Ali Hassan Salameh (em árabe: علي حسن سلامة, ʿAlī Ḥasan Salāmah; Qula, 1 de abril de 1941 – Beirute, 22 de janeiro de 1979), amplamente conhecido pelo codinome e alcunha de "Príncipe Vermelho" (Al-Amir al-Ahmar), foi um dos principais dirigentes de segurança, inteligência e operações militares da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e do partido Fatah. Salameh foi o fundador e comandante da Força 17 — a unidade de guarda pretoriana e proteção pessoal de Yasser Arafat — e o chefe operacional da facção militante Setembro Negro.
Salameh foi apontado pelos serviços de inteligência de Israel como um dos principais arquitetos e planejadores do Massacre de Munique durante os Jogos Olímpicos de Verão de 1972, no qual onze membros da delegação olímpica israelense e um policial alemão foram assassinados. Em represália, ele se tornou um dos alvos prioritários do Mossad na campanha de assassinatos seletivos denominada Operação Cólera de Deus. Durante as perseguições em solo europeu, o serviço secreto israelense cometeu um célebre erro de identificação no Caso Lillehammer (1973), na Noruega, executando um garçom marroquino inocente após confundi-lo com Salameh.
Além da atuação armada, Salameh desempenhou um papel geopolítico singular na década de 1970 ao atuar como o canal de comunicação confidencial entre a liderança da OLP e o governo dos Estados Unidos, mantendo ligações estreitas com a Central Intelligence Agency (CIA). Casado em segundas núpcias com a celebridade libanesa Georgina Rizk (eleita Miss Universo 1971), Salameh foi assassinado em Beirute em janeiro de 1979 após a detonação de um carro-bomba acionado à distância por agentes do Mossad.
Biografia
Primeiros anos e origens familiares Ali Hassan Salameh nasceu em 1 de abril de 1941 na aldeia de Qula, situada no distrito de Ramle, durante o período do Mandato Britânico da Palestina, em uma família árabe proeminente e financeiramente abastada. Ele era filho do xeique Hasan Salama, um dos mais renomados chefes militares palestinos do período pré-estatal, comandante do Exército da Guerra Santa (Jaysh al-Jihad al-Muqaddas) durante a Guerra Civil Palestina de 1947–1948. Hasan Salama morreu em combate contra a milícia judaica Haganá em junho de 1948 nas imediações de Lida, tornando-se uma figura heroica cultuada pelo nacionalismo palestino.
Após a criação do Estado de Israel e a perda das propriedades da família na guerra de 1948, Ali Salameh cresceu no exílio entre o Egito e o Líbano. Salameh concluiu seus estudos superiores na Alemanha Ocidental e, no início da década de 1960, recebeu treinamento militar e tático de inteligência no Cairo e em Moscou, sob a égide de programas soviéticos para quadros de libertação nacional.
O "Príncipe Vermelho" e a Força 17 Dotado de forte carisma, boa instrução e prestígio decorrente de sua linhagem familiar, Salameh ascendeu rapidamente nas fileiras do Fatah, o movimento guerrilheiro fundado por Yasser Arafat. Salameh tornou-se o chefe da segurança pessoal de Arafat e criou a Força 17, uma unidade de elite inicialmente concebida para a escolta e inteligência do comando executivo da OLP, mas que gradualmente assumiu missões de contraespionagem e operações secretas no exterior.
Ao contrário do perfil austero e clandestino habitual dos combatentes palestinos (*fedayeen*), Salameh exibia abertamente um estilo de vida cosmopolita, requintado e sofisticado. Vestia-se com ternos italianos caros, dirigia automóveis esportivos velozes, frequentava boates de luxo na Europa e em Beirute, praticava esportes em clubes seletos e cercava-se de mulheres atraentes. Sua notoriedade, magnetismo entre a juventude palestina e a combinação de ativismo revolucionário com ostentação aristocrática renderam-lhe no Ocidente e no Oriente Médio o célebre apelido de **"Príncipe Vermelho"** (Al-Amir al-Ahmar).
