miniaturadaimagem|A deusa celestial Nut, representada como uma vaca. O Livro da Vaca Celestial (também conhecido como Livro da Vaca do Céu) é um importante texto mitológico e escatológico do Antigo Egito. Ao contrário de outros guias do submundo, o texto tem um caráter etiológico, focando primordialmente nas razões pelas quais os deuses se separaram da humanidade e na reestruturação do cosmos após uma tentativa de aniquilação da raça humana.Hornung, Erik. The Ancient Egyptian Books of the Afterlife. Cornell University Press, 1999.
Fontes e contexto histórico À semelhança do Livro dos Mortos e de outras composições funerárias reais, a obra não era um livro no sentido moderno do termo, mas sim um conjunto de inscrições parietais. O texto foi registrado em neo-egípcio (a fase da língua egípcia típica do Império Novo) nas paredes dos santuários e câmaras de vários túmulos de faraós situados no Vale dos Reis, incluindo os de Tutancâmon, Seti I, Ramessés II, Ramessés III e Ramessés VI.
Embora as cópias sobreviventes datem do Império Novo (c. 1550–1069 a.C.), especialistas em egiptologia acreditam que o núcleo do mito tenha se originado muito antes, possivelmente durante o Império Médio, refletindo os traumas e a instabilidade política do Primeiro Período Intermediário.Pinch, Geraldine. Egyptian Myth: A Very Short Introduction. Oxford University Press, 2004.
Estrutura e narrativa O Livro da Vaca Celestial é habitualmente dividido em duas partes principais, que explicam o fim da era mítica em que divindades e seres humanos habitavam juntos a Terra.
O mito da destruição da humanidade A primeira parte narra a rebelião dos seres humanos contra o deus solar Rá. Governando a Terra como um rei físico durante uma "Era de Ouro", Rá acaba envelhecendo e demonstrando sinais de debilidade. Aproveitando-se de sua fraqueza, a humanidade começa a conspirar contra o criador.
Ao descobrir a traição, Rá convoca um conselho com as divindades primordiais — Shu, Téfnis, Gebe, Nun e Hator — para deliberar sobre uma punição. Seguindo o conselho de Nun, Rá projeta o seu "Olho" (uma personificação de seu poder destrutivo) na forma da deusa Hator. A deusa inicia a punição, mas logo assume a forma da feroz leoa Sacmis, entregando-se a uma matança cega e indiscriminada.
Horrorizado ao perceber que a deusa aniquilaria toda a vida humana, Rá decide intervir. Ele recorre a um estratagema engenhoso: ordena que seja fabricada uma imensa quantidade de cerveja misturada com ocre vermelho, assemelhando-se a sangue, e espalha a bebida pelos campos. Atraída pelo líquido, a deusa bebe a mistura, embriaga-se profundamente e esquece a sua fúria, poupando os sobreviventes da raça humana.Wilkinson, Richard H. The Complete Gods and Goddesses of Ancient Egypt. Thames & Hudson, 2003.
A ascensão da vaca celestial A segunda parte do texto relata as consequências psicológicas da rebelião para o deus sol. Desiludido com a maldade, a ingratidão dos seres humanos e exausto de governar na Terra, Rá decide abandonar o plano físico.
Ele ascende ao firmamento montado nas costas de sua filha, a deusa Nut, que assume a forma de uma colossal vaca divina. A elevação de Nut cria a abóbada celeste, marcando a separação definitiva entre a terra (Gebe) e o céu. Para evitar que a vaca desabe sob o próprio peso, Rá encarrega o deus Shu e os oito deuses da eternidade (os deuses Ḥeḥ) de sustentarem as suas patas e o seu ventre.
Antes de partir para o cosmos, estabelecendo o ciclo do dia e da noite, Rá delega a administração da humanidade e a representação de sua autoridade na Terra a Tote, o deus da sabedoria. Esse momento sela o fim da convivência direta entre deuses e homens e estabelece a ordem cósmica tradicional da religião egípcia.Taylor, John H. Journey Through the Afterlife: Ancient Egyptian Book of the Dead. British Museum Press, 2010.
Categoria:Mitologia egípcia Categoria:Textos funerários do Antigo Egito