miniaturadaimagem|O marechal Alfred von Schlieffen. O Plano Schlieffen foi o plano militar aplicado pelo exército alemão no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Inicialmente concebido por Alfred von Schlieffen, chefe do Estado-Maior alemão entre 1892 e 1906, foi posto em prática, com alterações introduzidas pelo seu sucessor, Helmuth von Moltke. O plano previa resolver uma questão que preocupava os alemães em caso de conflito: uma guerra em duas frentes, ou seja, uma guerra contra a França e, muito provavelmente, contra o Reino Unido, na frente ocidental e, simultaneamente, uma guerra contra a Rússia, na frente oriental. O plano falhou no seu principal objectivo que era obter uma vitória rápida e decisiva a ocidente para, em seguida, transferir forças para oriente e ali obter outra vitória decisiva.

Antecedentes A guerra em duas frentes thumb|O problema da guerra em duas frentes a partir de 1871 colocava-se à Alemanha que se preparou militarmente para um confronto simultâneo com a França e a Rússia. No tempo de Bismarck (1871-1890), esse confronto foi evitado pelo sistema de alianças criado pelo chanceler alemão. É útil recordar a questão que levou ao desencadear da Guerra Franco-Prussiana (1870-1871). O trono espanhol era ocupado pelos Bourbons mas uma revolta provocou o exílio de Isabel II de Espanha. Os revoltosos procuraram um novo soberano fora da família dos Bourbons. Foi feito o convite a um príncipe da família Hohenzollern. Trocar um soberano da Casa dos Bourbons, tradicionais aliados dos Franceses, por um soberano da família real da Prússia era não só uma humilhação para França como colocava esta potência em perigo de enfrentar uma guerra em duas frentes: nos Pirenéus e na fronteira com a Confederação da Alemanha do Norte.Farwell, 2001, pp. 322-324 thumb|O problema da guerra em duas frentes em 1870: a França entre a Espanha e a Confederação da Alemanha do Norte, ambas dominadas pela Casa de Hohenzollern. A Guerra Franco-Prussiana teve como desfecho a derrota da França, a unificação da Alemanha num império em que a Prússia mantinha a hegemonia e a transferência dos territórios da Alsácia-Lorena para o domínio alemão. A ordem europeia daí resultante durou até à Primeira Guerra Mundial. Durante a Guerra Franco-Prussiana, os governantes das principais potências da época concluíram que a forma de fazer a guerra dos Alemães era a mais eficaz e, em consequência disso, os procedimentos alemães começaram a ser adoptados, com mais ou menos sucesso, nos seus exércitos. O objectivo era, à semelhança dos Alemães, obterem vitórias rápidas e decisivas. Ora, na Guerra Franco-Prussiana, a vitória alemã foi rápida mas não decisiva. A Terceira República Francesa, que então se formou, continuou a luta e só aceitou a derrota porque receou mais a Comuna de Paris que o exército alemão que cercava capital francesa.Cowley & Parker, 1996, p. 168-169

Depois de 1871, a guerra em duas frentes deixou de ser uma preocupação francesa. Na Espanha, Amadeu I, da Casa de Sabóia, sucedeu a Isabel II que ficou exilada em Paris até à sua morte em 1904. A questão da guerra em duas frentes colocava-se agora à Alemanha: uma guerra simultânea contra a França, a ocidente, e contra a Rússia, a oriente. Se não existiam questões entre a Alemanha e a Rússia que levassem a antever uma guerra entre estas duas potências, já o mesmo não se podia dizer da França, para quem a perda da Alsácia e parte da Lorena tinha consequências de carácter militar e económico. Esta possibilidade foi evitada pelo chanceler alemão Otto von Bismarck que usou «toda a sua inesgotável energia na defesa do status quo favorável ao seu país.» Milza, 2007, p. 7