Operações militantes e o Massacre de Munique No início da década de 1970, após os eventos do Setembro Negro na Jordânia (que resultaram na expulsão armada da OLP de território jordaniano para o Líbano), a facção clandestina Setembro Negro foi estruturada dentro do Fatah com o objetivo de realizar ações armadas e atentados de impacto internacional. Salameh foi designado chefe operacional do grupo sob a supervisão direta de Salah Khalaf (Abu Iyad).
Entre as operações coordenadas ou atribuídas a Salameh figuram tentativas de assassinatos diplomáticos, remessas de cartas-bomba a embaixadas e a facilitação do sequestro do voo Sabena 571 em maio de 1972. O episódio mais notório atribuído ao planejamento operacional de Salameh e Abu Iyad foi a invasão da Vila Olímpica durante os Jogos Olímpicos de Verão de 1972, resultando no Massacre de Munique. Na ação, extremistas palestinos capturaram atletas e treinadores israelenses como reféns; após uma tentativa desastrosa de resgate pelas forças de segurança da Alemanha Ocidental na base aérea de Fürstenfeldbruck, todos os onze reféns israelenses e um policial alemão foram assassinados.
Embora fontes palestinas tenham posteriormente alegado que o comando direto em Munique estava a cargo de outros oficiais (como Mohammed Daoud Oudeh, conhecido como Abu Daoud), Israel e seus serviços secretos consideravam Salameh o arquiteto logístico fundamental do atentado e o colocaram no topo de sua lista de alvos de eliminação sumária.
A caçada do Mossad e o Caso Lillehammer
Após o massacre de Munique, a primeira-ministra israelense Golda Meir autorizou o Mossad a deflagrar a Operação Cólera de Deus, uma ampla e secreta campanha coordenada pelo diretor do comitê de operações Michael Harari para eliminar todos os indivíduos ligados ao Setembro Negro e ao atentado de 1972.
Salameh foi intensamente rastreado em diversos países da Europa. Em julho de 1973, a inteligência israelense acreditou ter localizado o "Príncipe Vermelho" na pequena localidade de Lillehammer, no interior da Noruega. No entanto, a equipe de agentes de campo cometeu um erro de identificação trágico e grotesco: confundiram Salameh com Ahmed Bouchikhi, um garçom marroquino inocente que residia no vilarejo e era casado com uma norueguesa grávida. Em 21 de julho de 1973, Bouchikhi foi emboscado e morto a tiros na frente da esposa quando voltavam de uma sessão de cinema.
O episódio gerou um enorme escândalo internacional conhecido como o Caso Lillehammer. A polícia norueguesa rastreou e prendeu cinco agentes e colaboradores do Mossad, que foram julgados e condenados pela Justiça norueguesa. A crise diplomática desarticulou momentaneamente a rede clandestina israelense no continente europeu e forçou o governo de Israel a suspender temporariamente a operação de assassinatos seletivos, enquanto Salameh continuava em liberdade.
O canal confidencial entre a OLP e a CIA A partir de 1970, paralelamente às atividades guerrilheiras, Salameh tornou-se o principal interlocutor e agente de ligação secreta entre a liderança da OLP e a Central Intelligence Agency (CIA) dos Estados Unidos.
Salameh foi contatado e cultivado pelo oficial sênior da CIA Robert Ames, com o consentimento implícito de Yasser Arafat. Diante do início da Guerra Civil Libanesa (1975–1990) e da fragilidade da segurança institucional em Beirute, a OLP assumiu o compromisso perante o governo norte-americano de garantir a proteção armada e a integridade da Embaixada dos Estados Unidos no Líbano e de diplomatas e cidadãos americanos residentes no país. Salameh cumpriu pessoalmente esse pacto, mobilizando atiradores da Força 17 para escoltar comboios diplomáticos dos EUA e frustrar ameaças de grupos radicais rivais.
Em contrapartida, governos norte-americanos sucessivos (notadamente sob a presidência de Gerald Ford e a diplomacia de Henry Kissinger) mantiveram canais de diálogo político e troca de dados de inteligência regional com a OLP por intermédio de Salameh, apesar dos compromissos públicos firmados com Israel de que Washington jamais negociaria com a organização palestina.
