. Pitty viajou para o Rio de Janeiro para trabalhar no álbum, com diversos músicos, como Joe, Peu Sousa e Duda Machado. O disco trouxe onze faixas totalmente autorais, compostas apenas pela intérprete, sendo que somente uma delas foi concebida em parceria. Musicalmente, incorpora estilos hard rock e rock alternativo, com letras que convidam a refletir sobre padrões sociais e o consumismo.

Admirável Chip Novo obteve análises positivas da mídia especializada, a qual o elogiou como um forte projeto de estreia. Durante a cerimônia de 2004 do Grammy Latino, o projeto concorreu ao prêmio de Melhor Álbum de Rock Brasileiro. Comercialmente, tornou-se o disco em que Pitty foi "descoberta" e estabeleceu notoriedade em todo o Brasil. Foi premiado com o certificado de platina, reconhecendo mais de duzentas mil cópias vendidas.

Seis singles foram lançados do álbum, incluindo "Máscara", "Admirável Chip Novo" e "Teto de Vidro", cujos vídeos musicais se tornaram sucesso em canais televisivos e figuraram em trilhas sonoras de produções televisivas. Além disso, seus vídeos renderam à intérprete várias indicações ao MTV Video Music Brasil por dois anos seguintes. Como forma de divulgação do material, Pitty se apresentou em vários programas de televisão e iniciou uma digressão que percorreu o Brasil. Em retrospecto, profissionais especializados destacam a influência do disco na música popular da época, especialmente como ele ajudou a reinventar o rock brasileiro na cultura de massa da década de 2000. Eles também destacam a maneira como Pitty atraiu a atenção de ouvintes mais jovens para o gênero em meio a um período dominado por expoentes do pop romântico.

Antecedentes e desenvolvimento

O primeiro investimento profissional de Pitty em sua carreira musical ocorreu em 1998, quando assumiu os vocais do Inkoma; uma banda de hardcore punk formada em Salvador, Bahia. O conjunto fez com que ela conseguisse certo grau de notoriedade no cenário underground de sua cidade natal, principalmente após gravarem um disco demo que, lançado naquele mesmo ano, vendeu 15 mil cópias. Foi liberado, ainda, uma música de trabalho, intitulada "Soneto", que ganhou um vídeo musical inspirado na obra do poeta Gregório de Matos, e lançaram o seu primeiro extended play (EP), Influir, em 2000, pelo selo independente Tamborete Entertainment. No entanto, eles romperam no ano seguinte. De acordo com Pitty, isso ocorreu "porque cada um tava a fim de fazer uma coisa, foi bem natural. A gente nem chegou a decretar o fim da banda, foi indo".

Em seguida, ela decidiu se dedicar aos estudos e ingressou no curso de Música da Universidade Federal da Bahia, onde estudou por dois semestres. Nesta época, a artista continuou a escrever novas canções, sem pretensão de gravá-las naquele momento. Até que o produtor musical Rafael Ramos — quem Pitty conheceu em 1998 através do mesmo circuito que frequentava com o Inkoma —, demonstrou interesse em conhecer as suas composições, vindo, em seguida, a convidá-la para registrá-las em um álbum que seria publicado por sua editora, a recém criada Deckdisc. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Pitty relatou o acontecimento: "Depois que a banda acabou, continuei fazendo música. Não sabia bem para que, mas continuei compondo só com voz e violão e gravando num gravadorzinho de mão. Um dia, o Rafael me ligou e pediu para ouvir a fita. Mandei para ele de brincadeira, porque estava tudo bem tosco, mal gravado. Mesmo assim, ele gostou e me convidou para gravar o disco".

Para as sessões de gravação do projeto, a musicista foi morar sozinha em um apartamento alugado pelo selo no Rio de Janeiro. Como ela não tinha banda de apoio, uma tentativa de usar músicos cariocas a deixou insatisfeita, conforme contou à Vice: "'Tinha feito até testes com outros músicos no Rio, e eu pensava: 'Gente, não, essa banda tem que ser a galera de Salvador, tá estranho, tá esquisito'". Então, ela convidou seus conterrâneos, Joe, Peu Sousa e Duda Machado, para contribuírem com bateria, guitarra e baixo na obra, respectivamente. À TPM, ela descreveu o processo de montagem da banda: "Ficava com receio de levar o Duda porque achava que nosso [então] relacionamento [amoroso] acabaria se misturássemos as coisas. Só que a data-limite chegou e eu falei: 'Vamos lá!'. Aí apareceu o Joe e o Peu e fomos numa batida de: 'Gravamos e depois a gente vê o que dá'. Ficamos um tempo resolvendo se era ou não uma banda. Eu queria que fosse, mas não sabia se eles iam continuar comigo, então botamos o nome de Pitty". Além dos citados, o trabalho conta com participações especiais; Jaques Morelembaum empresta seu violoncelo à "Temporal" e Liminha toca uma linha de baixo em "Equalize". Com exceção dessa última citada, a intérprete escreveu sozinha cada uma das onze faixas presentes no álbum. No total, suas sessões de gravação ocorreram no Estúdio Tambor ao longo dos anos de 2002 e 2003.

