O termo utopia costuma ser utilizado para descrever uma sociedade imaginária que possuiria qualidades altamente desejáveis ou quase perfeitas para os seus cidadãos.

O termo foi, inicialmente, cunhado por Sir Thomas More no livro Utopia, de 1516, que descreveu uma sociedade insular fictícia no sul do Oceano Atlântico, na costa da América do Sul.

O oposto de utopia é distopia, gênero que, a partir da década de 1950, passou a dominar a literatura ficcional, principalmente por causa do impacto da obra: "1984" de George Orwell, publicada em 1949.

O termo utopia também pode denotar experimentos reais que tentaram construir sociedades utópicas.

As utopias literárias costumam priorizar, entre outras coisas, a igualdade, em categorias como economia, governo e justiça, com o método e a estrutura de implementação proposta variando de acordo com a ideologia do autorHenry Giroux (2003). "Utopian thinking under the sign of neoliberalism: Towards a critical pedagogy of educated hope]". Democracy & Nature. Routledge. 9 (1): 91–105.

Etimologia

A palavra foi criada a partir da justaposição dos termos gregos antigos "οὐ" (prefixo de negação) e "τόπος" (lugar), significando o "não lugar" ou "lugar que não existe". É um termo inicialmente utilizado por Thomas More, que serviu de título para sua principal obra, escrita em latim por volta de 1516.FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 1 745. Atualmente, o termo é utilizado estritamente para descrever sociedades inexistentes consideravelmente melhores do que a sociedade contemporânea, não se aplicando a quaisquer sociedades fictícias e, muito menos, a distopiasUtopianism: A very short introduction. , em inglês, acesso em 21/10/2021. Sargent, Lyman Tower (2005). Rüsen, Jörn; Fehr, Michael; Reiger, Thomas W. (eds.). The Necessity of Utopian Thinking: A cross-national perspective. Thinking Utopia: Steps into Other Worlds (Report). New York: Berghahn Books. p. 11. .

O livro é uma forma de propagandear um projeto humanista de transformação social e representa aspectos capitais do humanismo renascentista. Segundo a versão de vários historiadores, More se fascinou pelas narrações extraordinárias do navegador português Rafael Hitlodeu, que navegara com Américo Vespúcio nas suas últimas viagens e ficara no litoral da América enquanto Vespúcio regressava à Europa. Aí, conhecera múltiplas regiões e visitara uma ilha cuja situação geográfica Rafael não mencionou. O encontro com Thomas More é mediado por Pedro Gilles e dá-se em Antuérpia, onde More se encontra de passagem.

O longo diálogo com Rafael divide-se em duas partes: na primeira parte, More tece duras críticas à sociedade real em que vive, aspirando por uma sociedade perfeita; a segunda parte consta da narração de Rafael da ilha idealizada que conhecera com todos os pormenores. A organização política, social, como se organizavam as famílias, a divisão dos trabalhos, as cidades, a alimentação, a saúde, etc.

Nesta ilha, todos vivem felizes, não desejam mais do que têm, pois cada um tem o que necessita, não mais; praticam as virtudes da temperança e da moderação. Essa ilha imaginária apresenta uma das sociedades 'possíveis', constituída com base na razão humana; trata-se de um verdadeiro exercício mental para resolver um problema que More enuncia do seguinte modo: dado um país no qual se ignorasse por completo tudo o que diz a revelação cristã, mas onde a razão humana pudesse resolver com isenção as questões do bem comum, que soluções se dariam para a organização política e social? A resposta — ou uma resposta — de Tomas More: a Utopia.

Mas há que ter em conta que o pensamento utópico pretende apurar uma racionalidade política, por um lado, e por outro, alimenta-se da imaginação, da fantasia, da fuga para um mundo irreal. A utopia é uma espécie de jogo entre um real que se rejeita e um ideal que se espera e deseja.