A relação era tão estreita que oficiais da CIA alertaram formalmente Salameh em mais de uma ocasião sobre tentativas de assassinato organizadas pelo Mossad, chegando a fornecer-lhe equipamentos avançados de comunicação criptografada. Historiadores da inteligência militar e especialistas em Oriente Médio, como Ronen Bergman e Rashid Khalidi, apontam que o desejo de Israel de interromper esse canal privilegiado de diálogo direto entre os Estados Unidos e a OLP constituiu uma forte motivação adicional para a determinação de Tel Aviv em eliminá-lo.
Vida pessoal Salameh foi casado em primeiras núpcias com Um Hassan, neta por afinidade do Grão-Mufti de Jerusalém Amin al-Husseini, com quem teve dois filhos.
Em 1978, Salameh casou-se em segundas núpcias com a modelo e atriz libanesa Georgina Rizk, que alcançara fama mundial ao vencer o concurso Miss Universo 1971 em Miami Beach, tornando-se a primeira mulher de origem árabe a conquistar o título. O casal viajou em lua de mel para o Havaí e visitou a Disneylândia na Califórnia. O casal estabeleceu residência em um apartamento no bairro de Snoubra/Verdun, na zona oeste de Beirute. Quando Salameh foi assassinado em janeiro de 1979, Georgina estava grávida de seis meses de seu filho, que recebeu o nome de Ali Salameh.
Assassinato
Em meados de 1978, com a posse do governo do primeiro-ministro Menachem Begin em Israel, o Mossad reabriu ativamente o dossiê de Salameh com a ordem prioritária de executá-lo em Beirute, sob o codinome de **Operação Maveer** (Operação Queimador), comandada novamente por Michael Harari.
A equipe operacional infiltrou cerca de catorze agentes clandestinos no Líbano utilizando passaportes falsificados de nacionalidade britânica, canadense e de outros países ocidentais. Para monitorar a rotina detalhada da vítima: Um agente do Mossad matriculou-se na mesma academia e clube esportivo frequentado por Salameh, aproximando-se dele e tornando-se seu parceiro de treinos e musculação. Uma agente britânica utilizando a identidade fictícia de "Erika Mary Chambers", que fingia trabalhar para uma instituição de caridade em prol de crianças e órfãos palestinos, alugou um apartamento no oitavo andar de um edifício na Rue Verdun, com visão panorâmica direta para a garagem e a rua por onde transitava o comboio de Salameh.
O atentado de 22 de janeiro de 1979 Os operacionais descartaram um ataque a tiros ou um bombardeio na academia por risco de fracasso ou fuga. Em vez disso, estacionaram um veículo Volkswagen alugado carregado com cerca de 100 kg de explosivo plástico de alta potência na beira da calçada da Rue Verdun, esquina com a Rue Madame Curie.
Na tarde de 22 de janeiro de 1979, às 15h35, Salameh deixou o apartamento da esposa em um comboio de duas peruas blindadas Chevrolet acompanhado por quatro guarda-costas da Força 17, a caminho da residência de sua mãe para uma celebração familiar. No momento em que o veículo de Salameh emparelhou com o Volkswagen estacionado, a carga explosiva foi acionada por controle remoto por ondas de rádio (disparado pela própria Erika Chambers a partir de sua varanda).
A explosão abriu uma enorme cratera no asfalto, estilhaçou vidraças em um raio de centenas de metros e incendiou os veículos. Salameh foi resgatado ainda consciente dos escombros, mas com ferimentos fatais provocados por fragmentos de estilhaços e pregos alojados no crânio e pelo corpo. Transportado com urgência para o Centro Médico da Universidade Americana de Beirute, ele não resistiu e faleceu na mesa de cirurgia às 16h03.
O atentado também provocou a morte instantânea de seus quatro guarda-costas e de quatro transeuntes inocentes (incluindo uma secretária britânica e uma freira alemã), além de ferir gravemente pelo menos dezesseis pedestres que passavam pelo local. Os agentes do Mossad envolvidos evacuaram Beirute imediatamente, sendo recolhidos secretamente no litoral libanês por botes de borracha que os transportaram para uma embarcação de guerra da Marinha de Israel.
Funeral