Título e arte

Para nomear o álbum, Pitty se inspirou em Admirável Mundo Novo, um livro de ficção científica escrito pelo autor britânico Aldous Huxley, publicado originalmente em 1932. A cantora queria que o título fizesse uma ligação com o conceito do livro, que trata de uma sociedade nos anos 2500 sem consciência crítica sobre a realidade. A acadêmica Carolina Quarteu Rivera, da Universidade Federal da Paraíba, indicou que tanto o título do álbum, da canção com nome homônimo, como as temáticas que permeiam, dão unidade à obra e "tratam da manipulação e alienação humana atual que através de um sistema operacional nos programa como se fôssemos robôs. Nesse ponto, a referida obra musical nos leva à reflexão de que os nossos direitos à liberdade, à autonomia da vontade, à livre expressão e manifestação do pensamento, entre outros, que supostamente nos tornam livres, na verdade, nos tornam apenas 'marionetes' dentro desse grande sistema controlado pelo capitalismo". Em entrevista à MTV Brasil, a musicista explicou de forma mais aprofundada sobre essa influência: "É um livro que eu me amarro. Eu sempre gostei muito de ler e, no momento que estava compondo as músicas para o disco, essa obra estava muito presente no meu dia a dia. Eu tinha acabado de reler o livro e de assistir Clube da Luta (1999) — um filme que me impressionou bastante por abordar a temática da robotização humana, da padronização, do que é certo ou errado, de regras e dogmas —, e acabaram me influenciando na hora de compor".

Sob a direção artística de João Augusto, as fotos para o encarte de Admirável Chip Novo foram registradas pelo fotógrafo de moda Christian Gaul. A capa do álbum traz uma foto do rosto de Pitty, do lado esquerdo de quem vê, em primeiro plano. Sua face remete a alguém paralisado, ao mesmo tempo, em estado de alerta e robotizado diante de algo tenebroso diante de si. O nome da artista aparece grafado no plano central da imagem, num azul quase roxo, quase que sublinhado pelo título do álbum. Este, grafado em branco e preto, de maneira "embaralhada", metaforiza um borrão, grafitado – em que a tinta negra escorre, feito sangue e óleo de homens máquinas, o que vai ao encontro da expressão vidrada do olhar hipnótico da imagem da artista, envolta por fios de náilon encorpados como arames. Danyllo Ferreira Leite Basso, em seu artigo para a Universidade Estadual Paulista, observou que este último elemento tinha como intenção aludir "as cadeias microscópicas dos poderes que nos cerceiam e nos dão a impressão de liberdade em nosso aprisionamento digital". O pesquisador também sentiu que "cores metálicas, tanto a do tom de azul quanto ao do cinza", que colorem a imagem, "referem-se à mecanicidade dos sujeitos. O tom frio leva-nos ao inverno das relações desumanizadas, distantes e em colapso, seja entre as pessoas e o mundo".

Repercussão Crítica profissional

Admirável Chip Novo recebeu avaliações em sua maioria positivas da crítica musical especializada. Para a Folha de S.Paulo, Pedro Alexandre Sanches classificou o conjunto com três de cinco estrelas. O escritor sentiu que Pitty não decepciona em sua estreia solo, a qual une "faixas [sonoramente] pesadas com letras expertas" e outras "experimentais com arranjos de cordas e violões", algo que o rock brasileiro da época, analisa, "estava carente". Bruno Porto, do jornal O Globo, recomendou o projeto ao seus leitores, dizendo que embora nele Pitty não explore seus vocais gritados e nem a sonoridade punk como nas canções do Inkoma, ela continuava fazendo um rock vigoroso, em um "disco muito bem produzido" e que reafirmava sua personalidade artística. Da mesma forma, Fabiana Bártholo, da MTV Brasil, comentou que a "aura que cerca o álbum indica, por alto, que apareceu alguém com atitude, amante do rock and roll e com desejo de transmitir para seu público um mínimo de conteúdo". Rafael Fracacio, do portal Let's Rock!, definiu Admirável Chip Novo como "uma grande explosão de rock. Som pesado, músicas consistentes, vocais precisos, letras repletas de poesia e conteúdo", o que "não o deixa nada a dever a qualquer obra do gênero". Encerra, o considerando "obrigatório para quem curte poesia, reflexão, e principalmente, rock de verdade".

Escrevendo para o jornal Tribuna da Imprensa, Tatiana Tavares concedeu duas de quatro estrelas para o disco. Em uma revisão menos entusiasta, ela prezou os vocais de Pitty, mas analisou que seu primeiro álbum não era tão consistente, escrevendo: "Admirável Chip Novo é um "disco de menina" que, não optou pelo pop romântico nonsense ou pela postura mal amada das roqueiras americanas", é "agressivo, com guitarras fortes", como em "Máscara", mas "com pontos fracos", como em "O Lobo" que, ao seu ver, "exibe uma letra pretenciosa"; a periodista expressa que um disco de estreia "está sujeito a este tipo de coisa" e que "as vezes é necessário atirar para mais de uma direção para conseguir escolher aonde ir, e é exatamente o que Pitty faz". De forma mais favorável, encerra o avaliando como "uma boa estreia" e como um sinal de um "inicio de uma carreira promissora". Dando duas estrelas de cinco totais, Marco Antonio Barbosa, do CliqueMusic, compartilhou de opinião similar a de Tavares, também apreciando os vocais da intérprete, assim como suas composições que "não desapontam"; contudo, sentiu que o trabalho "peca por ser um tantinho ambicioso demais", acrescentando: "Há todo um conceito meio 'distópico-quase-pós-apocalíptico', que se reflete nas letras e no visual do CD, que acaba soando ingênuo em vista do resultado final". O profissional, ainda, foi negativo em relação à produção "polida e radiofônica" de Ramos, dizendo "que tira um pouco da 'rascância' natural da banda". O resultado final, avalia, é um disco com "diversidade, solidez nas composições e qualidade nas performances. Mesmo que não tenha chegado para mudar nada".

Prêmios