Reflexões sobre o conceito

Não há nada como um sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e sangue amanhã." - Victor Hugo; Um mapa-múndi que não inclui a Utopia nem vale a pena olhar, pois deixa de fora o único país em que a Humanidade está sempre pousando. E quando a Humanidade ali pousa, olha para fora e, vendo um país melhor, se põe vela. O progresso é a realização de utopias. - Oscar Wilde; Utopias muitas vezes são apenas verdades prematuras. - Alphonse de Lamartine; Nenhum dos conceitos abstratos chega mais perto de uma utopia realizada do que a da paz eterna. - Theodor W. Adorno; Acho que sempre há uma parte da utopia em qualquer relacionamento amoroso. - Pedro Almodóvar; Só em nós mesmos a luz absoluta continua brilhando, um "sigillum falsi et sui, mortis et vitae aeternae" [falso sinal e sinal da vida eterna e da própria morte], e o movimento fantástico para ele começa: para a interpretação externa do devaneio, o manipulação cósmica de um conceito que é utópico em princípio. - Ernst Bloch; Quando eu morrer, quero morrer em uma utopia que ajudei a construir. - Henry Kuttner; "A maioria dos dicionários associa a utopia com comunidades ideais, que eles caracterizam como uma realização empírica de uma vida ideal em uma sociedade ideal. Utopias, especialmente utopias sociais, estão associadas à ideia de justiça social - Lukáš PernýPERNÝ, Lukáš: "Utopians, Visionaries of the World of the Future (The History of Utopias and Utopianism)", Martin: Matica slovenská, 2020, p. 16; Utopias e outros modelos de governo, baseados no bem público, podem ser inconcebíveis por causa das paixões humanas desordenadas que, sob os governos errados, procuram evidenciar os interesses mal concebidos ou egoístas da comunidade. Mas embora achemos isso impossível, eles são ridículos para os pecadores cujo senso de autodestruição os impede de acreditar - Étienne Cabet no livro: "Viagem à Icária" (1839); toda organização social depende de algo que não é realizado ou viável, mas tem um ideal que está em algum lugar além do horizonte, um farol do qual ela pode procurar se aproximar se considerar esse ideal socialmente válido e geralmente aceito - Richard StahelSŤAHEL, R. In: MICHALKOVÁ, R.: Symposion: Utópie. Bratislava: RTVS. 2017.

Karl Marx e Friedrich Engels, utilizaram o termo de modo pejorativo, para desqualificar os socialistas utópicosFrederick Engels. Socialism: Utopian and Scientific..

História

Há registros as ideias utópicas já nos períodos da Grécia e de Roma antigas, que depois ressurgem, com outros formatos, como, por exemplo, entre: os hereges medievais; os camponeses rebeldes, que seguiram ideias de líderes como: Jan Hus e Thomas Müntzer; os que participaram de revoluções democráticas, inspirados de ideias de líderes como: Jean Meslier, Etienne-Gabriel Morelly, Gabriel Bonnot de Mably, Gerrard Winstanley, François Noël Babeuf e Louis Auguste Blanqui; e os socialistas utópicos, inspirados de ideias de líderes como: Conde de Saint-Simon, Charles Fourier, Robert Owen, Étienne Cabet, Lamennais, Pierre-Joseph ProudhonFilozofický slovník 1977, s. 561.

A República de Platão foi a primeira obra com autoria conhecida que descreve uma utopia. No caso, a obra descreve a implementação de um sistema político defendido por Platão, onde os cidadãos eram separados em diferentes classes socioeconômicas. Essa sociedade seria dirigida pelos cidadãos de ouro, que seriam treinados em um programa educacional rigoroso para serem oligarcas benignos, os "reis-filósofos". A sabedoria desses governantes eliminaria a pobreza e a privação por meio de recursos distribuídos de maneira justa.

Utopias na economia Ao longo do , com o surgimento do socialismo utópico, foram criadas várias comunidades utópicas baseadas na distribuição igualitária dos bens nos Estados Unidos e Europa, como Nova Harmonia e as comunidades dos seguidores de Étienne Cabet.