Os atores no palco alemão «A queda de Bismarck em 1890 permite a divisão em duas partes da história do império alemão.»Droz, 1989, p. 58 Desde a formação do império e até 9 de Março de 1888, foi imperador Guilherme I da Alemanha. A 9 de Março, subiu ao trono Frederico III da Alemanha que morreu pouco tempo depois, a 15 de Junho de 1888. Sucedendo-lhe o seu filho, Guilherme II da Alemanha, que foi imperador até 1918. thumb|Otto von Bismarck em 1873. Otto von Bismarck foi chanceler do Império Alemão desde 1871 a 1890. Neste ano, após divergências profundas com Guilherme II, que não entendia a política do seu chanceler tanto interna como externa, Bismarck foi forçado a demitir-se.Droz, 1989, p. 65 Sucedeu-lhe Leo von Caprivi que manteve o mandato até Outubro de 1894. Caprivi foi substituído por Chlodwig Karl Victor zu Hohenlohe-Schillingsfürst e este, por sua vez, foi substituído em Outubro de 1900 por Bernhard von Bülow. Finalmente, a 7 de Julho de 1909, o cargo de chanceler foi ocupado por Theobald von Bethmann-Hollweg que se manteve quase até ao final da guerra (até 1917). Nenhum destes sucessores de Bismarck, conseguiu prosseguir a obra do chanceler de ferro. «Apenas Bülow tem alguma envergadura, mas não a autoridade necessária para exercer um poder que Bismarck criou à sua medida.»Droz, 1989, p. 68

Durante a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), era (desde 1857) Chefe do Estado-Maior General da Prússia o general Helmuth von Moltke (Moltke, o velho) que se manteve nessas funções até 1888. Nesse ano foi substituído por Alfred von Waldersee que se manteve no cargo até 1891. Neste ano, Alfred von Schlieffen assumiu aquelas funções e manteve-as até Janeiro de 1906, quando foi substituído por Helmuth Johannes Ludwig von Moltke (Moltke, o jovem), sobrinho de Moltke, o velho. Moltke manteve-se em funções até ao final de 1914.

A época de Bismarck No fim da Guerra Franco-Prussiana, proclamado o Império Alemão e anexadas as regiões da Alsácia e da Lorena, Bismarck entendeu que o mais importante a partir daí era manter o status quo territorial que era favorável à Alemanha. No entanto, Bismarck pensava que a França, se tivesse uma oportunidade favorável, não deixaria de tentar reaver a Alsácia e a Lorena. Assim, o objectivo da diplomacia de Bismarck era isolar a França ou, no mínimo, não permitir que se criassem as condições para a desforra da guerra de 1870-1871. Para já, a França tinha de pagar a indemnização que lhe foi imposta pelo Tratado de Frankfurt, o que conseguiu com seis meses de antecipação (Outubro de 1873). Este pagamento determinou a partida das forças alemãs de ocupação. Estas tropas eram a causa de constantes atritos. Durante o período que permaneceram em França, desde o final da guerra, surgiram vários incidentes. A sua partida, após o pagamento da dívida, aliviou a tensão nas relações entre a França e a Alemanha.Milza, 2007, pp. 18-20 thumb|Helmuth von Moltke, Chefe do Estado-Maior General alemão no tempo de Bismarck. No entanto, a desconfiança persistia. Bismarck tomou uma série de iniciativas diplomáticas para isolar a França e manter um relacionamento favorável com a Rússia. Em 1873 foram assinadas as convenções que deram origem à Liga dos Três Imperadores (Alemanha, Áustria e Rússia) que garantia o isolamento diplomático da França. Uma crise franco-alemã em 1875 veio mostrar que aquele isolamento não era completo pois a França obteve garantias de apoio diplomático do Reino Unido e a Rússia fez saber que não concordava com nenhuma intervenção militar (preventiva) por parte da Alemanha. A crise balcânica de 1875-1878 foi mais grave pois a Áustria-Hungria chegou a preparar a mobilização contra a Rússia. Se a Rússia se desligasse dos compromissos com a Alemanha e a Áustria-Hungria poderia eventualmente aliar-se à França. Essa era a situação que Bismarck tinha de evitar. A 7 de Outubro de 1879 assinou um tratado de aliança com a Áustria-Hungria e, mais tarde, sob a ameaça de deixar o seu aliado isolado, conseguiu reconstruir a Liga dos Três Imperadores (18 de Junho de 1881). Nesse ano, a Itália iniciou a aproximação à Alemanha e à Áustria-Hungria e, no ano seguinte, foi assinado o tratado que criou a Tríplice Aliança (1882). Em 1887, esta aliança foi renovada mas não a Liga dos Três Imperadores porque o czar Alexandre III considerou que a Áustria-Hungria estava a estender demasiado a sua influência nos Balcãs. Bismarck conseguiu, no entanto, assinar um tratado secreto (devido às cláusulas referentes aos estreitos do Bósforo e de Dardanelos) com a Rússia: o Tratado de Resseguro (18 de junho de 1887). Com este tratado mantinha a França isolada, ou seja, sem apoios que lhe permitissem atacar a Alemanha.Milza, 2007, pp. 18-43

Durante a maior parte destes anos em que Bismarck foi chanceler do Império Alemão, foi chefe do Estado-Maior General o arquitecto da vitória alemã em 1871, Helmuth von Moltke. Apesar de Bismarck ter construído um sistema de alianças que pareciam garantir o equilíbrio necessário para evitar a guerra, não foi descurada a perspectiva militar. Para o caso de ser necessário enfrentar uma guerra em duas frentes, Moltke tinha previsto dividir o exército alemão em duas partes semelhantes e cada uma delas assumia uma postura defensiva a ocidente (contra a França) e a oriente (contra a Rússia). Atendendo a que o objectivo da França seria o de recuperar os territórios da Alsácia-Lorena, era de admitir que aquela potência tomaria a iniciativa do ataque. Moltke pretendia derrotar os Franceses fazendo fracassar o seu ataque e obrigando-os depois a aceitar um compromisso de paz. Para a frente oriental, a estratégia era idêntica: derrotar o ataque russo e, em seguida, empurrar as forças inimigas para uma distância que permitisse assegurar a segurança da fronteira alemã para então propor um compromisso de paz. A força que primeiro conseguisse uma vitória seguida do respectivo acordo poderia libertar tropas para a outra frente. A estratégia de Moltke, tal como a diplomacia de Bismarck, visava atingir uma situação de compromisso político, um compromisso favorável a uma Alemanha vitoriosa, mas não a uma vitória total.Kissinger, 1994, pp. 204-205

A época pós-Bismarck Moltke abandonou o cargo de Chefe de Estado-Maior General em 1888 e foi sucedido pelo general Waldersee que seguiu a mesma linha de planeamento do seu antecessor.Santos, 1949, pp. 26-27 Em 1891, o cargo foi ocupado por Alfred von Schlieffen. Guilherme II tinha subido ao trono em 1888. Bismarck fora substituído por Caprivi em 1890. Os sucessores de Bismarck, e também o imperador, não aceitaram o sistema formado por duas alianças que se sobrepunham, a Tríplice Aliança e o Tratado de Resseguro. Além disso, a Alemanha, com uma economia em desenvolvimento e carente de mercados, lançou-se em iniciativas coloniais e marítimas, isto é, iniciou a Weltpolitik (política mundial). Por seu lado, Schlieffen só aceitava uma vitória total, ou seja, a rendição incondicional do inimigo. Assim, foi afastada a possibilidade de, após a vitória inicial, enveredar por compromissos diplomáticos.Kissinger, 1994, p. 205Milza, 2007, p. 83 thumb|Guilherme II da Alemanha em 1908. O último imperador do Segundo Império Alemão (Deutsches Kaiserreich) foi seduzido pelas ideias nacionalistas e militaristas.