Utopias na Literatura A República, de Platão (circa ), é uma das primeiras concepções de uma utopia; Leis (diálogo) (), de Platão; História Sagrada (circa ), de Evêmero. Descreve a ilha paradisíaca racional de Panchaea;Pinheiro, Marilia P. Futre. (2006). Utopia and Utopias: a Study on a Literary Genre in Antiquity. In Authors, Authority and Interpreters in the Ancient Novel. Groningen: Barkhuis. (pp. 147–171). Ilhas do Sol (circa 165–), de Iambulus;<ref>Winston, David (November 1976). 'Iambulus' Islands of the Sun and Hellenistic Literary Utopias. Science Fiction Studies.</ref> Vida de Licurgo (circa ), de Plutarco; O Livro de Apocalipse () descreve uma nova Terra com Deus no poder, não mais a morte, e uma nova Jerusalém; A Primavera da Floresta de Pêssego (421), fábula de Tao Yuanming; A Cidade Virtuosa, de Al-Farabi (874–950). A história de Medina como uma cidade ideal governada por Maomé;Mahmoudi, Sana; Azizmouhamdi, Fatemeh (November 2013). "A Study of the Concept of Utopia in Hakim Sanai's The Walled Garden of Truth and Thomas More's Utopia". International Journal of Applied Linguistics & English Literature. 2 (6).Bakhsh, Alireza Omid (2013). "The Virtuous City: The Iranian and Islamic Heritage of Utopianism". Utopian Studies. 24 (1): 41–51. O Livro da Cidade de Senhoras (1404), de Cristina de Pisano. O primeiro livro europeu sobre a história das mulheres escrito por uma mulher.Quilligan, Maureen (1991). The Allegory of Female Authority: Christine de Pizan's Cité Des Dames. Cornell University Press. Descreve uma cidade utópica constituída por histórias de mulheres; Utopia (1516), por Thomas More. Descreve uma sociedade utópica onde todos os cidadãos vivem em cooperação. "E, embora ninguém possua coisa alguma, todos são ricos"; Wolfaria (1521), de Johann Eberlin von Günzburg. Uma utopia luterana que pregou castigos severos aos pecadores;Davis, J. C. (1994). "Utopianism". In Burns, J. H. The Cambridge History of Political Thought 1450-1700. Cambridge: Cambridge University Press. A Cidade Feliz (1553), de Francesco Patrizi;Grendler, Paul F. (1965). "Utopia in Renaissance Italy: Doni's "New World"". Journal of the History of Ideas. 26 (4): 479–494. Um trabalho que versa sobre o bom pedido de um bem comum (1559), de Joannes Ferrarius Montanus; Siuqila: bom demais para ser verdade (1580), de Thomas Lupton;Appelbaum, Robert (2013). "Utopia and Utopianism". In Hadfield, Andrew. The Oxford Handbook of English Prose 1500-1640. Oxford: Oxford University Press. A cidade do sol (1602), de Tommaso Campanella. Descreve uma sociedade teocrática e igualitária;Claeys, Gregory, ed. (2010). The Cambridge Companion to Utopian Literature. Cambridge University Press. O Belluzi, ou melhor, a cidade feliz (1615), de Lodovico Zuccolo; História do grande e admirável reino de Antangil (1616), atribuído a Jean de Moncy;René-Louis Doyon. (1933). Variations de l'Utopie. Cristianópolis (1619), de Johannes Valentinus Andreae; A república de Evandria (1625), de Lodovico Zuccolo; Nova Atlantis (1627), de Francis Bacon;Weinberger, J. (1976). "Science and Rule in Bacon's Utopia: An Introduction to the Reading of the New Atlantis". The American Political Science Review. 70 (3): 865–885. O homem na lua (1638), de Francis Godwin;Claeys, Gregory, ed. (2010). The Cambridge Companion to Utopian Literature. Cambridge University Press. Uma descrição do famoso reino de Macaria (1641), de Samuel Hartlib; Marcaria (1641), de Gabriel Plattes; Nova Solyma (1648), de Samuel Gott; A lei da liberdade em uma plataforma (1652), de Gerrard Winstanley. Uma visão comunista radical de um estado ideal; Gargântua e Pantagruel (por volta de 1653–1694), de François Rabelais; A comunidade de Oceana (1656), de James Harrington. Uma república utópica constitucionalista em que uma distribuição equilibrada das terras permite um governo equilibrado;